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José Luís Peixoto

Tudo o que as máquinas não sabem

Por: 26/09/2016 - 13:12 Fotografia @
Às vezes, ouve-se mais música num gira-discos com meia dúzia de álbuns do que num computador com toda a música do mundo. O dono do gira-discos escolhe o álbum, essa decisão não é apenas um impulso; tem a oportunidade de prepará-lo debaixo da agulha, o que antecipa e valoriza. Depois de escutar a primeira faixa, […]

Às vezes, ouve-se mais música num gira-discos com meia dúzia de álbuns do que num computador com toda a música do mundo. O dono do gira-discos escolhe o álbum, essa decisão não é apenas um impulso; tem a oportunidade de prepará-lo debaixo da agulha, o que antecipa e valoriza. Depois de escutar a primeira faixa, mais conhecida, escuta a segunda, a terceira e a quarta. No fim do lado A, vira o disco para escutar o lado B. Durante o mesmo tempo, o dono do computador ouviu xis metades de canção, não teve paciência para esperar que terminassem, nenhuma era exatamente o que lhe apetecia ouvir naquele momento.

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Nestes dias, exige-se o imediato, sem se considerar as vantagens da expetativa. Deslumbrámo-nos, encandeámo-nos com o potencial infinito da oferta que nos foi feita: tudo multiplicado por todas as horas e por todos os lugares. Exemplo: toda a música na minha sala ao meio-dia, todos os filmes no meu quarto às três da manhã. Fantástica hipótese, teria eu exclamado nos anos noventa. Então, faltava-me o que sei hoje: só é pena eu e o meu tempo não sermos igualmente infinitos.

Faz falta imprimir fotografias. Agora, já não temos de poupar no rolo, tiramos cada vez mais fotografias e, no entanto, são cada vez menos importantes, ficam esquecidas na memória das máquinas.

As crianças nasceram assim, este é o mundo delas, diz alguém que repete frases que ouviu ou leu em alguma parte que já não consegue identificar. Ora são justamente as crianças que precisam de se cruzar com o álbum de fotos de família, precisam de edificar a sua identidade, entender o seu próprio nome. São justamente as crianças que precisam de música que não lhes seja sugerida por algoritmos.

Ler um jornal não é o mesmo que passar os olhos por títulos de notícias na internet. Assistir a uma longa-metragem no cinema não é o mesmo que ver vídeos no YouTube. Ler um romance não é o mesmo do que ler frases inspiradoras ou engraçadas no Facebook.

Não se pode voltar atrás. Há espaço para tudo. No entanto, o investimento tem sempre um resultado, o desinvestimento também.

(Fotografia de José Luís Peixoto)

[Publicado originalmente na edição de 25 de setembro de 2016]