Atividades extracurriculares ideais para as crianças

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O exercício é importante para a aprendizagem dos mais novos.

No início de cada ano escolar surge sempre a questão: quais as outras atividades, além dos TPC, dentro ou fora da escola, que as crianças deve fazer?

Nos países mais setentrionais, a prática de desporto nem sequer é questionada, já que faz parte integrante, como a música, do quotidiano de crianças e adolescentes. Por cá existem pouco essas tradições. É sabido que o exercício físico faz bem, os médicos não deixam de o valorizar em todas as idades, e muitos artigos recentes sublinham até o efeito protetor da memória e da cognição em adultos e seniores que praticam regularmente exercício aeróbico (marcha).

Uma atenção crescente é prestada ao problema do comportamento sedentário e do risco de obesidade infantil, com o seu cortejo mórbido de consequências a nível geral e metabólico (risco vascular, diabetes, hipertensão, dislipidemia, entre outros). É o outro lado do uso diário, claramente excessivo em Portugal (até comparado com outros países do Sul europeu), de televisão, tablets, computadores ou telemóveis, desde a mais tenra idade e em todas as salas da casa.

Com esta oferta constante de ecrãs, quem precisa de se mexer? E se tanto tempo útil para os TPC é «perdido» nesta atividade, que necessidade existe de ir ainda duas ou três vezes por semana praticar desporto, já que não há tempo para nada, entre explicações, apoios e deslocações? A questão tornou-se mais importante do que parece, uma vez que o benefício da prática regular de desporto e atividade motora está mais que comprovado em todos os estudos realizados no plano da saúde física, e também na sua eficácia a nível mental. O efeito cognitivo do exercício, medido em provas muito bem controladas e em diferentes tarefas psicométricas, é muito claro a este respeito. A questão já não é de saber se «faz bem à saúde», é mesmo quanto bem faz ao cérebro e à aprendizagem. Não é por acaso que em alguns colleges ingleses (portanto para idades universitárias) o desporto é praticado três vezes… por dia!

Se isto é válido, como bem demonstrado, para gente jovem e sem problemas, é muito mais importante ainda para quatro grupos de situações que parecem representar um problema crescente na população escolar: os défices de socialização (e, no limite, todo o espetro de autismo e de síndroma de Asperger), os quadros depressivos arrastados, as alterações de comportamento e as agressões, e a perturbação de défice de atenção, com ou sem hiperatividade. Nestes grupos, por motivos eventualmente diferentes, a atividade física apresenta um efeito terapêutico bem documentado.


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No caso das dificuldades de relacionamento com os colegas e nos défices de socialização, a prática de jogo ou desporto com os pares permite um enquadramento monitorizado que o intervalo ou o recreio não dão; no caso da depressão, tão endémica e subdiagnosticada na adolescência e na entrada na idade adulta, a atividade física oferece um efeito antidepressivo que parece apresentar benefícios mais rapidamente do que aquele que é suposto ser procurado pelos novos antidepressivos. Também no caso do comportamento agressivo ou impulsivo, incluindo a população com perturbação autística, a atividade física regular conduz a uma melhoria sensível no quotidiano; e no défice de atenção e hiperatividade, o desporto vigoroso pode representar um efeito coadjuvante e sinérgico em relação a todas as outras medidas (até farmacológicas, que em idade mais jovem podem mesmo ser substituídas com vantagem). No fundo são atividades que aumentam as catecolaminas a nível do sistema nervoso central – o efeito pretendido com o café e os medicamentos estimulantes.

Fazer desporto com regularidade e em grupo também contribui para o bem-estar, presumivelmente pelo aumento das endorfinas. Não é tempo perdido, mas sim um organizador do dia-a-dia. É tempo ganho na aprendizagem, no bem-estar, na motivação para outras tarefas, no relacionamento real, não virtual, com os outros.

*Parceria NM/CADin – Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil. Pedro Cabral é neurologista pediátrico e diretor clínico do CADin.

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