OPINIÃO

Bandas de empresa: quando o trabalho se transforma num festival

Há empresas que têm bandas e há um festival que as leva a palco, faz a festa e ainda distribuiu dinheiro por causas sociais. Brands Like Bands está na quinta edição. Os primeiros concertos aconteceram no Hard Club, no Porto, e nós estivemos nos bastidores. Segue-se Lisboa no dia 21 no Time Out Market a partir das três da tarde.

Texto Sara Dias Oliveira | Fotografias de Pedro Granadeiro/Global Imagens

É sábado à tarde e os testes de som não param. Não há tempo a perder porque à noite há concertos e nem sequer importa que haja jogo da seleção nacional à hora do arranque. O Hard Club, no Porto, está a postos para receber a primeira parte da quinta edição do Brands Like Bands, um festival de bandas de empresas que se intitula único no mundo porque os outros têm competição à mistura.

Este não. Não é um concurso, são concertos de bandas que juntam colegas de trabalho e que repartem a totalidade das verbas dos bilhetes vendidos a três euros por causas sociais.

Este ano, o dinheiro vai para a associação Nomeiodonada e para o seu Kastelo, unidade de cuidados continuados e paliativos para crianças e jovens até aos 18 anos, e para o IPO de Lisboa comprar um ecógrafo para radiologia mamária.

E como se quer a máxima transparência, a bilheteira é orientada pelas associações beneficiadas. A organização e as empresas asseguram os custos inerentes ao festival.

Estado Crítico é a banda da Critical Software, empresa de software e sistemas de informação de Coimbra, que ensaia no hall da empresa às sextas-feiras à hora de almoço. Este ano, estreou-se no Brands Like Bands.

Todas as sextas-feiras, das 13h00 às 14h00, há música no hall da Critical Software, empresa de software e sistemas de informação, com sede em Coimbra. Há jam sessions à hora de almoço e a banda Estado Crítico aproveita para ensaiar umas coisinhas até porque este ano estreia-se no Brands Like Bands.

A banda é recente, surgiu no aniversário da empresa em junho do ano passado. Carolina Simões, engenheira de software, é o único elemento feminino da banda. Tem formação em canto, canta num coro, e o festival é uma oportunidade de fazer as vontades à sua voz. Em cima do palco, a poucas horas de começar o festival no Hard Club, canta Michael Jackson. No alinhamento estão Police, Amy Winehouse, Já Fumega. «Até sabe melhor ir à empresa, sabendo que podemos cantar e tocar», comenta.

Estado Crítico, da Critical Software, empresa de Coimbra, estreou-se no Brands Like Bands com músicas de várias gerações.

João Monteiro, também engenheiro eletrotécnico, é músico de vários instrumentos, toca congas, guitarra, teclas. O Estado Crítico é uma forma de manter viva a música, uma paixão de algum tempo. «É bom, é interessante, é uma experiência nova». Tocar no hall da empresa não é para todos e agora surge a participação no festival de bandas de empresas. «É giro, é algo fora do comum, estamos todos juntos, vemos outras bandas, e conhecemos o resto da malta», diz.

O teste de som da Cision, empresa que acompanha tudo o que acontece no mundo da comunicação social para disponibilizar serviços e ferramentas a empresas, começa com rock. Muito rock. O alinhamento andará pelos U2, Rolling Stones, Xutos, pelo rock dos anos 80. Os nove elementos divertem-se, entre guitarradas, cantorias, afinações para aqui, afinações para ali.

The Dudes são a banda da Cision que começou com uma brincadeira na festa de Natal da empresa. Hoje ensaiam numa sala em Coimbra e tocam sobretudo rock dos anos 80.

Uriel Oliveira, diretor de operações em negócios, licenciado em Comunicação Empresarial, teve uma banda de garagem aos 16 anos e o bichinho ficou. Há cinco anos, na organização da festa de Natal da empresa, alguns colegas juntaram-se, decidiram não incomodar ninguém e fizeram uma surpresa com um concerto. Resultou.

O tempo entretanto passou e o festival de bandas de empresas foi o motor que faltava. Toca a reunir os elementos, formar a banda, batizá-la como The Dudes, e no ano passado a estreia no festival aconteceu em Lisboa e no Porto. Este ano voltaram à carga no Porto.

The Dudes são a banda da Cision que começou com uma brincadeira na festa de Natal da empresa.

«Não é fácil conciliar trabalho, família, mas consegue-se sempre um bocadinho para ensaiar», diz Uriel. Sala alugada em Coimbra, disponibilidades conciliadas, e pelo menos um ensaio por semana nos últimos cinco meses. «Gostamos de música, fazemos o que gostamos, podemos extravasar. É uma festa e quando estamos aqui não pensamos em mais nada», diz Uriel.

Cátia Almeida, que estuda o comportamento dos media para os reportar a empresas, com curso de Ciências da Informação, e Carla Gonçalves, licenciada em Inglês, Alemão e Literaturas Modernas, são as animadas vozes femininas da banda – há mais duas masculinas igualmente animadas. «É uma paixão que temos pela música e de estarmos uns com os outros», explica Carla que trouxe os filhos pequenos para o festival e que saltam e pulam na plateia.

«Aventura musical, aventura humana»

O palco parece pequeno demais para a Banda Autêntica da Unicer, dez elementos do departamento de vendas, do call-center, mais oito no coro de vários setores, para relembrar as músicas dos anúncios que ficam nos ouvidos.

O grupo é muito recente, tem poucos meses, começou a formar-se em abril deste ano depois de um desafio para um momento musical surpresa na inauguração do novo edifício da Unicer em Leça do Balio, Matosinhos.

A Banda Autêntica, da Unicer, é muito recente. Surgiu como uma surpresa numa festa da empresa e este ano, tocou pela primeira vez no Brands Like Bands. Foto D.R.

A coisa correu bem e tanto assim foi que a banda tem um estúdio na empresa para ensaiar, os horários são geridos entre todos. Filipe Oliveira trabalha na área de exportação da empresa é o baterista da banda, toca guitarra numa música e entra com a voz noutra. E é uma animação. «Demos um bom concerto na empresa, as pessoas não estavam a contar, foi muito engraçado ver a reação das pessoas», recorda.

Agora é o momento da segunda atuação da banda, a estreia no festival de bandas, e em novembro já há concerto no encontro de trabalhadores. Filipe está contente com a participação, com o convívio, com ver em cima do palco bandas de outras empresas.

Em Lisboa, estão 10 bandas em contagem decrescente para o festival marcado para sábado, dia 21, no Time Out Market Lisboa, a partir das 15h00. Uma delas é a Outliers on Fire do Instituto Nacional de Estatística (INE).

«O que nos define é: Fora da norma, longe da média, num universo paralelo ao mundo dos números, existem os Outliers e estão ao rubro. Os Outliers On Fire procuram espalhar a alegria da música dentro e fora do INE»

É uma estreia no festival, os ensaios são depois do trabalho às terças-feiras à noite com todos, às quintas com que pode, numa sala disponibilizada pelo conselho diretivo do INE. Fátima e Paula, do departamento de Estatísticas Económicas, são as cantoras de serviço – Red Fá e Paula Sherazade como nomes artísticos. Cristina, da recolha de informação, está na guitarra. Luís, Jorge e João Paulo, homens da informática, na guitarra, no baixo, na bateria, respetivamente.

A banda nasceu no início do ano passado quando alguns membros do Grupo Desportivo do INE lançaram o desafio de reunir no mesmo grupo pessoas com paixão pela música. No início eram 11, agora são seis. «Muitos nem sequer se conheciam antes. Começámos do ponto zero», diz Fátima Moreira.

Outliers On Fire é a banda do Instituto Nacional de Estatística constituída por colegas de trabalho de vários departamentos. Foto D.R.

O nome tem uma explicação. «O nome da banda foi escolhido como referência à nossa atividade. O que nos define é: Fora da norma, longe da média, num universo paralelo ao mundo dos números, existem os Outliers e estão ao rubro. Os Outliers On Fire procuram espalhar a alegria da música dentro e fora do INE». São um grupo coeso, de companheirismo e partilha, a que chamam clã.

A música anda em torno do ideário hippie. «Mas vale tudo. Sons predominantemente dos anos 60 e 70, abrangendo outras décadas com músicas que seguem sempre o espírito de difusão da alegria». E tem valido a pena.

«Ter uma banda com colegas de trabalho é uma oportunidade única de estreitar laços e conhecer talentos de colegas de trabalho, que num ambiente meramente profissional seria praticamente impossível de acontecer», diz Fátima Moreira.

«Ter uma banda com colegas de trabalho tem sido uma enriquecedora aventura, uma aventura musical, mas também uma grande aventura humana. É uma oportunidade única de estreitar laços e conhecer talentos de colegas de trabalho, que num ambiente meramente profissional seria praticamente impossível de acontecer. O ambiente é mesmo muito bom».

Em Lisboa, estarão bandas de empresas da Siemens, da Liberty Seguros, da PLMJ – Sociedade de Advogados. A PLMJ sobe ao palco com a banda Fora da Lei, nove elementos, quatro dos quais vozes, e com músicas conhecidas de 1967, canções que têm 50 anos, exatamente os mesmos do escritório que está a comemorar meio século de vida. Joe Cocker estará no alinhamento.

A banda surgiu há nove anos, para o festival Rock in Law, e seguiu o seu caminho. Saem uns, entram outros. «É de geometria variável, assim como os ensaios, de geometria variável, é difícil estarmos todos juntos ao mesmo tempo», diz Luís Pais Antunes, advogado e teclista da banda.

«A banda é também um instrumento de integração dos jovens que entram no escritório, alguns já tocaram em bandas, outros gostam de música», diz o advogado Luís Pais Antunes.

Os ensaios acontecem na sede do escritório da sociedade de advogados, em Lisboa. Há quem tenha formação clássica, há quem tenha jeito para tocar instrumentos, mas todos são amadores. «A banda é também um instrumento de integração dos jovens que entram no escritório, alguns já tocaram em bandas, outros gostam de música». Antes do Brands Like Band, os Fora da Lei estarão todos juntos para o ensaio geral antes do espetáculo no Time Out Market.

E como começa este festival? Com a Brands Like Bands, empresa de consultoria interna que vai buscar inspiração a bandas para tentar resolver questões operacionais. Nesse trabalho, Fernando Barros ouviu tantas vezes que havia gente nas empresas que davam uns toques na música, uns que cantavam umas coisas, outros que arrancavam sons a instrumentos, que a ideia de criar uma coisa organizada começou a fazer sentido. Concretizou-se há cinco anos com um festival num domingo à noite no Hard Rock em Lisboa. «Vimos um entusiasmo tão grande que decidimos fazer de outra forma», conta.

«as bandas levam isto mesmo a sério, é uma coisa muito genuína, uma coisa endémica», diz Fernando Barros, da Brands Like Bands.

No segundo ano, no mesmo sítio, nove bandas, três dias, e o festival pegou. «As bandas levam isto mesmo a sério, é uma coisa muito genuína, uma coisa endémica. Quando vão tocar não vão vender a empresa, não têm o discurso comercial».

É como um encontro de amigos. «O segredo não é o que acontece no dia do festival, o segredo é o que acontece antes, a dinamização que fazem». O festival acaba por funcionar como o pretexto para fazer o gosto às cantorias ou voltar a pegar no instrumento que foi encostado a um canto.

«Não é um concurso porque não existe uma nuvem negra entre as bandas, a competição é para os outros dias», refere. A ideia inicial era fazer cinco edições. E isso está quase cumprido. E depois? «Para o ano, logo se verá», responde Fernando Barros. Mas que há vontade de continuar, há. «Há aqui qualquer coisa, uma energia inexplicável», comenta.

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