OPINIÃO

LONGE DA GUERRA NUM PAÍS ONDE HÁ PAZ

Dolair Kuraby passou mais de dez anos a receber ameaças de morte em Bagdad.

Escapou à morte por pouco. Para sobreviver, este iraquiano cruzou o Mediterrâneo com a família num barco sobrelotado e esteve três meses na Grécia. Em junho chegaram a Portugal. E é aqui que querem ficar. São muçulmanos, não celebram o Natal. Mas celebram a paz, que já não tinham há muito tempo.

NO RÉS‑DO‑CHAO ESTREITO DA RUELA de Lisboa onde os Kuraby vivem desde junho não há vestígios do Natal. As paredes estão nuas, não há pinheiro nem luzes cintilantes, não cheira a rabanadas nem há presentes coloridos a tentar a curiosidade das crianças. Karar, de 8 anos, e Sajad, de 5, não escreveram cartas ao Pai Natal. No entanto, pela primeira vez na vida, neste ano receberam brinquedos nesta quadra.

Há mais de dez anos que Dolair, o pai desta família de muçulmanos xiitas, vivia sob ameaça de milícias – xiitas, por sinal – por trabalhar para uma empresa americana. Pouco importava que a companhia fosse civil. Depois de o tentarem matar e o alvejarem, passou a medir cada passo. Vivia sempre em fuga. Quando as ameaças voltaram, em 2015, percebeu que só tinha uma forma de sobreviver: desaparecer do Iraque.

Dolair Kuraby, 44 anos, é um dos 781 requerentes de asilo que Portugal recebeu desde 17 de dezembro de 2015, no âmbito do programa de recolocação criado pela União Europeia para responder à maior crise de refugiados da História no pós‑Segunda Guerra Mundial. «Em Portugal [o apoio aos refugiados] é uma questão nacional», diz o ministro adjunto, Eduardo Cabrita, em declarações à NOTÍCIAS MAGAZINE. «Há mais de uma centena de autarquias que se manifestaram disponíveis para receber pessoas. Os últimos dados diziam que havia refugiados em 77 municípios. Não houve nem vai haver campos de refugiados. É uma opção.»

Quem chega é integrado no prédio, na vila ou no bairro que o envolve e conta com a ajuda de uma instituição de apoio à integração. Dolair, Iman, Karar e Sajad estão ao cuidado das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, que integram a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR). Contam, desde a primeira hora, com a ajuda de Maria, a religiosa que os foi buscar ao aeroporto, os levou a casa e lhes tirou a única fotografia que existe no apartamento lisboeta.

Dolair é o mais novo de dez irmãos, filhos de um empresário que chegou a ter cinco gruas e uma vida desafogada. O trabalho chegava e sobrava para os seis rapazes da casa, que aprendiam cedo a manobrar as máquinas: Dolair tinha 16 anos quando começou. A bonança terminou em 1990, na primeira Guerra do Golfo: uma das gruas foi destruída num ataque a instalações do exército de Saddam Hussein, perto de Fallujah. «O meu pai nunca foi recompensado pelos danos. Com as sanções económicas sobre o Iraque, as coisas tornaram‑se mais difíceis», diz Dolair, sentado à mesa da cozinha, bebericando leite quente com café, junto a uma taça de fruta feia que a mulher traz às terças-feiras do Mercado da Ajuda.

Com o definhar dos negócios do pai, passou a trabalhar para outros. Ganhava o suficiente para trocar de automóvel de seis em seis meses. Os anos de juventude foram também de excessos: colecionava namoradas, fumava e bebia quase uma garrafa de uísque por dia, contrariando os preceitos do Corão. O pai não o proibia: pedia‑lhe apenas que o fizesse em casa para evitar sarilhos.

Mas Dolair decidiu entrar nos eixos. Em 2004 casou com Iman e passou a efetivo da KBR, uma empresa americana de construção. «Sabia que poderia ter problemas, mas o salário era alto: 3750 dólares por mês.» Como não tinha filhos, arriscou. Um dia, abriu o portão do quintal e viu um envelope no chão. «Trabalhas para os americanos, vais acabar morto», estava escrito. «Pensei que alguém queria pregar‑me um susto. Nos primeiros dias, olhava para os lados, mas como não aconteceu nada, descansei.»

Uma semana depois, saiu do trabalho às 17h00 e, como de costume, dirigiu‑se à via rápida que liga Dora ao centro de Bagdad. «Não sei porquê, olhei para o lado. Acho que foi Deus que me ajudou. Vi um Opel vermelho a poucos metros de mim. Ao lado do condutor, um homem com uma pistola apontada à minha cara e, no banco de trás, outro com uma AK47.» Travou a fundo. «Uma bala raspou‑me na testa e comecei a sangrar. Fui guinando o volante para a esquerda e para a direita para fugir aos tiros. Atingiram‑me no braço esquerdo e perto da cintura.» As cicatrizes dos ferimentos ainda são visíveis no rosto e no corpo do iraquiano.

Debaixo de fogo, atirou‑se contra o rail. «Capotei e fui parar à berma. Os tiros de AK47 continuaram. Devem ter pensado que eu estava morto e desapareceram. Saí do carro com a cabeça pesada, como se tivesse bebido duas garrafas de uísque. O primeiro estranho que se aproximou, quando percebeu que eu tinha sido atacado, fugiu. Os outros estavam relutantes. “Não há aqui um muçulmano que me ajude?!”, gritei. Um taxista ofereceu‑se para me levar ao hospital e deu‑me uma toalha para limpar o sangue.»

Nos vinte minutos que durou a viagem, viu a vida em retrospetiva. Pesou‑lhe na consciência o tempo em que bebera de mais. «No hospital Al‑Yarmouk, apareceu a Polícia e eu disse que tinha sido atacado por milícias porque trabalhava para uma empresa americana. Durante três horas, ninguém me socorreu com medo de represálias.» Desde essa época que os ataques contra a comunidade médica vêm sendo noticiados pela imprensa mundial.

«A Amnistia Internacional (AI) denunciou ao longo dos últimos anos os abusos cometidos pelas milícias xiitas, sobretudo sobre a população sunita, no Iraque. Alertámos para o facto de estes ataques escaparem impunes e expressámos as nossas preocupações junto do governo, mas vimos sempre o executivo ter uma atitude complacente, que culminou com a inclusão das milícias nas Forças de Mobilização Popular [patrocinadas pelo Estado]», diz Diana Eltahawy, investigadora da AI no Iraque. Os incidentes contra médicos e enfermeiros, que instalaram um clima de medo, levaram à debandada de muitos profissionais de saúde.

O tempo passava e Dolair continuava a sangrar. «Precisava de perceber se os ferimentos eram internos. E a única forma de descobrir era ver a cor da minha urina. Se estivesse vermelha, o mais provável é que eu não sobrevivesse.» Deitado numa maca tirou do bolso 25 mil dinares [cerca de vinte euros] e convenceu um enfermeiro a ajudá‑lo. Amarelo. Ainda tinha hipóteses. Ligou para a família da mulher e pediu que o fossem buscar. Quando a irmã e o cunhado chegaram, Dolair escondeu a ferida maior para não os assustar. Levaram‑no para um hospital privado que lhe cobrou uma fortuna apenas pela cirurgia. Um dia depois da operação, saiu da clínica e escondeu‑se em casa do irmão durante uns tempos. «Mal regressei a casa, recebi um telefonema: “Estás vivo? Da próxima não resistes.” Mudei‑me outra vez e passei a andar de um lado para o outro.» Se um vizinho comentava com ele que só o via de noite, no dia a seguir Dolair já não dormia nessa casa.

Foi assim até que o irmão lhe encontrou um apartamento num bairro de segurança máxima, junto ao quartel‑general da polícia e das residências de duas altas patentes das forças de segurança. Durante seis anos viveu naquela redoma, onde ninguém entrava nem saía sem se identificar. O sobressalto regressou quando o governo mudou e os quadros da polícia deixaram de viver perto.

Sem essa proteção, Dolair instalou‑se no bairro de Shaab. Em outubro de 2015 voltou a receber uma carta ameaçadora, que trouxe com ele para Lisboa. «Trabalhas para os americanos. Devias ser morto. Tu e a tua família. Se não pagares quarenta mil dólares, vais morrer. Deves ser castigado. Esquadrão da morte», lê e traduz a partir do árabe. «Dias depois, tentaram matar‑me à saída do mercado. Consegui esconder‑me.»

Dolair mandou um dos filhos para casa do pai, e a mulher e o filho mais velho para junto de uma sobrinha, noutra cidade. Passou a pernoitar nos dormitórios das empresas para quem a KBR trabalhava. «Um dia telefonaram para o meu telemóvel e disseram que sabiam onde estava a minha mulher. Fui buscá‑los e comecei a tratar da fuga. Os vistos demoraram 15 dias. Cada um custou mil dólares.» Objetivo: a Europa.

Conhecia os perigos da viagem, mas o Programa de Recolocação de Refugiados da União Europeia parecia‑lhe a única hipótese de reconstruir uma vida tranquila longe do Iraque. Chegou a Ancara, capital turca, a 25 de fevereiro de 2016 e dali seguiu para Esmirna, uma estância balnear onde, no inverno, os hotéis de cinco estrelas se enchiam de refugiados em vésperas de cruzar o Mediterrâneo. Pagou cem euros por cada noite que lá dormiu e 1800 por cada lugar num barco seguro (em vez dos 750 que cobravam pela travessia num bote de borracha).

A 9 de março, dois dias depois do início da Cimeira União Europeia-Turquia que ditou o encerramento das fronteiras gregas aos migrantes provenientes daquele país, e ao fim de três tentativas falhadas, Dolair e a família partiram por fim para Didim, a última praia antes da Europa. Num jogo do gato e do rato com a polícia, o autocarro encostou junto a uma escarpa e os passageiros receberam ordem para sair depressa e em silêncio. Lá em baixo, mar agitado. Nem sinal do barco, escondido atrás de um rochedo. Na descida, Dolair escorregou, caiu com os filhos ao colo e sofreu uma lesão importante na região dorsal, reativando dores antigas provocadas pelos ferimentos de balas. Ainda não está bem.

Quando viu o barco, ficou desesperado e desatou aos gritos. Era um bote com capacidade para 35. Estavam lá 60. Os traficantes mandaram‑nos calar: se a polícia os descobrisse, estava tudo acabado. Aquele era um caminho sem retorno. Durante o embarque, roubaram‑lhe os quatro coletes que comprara. Gritou de novo até que lhos devolveram. Mas acabou por se fazer ao mar sem o dele: «Dei‑o a um amigo. Estava todo encolhido, a tremer de medo. Tive pena dele.»

O caos tomou conta do barco: havia mulheres e crianças em lágrimas, por todo o lado expressões de pânico. Vinte minutos depois de zarparem de Didim, o bote fraquejou e o ambiente ficou ainda mais pesado. Todos sabiam que podiam não sair dali vivos. «A bagagem foi toda fora. O Karar ficou inconsolável porque perdeu o tablet. Prometi que lhe compraria um quando chegássemos e ele acalmou‑se. Mas foi pior do que isso: ficámos sem nada.» Restaram apenas documentos e cartas que vinham na carteira da mulher. O sufoco durou duas horas e meia. O medo só se dissipou quando chegaram à costa de Samos.

Na Grécia, houve quem escapasse ao controlo e seguisse clandestinamente para os países mais cobiçados da Europa. Dolair não. «Estava cansado de fugir.» Inscreveu‑se nos serviços oficiais, pediu asilo, falou das dores fortes que sentia, do ataque que sofrera e explicou que precisava de paz. Os problemas de saúde e a fragilidade em que chegou pouparam‑no a longos meses de tormenta que muitos outros refugiados enfrentam quando chegam à Grécia. Dolair foi para Atenas, mas os fantasmas do passado seguiram viagem com ele. Nisso não é diferente dos outros.

Depois de umas noites num hotel, aguardou notícias sobre o destino final numa casa arrendada, mas nem ali descansou. Temia que alguma máfia lhe raptasse os filhos e nunca os perdia de vista. Quando lhe pediram para preencher uma lista de oito países para onde gostaria de ir, nem se lembrou de Portugal. «É preciso ver o contexto», diz o ministro Eduardo Cabrita. «Muitas destas pessoas chegam à Grécia pagando a traficantes recursos muito significativos em troca de uma ida para a Alemanha. A certa altura ficam em campos de refugiados e percebem que não vão para a Alemanha mas para Portugal, e a única coisa que conhecem do país é, eventualmente, o Cristiano Ronaldo.»

Ronaldo era, de facto, o único nome que Dolair Kuraby associava a Portugal. «Se nos tivessem mandado para a Holanda ou para França, teria recusado por receio de que tratassem mal a minha mulher. Quando me propuseram Portugal, aceitei logo.» Passou três meses em Atenas à espera de viagem para o destino final. Ao todo, Dolair gastou vinte mil euros para fugir do Iraque.

Ao fim de seis meses, a vida vai voltando ao normal. Dolair trabalha no armazém da Nova Imagem, uma empresa de aluguer de material de cinema, onde lhe criaram um espaço para rezar à hora do almoço. Já vai falando português. Iman, formada em Gestão de Empresas e com um curso de radiologia, ainda não voltou ao trabalho: a língua continua a ser uma barreira. Às terças-feiras, vai ao Mercado da Ajuda ajudar a escolher fruta feia e de quarta a sexta tem aulas particulares com uma voluntária que se desloca lá a casa. Os miúdos adaptaram‑se à escola: Karar, no segundo ano, é mais comunicativo, Sajad, no pré-escolar, mais reservado.

«Um amigo que está na Alemanha ligou‑me e perguntou‑me se eu não queria ir, que lá havia mais dinheiro. Não me interessa o dinheiro. O que eu quero é segurança.» Estima‑se que 20 por cento dos refugiados acolhidos pelo programa de recolocação tenham abandonado Portugal. «Tentamos desdramatizar essa situação e, naturalmente, notificamos estes desaparecimentos no quadro das redes de contacto com as polícias estrangeiras», garante o ministro.

Iman e Dolair ainda caminham por Lisboa como turistas. Ao fim de semana levam os miúdos a andar de baloiço perto do Parque Eduardo VII ou vão a pé até à Praça do Comércio, ver o Tejo. No Rossio, Karar e Sajad saltam para o colo do Pai Natal e pedem brinquedos e guloseimas pelo caminho. A mãe encanta‑se com os homens‑estátua e com o músico que interpreta com um serrote o tema de Um Violino no Telhado. «Aqui todos a tratam bem, mesmo com o véu. Sorriem‑lhe no metro e na praia houve uma senhora que a abraçou. Disse que estava contente por estarmos aqui.» Dolair Kuraby tem menos dinheiro do que já teve e o orçamento ainda é curto para comprar carne halal (tratada de acordo com os preceitos do Corão) com a frequência que gostaria, mas Lisboa devolveu‑lhe algo que não se paga: uma vida sem terror.

Como os Kuraby fugiram para Portugal

BAGDAD‑ANCARA
Apanharam um avião a 25 de fevereiro com destino a Ancara, na Turquia.

ANCARA‑ESMIRNA
Partiram para Esmirna, na costa oeste da Turquia, para descobrirem a melhor forma de cruzarem o Mediterrâneo com destino à Europa.

ESMIRNA‑DIDIM
Guiados por traficantes, saíram para Didim, o porto de onde deveriam fazer‑se ao mar para chegar à Grécia

DIDIM‑ILHA DE SAMOS (GRÉCIA)
Fizeram a travessia num barco sobrelotado. A bagagem teve de ser lançada ao mar.

SAMOS‑ATENAS
Na capital grega, aguardaram informações sobre o país que os acolheria.

ATENAS‑LISBOA
Chegaram a Portugal no fim de junho. Vivem no centro de Lisboa. Ao todo, Dolair gastou vinte mil euros para fugir do Iraque.

Rita Garcia
Fotografia: António Pedro Santos/Global Imagens