Tenho o nariz entupido, dói-me a garganta e a cabeça e estou com febre. Será grave, doutor?

[…]

– Achas que é grave, esta dor? É melhor ir ver isto, não? Se isto aumenta depois é pior e tenho de ficar internado.
– Estás a falar de quê?
– Desta dor de garganta e do corpo. Isto é um vírus. Já me está a atacar os olhos também.
– Claro que está a atacar os olhos. Também te dói a barriga?
– Sim, dói. Sabes o que é? Conheces alguém que esteja assim?
– Neste momento? Para aí um terço da malta lá do escritório. Outro terço já esteve assim. E o outro ainda vai estar.
– Com este vírus?
– Sim. Sabes como é que se chama? Influenza. Mas é mais conhecido por gripe.
– Não me chateies. Isto não é uma gripe.
– Ai não? Garganta inflamada, dores no corpo, espirros com fartura e nariz entupido. E daqui a pouco estás com febre. Isso é o quê?
– E esta dor na barriga? E no peito?
– Isso é de tanto espirrares e tossires.
– Porque é que nunca dás importância às minhas coisas? Eu posso estar doente. Gravemente doente.
– Eu sei. Desculpa. Sou eu que estou stressada, desculpa. Diz lá, fala comigo. Onde é que dói mais? Achas que chame um médico? Ou é melhor uma ambulância? E podes ligar ao teu primo, que é polícia, para mandar uns batedores.
– Estás divertida? Já acabaste?
– Olha, tive uma ideia melhor: em vez de chamar a Brigada de Urgência das Doenças Infetocontagiosas, com aqueles fatos de isolamento e tudo, vou chamar a maior especialista em doenças tuas: a tua mãe. Ela ouve-te as queixas e não ignora nem uma.
– Ainda bem que te deixo bem-disposta. Eu vou calçar-me para ir às urgências. Se quiseres vir comigo és bem-vinda.
– Sim, eu vou. Fico com os teus pertences quando te internarem.
– Tu sabes que isto pode ser grave, não sabes?
– Se for grave e estiveres mesmo com uma doença marada, eu engulo estas palavras todas e peço desculpa. Neste momento eu acho que tu estás é com gripe e estás a fazer uma fita desgraçada.
– E se isto for um daqueles vírus tropicais?
– Estiveste no Brasil recentemente? Ou na Guiné Equatorial? Foste ao Haiti? Não dei pela tua ausência, fizeste bem as coisas. Algum colega teu veio de um país em guerra, onde não há água canalizada e trouxe um mosquito sanguinário escondido na bagagem? É isso? Ou então – espera, acho que já descobri – és tu que estás armado em piegas e já estás com a conversa de homem às portas da morte só porque está com gripe. A diferença é que desta vez veio em novembro.
– Lá vem a conversa dos homens a queixarem-se e das mulheres serem umas valentes.
– Tu ouves-me a chorar por aí quando estou com febre? Ouves-me a dizer que me vou enfiar na cama com um chá quente e as luzes apagadas e que preciso de uma canja? Ouves-me dizer que vou para as urgências porque pode ser grave e se me atraso muito ainda tenho de ser internada? Não ouves, pois não? Porque é que achas?
– Lá porque tu tens mais resistência à dor não significa que as minhas doenças sejam menos graves do que as tuas.
– Sabes que mais? Vai ao hospital. Vai. Precisas de passar oito horas à espera para ouvires um médico receitar-te pastilhas para a garganta.
– Não vens comigo?
– Não. Fico em casa para avisar a família de que vais ficar internado e de quarentena. Posso usar o teu carro, estes dias?

[Publicado originalmente na edição de 27 de novembro de 2016]