Paulo de Carvalho e Agir

Paulo de Carvalho e Agir

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O passado, o presente e o futuro da música portuguesa passa por Paulo de Carvalho e Agir. Pai e filho, à conversa.

O pai, Paulo de Carvalho, celebra 54 anos de carreira. O filho, Agir, ou Bernardo Costa, é hoje ídolo da juventude, e vai fazer a direção artística do concerto Intemporal (12 de abril no Tivoli, Lisboa), em que o pai vai interpretar os seus êxitos de sempre, como E Depois do Adeus, Nini dos meus 15 anos, Meninos do Huambo ou Lisboa Menina e Moça, que escreveu para Carlos do Carmo. A outra filha, a cantora de jazz Mafalda Sachetti também estará em palco para uma celebração ainda mais familiar.

 

Paulo de Carvalho com os filhos Bernardo Costa e Mafalda Sachetti, há uns bons anos

Paulo de Carvalho com os filhos Bernardo Costa e Mafalda Sachetti, há uns bons anos

Eles desistiram da escola aos 15 anos. O pai porque a época era outra e era preciso contribuir para a economia da casa e o filho porque a paixão pela música falou mais alto do que os estudos. São, como gosta de frisar o cantor cuja voz foi senha para a revolução de Abril, «trabalhadores da música». Ícones das gerações às quais pertencem (Paulo de Carvalho tem 68 anos e o filho, Bernardo, 28) trabalharam juntos pela primeira vez há 11 anos. O Meu Mundo Inteiro, composto por Agir e cantado por Paulo, foi banda sonora de uma novela da TVI. E, a partir daí, a colaboração familiar não mais cessou. O pai, que dispensa apresentações, tem quase três dezenas de álbuns editados. O filho tem uma legião de fãs adolescentes que enchem centros comerciais, concertos e festivais por todo o país para ver o seu ídolo. Parte-Me o Pescoço, um dos singles do álbum Leva-Me a Sério, tem sete milhões de visualizações no YouTube. O legado está assegurado.

Como tem sido trabalharem juntos?
Bernardo Costa (B.C.) – Horrível [risos]!
Paulo de Carvalho (P.C.) – Passamos os dias à pancada um ao outro…
B.C. – Mas é uma pancada bastante saudável!
P.C. – Nós somos trabalhadores da música. Adoramos o que fazemos. Somos de gerações diferentes, mas estamos em sintonia no essencial: fazer chegar ao público que gosta de mim ou de nós as ideias musicais que temos. E não só. A conceção desta vida, para que é que serve, como é que se faz, que respeito temos pelas pessoas que fizeram que chegássemos aqui.

Perguntam-me bastante se sinto influências do meu pai. A nível musical, temos estilos diferentes. No que me sinto bastante influenciado é na maneira de estar na profissão. O meu pai é uma pessoa muito terra-a-terra, nada dada a vedetismos», Agir

Numa entrevista, o Bernardo dizia que tem uma maneira de encarar a profissão parecida com a do seu pai.
B.C. – Perguntam-me bastante se sinto influências do meu pai. A nível musical, temos estilos diferentes. No que me sinto bastante influenciado é na maneira de estar na profissão. O meu pai é uma pessoa muito terra-a-terra, nada dada a vedetismos. Não conheço um único músico que toque na banda que não vá lá a casa jantar, que não seja amigo, que não partilhe a mesma carrinha. E é esta maneira de estar, de respeito e de amizade, de estarmos todos ao mesmo nível, que eu guardo.

Esta forma de estar, é um dos segredos da longevidade da sua carreira? Além do
talento, claro.
P.C. – Francamente, não sei responder a isso. Talento, sim. Vamos deixar-nos de falsas modéstias. Ninguém me aturava ao fim deste tempo todo se não tivesse talento. Agora, no resto, não sei. Nunca fiz de propósito. Chego ao fim deste tempo todo e nunca fiz contas: «Porque é que durou tanto tempo, porque é que foi tão bom tudo isto?» Os meus momentos bons são muito melhores do que os menos bons. Não há maus, francamente. Tem sido uma vida profissional sensacional, cheia de contactos com gente muito boa da música, com público maravilhoso.

Quando é que percebeu que o Bernardo também ia fazer carreira na música?
P.C. – Por volta dos 11, 12 anos dele percebi que o interesse poderia dar para ir por aí fora, como tem vindo a acontecer.

Teve dúvidas?
B.C. – Não. Neste campo, sempre tive muitas certezas de que seria por aqui. Se era mais para a esquerda, mais para a direita… sempre quis fazer música, até confesso que deixei algumas coisas para trás porque sabia que era isto que queria fazer. Não me arrependo de maneira nenhuma.

Eu continuo a fazer o que sempre fiz, ele também faz, que é ir a escolas falar sobre a minha profissão. E apanho miudagem de 15, 16 anos. Quando vejo que a atenção não é muita, a primeira coisa que eu digo é “eu sou o pai do Agir”. E pronto, o público está ganho [risos]», Paulo de Carvalho

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Acontece-lhe ser apelidado de «o pai do Agir»?

P.C. – Cada vez mais! Isso é bom, é bonito! Eu continuo a fazer o que sempre fiz, ele também faz, que é ir a escolas falar sobre a minha profissão. E apanho miudagem de 15, 16 anos. Quando vejo que a atenção não é muita, a primeira coisa que eu digo é «eu sou o pai do Agir». E pronto, o público está ganho [risos]! E explico as coisas boas e menos boas desta profissão, que é complicada, mas as pessoas acham que não. Só nos veem ou em cima de um palco ou na televisão a cantar ou na capa de uma revista e pensam que isto é tudo felicidade.

Ontem [9 de março], cantou no concerto de tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa. Esta iniciativa deixou-o feliz?
P.C. – Senti-me bastante feliz. Se bem me lembro, houve um único presidente com preocupações imediatas em termos culturais, o Dr. Jorge Sampaio. A partir daqui, quero acreditar, tenho necessidade de acreditar, enquanto português, que este nosso Presidente vai manter esta forma de estar e preocupar-se com questões culturais.

Acham que, pese o facto de ainda estarmos numa fase económica difícil, vivemos um momento de redenção política?
B.C. – Os olhos estão postos no que vem a seguir. É muito fácil apontarmos o dedo às pessoas que têm muita casa para arrumar. Não temos noção, se calhar temos memória muito curta, mas demorámos muitos anos a desarrumar a casa. Não há de ser em quatro nem em oito anos que isto se arruma. Há coisas que nos são um bocado alheias, mas os principais responsáveis somos sempre nós. Mais que não seja porque foi o nosso voto que os pôs lá. Temos sempre a obrigação e o dever de olhar para nós próprios antes de apontar seja o que for.

O Paulo sofreu com a crítica ao longo da sua carreira?
P.C. – A partir do momento em que temos uma atividade pública temos de nos sujeitar àquilo que as pessoas dizem. Não há ninguém que não goste de pensar que pode ter os seus 15 minutos de fama à custa de outros, mais ou menos figuras públicas. Já levei muita pancada, mas, até aí, o resumo é positivo.
B.C. – Eu costumo sempre dizer: quem sabe fazer, faz. Quem não sabe, comenta.
P.C. – Isso foi mais ou menos o que eu disse em 1982 [gargalhada]!

Sofre com críticas que são feitas ao seu filho?
P.C. – Depende do tipo de crítica! Se é deitar abaixo por deitar abaixo, claro que não gosto. Mas nós já estamos tão habituados a isso, a todos os níveis! E não é só comigo ou
com ele. Às vezes, vejo coisas tão injustas sobre companheiros de profissão… acho que é passar, andar e fazer. É preciso continuar a fazer, ter essa capacidade de responder fazendo. No nosso caso, é com a música.

O Bernardo tem a Team Got It [nome pelo qual o músico designa o seu coletivo de fãs]. Quem era a sua Team Got it, Paulo? Tinha fãs malucas?
P.C. – Houve um senhor muito importante que disse que a história não se repete. A mim também me gamaram cabelo… as coisas vão-se repetido, o que é engraçado verificar.

Haverá sempre adolescentes!
P.C. – Sim, haverá sempre! Lembro-me de um espectáculo na Feira Popular do Porto em que houve feridos, só porque nós lá fomos tocar. No tempo do Sheiks havia aquela coisa «vamos imitar os ingleses e os americanos». Então, tau! Vamos embora!

E com o Bernardo, já houve cabelos arrancados?
B.C. – Não gosto muito da palavra fã. É um bocado pejorativa. Daí este Team Got it. Eu digo várias vezes nas músicas «got it?», e foi mais a necessidade de não lhes querer chamar fãs. Cria um distanciamento e eu não gosto disso. Agora, que há pessoas que ficam um bocado mais fanáticas… Tenho uma história engraçada, nem sei se o pai sabe. No festival Sol da Caparica, tive de sair na carrinha de backline do Tiago Bettencourt porque as miúdas estavam à espera que eu saísse por uma porta e lá vou eu, no meio das baterias e das coisas, com elas lá fora a bater na carrinha, a abanar [risos]! É sempre engraçado.

Como é o Paulo de Carvalho avô?
P.C. – Tenho um com 16 anos e outra que vai fazer 3. Eles não vivem comigo! Acho que sou um fulano perfeitamente normal, não estando muito presente. Ou quase nada presente. Quando estamos, estamos todos juntos. Não há assim momentos especiais com os netos. Eles estão com os tios, como estão com o avô. Como avô sou um gajo normalíssimo, para o mau [risos]!

Tem filhos com idades muito diferentes [Paulo de Carvalho tem cinco filhos. O mais velho, Nuno, com 47 anos, e a mais nova, Flor, com 6]. O papel que teve na construção da sua família traz-lhe orgulho?
P.C. – O papel foi ocasional. Deve-se ao amor que existe entre as pessoas, resultou nisso. Orgulho nos filhos, tenho! Em todos! É gente muito bem formada na sua base e essa é a parte que me interessa mais. E cada um anda à procura – e tem conseguido encontrar – de uma finalidade na vida. É a grande finalidade disto tudo. Aí, sim, sou uma pessoa orgulhosa.

Tem sido um pai necessariamente diferente para os seus filhos?
P.C. – Não, não creio. Bom ou mau, não creio que tenha sido diferente. Houve momentos em que não estive presente para uns, estive presente para outros. Essa é uma pergunta tramada de se fazer porque eu próprio não sei. Eu tento ser coerente. Sou como sou no dia-a-dia, não me sinto diferente de uns para os outros.

Não consigo fazer nada que não me dê prazer. E houve uma data de coisas que, durante um tempo, me davam bastante prazer e que, por muito estranho que possa parecer, não me dão agora. Não sou nada de seguir um movimento, uma filosofia, mas acontece mesmo que não bebo café, não bebo álcool, não me drogo… nada», Agir

Paulo de Carvalho e Agir

Numa entrevista recente ao Jornal de Notícias, disse: «Há pessoas que bebem, há pessoas que fumam, eu faço tatuagens.» Sei que não bebe álcool e não fuma. É uma filosofia de vida?
B.C. – Não consigo fazer nada que não me dê prazer. E houve uma data de coisas que, durante um tempo, me davam bastante prazer e que, por muito estranho que possa parecer, não me dão agora. Não sou nada de seguir um movimento, uma filosofia, mas acontece mesmo que não bebo café, não bebo álcool, não me drogo… nada. Não gosto do sabor do álcool, não gosto do sabor do tabaco, já não gosto do sabor das outras coisas todas. Durante um tempo, foi, até para mim, um bocado estranho: como é que tive uma fase – ainda foram para aí oito aninhos – de [pausa] «coiso» e agora já tenho outros oito sem nada? E não foi sequer um processo difícil. De um dia para o outro, deixou de me dar gozo.

«Com 15 anos apanhei aquela bebedeira em que enjoei álcool. Em compensação, continuava a dar cabo do fígado, bebendo litros de sumo de laranja [risos]! Depois, parei de fumar. Sei exatamente em que dia foi, foi no dia em que este senhor nasceu.», Paulo de Carvalho

O Paulo nunca bebeu, deixou de fumar…
P.C. – Com 15 anos apanhei aquela bebedeira em que enjoei álcool. Em compensação, continuava a dar cabo do fígado, bebendo litros de sumo de laranja [risos]! Depois, parei de fumar. Sei exatamente em que dia foi, foi no dia em que este senhor nasceu. E, uns aninhos depois, comecei a experimentar tintos. Neste momento, bebo vinho à refeição e ainda há bocado estava com um balão de malte na mão, que é o único whisky de que gosto. Mas não bebo diariamente.

As drogas nunca foram…
P.C. – Passaram-me ao lado.

E à frente, calculo.
P.C. – Penso que sim. Havia o cigarrinho de haxixe que passava por todos, antes de irmos tocar e, quando chegava a mim, eu dizia «eu não». Havia quem olhasse desconfiado porque me conhecia mal, mas um dos músicos, com quem eu me dava, dizia uma coisa muito engraçada: «Pá, esse gajo não precisa porque caiu no caldeirão quando era pequeno!» [risos]. Era uma forma de defender aquela desconfiança que pode haver no grupo. Mas passaram-me ao lado. Eu era mais bateria, música e futebol. Essas eram as minhas drogas.

Agradecimentos: Rio Maravilha, Lx Factory, Lisboa