OPINIÃO

Mário Augusto: «O cinema ensinou-me tudo»

Comunicador nato, contador de histórias, Mário Augusto fala sobre os seus projetos para o futuro e da filha, Rita.

Trinta anos de carreira dedicada ao cinema, mas que não se esgota nele. Na RTP, casa onde desenvolveu novos projetos, sai cada vez mais do grande ecrã. Histórias de um comunicador que vai aproveitar um intervalo no cinema para dar Volta a Portugal em Bicicleta. O sorriso genuíno não muda. A filha, Rita, tem a quem sair, otimista.

 

Quando saíste da SIC, além de teres chegado à RTP com o projeto da Academia, agora estás também como subdiretor da RTP3. O poder não te atrai?
Aposto que nem sabias. Poucos sabem. Não sou de andar de bandeira e galões. Não ligo nada ao poder.

Achas que a RTP cumpre o serviço público?
Em menos de uma década tudo tem vindo a alterar-se de forma surpreendente. Sinto que, do ponto de vista dos conteúdos, a mudança não acompanha o ritmo da evolução tecnológica e isso está a levar as televisões, especialmente as generalistas, a um beco sem saída. É a crise, a dimensão do país e um certo nervosismo nas decisões. Arrisca-se pouco – sinto, em alguns casos, uma grande falta de ideias – e isso tem levado a uma certa cristalização de formatos. As grelhas estão desinteressantes, repetitivas e amorfas. Programar hoje é difícil.

Porquê?
Acontece uma coisa que há uns anos não era possível: agora, cada um pode fazer a sua programação porque a diversidade de canais temáticos no cabo é tão grande que basta uma box e vontade para cada um fazer o seu canal alinhando os programas que quer e como quer. Isso deveria dar que pensar aos grandes estrategas. Quando comecei, havia dois canais, hoje temos a oferta de centenas no cabo.

Estás a dizer que o formato da televisão generalista está gasto?
Diria que está a ficar como o pão ressesso, ainda se come mas começa a ficar duro de engolir. Se olhares para uma grelha, vemos que uma fatia grande do orçamento vai para grandes formatos de multinacionais e muito efémeros. Penso que deveria apostar-se mais no desenvolvimento de formatos e conteúdos pensados e dinamizados por portugueses. Há tanta gente com boas ideias e boa formação por aí… Televisão não pode ser só novelas, espetáculos de música pimba e programas de day time a promover a desgraça alheia. Há pouco espaço para coisas diferenciadoras e que se aproximem das pessoas de uma maneira mais interessante. A RTP deve ter um papel diferenciador. Acho que tem, mas há ainda muito mais a fazer, na criação de novos públicos. É aí que o serviço público pode ganhar a médio e longo prazo, garantindo a sua qualidade e permanência.

É um caminho difícil de percorrer?
Criticar é mais fácil. Mas, por exemplo, é na RTP3 que passam os formatos de divulgação científica do que de melhor se faz em Portugal. Temos uma série sobre biodiversidade que envolveu cientistas portugueses em todo o mundo. É a RTP que vai passar essa série. Também é na RTP que passam os grandes conteúdos sobre as letras portuguesas e os nossos escritores. É claro que a audiência não é o que se desejaria, mas é longo o trabalho e quem o faz não pode desanimar.

Neste arraial de novos projetos, em breve lanças um livro que não será de cinema.
Será uma surpresa engraçada para muitos. A Sebenta do Tempo chega depois do verão. São as memórias de uma geração. Espero ainda este ano realizar um filme que ando a adiar há anos, uma média-metragem que escrevi. Chama-se A Passagem e tenho agora a grande empreitada da nova edição da Academia RTP.

Mas há muita gente que não percebe bem o que é isso do projeto Academia RTP.
É um conceito que ajudei a desenvolver há seis anos na RTP. Será feita a quarta edição a partir de setembro e vamos ajudar a formar e dar mais competências na área da escrita criativa, argumento e produção a cerca de 25 jovens que queiram entrar neste laboratório. Até agora já passaram pela Academia RTP vinte e cinco jovens em formação e pelo menos 10 a 12 por cento estão a trabalhar no meio, alguns até nos canais de televisão ou em produtoras que trabalham para as televisões. É essencial que a RTP tenha também esse papel de dinamizadora de oportunidades para jovens com ideias. O primeiro projeto Academia, de que fui um dos criadores, foi completamente inovador.

Senti que também foste autêntico e que não criaste uma personagem quando a doença da tua filha Rita se tornou mediática.
Nunca fiz nada para ter aquela imagem de «ouçam lá, eu tenho uma filha assim». Tudo o que fiz pela Rita foi por ela. A «brincadeira» de expor a Rita começou pelos livros ao ser convidado, há 11 anos, para escrever o livro dos bastidores do cinema e decidir que as receitas do mesmo revertessem para ajudar crianças com paralisia cerebral, que é o problema da minha filha. Quis desmistificar e ao utilizar, por bem, o meu lado mediático ajudei outros a não ter medo de enfrentar o problema. A verdade é que há um antes e um depois dessa atitude na paralisia cerebral em Portugal. Quando assumi isso com a Rita, ela era muito pequena, tinha cinco anos, e passou a ser uma figura pública da paralisia cerebral e acabou por ajudar outros. Entretanto, fez um livro e tem esta atitude muito positiva.

E ficas espantado com o sucesso da página dela no Facebook, Aos Olhos da Rita?
Fico! Mas tudo começou por acaso, estava eu a dar um passeio com ela e pedi-lhe um texto para colocar no meu Facebook. E a verdade é que o texto que escreveu foi tão genuíno e simples que me espantou a mim. Depois disso, decidimos fazer uma página e fiquei um pouco o agente dela! E a página entretanto explodiu… Ela tem uma notoriedade incrível e mais de 26 mil seguidores. As crónicas da Rita foram reunidas no livro Aos Olhos da Rita e foi um sucesso enorme, vendeu muitos milhares, mais do qualquer outro autor… é espantoso!

Parece até que transformaste um drama numa outra coisa com final feliz…
Ficou uma comédia romântica, mas ainda sem final feliz. O argumento está a ser escrito todos dias. Ainda no outro dia fui dar uma palestra motivacional com o tema do cinema e, a dada altura, enquanto falava resolvi ler um texto da Rita que era sobre determinação e vontade. A Rita estava na sala, acompanhou-me a esta palestra, e foi então que a chamei ao microfone dizendo que estava ali a autora. Falou durante meia hora e pôs toda a gente emocionada! E fez isso a rir… «o que é que eu hei de fazer!?», dizia… Enfim, esse trabalho de casa está feito, agora se ela vai vingar… Neste momento tem 16 anos e eu acredito que sim mas quando me perguntam se preferia ter uma filha sem problemas, claro que respondo que sim. A verdade é que ao tê-la fiquei completamente diferente. Eu e a mãe dela ficámos outras pessoas.

Parece aquela frase do Jack Nicholson em Melhor É Impossível à Helen Hunt: tu fizeste-me uma pessoa melhor…
Exato! O cinema ensinou-me tudo.

 


Leia também a primeira parte desta entrevista a Mário Augusto.


 

Rui Pedro Tendinha
Fotografia Adelino Meireles/Global Imagens