OPINIÃO

Dar vidas novas

As instituições de solidariedade social procuram ajudar quem está mais vulnerável.

Prestam um serviço essencial à comunidade, mas para manterem a sustentabilidade precisam também de apoio. No ano passado, o movimento Mais para Todos, do Lidl, ajudou 54. Fomos conhecer de perto três dos projetos vencedores.

O Terceiro Setor desempenha um papel primordial do desenvolvimento do país, mas falar apenas dos milhões de euros que movimenta é demasiado redutor para uma área de atividade que procura, essencialmente, «produzir» uma sociedade mais justa e solidária.

Os cinco mil milhões de euros que as mais de 60 mil entidades da Economia Social produzem anualmente, bem como a percentagem de empregos remunerados que criam, são reveladores do peso na economia nacional… Já para não falar do fator humano que delas emana. Esse não é sequer quantificável.

É na procura de dar qualidade de vida aos mais vulneráveis que estas instituições têm a sua raiz, substituindo o Estado na proteção de crianças e jovens em risco, de pessoas com deficiência, de idosos, de vítimas de violência, de toxicodependentes ou de desempregados. Um verdadeiro serviço público que merece a ajuda dos outros setores da economia e da sociedade. Só assim continuarão a ser sustentáveis, a prestar apoio de qualidade e a não ser subsidiodependentes.

A austeridade foi um travão ao crescimento, mas, em contrapartida, serviu também para despertar a consciência social das empresas, parceiras essenciais das entidades do Terceiro Setor. Seja através de iniciativas, campanhas, protocolos ou outro tipo de apoios, o investimento do privado nesta área é o salva‑vidas que evitará muitos naufrágios.

E é desta forma que muitas IPSS olham para iniciativas como a do movimento solidário Mais para Todos, promovido pelo Lidl. Uma campanha de angariação de fundos, entre os dias 1 e 24 de dezembro de 2014, que rendeu mais de um milhão de euros, graças a doação, por parte da empresa de distribuição, de 10 cêntimos por cada talão de compra.

Com a segunda edição em curso, vale a pena olhar com mais atenção para o que foi feito no ano passado. Dos quase 750 projetos de candidatura a concurso, de Norte a Sul do país, o Lidl ajudou a concretizar 54. Desde equipamentos de fisioterapia a hortas urbanas, passando por colónias de férias e mobiliário, este movimento melhorou a vida de mais de 16 mil pessoas.

A Notícias Magazine foi conhecer mais de perto três das instituições premiadas: a APAC – Associação de Pais e Amigos da Criança, de Barcelos, com o projeto Oficina do Brinquedo; a Cooperativa Casa dos Choupos, de Santa Maria da Feira e o seu Chão Fértil – Hortas Urbanas; e o Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos, em Cascais, e a Casa Jubileu.

Um mundo para todos
A frase «Somos parte do mundo», inscrita nas paredes do átrio da APAC, em Barcelos, descreve na perfeição a essência desta instituição, nascida há 20 anos da vontade de pais e comunidade em colmatar carências na resposta médico‑terapêutica na deficiência. «O nosso objetivo é promover ações de reabilitação, orientação, integração e apoio à pessoa com deficiência, com problemas de desenvolvimento e em situação de risco, famílias e comunidade, integran­do atividades de intervenção psicossocial, terapêutica, médico‑funcional e socio­-recreativa», explica Berta Costa, 55 anos, a presidente, fazendo notar que dão apoio a cerca de 450 pessoas e empregam 50, a maioria das quais técnicos.

À medida que foram surgindo novas necessidades, a APAC foi ganhando braços e, hoje, dá respostas sociais em cinco áreas: apoio ambulatório, intervenção precoce na infância, Centro de Atividades Ocupacionais, Centro de Acolhimento Temporário – a Casa dos Sonhos – e rendimento social de inserção. O que só é possível, segundo Berta Costa, graças «a apoios da Segurança Social e da autarquia, acordos de cooperação e de alguns beneméritos».

Mas é na área médico-terapêutica que esta instituição se destaca, com os utentes a terem ao dispor os meios essenciais a uma melhor qualidade de vida: ginásio, piscina, sala de snoezelen (espaco multisensorial), sala de novas tecnologias (equipada com computadores, tablets e jogos interativos), e a Oficina do Brinquedo, com a qual foi premiada pelo Lidl.

Coordenado pela psicóloga clínica Marta Simões, de 36 anos, este projeto surgiu da necessidade da equipa técnica da APAC de promover «uma participação ativa no brincar, em crianças com necessidades especiais, cujos movimentos estão limitados», e visa a adaptação de brinquedos atuais para estímulo sensorial ou intelectual, através de um manípulo de grandes dimensões que permita a interação direta. «Queremos promover a igualdade de oportunidades nas crianças, criar referências na infância, estimular o desenvolvimento de competências e garantir o direito ao brincar», diz a terapeuta.

Por isso, os 11 300 euros recebidos através da campanha do Lidl foram usados para comprar equipamentos essenciais à implementação da Oficina. A adaptação dos brinquedos foi feita por estudantes do curso de Engenharia Electrotécnica do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, uma parceira que superou todas as expetativas. «Foi uma experiência muito gratificante e emocionante, quer para nós, técnicos, quer para os pais destas crianças. Ver que elas conseguem acionar os brinquedos sem ajuda. A partir de agora, estes pais podem comprar o brinquedo que despertar mais a atenção dos filhos e trazê‑los à Oficina para nós o adaptarmos. Abriu‑lhes um novo mundo de oportunidades», conclui Marta Simões.

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Fotografia: André Gouveia/Global Imagens

Respostas sociais atípicas
No concelho de Santa Maria Maria da Feira «vive» a Cooperativa Casa dos Choupos. Fundada em setembro de 2008, esta instituição procura dar soluções diferentes e alargadas aos problemas sociais da região. «Não temos as respostas típicas das IPSS. A nossa lógica é a de trabalhar sempre em rede e parceria com outras instituições do concelho a fim de colmatar as falhas e assim chegar com mais facilidade à população», diz Inês Pinho, socióloga de 33 anos, presidente e uma das fundadoras.

O principal parceiro desta instituição é a câmara municipal, com a qual, no âmbito do Contrato Local de Desenvolvimento Social, desenvolve várias ações em prol da empregabilidade, da formação, qualificação e criação de negócios próprios, do apoio às vítimas de violência (Espaço Trevo) e do empreendedorismo social.

Mas as respostas da Cooperativa Casa dos Choupos não se ficam por aqui. «Temos o Chão Fértil – Hortas Urbanas, para agricultura biológica, o Mercado da Solidariedade, em parceria com a Cruz Vermelha, o serviço de manutenção e reparação do parque habitacional concelhio, o apoio técnico ao Gabinete Municipal de Igualdade de Género ou ainda o programa Sorrisos, em parceria com clínicas dentárias locais», enumera a socióloga. E quando se pensa que a lista terminou, eis que esta IPSS atua também ao nível da animação sociocultural, através do grupo Rufus & Circus, destinado a crianças e jovens em risco de abandono ou insucesso escolar; do grupo intergeracional Poesia no Corpo. Corpo na Poesia, para pessoas dos 10 aos 76 anos; e de uma parceria com o Bazar Social da câmara municipal, que desenvolve a Feirinha pela Noitinha, que visa a promoção do pequeno artesanato e da ourivesaria locais. De todos estes projetos, foi com o Chão Fértil que esta instituição se candidatou ao movimento Mais para Todos e para o qual recebeu cerca de 19 500 euros. Arrancou neste ano e já deu os primeiros frutos… ou melhor, os primeiros legumes.

«No início do ano, começámos com a preparação do terreno, colocação da bomba de água e construção de uma infraestrutura para a mesma, divisão dos talhões e, em agosto, a atribuição destes. Foi um processo muito faseado», diz a responsável, avançando que este espaço se destina a pessoas que integrem a rede de apoios ou que residam no concelho. O próximo passo é levar o projeto às escolas, numa parceria com o pelouro da Educação da autarquia.

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Fotografia: Carlos Manuel Martins/Global Imagens

Uma casa de reintegração
A Casa Jubileu, do Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos (CCPC), em Cascais, recebeu, por seu lado, mais de 19 mil euros do Lidl para reequipar o espaço com roupeiros e mobiliário de arrumação individuais e uma nova decoração, de forma que as 12 pessoas que nela residem a sintam mais como um lar. Construída em 2oo1, a residência surgiu do apoio que a igreja local dava aos sem-abrigo. «Em Cascais havia um grande bairro de barracas, onde viviam muitos toxicodependentes e sem-abrigo. Havia alguma resposta e encaminhamento para tratamento, mas não havia continuidade no apoio», explica a coordenadora Joana Levita, 36 anos, formada em Serviços Sociais.

E é esse hiato do sistema que o CCPC procura colmatar com a Casa Jubileu. «As pessoas chegam já tratadas, a ideia é ajudar a inseri-las de novo na sociedade», afirma a assistente social. E como? «Traçando um projeto de vida. Começando por alguns patamares e um plano ocupacional, no sentido de criar hábitos de trabalho, cumprimento de horários, sentido de responsabilidade, cidadania e comunicação.» A um primeiro nível, a adaptação será feita dentro da instituições, através da colaboração no centro comunitário e na oficina, onde aprendem um ofício na área das «artes e ofícios do restauro» e, num prazo mais alargado, integrá‑las no mercado de trabalho.

O segredo do sucesso da instituição reside no elo que é mantido com os utentes, muito para lá da reinserção. «As pessoas saem da casa, mas ela continua a ser um suporte, quer em termos terapêuticos, individualmente ou em grupo, quer em todas as outras questões. Esta proximidade faz que sempre que alguma coisa comece a correr menos bem, ou por uma situação de saúde ou de perda do emprego, a intervenção seja feita no momento certo», justifica Joana Levita, reforçando: «Permitimo‑nos trabalhar sem pressão, de uma forma mais próxima, e dar continuidade ao acompanhamento.»

Apesar de todo o apoio, a maior parte das vezes não é à primeira tentativa de recuperação que se consegue ter êxito. Ainda assim, ao longo destes 14 anos passaram pela Casa Jubileu 121 pessoas e, destas, 74 por cento conseguiram dar a volta e manter uma vida estável. Um universo pequeno, é certo, mas que mostra que este é o caminho a seguir.

O FUTURO

REAVALIAR, DESBUROCRATIZAR E MODERNIZAR
Com a entrada em funções do governo PS, as instituições esperam mudanças e dão sugestões. Berta Costa diz ser primordial «reavaliar a capacidade das IPSS perante necessidades distintas, para não haver sobreposição de serviços, o que se refletirá no melhor atendimento, que é o objetivo». Já para Joana Levita será essencial desbloquear-se a burocracia à volta das organizações, e justifica: «Se não há uma resposta enquadrada nas tipificações definidas, não conseguimos dar a volta às questões. Precisamos de ser criativos e encontrar outras formas de envolver as pessoas, mas a burocracia atrapalha.» Inês Pinho aponta a modernização de instituições e dirigentes como uma medida a implementar. «Temos de ter pessoas formadas e capacitadas para gerir uma organização. Só assim estas serão eficientes e eficazes», defende a gestora.