OPINIÃO

Nascido para surfar

Quando não está a apanhar ondas, o português Nic von Rupp protagoniza uma série de documentários sobre os bastidores do surf: «My Road Series».

Por estes dias, Peniche recebe os melhores surfistas do mundo. Nic von Rupp também já passou por aquelas ondas. Em cima de uma prancha e não só. O trabalho do único português a documentar os bastidores do surf pode ser visto até ao fim do mês no National Geographic Channel.

Liberdade e resultados, resultados e liberdade, entoa Nic na cabeça como um mantra, os olhos claros sempre a ver além da prancha. Em terra, lembra um miúdo irrequieto: falta-lhe claramente água salgada no corpo para se sentir centrado. É quando rema para apanhar a onda e vem disparado nela, sem se perceber bem onde termina o homem e começa o tubo, que entendemos por que razão Nicolau von Rupp se tornou o primeiro a documentar os bastidores do surf com a série My Road Series, exibida até ao final do mês pelo National Geographic Channel, a coincidir com as provas da modalidade em praias portuguesas. Aquilo é a sua vida. Se de caminho puder mostrar ao público o tanto que existe por trás de cada surfada, melhor ainda.

«Tive um vídeo online que fez bastante sucesso na internet a nível internacional, filmado na Irlanda há uns dois ou três anos. Chegou às 250 mil visualizações e foi então que senti que as pessoas queriam ver mais, saber coisas que nenhum filme de surf costuma mostrar», explica o atleta, 25 anos. Surfar não se resume a fazer acrobacias na água, por muito que a destreza ajude à performance. Existem as viagens em busca de ondas perfeitas, o planeamento, a preparação. A escolha dos destinos, as diferentes culturas, o improviso. As pessoas com quem se cruzam no percurso e uma natureza de caráter caprichoso, que tanto lhes pode dar exatamente o que procuram como fazê-los esperar. «O My Road Series surgiu da falta que já fazia um documentário sobre o tema, muito diferente de um vídeo ou de um filme de ação.»

One City, o primeiro episódio, fala das manobras na Praia Grande, Ericeira e Peniche, das diferenças e aproximações entre Portugal e a Califórnia – o mesmo para os surfistas que Hollywood é para atores e realizadores –, da evolução do nosso surf – somos dos países que mais etapas dos campeonatos mundiais recebem. Em Two Islands guia-nos naquela que foi a sua melhor temporada havaiana a surfar a perigosa Pipeline, na ilha de Oahu, e as ondas menos mediáticas da ilha vizinha de Mauí. Three Deserts viaja pelos desertos do Oeste australiano, Marrocos e Canárias para comparar as comunidades surfistas. E há ainda um quarto, Four Cliffs, com estreia prevista para dezembro e que por isso fica de fora das emissões do National Geographic.

«Este episódio vai ser sobre ondas realmente grandes de Portugal, Irlanda, Canárias e Havai, um espetáculo! Inclui o momento em que segui a tempestade Hércules em direção à Irlanda e apanhei aquela que dizem ter sido a maior ondulação do século: vagas de trinta metros que chegavam a terra com 15 a dez metros, nunca menos do que isso.»

O fato de neoprene é a segunda pele de Nicolau desde que se ergueu nas ondas, aos 9 anos. Nascido e criado na Praia Grande, em Sintra, o mar mesmo ali ao lado a pedilas, cresceu a cortar as ondas como um golfinho na tábua de bodyboard. Até que o treinador João de Macedo, ele próprio um big wave rider entre os 55 melhores de todos os tempos, ao lado de nomes como Laird Hamilton ou Garrett McNamara, o incentivou a caminhar de pé sobre as águas.

«Foi ele quem me deu a minha primeira prancha.» Já nessa altura o surf era uma luz nos seus momentos de incerteza. Se por acaso não tivesse podido ser surfista profissional, seria forçosamente outra coisa qualquer ligada a esta indústria. Mas tudo se conjugou nesse sentido: em 1999 venceu o primeiro campeonato em que participou, uma etapa do Circuito Nacional de Surf Esperanças. Sagrou-se campeão alemão júnior em 2004, campeão europeu júnior do Volcom Rumblefish em 2005, campeão do King of The Groms no mesmo ano e campeão alemão sénior em 2006. Em 2007, já com patrocínio da Quicksilver, foi vice-campeão europeu pro júnior da Associação de Surfistas Profissionais, o que lhe permitiu disputar o Mundial de Juniores no ano seguinte.

«O mais importante sempre foi ir atrás de ondas grandes e tubulares – o meu tipo – e ser espontâneo. A série resultou muito desse agarrar das ondulações que iam aparecendo e foi por isso que comecei em 2013 e levei mais tempo a fazê-la do que pensava.» A mesma teimosia que pôs no documentário levou Nic a descobrir o equilíbrio perfeito entre o freesurf e a competição em 2013, com a integração na equipa da Hurley. Conseguiu então terminar o ano no Top 100 do circuito mundial de qualificação (em 66.º); venceu no Moche Capítulo Perfeito, em Portugal, e no Pawa Tube Fest, no México; foi considerado o surfista europeu do ano – que é como quem diz o mais mediático – pela EuroSIMA, a conferência anual dedicada à indústria dos desportos de ação.

Em 2014 mereceu um artigo no jornal britânico The Times pela cavalgada épica na Irlanda à passagem da tempestade Hércules. Ganhou o Capítulo Perfeito pela segunda vez consecutiva, a prova algarvia da Liga Moche e os trials de Peniche, garantindo vaga no Rip Curl Pro Portugal, onde surfou contra os ídolos Kelly Slater e John John Florence. Este ano conquistou a última etapa do campeonato português (Liga Moche, a 9 de outubro), ficou em quarto no ranking nacional, foi vice-campeão do mundo do World Surfing Games, na Nicarágua, e seguiu recentemente para o Brasil para finalizar a metade do ano em que se dedica às competições. «Estou a encontrar o meu lugar no mercado como o surfista que compete a partir de março e produz conteúdos para documentários no inverno, quando vou à procura das minhas ondas.»

Se tivesse de eleger uma onda seria a de Teahupo’o, no Taiti, um tubo de água temido pela força com que engole os aventureiros e o fundo rochoso que só não os quebra se não calhar. «É um sonho andar no interior daquela onda. Já estou a preparar a segunda série de My Road e vai ser cada vez mais direcionada para as ondas grandes.» Não se trata de adquirir fama de valente. Acontece que ser filho de pai alemão e mãe luso-suíça, falar fluentemente cinco línguas (português, espanhol, inglês, francês e alemão) e ter uma irmã de 9 anos adotada na Tailândia, a menina dos seus olhos, deram-lhe objetivos diferentes. «O meu pai formou-se em Gestão nos EUA e viveu lá 30 anos, antes de vir para Portugal em 92 instalar a sede da empresa MEI Europa. Nasci numa família internacional. A minha meta nunca foi ser campeão nacional e sim um bom surfista mundial, apto a correr com os melhores no World Championship Tour.»
O QUE SE PODE VER NA TELEVISÃO
Para o documentário, Nicolau von Rupp contou com a ajuda da dupla criativa Gustavo Imigrante e Dinis Sottomayor: o primeiro um bodyboarder amigo que viaja com ele, filma, realiza e edita, o segundo imbatível na pós-produção. Queria mostrar as ondas que surfa: sendo da geração que não depende de terceiros para chegar aos outros, porque não disponibilizar o fruto do seu trabalho no Vimeo? Quando os responsáveis do National Geographic o contactaram, dizendo que iam dedicar o mês de outubro ao mar e gostavam de exibir os episódios da My Road Series estreados na net, o jovem exultou. «O canal é um selo de qualidade, o melhor cartão-de-visita.» Cada episódio foi dividido em cinco «cápsulas» de um a dois minutos, que repetem oito vezes por dia de segunda a sexta-feira, a partir das 16h00.
MANOBRAS DE PRESTÍGIO
Os banhistas ocasionais queixam-se do mar revolto e dos golpes de vento. Os surfistas apreciam de tal maneira os humores da nossa costa que não estranham que os campeonatos de surf ponham as praias portuguesas na agenda internacional, com o país a receber pelo sétimo ano consecutivo uma etapa – Moche Rip Curl Pro Portugal – da World Surf League, entre 20 e 31 de outubro. Na praia de Supertubos, em Peniche disputa-se a penúltima das onze etapas que servem para definir o campeão do mundo – a última é em dezembro, no Billabong Pipe Masters no Havai. Mason Ho, famoso tube rider havaiano de Oahu, participa como wildcard da Rip Curl (convite atribuído a atletas que não competiram devido a ferimentos). Tiago «Saca» Pires ganhou vaga com as ausências de Fred Patacchia e Taj Burrow, as lesões de Jordy Smith e Matt Banting, a especulação quanto à vinda de Kelly Slater e a indisponibilidade de vários suplentes, segundo a revista Surf Portugal. Caso o tricampeão mundial Mick Fanning vença a etapa, e o brasileiro Adriano de Souza perca na terceira ronda ou antes disso, o australiano sagra-se novamente campeão em 2015.