OPINIÃO

Recriar histórias de vida

Afinal, este país é para velhos ou não?

Se por um lado vivemos cada vez até mais tarde – no final do ano passado havia mais de quatro mil pessoas acima dos 100 anos em Portugal –, então porque não o fazemos com a dignidade devida? Porque há tantos idosos a viver isolados, sem apoio familiar ou vítimas de maus-tratos? A pensar nestas e noutras situações de risco, duas associações foram recentemente distinguidas com o Prémio BPI Seniores por projetos de inclusão social e envelhecimento ativo.

RETRATO DE UM PAÍS ENVELHECIDO
Em 2014, o índice de envelhecimento em Portugal atingiu os 141 idosos por cada 100 jovens. (FONTE: INE)

Nascem cada vez menos crianças em Portugal. E vive-se cada vez mais tempo. Em 2014, o índice de envelhecimento atingiu os 141 idosos por cada 100 jovens, segundo a análise do Instituto Nacional de Estatística (INE) ao Relatório World Population Ageing, divulgado pela United Nations Population Division. As previsões do relatório Projeções de População Residente em Portugal, 2008-2060, do INE, apontam para três idosos por cada jovem em 2060. Em 2014, a população residente em Portugal era constituída por «14,4 por cento de jovens, 65,3 por cento de pessoas em idade ativa e 20,3 por cento de idosos».

Em 2013 (último ano com informação disponibilizada pelo Eurostat), Portugal apresentava uma das estruturas etárias mais envelhecidas entre os 28 Estados membros da União Europeia, realidade que não tem sido contrariada. Segundo o INE, as previsões mais recentes apontam para que, em 2050, o nosso país esteja entre os cinco mais envelhecidos do mundo e, em trinta anos, a população com mais de 80 anos duplicará. Segundo o relatório sobre o estado de saúde na Europa em 2015, elaborado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a esperança média de vida em Portugal supera a média europeia: 83,9 anos para as mulheres e 77,4 para os homens.

Resultado: muitos portugueses – eram mais de quatro mil, no final do ano passado – já chegaram aos 100 anos. Vive-se mais. Mas vive-se melhor? Nem sempre. O livro Processos de Envelhecimento em Portugal, de Manuel Villaverde Cabral, Pedro Moura Ferreira, Pedro Alcântara da Silva, Paula Jerónimo e Tatiana Marques, editado em 2013 e baseado num estudo do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa com o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, chama a atenção para o facto de o envelhecimento saudável implicar boas condições de saúde. O que nem sempre ocorre com a população envelhecida. A GNR identificou recentemente o número de idosos isolados e/ou a viver sozinhos no país. Nas áreas de intervenção daquela força de segurança, a Operação Censos Sénior deste ano sinalizou cerca de quarenta mil pessoas nesta situação, mais cinco mil do que no ano passado. Em 2011, o INE traçou um cenário ainda mais preocupante. Nos Censos desse ano, foram contabilizados 399 174 pessoas com mais de 65 anos a viver sozinhas.

É o retrato de um Portugal envelhecido que tende a perder pessoas e a tornar-se mais pequeno, com a descida expectável para menos de nove milhões de habitantes em 2040, segundo as últimas projeções do INE – e para 7,4 milhões em 2100. São números preocupantes que suscitam novos desafios de cariz social e inclusivo, para promover o envelhecimento ativo definido pela OMS como «o processo de otimização das oportunidades para a saúde, participação e segurança, para melhorar a qualidade de vida das pessoas que envelhecem».

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Com 22, 23 e 24 anos, respetivamente, Beatriz Porteiro, Maria Teresa Couto e Eduardo Freire Rodrigues são estudantes na Nova Medical School da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa. Ou porque querem ser médicos ou porque o sentido de humanismo já lhes está incutido desde sempre (ou por ambos os motivos), são também voluntários do projeto Saúde Porta a Porta, promovido pela associação de estudantes, de que fazem parte.

Têm pouco tempo livre, graças ao curso que escolheram, mas têm muita noção do significado da solidariedade e da ajuda ao próximo. Por isso realizam visitas semanais (em equipas de dois alunos) a idosos do concelho de Lisboa, nas quais fazem uma análise do estado de saúde, da vigilância da medicação e de doenças crónicas. E, sempre que necessário, fazem o encaminhamento para o Hospital CUF Infante Santo, com o qual a associação tem uma parceria, ou para os responsáveis e assistentes sociais das juntas de freguesia com que trabalham (Estrela e Campo de Ourique).

«Os nossos conhecimentos como futuros médicos podem ajudar a minimizar um pouco a demografia que torna os idosos mais isolados», diz Maria Teresa Couto. É o caso da avó Maria, que telefonou recentemente a um dos voluntários. Caiu numas escadas rolantes, ficou com a cara arranhada e uma dor no braço esquerdo. Recusa-se a ir ao serviço de urgência. Ou Augusta, que vive sozinha, foi recentemente operada às cataratas e ainda está à espera do apoio social para comprar os óculos de que tanto necessita. A visita dos voluntários serve para avaliar a saúde geral mas também para relembrar que a medicação só chega para mais duas semanas e que tem de ir ao médico buscar as receitas respetivas.

A ideia surgiu há três anos, mas esteve algum tempo parada por «problemas logísticos», funcionando a meio gás durante o último ano. «Vamos retomar as visitas domiciliárias a 1 de novembro», diz a coordenadora do projeto, Beatriz Porteiro. A data já estava decidida mas o facto de terem sido um dos vencedores do Prémio BPI Seniores, atribuído no início de outubro, e de terem recebido 15 600 euros permite um «novo fôlego» e vislumbrar até novas perspetivas. «No ano passado, beneficiaram deste projeto 21 idosos», diz Beatriz Porteiro. «No próximo ano, a meta a que nos propusemos consiste em apoiar cinquenta idosos. Temos atualmente 37 referenciados pelas duas juntas de freguesia que trabalharam connosco, estando em estudo uma terceira para se juntar ao projeto.»

O valor atribuído vai permitir adquirir cerca de cinquenta kits com equipamentos de saúde necessários para as visitas domiciliárias de forma a fazer um levantamento do estado de saúde dos idosos. «Esses kits eram utilizados por vários voluntários que tinham de restringir as visitas à disponibilidade dos mesmos. Havia um entrave a bloquear a flexibilidade para fazer visitas aos idosos referenciados», diz Eduardo Freire Rodrigues, presidente da associação de estudantes. Cada kit tem medidores de tensão, de colesterol e de glicemia, termómetro e material descartável (compressas, luvas, tiras para as máquinas). O valor do prémio irá ainda permitir criar uma plataforma online que congregará todos os dados recolhidos pelos voluntários ao longo do tempo, de forma a perpetuar a informação para grupos vindouros. «O objetivo é ter uma memória institucional do projeto inclusive aos referenciados para que possa haver troca de informação, continuidade e acompanhamento ao longo do tempo (de forma a ser transmitida por aqueles que acabam os cursos aos que iniciam as aulas na faculdade)», diz Beatriz. Os voluntários acompanham também os idosos às consultas no hospital e às visitas ao médico assistente.

Um mesmo idoso é visitado uma vez por semana durante o ano letivo. «Neste ano, durante o período de férias, a maioria dos voluntários e dos estudantes da nossa faculdade comunicavam telefonicamente ou visitavam os seus idosos quando vinham a Lisboa, uma vez que grande parte deles vive noutras zonas do país», diz a coordenadora. «Há voluntários a fazer visitas aos idosos por alta recreação, mesmo quando o projeto está temporariamente interrompido.» A ligação aos beneficiários mantém-se ao longo do tempo criando-se uma enorme cumplicidade entre os jovens e os idosos que seguem.

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Além da componente médica, todos os voluntários têm ainda formação em voluntariado e algumas formações complementares na área da geriatria, bem como sessões clínicas no hospital parceiro. «Os voluntários deslocam-se ao hospital com uma periodicidade a definir de forma a apresentar os casos clínicos com médicos como se de uma reunião clínica se tratasse, para pedir a opinião dos especialistas e esclarecimentos no que respeita à referenciação necessária dos casos mais emergentes», diz Beatriz.

CERCA DE QUINHENTOS QUILÓMETROS A NORTE da área de intervenção dos estudantes de medicina, Teresa Fernandes depara-se com outros problemas. No distrito de Bragança também há idosos isolados que precisam de ajuda médica ao domicílio, mas é sobretudo com vítimas de violência doméstica que a psicóloga da Associação de Socorros Mútuos dos Artistas de Bragança lida.

A ASMAB combate esse tipo de violência junto das camadas mais idosas, através de um programa que tem como objetivo informar e apoiar os seniores e desenvolver sessões de esclarecimento sobre esta realidade. Os 35 750 euros que receberam no início do mês através do Prémio BPI Seniores vão permitir às equipas no terreno intervir em 12 concelhos do distrito de Bragança e encaminhar as situações de risco para o Centro de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica, que funciona desde 2006. «Temos cerca de cinco mil beneficiários diretos identificados», diz Teresa Fernandes. «Com este prémio será possível atender vítimas de forma especializada e reforçar os meios que a nossa instituição não tinha para permitir fazer mais e melhor.» A coordenadora do projeto – e da equipa multidisciplinar que colabora com dez entidades externas – sabe que a motivação passa por compreender o comportamento humano, tentar modificá-lo e «ajudar as pessoas que manifestam necessidade de mudança, de reeducar e recriar histórias de vida».

Existem dois tipos de violência contra idosos identificados pela associação e que passam por aquela que foi exercida durante toda a relação de intimidade (casos de violência conjugal) mas também a violência dos cuidadores primários, ou seja, por parte de filhos, descendentes diretos, indiretos (por vezes até à terceira linha de sucessão) ou familiares. «Esta é uma nova forma de violência mas também uma muito escondida. Não é fácil denunciar um filho ou um neto. São pessoas demasiado significativas na vida destes idosos, o que faz que não seja fácil falar sobre o assunto.»

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Os casos são variados. Como o da senhora que sofreu a primeira agressão física por parte do marido três meses após o casamento e assim foi até aos 70 anos, quando pediu ajuda por não aguentar mais e por ter medo do que poderia acontecer a seguir já que o homem dormia com uma caçadeira. Ou a história da idosa de 72 anos com deficiência, que não recebia quaisquer cuidados da irmã com quem vivia – e que a mantinha enclausurada numa divisão da casa, sem qualquer conforto nem acesso à casa de banho. Mas também o casal de idosos que durante vinte anos sofreu todos os tipos de violência (física, psicológica e económica) por parte do filho alcoólico que vivia às custas da reforma dos pais.

Teresa começou a idealizar o projeto tendo em conta o cariz social da instituição, as especificidades do distrito e as necessidades dos residentes. «Vivemos num distrito maioritariamente rural, isolado e disperso geograficamente, com uma taxa de envelhecimento muito significativa e superior à média nacional. Sentíamos necessidade de especializar o atendimento às vítimas idosas, muitas vezes sem recursos, sem informação, analfabetas (uma parte significativa), que vivem isoladas e que não têm quaisquer possibilidade de aceder aos serviços que, embora gratuitos, estão sediados em Bragança.»

O projeto tem duas vertentes: por um lado, a intervenção direta em casos já identificados pela ASMAB, pelas forças de segurança e pelos centros de saúde, no sentido de prestar o devido apoio e quebrar o ciclo da violência; por outro, informar, sensibilizar e prevenir. «Vamos ainda combater a possibilidade de existência de violência doméstica, capacitando o idoso com recursos habitacionais sociais, culturais e georreferenciar as situações com visitas domiciliárias e articulação com instituições do terreno para prevenir o aparecimento de eventuais novos casos.»

RECENTEMENTE, FOI APROVADA na Assembleia da República a criminalização de toda a violência doméstica, abandono e negligência. Esse plano de combate à violência doméstica deu especial relevo às vítimas idosas que fazem parte de «umas cifras negras que ainda ninguém tinha conseguido estudar».

Na edição de 2015 do BPI Seniores, 713 instituições apresentaram candidaturas, um crescimento de 23 por cento face ao ano anterior e de 83 por cento em relação à primeira edição. Além dos dois primeiros premiados deste ano, foram distinguidas com menções honrosas trinta instituições privadas sem fins lucrativos, destacando-se várias associações, centros sociais, delegações da Cruz Vermelha Portuguesa e da Santa Casa da Misericórdia. «Os premiados são escolhidos pelo número de beneficiários que os projetos irão atingir, pelo caráter replicável, pela inovação e por um espírito de voluntariado forte», diz António Seruca Salgado, presidente do júri. «Temos o radar aberto e não temos uma abordagem clássica de premiar apenas as valências tradicionais ou a cura física. Muitas destas atividades são lúdicas mas não se esgotam num ato.» A ideia é premiar projetos que perdurem no tempo.

SAÚDE PORTA A PORTA

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Foto: Jorge Amaral/Global Imagens

Ana Rita Freitas e Gonçalo Cabral são alunos do quarto ano do curso de Medicina na Nova Medical School da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa. Foi lá, na associação de estudantes, que nasceu há três anos o projeto Saúde Porta a Porta, com 77 voluntários que acompanham semanalmente idosos que vivem em situações de carência de saúde e/ou socioeconómica e foram referenciados pelas assistentes sociais de duas juntas de freguesia de Lisboa. Com os 15 600 euros do prémio vão ajudar cinquenta idosos.

UM FLAGELO NACIONAL

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Teresa Fernandes, psicóloga da Associação de Socorros Mútuos dos Artistas de Bragança (ASMAB), não esquece nenhuma das idosas que a instituição apoiou desde que, em 2006, criou o Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica no distrito. «É um crime que mora paredes-meias connosco diariamente», diz Alcídio Castanheira, presidente da ASMAB. O financiamento de 35 750 euros do BPI Seniores vai permitir dar continuidade ao projeto que beneficia diretamente cinco mil idosos vítimas de violência conjugal ou familiar, com a intervenção de uma equipa multidisciplinar em parceria com dez entidades externas.

PRÉMIO BPI SENIORES
O galardão resulta da política de responsabilidade social do BPI, que procura respostas inovadoras para o problema do envelhecimento do país. O prémio é atribuído através de um donativo, sem qualquer contrapartida que não seja a própria execução do projeto, e apoia iniciativas de inclusão social e envelhecimento ativo de pessoas com mais de 65 anos. Os valores atribuídos variam de acordo com as necessidades do projeto – identificadas pelos candidatos, que apresentam uma candidatura com o montante de que precisam para implementar ações no terreno. Desde a sua criação, em 2013, o Prémio BPI Seniores recebeu 1682 candidaturas, distinguiu 78 instituições e entregou um total de 1,7 milhões de euros.

Cláudia Pinto
Fotografia: Pedro Granadeiro/Global Imagens