OPINIÃO

Um crocodilo não é feliz a ser girafa

Em Constrói a Tua Felicidade, o psicoterapeuta Vítor Rodrigues ensina-o a ser feliz. Quer experimentar?

Caímos em depressões constantes, andamos tristes, e não só não conseguimos sair dessa espiral de sofrimento como nos parece uma meta inalcançável. Constrói a Tua Felicidade (ed. Esfera dos Livros) é o manual de Vítor Rodrigues para aprender a ser feliz.

VÍTOR RODRIGUES é doutor em Psicologia e psicoterapeuta desde 1985, é conferencista e formador na área da Psicologia Transpessoal em Portugal e no estrangeiro. Foi docente universitário durante 17 anos, tendo lecionado em Lisboa, Évora e Faro. Humanista convicto, acredita em utopias e na capacidade de os seres humanos aprenderem a felicidade – mesmo quando o mundo lhes dificulta a vida.

O que é ser feliz? Terá de ser algo mais do que a ausência de depressão e também é diferente da alegria…
_ Muita gente pensa na felicidade como algo superficial, uma soma de satisfações, mas o que almejamos é um estado mais profundo e permanente. Pessoas que só tenham muito dinheiro nunca conseguirão tudo o que ima­ginem que gostariam de possuir – o desejo humano é ilimitado –, além de que terão me­do de perder os objetos de consumo a que se apegarem. E isso remete-nos para a ideia de que a felicidade duradoura implica um esta­do interior do ser humano que se prolongue no tempo, a ser cultivado justamente no in­terior, modificando-nos a nós mesmos e tra­balhando a nossa atitude face ao mundo e aos outros. Costumo dizer que um crocodilo não é feliz a ser girafa. Por muito que eu cor­ra atrás de recomendações alheias, terei de atravessar a vida em sintonia com o meu in­terior e a minha realidade. O que, mais uma vez, não é o que a maior parte de nós faz.
Somos infelizes por medo? Medo de mudar, de que pensem mal de nós, do que possamos pensar de nós mesmos se fugirmos à norma?
_ As pessoas afastam-se da sua realidade interior em busca de corresponderem às expetativas dos outros, obedecem ao que a maioria diz que está certo ou é adequado ou fica bem. A felicidade implica realizarmo-nos naquilo que nós, na nossa individuali­dade, somos capazes de fazer. E depois no corpo, nas emoções, no campo afetivo, no intelecto, no espírito. As pessoas mais resi­lientes e felizes que conheço são as que pas­sam a vida atraídas por valores que as trans­cendem de alguma maneira e não vão desa­parecer: buscar o estado de Buda, servir a humanidade, a pátria, a natureza. Algo que sintam que vale a pena agora e vai valer sem­pre. Ancorados nisso, é possível passar por dificuldades e manter um estado interior de alegria mais ou menos estável.
A OMS prevê que a depressão seja, já em 2030, a primeira fonte de encargos com a saúde. Porquê tanta tristeza?
_ Vivemos numa sociedade distorcida e controlada por macropoderes económicos, que acaba por prejudicar os seus cidadãos. Bombardeiam-nos com a ideia de uma feli­cidade voltada para fora e para objetos, e es­ta busca imparável do consumo afasta-nos de perceber que não são os sapatos, nem o carro, nem a pasta dentífrica que dão paz de espírito, além de que a multiplicação de desejos acarreta a perversidade da frustra­ção constante: muita gente passa a vida a in­vejar os bens dos outros e a crer que não será feliz se não os tiver. Enquanto isso, somos en­sinados a ser competitivos, a afirmar quem é o mais poderoso, o melhor, o mais bonito, o mais magro. Temos guerra na esfera eco­nómica, social, no mundo do consumo, e es­ses estados de guerra são incompatíveis com o bem-estar interior. As pessoas entram em depressão porque ficam traumatizadas por situações em que são humilhadas, agredidas e prejudicadas por outros. Por desamor.
O amor é o antidepressivo supremo?
_ Eu diria que sim. A origem de muitas pa­tologias físicas e mentais é a privação de amor durante a vida, por vezes até a perda de amor por nós. Um indivíduo deprimido acha-se um peso para os outros porque, de algum modo, se perdeu de si mesmo. Não se autovaloriza, muitas vezes porque os pais também não o souberam valorizar nem lhe deram presença. É típico sentir que não é ninguém. As próprias escolas contribuem para a inibição ao não ensinarem as crian­ças a cultivar o amor. «Convidam-nas» a competir pelas notas (punem-nas quando não obedecem), mas não as ensinam a gerir as emoções, a expressá-las, a lidar com elas e com as emoções dos outros, a relacioná-las com a expressão corporal e a tirar parti­do disso. Nem ensinam o amor, o que é uma pena porque promove a saúde mental, físi­ca e social. A criança é mais treinada para ser uma repetidora de pensamentos do que uma criadora de ideias.
Como se aprende a felicidade? Pesquisas em torno dos estados cerebrais associados ao bem-estar dos praticantes avançados de meditação indicam haver exercícios que a desenvolvem…
_ Há práticas meditativas de atenção ple­na, como a célebre meditação mindfulness, que nos treinam e ao nosso cérebro para estarmos mais no presente, mais atentos, mais apreciadores dos pequenos praze­res. É um pouco uma arte de gourmet fa­ce à própria vida: se estamos agitados, é-nos muito difícil degustar o que temos, nomeadamente o facto de estarmos vi­vos, termos uma consciência própria, ca­pacidade de aprender e um aparelho per­cetivo que nos permite desfrutar das coi­sas fantásticas que há em todo o lado. Não nos ensinam a apreciar isso, além de ha­ver uma série de aspetos relevantes – ser é mais importante que ter, a viagem vale mais do que o destino – que são o oposto do que a sociedade nos treina para fazer. Esta busca das finalidades, e a frustração caso não surjam tão depressa como queremos, é contrária ao bem-estar. As pessoas inte­riormente satisfeitas são as que sabem dar um passeio e retirar prazer do que as ro­deia. É isso também que as crianças felizes fazem espontaneamente.
No Butão, o quarto rei dragão do país, Jigme Singye Wangchuck, inventou o termo «felici­dade nacional bruta» para avaliar o nível de bem-estar da população. Também podíamos ser uma sociedade que favorece a felicidade?
_ Podíamos, o Butão demonstra que é pos­sível. É um exemplo fantástico e uma exce­ção preciosa, mostra que se pode trabalhar todo o movimento social na direção da felici­dade através da preservação e promoção de valores culturais, do desenvolvimento sus­tentável, da conservação do meio ambiente e de uma boa governação. As sociedades de­viam ser preparadas para isso, mas o que te­mos hoje são linguagens de guerra. Não só as indústrias de armamento continuam a ser um negócio gigantesco no planeta como o raciocínio das empresas é bélico: trata-se de conquistar, dividir, cilindrar o adversário, impor produtos e mercados. É raro uma me­gaempresa dizer: «Vamos transferir o negó­cio para a área X e ajudar ao desenvolvimen­to local.» O foco está sempre em explorar os desfavorecidos. Há um contexto social con­trário à felicidade porque ela não é nada do que nos impingem. Na verdade, vemos pes­soas pobres que são intensamente felizes por terem pouco do que não dá felicidade e muito do que a dá: são solidárias, têm ami­gos, vivem em harmonia consigo mesmas, com o ambiente e os outros. Se morrerem amanhã, partem tranquilas porque a vida não lhes deixa buracos interiores.
A busca da felicidade é mais urgente a partir dos 35 anos? Jung diz que nessa idade vi­vemos um processo psicológico que seria o apogeu do desenvolvimento…
_ Há uma tendência, quando as pessoas se sentem a chegar a meio da vida esperada, para se encherem de interrogações acerca do ponto em que estão, para onde vão, se as coisas lhes fazem sentido, se correm bem ou mal, se é melhor entrarem num regime de manutenção ou continuarem a expandir. Os sujeitos felizes são os que continuam a que­rer crescer durante a vida toda, o tal sentido de que vale a pena. Nessa fase já têm capital sobre o qual refletir e é frequente que se in­terroguem, tentando encontrar um estado interior que os satisfaça. Se se rendem à es­tagnação, a vida deixa de ser uma aventura. Mas também vemos gente que, aos 80 anos, está cheia de ideias e planeia ter experiên­cias novas. Como o filósofo Kant, que teve o seu pico de produção a partir dos 60 anos. Ou o nosso Manoel de Oliveira, que aos 106 anos ainda realiza.
O nosso cérebro distingue bastante mal o que está a acontecer do que já aconteceu. Como se ultrapassa o peso do pensamento negativo?
_ A maioria das pessoas até percebe estar a prejudicar-se ao pensar sempre nas coisas que correm, já correram ou podem correr mal nas suas vidas, mas voltam àquilo – são as fa­mosas ruminações obsessivas e depressivas. O truque é saber como dar-lhes a volta tec­nicamente: se eu tiver tendência para senti­mentos de culpa acerca de algo que fiz mal no passado, importa perceber que isso está a impedir-me de cultivar bem-estar e de es­tar disponível para os outros agora, e então posso propositadamente começar a substi­tuí-los por uma lista de coisas positivas na minha vida, coisas que já fiz bem. E se os sentimentos de culpa regressarem, vou sim­plesmente encarar a situação de forma neu­tra, sem dramas. Pensar que a minha mente também pode permitir-me aqueles pensa­mentos, mas que eu não lhes ligo muito e vol­to ao que me interessa. É claro que isto não se desenvolve instantaneamente, mas com um pouco de calma consegue-se.
A que se resume a fórmula para assegurar a felicidade, se é que existe alguma?
_ Permitirmo-nos ser quem somos e reali­zar as nossas capacidades nos vários seto­res da vida, cultivando atrações que sejam válidas e profundas para nós. Há pessoas que se sentem bem dedicando a vida ao di­vino, à arte, à filosofia, mas é muito difícil alguém sentir-se profundamente realiza­do dedicando a vida a ser um capitalista de­senfreado – no fundo, acabará sempre por sentir que está a cultivar mentiras e a explo­rar outros, algo que não traz paz de espíri­to a ninguém, a menos que seja psicopata e não tenha consciência. Não consigo acredi­tar que o tipo de bem-estar interior de um psicopata tenha que ver com o bem-estar interior de um Martin Luther King quan­do chega a casa, ao fim do dia, e põe as pan­tufas. O essencial da felicidade tem que ver com deixar-me atrair pela coisa certa que me transcende, que é maior do que eu e vale profundamente a pena, por vezes até a pró­pria vida. E depois permitir-me ir para lá com tudo o que sou e tenho de mais precio­so em mim, o que implica conhecer-me.

Ana Pago
Fotografia de Paulo Alexandrino/Global Imagens