OPINIÃO

Portugueses que escolheram viver em São Tomé e Príncipe

Trajectos, histórias e alguns sustos de quatro portugueses que se fixaram em São Tomé e Príncipe.

Trajectos, histórias e alguns sustos de quatro portugueses que, ao longo das últimas décadas, se foram fixando em São Tomé e Príncipe e não querem deixar o arquipélago lusófono, perdido no tempo, junto às costas da África ocidental.

Ana Paula Antunes
«Consegui vencer sozinha»
Aos 13 anos foi viver com os tios na Suíça, para estudar e trabalhar: «tomava conta de crianças», recorda Ana Paula Antunes, filha mais velha numa família afetada pelo 25 de abril. Estávamos em 1977 e permaneceria em Genebra até ao início dos anos 1990. Foi então que conheceu o futuro marido, a viver no arquipélago desde 1980. «A minha prima tinha casado com o irmão dele».

Da primeira vez que ouviu falar em São Tomé, «pensava que era lá para os lados do Sri Lanka», diz com um sorriso. De início, o marido tentou ir viver para Genebra, mas não gostou. Tinha nascido em Moçambique, era um africano. Não havia muitas alternativas e, em dezembro de 1992, a primeira vez que veio, foi para ficar. «Por amor», recorda. Casara em julho, em Lisboa, e o que a surpreendeu foi «o verde das montanhas, do mato, o clima de praia todo o ano, as pessoas muito afáveis». E a impressão de ter viajado no tempo. Sim, tinham-na preparado, tinham-lhe dito que em São Tomé não havia nada, que pouco mais era que duas pequenas quintas. Lembra-se de ter ido a uma farmácia para comprar uma chucha, um biberão, e as prateleiras vazias. «A pessoa ao balcão só me disse: já houve, já houve», conta.

O casal abriu uma lojinha no mercado velho, «a primeira loja aberta ao público em dobras». Foi quando lhes nasceu a primeira filha. O comércio privado dava os primeiros passos e Ana ficava na loja enquanto o marido «tratava de tudo o que era importação», produtos de Portugal e da Holanda. Tempos trabalhosos: na alfândega «era tudo muito pesado e burocrático».

A vida prosseguia até que um diferendo com o governo santomense sobre a comercialização de uma importante quantidade de arroz importada pelo marido veio mudar a vida do casal. «Não tivemos autorização para vender o nosso arroz enquanto não fosse escoado o arroz [proveniente do Japão e] controlado pelo governo», diz a portuguesa que tivera, entretanto, uma segunda criança.

«Isso arruinou-nos. O meu marido decidiu isolar-se numa linda roça, Monte Belo», no Príncipe. Hoje é um resort de luxo, operado por uma empresa do milionário sul-africano Mark Shuttleworth. O casal tentou criar um negócio de agro-turismo. De início, o cenário era animador. «Tentámos novas produções, como a baunilha e a pimenta; fazíamos aguardente de ananás, polpa de tomate e de fruta, fiambre. Já tínhamos turistas», mas novo revés espreitava. Ao fim de pouco tempo, os restantes sócios, portugueses, desistiram do investimento e a vida de Ana sofreu uma alteração a 180 graus. «Fiquei sozinha e não consegui manter a roça». Corria o ano de 2002 e as filhas tinham cinco e dez anos, respetivamente.

Foram momentos de provação. «Um dia vou para o emprego» – encontrara trabalho na representação da ONU – «e quando volto, ao final do dia, já não tenho casa». O ex-marido, que iniciara outra relação, movera-lhe uma ação de despejo. Valeu-lhe a solidariedade de portugueses e santomenses. Mas nunca considerou voltar para Portugal. «Fiz uma boa opção. Com duas crianças e sem emprego, que ia lá fazer? Aqui, fiz valer o meu francês». Está convencida de que «valeu a pena ir aos 13 anos para a Suíça», como valeu ficar em São Tomé. «Agarrei-me à terra, dei estabilidade e educação às minhas filhas e consegui vencer sozinha».
Vive hoje tranquila: «não gosto de inventar aquilo que não sou, que não tenho, que nunca terei. E não me imagino a sair daqui». Não acredita que algo grave possa suceder. Afinal, todos se conhecem e «até os golpes de Estado são diferentes».

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António Cristóvão
«Só umas conservas para vender»
Quando chegou, ainda se morria de paludismo. A hipótese de voltar a Portugal pôs-se por mais de uma vez. Mas ficou. «Vinha com o objetivo de trabalhar, mais nada», diz António Cristóvão, nascido em Alpiarça em 1977, proprietário da Intermar, também conhecida como o «supermercado português», no centro da cidade de São Tomé. «Olhava-se em volta, via-se pessoas próximas doentes, havia muitas mortes», recorda. «Mas pensei sempre: se os outros não se vão embora, também não vou», ainda que, a princípio, a permanência fosse no condicional – «vim para ver como as coisas iriam correr».

António veio em novembro de 1997, seis meses depois de os pais comprarem a loja, que estava como que abandonada, «com muito pouca coisa, só umas conservas para vender e pouco mais, além de três empregados que estavam atrás do balcão sem nada para fazer».

O choque inicial não foi só devido ao paludismo. «Tinha 20 anos, vinha de uma realidade diferente. A mudança foi demasiado drástica: não havia, nem há, centros comerciais, cinemas. Às dez da noite, acabava a televisão». Começou por ajudar o pai e a mãe, como «fiel de armazém».

Então, como hoje, deitava-se «às 21h30 e às 5h00» estava a pé. O ritmo de trabalho é idêntico, o negócio é que «foi evoluindo». Explica: «Para ter uma ideia, se hoje fazemos um contentor com um único produto», nos primeiros anos, «era um único contentor com todos os produtos lá dentro, e em pequenas quantidades».
Nos 17 anos que leva em São Tomé, António nota diferenças, por exemplo nos hábitos alimentares: «passou-se do leite em pó para o UHT, não se consumia nem fiambre nem queijo, porque nem todos tinham capacidade para comprar um frigorífico».

O desafio inicial foi o de convencer «as pessoas a entrar no supermercado. Não vinham porque pensavam que era tudo muito caro». Foi preciso «mostrar que éramos honestos, que estávamos aqui para servir bem e para ficar». A loja acabou por ter sucesso. «Foi uma verdadeira pedrada no charco. Era muito diferente de tudo o que havia no final dos anos 1990 no arquipélago». Esta realidade está a mudar, com o aparecimento de um primeiro grande supermercado, das lojas de chineses e outras, «o que obriga a desenvolver a pôr a fasquia mais alto».

Casado desde 2000 e com um filho nascido em 2002, que frequenta o instituto diocesano, a mulher ajuda-o na loja, «trata de tudo o que tem a ver com o público, enquanto eu lido com a parte administrativa, informática, encomendas». António tem hoje sob sua responsabilidade 40 empregados fixos.

A hipótese de voltar a Portugal colocou-se uma segunda vez. Em julho de 2003, o filho não devia ter mais de um ano. «Deviam ser duas ou três da manhã quando vejo aparecer no nosso quintal um militar a disparar à toa com uma kalashnikov e começam os tiros também do outro lado do quintal», [onde morava a então a primeira-ministra Maria das Neves, alvo de uma tentativa de golpe de Estado]. «Não aconteceu nada a ninguém, mas as marcas ficaram». Ainda assim, manteve-se firme e, se algum dia regressar, deixará raízes: «Quero guardar aqui uma casa».

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Inês Gonçalves
«São ilhas mágicas»

«Quando se volta do Príncipe para São Tomé, é como entrar em Nova Iorque. Até tenho medo de atravessar a rua por causa dos carros», diz Inês Gonçalves, fotógrafa e autora de vários documentários, alguns sobre a realidade santomense, seus ambientes e atmosferas, de que fala com entusiasmo. «Aqui damos mais atenção às coisas, temos mais tempo para olhar. Não há tanta pressão. As coisas são menos, mas mais intensas. Vive-se de outra forma». A fotografar desde os 20 anos, tendo passado pelo jornal Independente, a revista Kapa e as produções de moda, que continua a fazer, encontrou no arquipélago o ritmo perfeito para o seu dia a dia. «Faço muito mais coisas do que fazia em Lisboa». Inês considera que «há mais tempos para as coisas interiores, vive-se mais consigo próprio» e o ritmo específico do arquipélago, com a claridade às cinco da manhã e o anoitecer cedo, é o ideal.

A pequena ilha do Príncipe, com os seus cerca de oito mil habitantes e primeira reserva mundial da biosfera da UNESCO, é um universo de tranquilidade e beleza em comparação com a relativa agitação de São Tomé, mas ambas «são ilhas mágicas», diz a fotógrafa, nascida em 1964, em Málaga, de mãe espanhola e pai português.

O que a fascinou em São Tomé, onde chegou pela primeira vez em 2007, para fazer um trabalho para a V Bienal de Artes sobre o Tchiloli, peça de teatro tradicional, foi o de existir tanta coisa que queria fotografar, filmar. E uma realidade não imediata. «Há muitos mistérios em São Tomé, muitas camadas. Falamos de plantas, por exemplo, e todas elas têm histórias, qualidades místicas, lendas. Uma planta não é só uma planta. É muito mais». No arquipélago, Inês descobriu «uma vivência literária, como a construção de um universo» que se vai descobrindo. «Não é a luz que me inspira… são as pessoas, as histórias». Deste interesse, além do trabalho sobre o Tchiloli, nasceu Na Terra como no Céu e um documentário sobre os 25 anos da Declaração dos Direitos da Criança, centrado na realidade santomense.

Tendo acabado por se fixar no arquipélago em 2011, «por razões pessoais, de que não vale a pena a falar», não vê nenhuma razão para partir. Mantém que não houve um dia em que se tivesse arrependido. E sonha ir para o Príncipe ou passar lá mais tempo.

«Esta não é a minha cultura, não são as minhas raízes», concede a fotógrafa e cineasta, mas é o lugar «ideal» para o modo como gosta de trabalhar: «por vários meses, como se fosse uma investigação». Com uma certeza: no seu trabalho, há igualdade. «Quando fotografo, não olho para uma manequim e penso que é diferente de uma senhora do Tchiloli ou do presidente da república».

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João Cardoso
«Está decidido ficar cá»
Chegou em dezembro de 1979 para fazer uma obra subcontratada com uma empresa francesa, a Fillod. E tenciona ficar para sempre. Tinha então mais de uma década de experiência profissional na construção civil, em França, onde chegara em abril de 1964, aos «17 anos e meio». João Cardoso, nascido em 1946, em Cascais, foi para a região de Paris à procura de trabalho. Que não demorou a encontrar. A sua experiência nos armazéns Pinto Basto, no Cais Sodré, em Lisboa, abriu-lhe portas sem dificuldade. Passou por várias empresas, envolveu-se brevemente nos acontecimentos do Maio 68, mas a chegada da mãe nesse ano – «tive de alugar um apartamento e mudar do quarto onde estava com mais três portugueses» – e o ser pai aos 19 anos, «com uma retornada da Argélia», levaram-no a reconsiderar a vida.

«Comecei a trabalhar nas obras». E depressa chegou a chefe de equipa. «Era responsável por cerca de 20 pessoas». Aqui se definiu a vida deste jovem, que completara o curso comercial e «gostava de se divertir». A reputação que construiu tornaram-no colaborador importante para as construtoras francesas na época forte da cooperação gaulesa com o arquipélago de São Tomé. Hoje, passados 35 anos, não tem dúvidas. «Está decidido ficar cá», diz este pai de cinco filhos, um dos quais de mãe santomense. Houve um momento em que pensou voltar a Portugal… «há 20 anos». Agora, já não. As «raízes são demasiado importantes, profundas», diz. Recorda a primeira empresa que criou no arquipélago, sob a sigla francesa: EGM, em que EG significam Empresa Geral e o «M» é sinónimo de «minuserie» (carpintaria). Hoje, é proprietário de um universo de empresas, em que se destaca a Egecon, como sempre, na área da construção.

Para trás, ficou uma longa associação a construtoras francesas que o levaram até outros países africanos e ao Iraque, onde viveu momentos «complicados». Por exemplo, logo na sua primeira visita, em julho de 1979, quando chegou a Bagdad, vindo de Mossul com o ministro da Educação de São Tomé, que deveria ser colocado no aeroporto na manhã seguinte e, pelo caminho, foi preso por ser apoiante do presidente Hassan al-Bakr, que Saddam acabara de depor. Mas nem por isso deixou de voltar ao Iraque, onde alguns dos seus colaboradores foram presos quando a empresa francesa abriu falência e deixou por trrminar as salas de cinema nas bases da força aérea iraquiana, e onde viveria ainda um novo susto. Em junho de 1981, o empresário português estava em Bagdad quando Israel bombardeou a central nuclear de Osirak, um projeto de cooperação com a França, nas imediações da capital do Iraque, «um país violento e complicado». Ao contrário de São Tomé e Príncipe.

Abel Coelho de Morais
Fotografia Paulo Spranger/Global Imagens