OPINIÃO

Urgências vistas de dentro

Nas últimas semanas, o país alarmou-se com uma série de casos de mortes nos serviços de urgência.

Os médicos internos estão na linha da frente do atendimento aos doentes nas urgências dos hospitais. Numa altura em que estes serviços estão a atingir o ponto de rutura, juntámos cinco destes profissionais, de diversas especialidades e de vários hospitais. Um olhar sobra as urgências do ponto de vista de quem lá passa muitas horas por semana.

«É angustiante sentir que não se consegue controlar tudo», diz Ana Sofia Ventura, 31 anos, internato da especialidade de Medicina Interna concluído há poucos meses no Hospital Fernando Fonseca (mais conhecido por Amadora-Sintra), um dos hospitais da Grande Lisboa que tem sido notícia devido a lon­gas esperas no serviço de urgência. «As horas passam e os doen­tes continuam chegar, nunca baixamos os braços, aquilo que fa­zemos é dar resposta aos que precisam mais. O problema é que as situações mudam. Uma situação que parece controlada po­de mudar de um momento para o outro, temos de estar atentos a tudo o que está a acontecer, às vezes temos cinco reanimações em simultâneo», exemplifica, para que quem está de fora consi­ga compreender o que representa o esforço das equipas. «Os pi­cos de afluência tornam o trabalho muito mais complexo e mui­to mais difícil, damos tudo de nós e mesmo assim não consegui­mos chegar a todos.»

O cenário não será diferente de anos anteriores mas, nas últimas semanas, o país alarmou-se com uma série de casos de mortes nos serviços de urgência. Em algumas situações, as pessoas morreram enquanto  esperavam para ser observadas por um médico. Três ca­sos estão a ser investigados pelo Ministério Público. Nas televisões surgiram profissionais de saúde com vo­zes distorcidas que, sob o anonimato, relataram cenários «de guerra» nos hospi­tais. Vídeos feitos no interior das unida­des de saúde mostraram serviços repletos de gente que, por falta de camas nas en­fermarias, ficam em macas nos corredo­res. No Hospital Garcia de Orta, o elevado número de doen­tes internados na urgên­cia e a degradação das condições de tra­balho de um modo geral, foi um dos motivos invocados para a demissão em bloco dos chefes de equipa do serviço de urgên­cia, conhecida na semana passada.

O Ministério da Saúde argumenta que, neste inverno, têm acorrido aos hospitais mais doentes idosos, com patologias gra­ves, que exigem maior complexidade nos cuidados prestados. As temperaturas bai­xas, as infeções respirató­rias e a gripe são a explicação avançada para o aumento da procura e para o acréscimo da mortalidade total que se verificou no país.

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Ana Sofia Ventura (na foto) não tem dúvidas de que o hospital onde trabalha necessita de mais camas para internamento e de mais profissionais de saúde, mas alerta que o principal problema é o de ser­vir uma população em número muito superior àquela para que foi projetado há vinte anos. Um problema estrutural que conti­nua sem solução. «Tenho um colega que arranjou esta imagem que me parece feliz: o nosso hospital foi construído junto ao lei­to de um rio que todos os invernos sabemos que vai transbordar e inundar o hospital. Em vez de ser encontrada uma solução, sejam barragens, comportas ou desvio do leito, a sensação que temos é de que somos nós, com baldes de água, a tentar tirar a água, ou seja, a tentar limitar os danos.»

Mas não é apenas a urgência do Hospital Amadora-Sintra que parece pequena e incapaz de dar resposta a todos os que a pro­curam neste período do ano. Nuno Fradinho (na foto em baixo) também tem enfrentado horas difíceis em São José (Centro Hospitalar de Lis­boa Ocidental), onde se encontra no sexto e último ano da espe­cialidade de Cirurgia Plástica. Em momentos de forte afluência, quando a urgência fica cheia de doentes, a prioridade, diz, é tratar as situa­ções mais graves. Em relação aos casos menos graves sustenta que, a partir de determinado ponto, deve ser assumido que «não é possível dar o melhor tratamento a cada um». O interno considera que o exces­so de procura é apenas parte da explicação para a situação complicada que se vive: «Es­tamos a passar para uma zona cinzenta. Te­mos falta de blocos, de anestesistas, há falta de material, há falta de macas, houve todo um desinvestimento e muitos profissionais de saúde estão desmoralizados. A urgência torna-se muito pesada», diz.

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Luís Campos, autor do Roteiro de Inter­venção para Cuidados de Urgência e Emergên­cia também considera que o problema não está do lado do excesso de procura, «já tive­mos anos piores», afirma. Os hospitais, por diferentes motivos, é que estarão com menos capacidade de res­posta [ver entrevista].

São questões que ultrapassam a organização dos serviços de urgência e quem está na linha da frente a atender os doentes são muitas vezes os médicos que cumprem o internato da especia­lidade nos hospitais. «Quem está lá somos nós, para o bem e pa­ra o mal», lembram os médicos internos, uma força de trabalho essencial nas urgências. São médicos que já terminaram o curso e que estão no período de formação pós-graduada que conduz à obtenção da especialidade. Há equipas constituídas maioritariamente por internos, em parte porque os mais velhos podem optar por deixar de fazer bancos a partir dos 55 anos, o que é cada vez mais frequente.

Nuno Gaibino, a cumprir o segundo ano de internato de Medi­cina Interna no Hospital de Santa Maria (Centro Hospitalar de Lisboa Norte), admite que seria desejável que as equipas fossem constituídas por mais especialistas. Além da diminuição do va­lor das horas extra – motivo que terá leva­do muitos médicos a deixar de fazer urgên­cia a partir da idade em que podem optar –, recorda a política de limitar o número de entradas nas faculdades de Medicina, que vigorou durante anos, e que também é responsável pelo atual fosso de idades. Embo­ra reconheça que a situação não é a ideal, vê como muito positivo o contributo dos inter­nos para o trabalho das equipas nas urgên­cias e sublinha que, em alguns hospitais, em vez de internos, há equipas fixas constituí­das por médicos «indiferenciados» – que não concluíram a especialidade – e que têm menos formação do que os internos.

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Nuno Gaibino (na foto em cima com Edson Oliveira, à direita) nunca sentiu falta de apoio na tomada de deci­sões e aponta o trabalho em equipa como uma das mais-valias quando está de serviço na urgência. Ana Sofia Ventura concorda, embora admita que os papéis do «interno-trabalhador» e do «in­terno-estudante» podem ser difíceis de conciliar.  A realidade é diferente de hospital para hospital e «nem sempre conhecemos a realidade toda», reconhece Edson Oliveira, do Conse­lho Nacional do Médico Interno (CNMI), o organismo da Ordem dos Médicos que representa os internos. Quando são denuncia­dos casos de abusos, o CNMI intervém e tenta corrigir.  Por lei, os internos têm de estar sempre sob a alçada de um especialista, «mas não é fácil, do ponto de vista de um jovem médico, fazer a denúncia quando a legislação é atropelada», diz.

Marta Correia (na foto de abertura), recém-especialista no Hospital de Vila Franca de Xira, sublinha que em unidades de saúde de menor dimensão há equipas constituídas por um único médico especialista e vários internos. «Por vezes são os internos de quarto ano a acompa­nhar os de primeiro, o que não é suposto.» Por outro lado, apon­ta Nuno Fradinho, existe uma forte pressão das administrações para assegurar as escalas da urgência. «Todos já trabalhámos 110 horas por semana», assume Edson Oliveira, lembrando que, em geral, os internos fazem «bancos duplos», ou seja de 24 ho­ras, e podem ser até três por semana. «Os internos fazem muitos bancos, é crucial para progredir na carreira até certo ponto, mas depois não é fácil dizer que não». Um trabalho que classificam de «desgastante», tanto física como psicologicamente, mas funda­mental para aprender, ganhar experiência e segurança. «É cru­cial para a formação de qualquer cirurgião e é a base de toda a for­mação inicial»,  explica Edson Oliveira, no quinto ano do internato da especialidade de Neurocirurgia no Hospital de Santa Maria.

Marta Correia terminou há poucos meses o internato de Pedia­tria no Hospital de Vila Franca de Xira. «É uma área em que senti­mos, desde o início, que há uma forte necessidade de nos tornar­mos autónomos para sermos mais úteis.» Nuno Fradinho, prestes a concluir a especialidade de Cirurgia Plástica, subscreve a ideia de que é no serviço de urgência que o trabalho dos internos assu­me maior relevância dentro dos hospitais. «É onde nos sentimos mais úteis no apoio direto aos doentes e onde ganhamos a mão, o que em cirurgia é essencial. Mais de metade dos doentes que operei vinham da urgência.»

Para além de «ganhar a mão»,  Ana Sofia Ventura considera que o trabalho na urgência coloca inúmeros desafios: «A multiplici­dade de patologias, aprender a distinguir o que é crónico do que é agudo, tudo isso nos torna mais experientes.» A componente do trabalho em equipa constitui motivação acrescida para a recém-especialista de Medicina Interna. «É a grande vantagem da ur­gência, o trabalho em equipa. Por vezes vivemos situações-limi­te em que temos de tomar decisões muito rapidamente, mas tra­balhamos sempre em equipa.» Na urgência são ainda adquiridas outras competências, que ultrapassam a parte clínica: «É uma es­cola de vida, também do ponto de vista humano, saber como co­municar as más notícias, aprender a lidar com a morte, com as famílias…» Nuno Gaibino, 27 anos, diz mesmo que é «uma esco­la única», esclarecendo que escolheu Medicina Interna porque sempre quis trabalhar na urgência. «Quem está de fora dificil­mente percebe, vivemos situações-limite. Quando observamos um doente, o nosso pico de adrenalina é enorme até conseguir­mos fazer o diagnóstico. Poucos segundos podem fazer a diferen­ça.»  Ana Sofia Ventura ainda se lembra do frio na barriga quando, na fase inicial do internato da especialidade, ouvia tocar as cam­painhas das salas de reanimação, sinal da chegada de doentes crí­ticos. Edson Oliveira concorda que, na fase inicial do internato, é difícil controlar o nervosismo. «No primeiro ano quase tremia quando ia fazer urgência, mas é fundamental para aprender a li­dar com o stress, com o imprevisto», experiência que depois se re­vela muito útil.

Apesar de ser um trabalho de que todos falam com os olhos a brilhar, afastam a hipótese de vir a integrar equipas «dedicadas» (equipas fixas) e fazer apenas isto. A palavra não é proferida em coro e com ênfase. «Todos gostamos de fazer urgência, mas tem a desvantagem de perdermos a experiência da enfermaria onde podemos seguir os doentes», argumenta Ana Sofia Ventura.

Ainda assim, para Nuno Gaibino os dias preferidos da semana são aqueles em que está de banco na urgência central do Hospi­tal de Santa Maria, apesar do rombo para a vida pessoal. «A mi­nha primeira casa é o hospital e depois tenho a minha, a que só vou de vez em quando, mudar de roupa e pouco mais. É o úni­co senão, às vezes penso que devia vender a minha a casa e fi­car a viver definitivamente no hospital», diz, em tom meio sé­rio meio a brincar.

Quando se fala nos sacrifícios a nível da vida pessoal, todos con­cordam que é a grande desvantagem de assegurar o trabalho na urgência vários dias por semana. «Ganhamos cabelos brancos mais depressa», diz Nuno Fradinho, que define como «agridoce» a sua relação com a urgência do Hospital de São José.

Vida de interno não é fácil, garantem, e não é certamente o di­nheiro que os faz correr. O trabalho na urgência é pouco apela­tivo economicamente: «Trabalhei na urgência no Natal e no fim do ano e ganhei 60 euros líquidos em cada uma das noites. É di­fícil para os outros perceber o que nos move. É preciso gostar muito disto.»

Joana Bénard da Costa
Fotografia: Gerardo Santos/Global Imagens