OPINIÃO

Quem é Bordalo II? O homem que do lixo faz arte

Transforma lixo em arte, espalhando instalações com grandes animais pelas paredes das cidades. Há um novo artista português nas bocas e nas ruas do mundo.

Texto Ricardo J. Rodrigues | Fotografia de Gustavo Bom/Global Imagens

É final de outubro e estão ali para-choques de carros amolgados, contentores de lixo partidos, teclados de computador inutilizados, pneus de bicicleta vazios. Tudo amontoado no quintal do número 48 da Rua de Xabregas, no bairro lisboeta do Beato, fora do circuito das galerias da capital.

Nos dias seguintes, todo aquele lixo seria transformado em figuras de animais – umas grandes, outras médias, outras pequenas –, para compor uma espécie de jardim zoológico feito de detritos. A 4 de novembro inauguraria, naquele mesmo armazém, a primeira exposição do artista de rua Bordalo II, com o nome Attero, substantivo latino para «desperdício». Até mea­dos desta semana o número de visitantes cifrava-se já em oito mil. As portas continuam abertas até ao próximo domingo, 26 de novembro, no que parece ter-se tornado num dos eventos culturais do ano.

O que é que Bordalo II tem? Para já, tem impacto visual. Algumas das suas criações medem vários andares de altura – e a maior que fez até hoje foi uma andorinha em Lodz, na Polónia, misto de pintura e escultura instalada «na fachada de um edifício com três pisos, mas com um pé-direito tão alto, que na verdade bem podiam ser quatro ou cinco».

«Gosto de trocar os papéis, colocar os animais onde deviam estar as pessoas, fazer delas um terceiro elemento que na verdade somos todos nós.»

É um dos seus Big Trash Animals, figuras de animais que ele replica com rigor científico, só que usando o lixo como material de composição. Para Attero construiu um rinoceronte à escala real. «Tenho a preocupação de ser fiel à fisionomia das espécies que reproduzo, muitas vezes recorro a imagens muito técnicas. A diferença está precisamente nas texturas e nos relevos que crio com todo o desperdício que existe nas cidades.»

Chapa, plástico, bidons e contentores são moldados e encaixados uns nos outros até se tornarem pele de bicho. E, depois, tinta por cima. Pode demorar dois dias, nunca demora mais do que uma semana.

Então há a forma, sim, e é impressionante. Mas aquela zoologia tem uma mensagem e quer atingir toda a gente. «Gosto de trocar os papéis, colocar os animais onde deviam estar as pessoas, fazer delas um terceiro elemento que na verdade somos todos nós.»

São ratos no lugar de homens, para nos fazer pensar qual é a verdadeira praga. São os porcos como símbolo da corrupção e as raposas como ícone da matreirice humana.

«É um misto de crítica social com humor negro, é a materialização da inquietação que sinto com o que está a acontecer no mundo.»

«É na verdade um misto de crítica social com humor negro, é a materialização da inquietação que sinto com o que está a acontecer no mundo.» E o planeta, diz ele, está a tornar-se um lugar perigoso.

O seu primeiro ponto é precisamente o desperdício. Os resíduos que os homens dispensam a uma velocidade alarmante destroem ecossistemas e estão a acelerar a inviabilidade da vida na Terra. Desde que começou a trabalhar com estes materiais, em 2012, já gastou 28 toneladas de resíduos.

«Infelizmente, nunca tenho problemas para arranjar mais lixo. O meu bem é o mal do mundo.» Anda mais em ferros-velhos do que em lixeiras, também tem contactos com autarquias para que lhe entreguem materiais destinados aos aterros. «Além de que a chegada da troika e a introdução das políticas de austeridade levaram ao encerramento de muitas fábricas em Portugal. Esses lugares são inevitavelmente roubados do que é valioso e depois sobra apenas o que ninguém quer. Com o tempo, começam a tornar-se aterros para despejos ilegais. E é nessa imundície que encontro as melhores peças para trabalhar.»

Bordalo II quer falar de sustentabilidade. Os seus bichos, e o seu lixo, bem podem servir de espelho a uma sociedade que privilegiou o dinheiro às pessoas.

Mas não é só a ecologia. Bordalo II quer falar essencialmente de sustentabilidade. Os seus bichos, e o seu lixo, bem podem servir de espelho a uma sociedade que privilegiou o dinheiro às pessoas.

«Desde o final da Segunda Guerra Mundial que o mundo cresceu economicamente sem por isso deixar de olhar para os cidadãos. Cresceram os direitos, a educação e a cultura universalizaram-se. Só que, em meia dúzia de anos, os passos que demos foram para trás deitaram todas as conquistas que tínhamos alcançado a perder.» Fala da eleição de Trump, do crescimento da extrema-direita na Europa, do negacionismo das alterações climáticas.

Os seus animais são por isso a representação dos humanos que preferiram o capital à solidariedade, o benefício de um ao equilíbrio das partes.

Na exposição que agora decorre no Beato não há só gigantescas figuras de animais, os Big Trash Animals. Também há um núcleo chamado World Gone Crazy, que inverte em relevos emoldurados o papel dos homens e da fauna. E outro que são os Mixed Trash Animals, em que as técnicas de pintura se mesclam com a escultura em lixo.

É como se aqui coubesse uma retrospetiva de uma obra que é recente mas intensa. Só este ano, Bordalo II já leva 23 peças feitas. O facto de ter agora este armazém para trabalhar descomplicou o processo produtivo.

O percurso de Bordalo II começa a traçar-se na infância. Nascido Artur Bordalo em 1987, em Lisboa, teve no avô referência para se transformar em artista plástico.

O armazém em Xabregas pertence aos donos do Hotel 1908, recentemente recuperado no Intendente e onde há dois trabalhos seus. Vai ser transformado num complexo de estúdios e apartamentos mas, enquanto isso não acontece, é galeria e ateliê, a crisálida para uma nova biologia do lixo.

O percurso de Bordalo II começa a traçar-se na infância. Nascido Artur Bordalo em 1987, em Lisboa, teve no avô uma figura primordial para se transformar também ele em artista plástico. Real Bordalo, que nasceu em 1925 e morreu em junho deste ano, pintou dezenas de óleos e aguarelas das paisagens urbanas de Lisboa.

Tem, aliás, a sua obra representada em vários museus do país e em coleções privadas de França, Itália, Japão, Estados Unidos e Alemanha. O nome que o neto escolheu para se identificar, Bordalo II, é uma homenagem às raízes plásticas familiares. Até porque ambos partilhavam o mesmo primeiro nome: Artur.

São escolas diferentes, claro, mas o Bordalo de 30 anos consegue encontrar pontes entre ambos. «O trabalho do meu avô assenta na cor, no degradé, num equilíbrio de espaços. A base das suas aguarelas era ver a cidade como ela era.» Realismo puro, sobretudo no retrato de edifícios, praças, veículos, movimentos urbanos.

Bordalo II é simultaneamente pintor e escultor, graffitter e soldador. Trolha, como ele gosta de dizer.

«Os seres humanos que aparecem nas obras dele povoam esses espaços, são uma espécie de sombras que compõem a urbanidade. Então eu pego nessa ideia de sombra humana para transformá-la em crítica, para torná-la negra.» Se o primeiro viu o mundo onde a humanidade se movia, o segundo quer resgatá-la de si mesma, para que o mundo se possa salvar. Onde Real Bordalo era suave Bordalo II é quase rude.

Mas é como se, ainda que avancem por caminhos diferentes, trabalhassem para a mesma harmonia: a dos humanos com o espaço que eles habitam.

Tal como o avô, o rapaz estudou nas Belas-Artes, em Lisboa. Mas nunca acabou o curso. «Comecei a entusiasmar-se por algumas disciplinas que não conferiam créditos suficientes, mas onde me empenhava bastante.» Estava em pintura, a teoria não lhe interessava assim tanto.

«Foi assim [com o graffittti] que aprendi a arrombar portas, o que se revelou muito útil anos mais tarde, para entrar em fábricas e encontrar materiais.»

Já as aulas de mosaico, cerâmica, vidro permitiam-lhe testar-se e testar novas técnicas, tanta coisa podia fazer se misturasse todas aquelas artes. Hoje, é precisamente na mistura que encontrou o caminho. Bordalo II é simultaneamente pintor e escultor, graffitter e soldador. Trolha, como ele gosta de dizer.

Graffitti foi a sua escola inaugural, na adolescência. «Foi assim que aprendi a arrombar portas, coisa que se revelou muito útil anos mais tarde, para entrar em fábricas e encontrar materiais.» Tinha uma crew, não revela com quem porque nem sempre as atividades que cumpriam eram legais – e para incriminar alguém basta-lhe ele próprio.

Hoje quase desistiu de fazê-lo, «menos de cinco por cento do meu trabalho é graffitti.» Essa arte, diz ele, é egocêntrica, e a ele interessa-lhe mais confrontar o mundo. «Basicamente tu escreves o teu nome para que os outros te vejam, o que se formos a ver bem é uma coisa bastante narcisista. Não falo de murais onde se cria arte, isso é outra coisa. O que eu fazia eram puros exercícios de ego.»

Em 2012, então, arrancou com os primeiros projetos a sério. Foi em duas fábricas que tinham fechado portas em Cabo Ruivo, nelas construiu os primeiros animais que fotografou e se foram espalhando pela net.

E foi, precisamente, pelas redes sociais que alcançou a dimensão internacional que tem hoje. «Fiz uma série de obras em lugares abandonados, fotografava e mandava essas imagens para plataformas de divulgação especializadas em artes urbanas.»

A parte maior do trabalho de Bordalo II acontece em festivais de arte urbana, instalações edificadas por encomenda. O primeiro de todos, foi nos Açores, o Walk and Talk.

Primeiro, saíam artigos pequenos, pouco mais do que notas em listagens de arte urbana. Mas a partir de 2015 começaram a reparar a sério nele. Um blogue de arte chamado Colossal, depois os sites Bored Panda e High Frutose congregaram milhões de visualizações para o que andava a fazer. «E, a partir daí, foi uma avalanche.»

A parte maior do trabalho de Bordalo II acontece em festivais de arte urbana, instalações edificadas por encomenda. O primeiro de todos, foi nos Açores, o Walk and Talk, mas a partir de 2015 começou a ser convocado para os maiores eventos do mundo – como o NuArt da Noruega ou o Life is Beautiful em Las Vegas. Choviam encomendas da Polónia, de Itália, um ano depois os seus animais foram levantados em paredes de lugares como a Cidade do México e o Taiti, Miami ou Aruba.

Nesta galeria de imagens está um coelho que instalou em junho em Vila Nova de Gaia, para a primeira edição do festival Gaia Todo Um Mundo. Chama-se Half Rabbitt, porque metade é coberto com tinta e a outra mostra os materiais originais, sem qualquer cobertura. É uma das 88 peças que tem expostas nas ruas do mundo.

«Em média, cada uma das minhas obras tem dois a três anos de existência»

«Só 20 por cento do que faço está em solo português. O meu trabalho chamou primeiro a atenção lá fora, só depois começou a falar-se dele aqui.» A exposição Attero também tem sido marcada pela internacionalização. A curadora, Lara Seixo Rodrigues, diz que tem havido grande afluência de visitantes europeus, e bastantes da China, dos Estados Unidos e da Austrália.

Uma parte do fascínio que há em ver esta exposição é perceber que ela é efémera, todas as peças desaparecerão um dia. «Em média, cada uma das minhas obras tem dois a três anos de existência», explica Bordalo II.

É da natureza do lixo voltar ao seu estado primitivo, depois de se ter tornado arte. E isso não o incomoda nem um bocadinho, porque aquele é um trabalho orgânico. O artista deu vida aos detritos, afinal, com o objetivo de chamar a atenção sobre eles. «Há uma escultura de uma abelha que fiz para a LX Factory que está agora a ser tapada por ervas. As trepadeiras estão a invadir o lixo, a apoderar-se dele.» Nisto, solta uma gargalhada. «Acho isso maravilhoso.»

Real Bordalo e Bordallo II, o avô e o neto

Artur Bordalo, 30 anos, escolheu o nome artístico Bordalo II em homenagem às raízes plásticas familiares. É neto do pintor Real Bordalo (foto em cima), autor de óleos e aguarelas das paisagens urbanas de Lisboa. O avô (que morreu em junho deste ano) pintou a cidade tal como a via. O mundo onde a humanidade se movia. O neto, por outro lado, quer resgatá-la de si mesma. Onde Real Bordalo era suave Bordalo II é quase rude.

Half Rabbitt, em Vila Nova de Gaia.

Onde ver (por enquanto) obras de Bordallo II em Portugal

  • Bragança: Wild Boar (2016); Gineta (2016) e Urban Camouflage (2014) Avenida João da Cruz
  • Vila Nova de Gaia: Half Rabit (2017) Rua Guilherme Gomes Fernandes
  • Estarreja: Guarda Rios (2015) Pavilhão Municipal de Estarreja
  • Viseu: Lince Ibérico (2016) Carmo 81
  • Águeda: Pisco (2017) Rua 5 de Outubro
  • Covilhã: Owl Eyes (2014) Largo Senhora do Rosário
  • Fundão: Wolf (2016) Estação de Comboios
  • Idanha-a-Nova: Trash Globe (2016) Boom Festival
  • Alcains: Grifo (2016) Rua Sanches Semedo
  • Salvaterra de Magos: Lutra Lutra (2017) Ecofestival CERAS
  • Leiria: Hal Heron’s; Family (2017) Rua de Tomar
  • Loures: Garça (2014) Rua Pêro Escobar
  • Lisboa: Pi G (2016) Rua Rio Douro; Bee (2016) LX Factory; Dove White Dove (2016) Católica Business School; Racoon (2015) Centro Cultural Belém; Peixes d’Alcântara (2015) e Osga (2015) Avenida de Ceuta; Raposa (2017) Av. 24 de Julho; Chimpanzé (2017) e Sapo (2017) Rua de Xabregas
  • Costa de Caparica: Polvo (2016) Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental
  • Montijo: Trash Head Donkey (2017) Avenida de Pescadores
  • Beja: Portu-Galo (2017) Núcleo Museológico da Rua do Sembrano

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