OPINIÃO

Como arruinar um casamento em sete passos

Coloque estes sete na sua lista de «coisas a não fazer».

A lista de ingredientes necessários para a receita que faz uma relação a dois funcionar continua a ser um mistério. Mas há comportamentos que, com grande probabilidade, ajudam a apontar o caminho do fim. Estes sete, reunidos com a ajuda da psicoterapeuta Catarina Mexia e da sexóloga Vânia Beliz, são alguns deles.

1 _ Expetativas irrealistas
As histórias da Disney e os filmes de Hollywood não são uma boa referência para a vida real. Mas todos os vemos e, talvez por isso, gostamos de imaginar que também podemos fazer parte de um conto de fadas, onde tudo é perfeito, romântico e corre sempre bem. «Temos tendência para idealizar e fantasiar o outro e, quando isso acontece, estamos a acreditar – muitas vezes cegamente – no que desejamos que o outro seja. Algumas pessoas vivem anos mergulhadas na mentira», diz a sexóloga Vânia Beliz. A idealização pode acabar por dar origem a uma insatisfação e a um sentimento de falta de sentido que, se não for controlado, pode contribuir para o fim de uma relação. «É importante que se compreenda que as relações são vivas e ativas e, por isso, podem passar por momentos mais emocionantes e felizes e outros mais mornos ou distantes.»

2 _ Manter os silêncios
Às vezes, a distância que separa duas pessoas é feita de discussões e palavras azedas. Mas noutras ocasiões os muros que sobem progressivamente são invisíveis e feitos de tudo o que não é dito. «A quebra de comunicação é frequentemente entendida como quebra de relação. Mas o silêncio precisa de ser entendido em contexto», diz Catarina Mexia. E para que se perceba o contexto tem de haver lugar a uma comunicação. «Há que perceber, numa conversa franca, qual o significado deste silêncio: é desafiador, desesperado, de expetativa, magoado, de fim de relação, de tédio, de insegurança, punitivo ou simplesmente de recolhimento? E agir em conformidade tendo a coragem de enfrentar os motivos.» A este propósito, a sexóloga Vânia Beliz deixa um alerta: «Falar dos nossos medos ao outro é a melhor forma de os tornar inofensivos. Muitos casais preferem o silêncio à dor das palavras que uma conversa pode trazer e, à medida que as coisas vão ficando por dizer, o vazio vai consumindo a relação, até restar pouco ou nada.»

3 _ Criticar muito, elogiar pouco
Passar meses ou anos a ouvir uma voz que relata todas as nossas falhas, um dedo apontado a todos os nossos defeitos e uma cara desagradada a cada ação menos virtuosa pode ser um pesadelo. E se isso for acompanhado da ausência de elogios, palavras simpáticas ou felicitações pelos sucessos, o potencial para criar problemas que podem ditar o fim da relação eleva‑se à medida que uma das partes se sente a afundar. «É difícil estarmos disponíveis para amar e sentirmo‑nos amados quando apenas recebemos do outro este apontar de dedo que gera em nós o sentimento constante de insuficiência que, por sua vez, conduz a um sentimento de frustração e raiva», diz a psicoterapeuta Catarina Mexia. Pelo contrário, para construir e alimentar uma relação saudável, para nós e para o outro, é essencial «o reconhecimento diário de pequenos gestos, de pequenas conquistas na relação, pequenos mimos». John Gottman, psicólogo americano que, ao longo de quarenta anos estudou centenas de casais e identificou comportamentos indicativos de casamentos felizes e potencialmente duradouros e outros sinónimo de divórcio à vista, constatou também que o criticismo é um dos arautos da desgraça. Os outros três, que muitas vezes o acompanham, são o desprezo, a atitude defensiva e a ausência de comunicação. Gottman chama‑lhes, expressivamente, os quatro cavaleiros do apocalipse.

4 _ A família do outro
Por muito difícil que seja a relação do marido ou da mulher, é importante que cada um faça um esforço por fazê‑la resultar para que seja, pelo menos, cordial. Mas lembrando uma coisa: é-se casado com o outro, não com a família do outro. Um estudo longitudinal com 373 casais, feito ao longo de 26 anos por Terri Orbuch, da Universidade do Michigan, concluiu que quando o marido afirma ter uma relação estreita com os pais da mulher, o risco de divórcio do casal diminuiu 20 por cento; quando a mulher garante que tem uma relação estreita com os sogros, o risco de divórcio do casal aumenta 20 por cento.
O resultado, que parece incompreensível, é explicado da seguinte forma: o homem está mais interessado na relação com a sua própria família e toma qualquer ação dos sogros menos a peito, já a mulher valoriza uma relação estreita com a família do marido, mas isso significa que olha tudo o que lhe dizem ou fazem como uma interferência no seu papel de mãe e mulher, o que propicia mais conflitos. Terri Apter, psicóloga e investigadora na Universidade de Cambridge, fez uma pesquisa para o livro What Do You Want from Me? (ed. W. W. Norton), e chegou a uma conclusão que suporta esta tese: 75 por cento dos casais estudados tinham problemas com a família do outro, mas, destes, apenas 15 por cento das relações entre sogras e genros eram difíceis… Pior: em caso de conflito entre a mulher e mãe, os homens tendem a defender aquela que consideram mais fraca: a mãe

5 _ Ciúmes descontrolados
«Onde foste?» «Com quem estavas a falar?» «Porque é que estás só a olhar para ele?» Ciúmes doentios, comportamentos de controlo constante, sentir que o outro está sempre pronto a vigiar e a interrogar não só desgasta, como mostra uma falta de confiança que, com a repetição, pode ser incomportável. Para Catarina Mexia, os ciúmes são, muitas vezes, sinónimo de insegurança pessoal que tende a saturar e a tornar mais rígida a relação de casal. «Geram comportamentos difíceis de ultrapassar, já que o outro, muitas vezes, adapta atitudes no sentido de corresponder àquilo que pensa ser o desejado por quem faz isso, sem saber se está a confirmar os medos de quem se sente ciumento e inseguro.» A terapeuta defende que, se o ciúme não for patológico, a terapia de casal pode ser uma ajuda eficaz para desmontar estes comportamentos que se autoalimentam, gerando um círculo vicioso.

6 _ Problemas na intimidade
A recusa constante de uma das partes, a falta de desejo, a falta de prazer ou formas muito diferentes de viver a sexualidade podem ser um obstáculo sério que acaba por ter impacto na relação. Mas, para Vâniz Beliz, o que acontece a maior parte das vezes é o oposto: os problemas na intimidade são o espelho de alguma coisa que está menos bem na relação. «Para nos entregarmos ao outro temos de estar bem connosco e existe muita gente de costas viradas para si.» E ainda que a partir de certa fase a sexualidade possa não ser um dos grandes pilares da relação, a expetativa comum é que corra bem. «Alterações significativas não justificadas por acontecimentos de vida mais ou menos esperados – nascimento de filhos, situações de doença, etc. – podem ser perturbadoras da relação», diz Catarina Mexia. «A “quantidade de amor” que o outro nutre por mim é muitas vezes aferida pelo interesse sexual demonstrado. Por isso, a sua falta acende muitas luzes vermelhas que nos alertam para a possibilidade do fim iminente da relação.» No entanto, a psicoterapeuta desdramatiza: são muitas as causas para a flutuação do desejo e do interesse sexual e é raro que o grau de interesse coincida em pleno, ao longo de uma relação de casal longa. Como ultrapassar as diferenças? «Investindo em pequenos momentos a dois que valorizem a intimidade do casal – tantas vezes confundida com sexualidade. »

7 _ 1 + 1 = 2? Nem sempre
Esta é uma fórmula que pode ser problemática em dois sentidos: quando a individualidade de cada um não é cultivada e tudo gira em torno do «nós» ou, pelo contrário, quando a soma de dois «eus» não forma um casal. Repare‑se: «Nós gostamos de passar tempo juntos» e «Eu gosto de passar tempo com ele» são duas formulações diferentes que podem dizer muito sobre quem as profere e que demonstram uma mentalidade mais interdependente versus mais independente. Vários estudos, tanto com casais jovens como com casais de meia‑idade, mostram que o uso de pronomes singulares ou plurais indica o nível de comprometimento e dá pistas sobre a satisfação com a relação. E o uso do «nós», quando se fala da relação, deixa entrever um caminho comum, passado e futuro, benéfico à saúde do casamento. Mas cuidado com os exageros, ou a fórmula desequilibra‑se para o outro lado: também a falta do «eu» na relação é perigosa. «Quando estamos num relacionamento não podemos perder-nos nele», diz Vânia Beliz. «Temos de manter a nossa individualidade e preservar o espaço para o que gostamos de fazer, mesmo que isso implique fazê‑lo sozinho ou noutra companhia.»