Doidos por e-compras

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Estamos adeptos de fazer compras sem sair do sofá.

Somos cada vez mais tecnológicos e ocupados. Mais cientes de que o mundo é um enorme mercado global, com a internet a oferecer comodidade de entrega em casa a preços mais baratos. E compensa, na maior parte dos casos. Mas muitos ainda preferem ver montras de verdade.

Alexandra Bravo procurava desesperada­mente umas socas. As que vira em Barce­lona nas férias de verão de 2014, com sola de madeira clara, lindas de morrer, entra­ram-lhe pelos olhos ao segundo dia e nun­ca mais parou de pensar nelas. «Corri tu­do à procura de umas iguais às que a rapa­riga no metro levava nos pés, brancas com joaninhas. Lembravam-me um par que a minha avó me deu em miúda e queria umas para mim», recorda. A barcelonesa apeou-se na estação seguinte e Alexandra ficou a sonhar com as socas. Tinha de encontrá-las, era imperativo. «Tornou-se uma obsessão de tal ordem que nos ia dando cabo do sossego, a mim e ao meu namorado.» No final da semana, voltou derrotada a Lisboa. Imaginava os tamancos perdidos para si quando descobriu uma imagem online que a remeteu para o site da marca. «Comprei aquelas socas na hora. Mais tarde, fui aproveitando promoções para adquirir várias outras.»

A internet tem a facilidade de oferecer várias lojas, vários produtos e várias opções a um clique de distância, justifica Susana Fernandes, client manager da consultora Kantar Worldpanel, especialista mundial no comportamento do consumidor.

Acima de tudo, os portugueses procuram cada vez mais as vertentes da comodidade e conveniência, e encontram-nas no canal online.

«A informação que podemos receber por e-mail ou nas redes sociais é também maior e, de facto, valorizada pelos consumidores. Segundo um estudo da Kantar sobre atitudes e estilos de vida feito à nossa amostra (cinco mil indivíduos a partir dos 15 anos), 51 por cento dos compradores de vestuário admitem gostar de receber alertas na internet sobre descontos das suas lojas favoritas.»

Não é que a nossa oferta tradicional não seja boa, ressalva Alexandre Nilo Fonseca, presidente da Associação do Comércio Eletrónico e Publicidade Interativa (ACEPI). Na verdade, é até melhor do que nos EUA ou no Brasil, onde deixa de haver comércio de rua mal se começa a sair das grandes cidades. «Acontece que as pessoas encontram no e-commerce a comodidade da entrega em casa, preços mais baratos e uma vasta oferta fora do país.» Tudo bons motivos para Portugal ter crescido acima da média europeia no ano passado – 15,7 por cento, contra 13,3 nos restantes países da Europa –, com 35 por cento dos portugueses acima dos 15 anos a fazer compras online (qualquer coisa como 3,5 milhões de pessoas entre os 6,1 milhões que usam a internet). Contas feitas, o volume de negócios traduziu-se em 3,3 mil milhões de euros e prevê-se, para 2016, que as vendas online excedam os 510 mil milhões de euros na Europa.

«Estamos num universo digital e os portugueses têm comprado cada vez mais online», sublinha Marta Panera, diretora de comunicação externa do Showroomprive. Não existe loja física associada a este site especializado no setor da moda e vendas privadas na internet, um dos principais atores do e-commerce na Europa, presente em Portugal desde 2012. Por essa razão, Marta não sabe dizer se os clientes comprariam mais numa ou noutra plataforma, ou em qual das duas controlariam melhor o seu dinheiro.

«Quando uma pessoa entra pela primeira vez no Showroomprive e tem uma compra satisfatória, repete várias vezes no mesmo ano.» A partir dessa fidelidade, diz, há, depois, de tudo um pouco.

«Temos clientes já a fazer as suas compras de Natal no nosso site, sem impulsos de momento, e outros muito mais compulsivos, que compram no carro enquanto esperam os filhos à saída da escola.»

Isabel Vieira assume ser impulsiva na internet de vez em quando, embora menos do que lhe sucede nas lojas físicas. «Dou por mim a comparar um artigo em vários sites antes de decidir, sempre à espera de um desconto maior, ao passo que ao vivo é entrar, ver e trazer.» É-lhe muito difícil, porém, resistir ao calçado de criança da Pisamonas, uma sapataria com sede física em Madrid a que os portugueses só têm acesso via online. «Aí perco-me», adianta a utilizadora, segura do pagamento e da entrega (o serviço é eficiente). «Farto-me de comprar sapatos para a minha filha sem pensar duas vezes, porque são os únicos que sei que lhe servem no peito do pé.» E compensa? «Muito, apesar de gastar mais dinheiro na altura por comprar logo dois ou três pares. A qualidade/preço é ótima, os envios e as trocas sempre grátis. E o melhor é que alguns modelos dão para adultos, pelo que os meus também vêm de lá.»

Susana Fernandes confirma que apesar de a loja física continuar a ser o principal canal de venda – dados da Kantar mostram que seis em cada dez indivíduos a pesquisar online acabam por não comprar no site –, «gastamos em média mais seis por cento em cada visita quando compramos online do que comprando offline», sendo esta também uma tendência em produtos de alimentação, higiene e beleza. A client manager sustenta ainda que face aos produtos de grande consumo (alimentação, bebidas, limpeza do lar, higiene pessoal), a compra na internet é mais planeada do que nas lojas físicas. Mas essa diferença é menos percetível em artigos de vestuário, dado os portugueses comprarem cada vez mais artigos online. «No último ano, ambos os canais estão em linha com uma média de três artigos por dia.»

Uma das vantagens das compras online é o facto de permitirem controlar o impulso de «entrar, ver e comprar» nas lojas físicas.

Ao fim de muito dinheiro gasto, acrescido do equivalente em frustração por ter que se sujeitar ao que encontrava, foi também na internet que Ana Silva comprou os materiais de dança oriental perfeitos para um espetáculo com as amigas. «Precisávamos de cintos de medalhinhas de cores diferentes, calças de Aladino, sutiãs, bastões, leques, véus, e era tudo caríssimo nas lojas da especialidade», conta. Ainda tentaram no Martim Moniz, conseguiram alguns acessórios que serviam o propósito, mas não o essencial da lista.

«Às tantas estava tão farta que me lembrei de ir espreitar no eBay. Foi remédio santo! Não só mandei vir todos os artigos, como encomendei sapatilhas a um terço do preço e bandoletes de brilhantes a condizer para cada uma de nós.» A maioria das coisas vem da China, chega a esperar três semanas, mas até hoje recebeu-as em condições. «Se não for esse o caso, posso reclamar e sou reembolsada», explica.

Marta Panera considera não ser por acaso que muitas lojas físicas já têm as suas próprias páginas web. «Estamos numa era digital, os utilizadores manifestam um comportamento tecnológico. Procuram sobretudo facilidade na hora da compra, acesso rápido a grandes marcas e poderem fazê-lo a partir de qualquer dispositivo, seja telemóvel, tablet ou computador», aponta. Relativamente às incertezas de se comprar online, tendem a decrescer na proporção inversa à do aumento de confiança no processo. «Ainda é precoce afirmar que já estão a ser ultrapassadas, mas de um modo global vemos os grandes players da distribuição a tentar encontrar novas formas de minimizar estas barreiras», acrescenta Susana.

Um exemplo é a utilização cada vez maior das páginas do Facebook para fazer crescer negócios e internacionalizar a oferta, segundo a ACEPI, convencida de que as empresas portuguesas precisam de fazer uma transformação digital nos próximos cinco anos. Outro, de acordo com a Kantar, passa por agilizar as transações, e vemos isso em pagamentos de smartphones (mais usados do que os computadores nas compras online no primeiro trimestre deste ano) e em aplicativos como o Alipay, o Apple Pay ou o Meo Wallet. Quanto mais opções houver disponíveis, mais as visitas a sites de e-commerce se convertem em vendas. E Portugal tem a seu favor o facto de ter a quinta língua mais falada no mundo, muita gente formada em Engenharia Informática e o mercado europeu a movimentar perto de 500 mil milhões de euros em comércio eletrónico.

«Ainda assim, a loja física continua a ter muito poder nesta balança», diz Raquel Guimarães, diretora executiva da Fashion School, no Porto. Sim, a web é o principal ventilador de conceitos: «Tem uma função difusora muito forte, especialmente na criação de um lifestyle a que queremos ir beber para estarmos in.» E, sim, faz parte de quase todos os minutos do seu dia, como uma extensão do eu pessoal e do eu profissional: enquanto especialista em imagem, quando procura tendências recorre aos media sociais. «Mas o online não substitui o ato de nos passearmos por entre a roupa», diz. De ver o styling que se faz com as peças, os objetos de desejo nas montras. «Ir às lojas é parte do ritual de fim de semana. Está enraizado nos momentos de lazer, sobretudo nos de uma mulher.» Se se puder ter o melhor de dois mundos, tanto melhor.

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