OPINIÃO

Sucesso sobre rodas

Uma viagem à academia onde se formam campeões. Dentro e fora do rinque.

No último Campeonato da Europa de patinagem artística, em agosto, em Itália, Portugal conquistou 12 medalhas. Dez foram garantidas por patinadores do Rolar Matosinhos, o mítico clube que em apenas 22 anos se tornou um berço de talentos na modalidade.

No pavilhão de Custóias, em Matosinhos, disciplina, movimento e elegância não são só palavras bonitas. E estão bem presentes na cabeça – e no corpo – de muitos atletas que aqui treinam todos os dias. Esta é a casa do Rolar, o clube de Patinagem Artística que tem vindo a crescer e a conquistar títulos internacionais. Nos últimos Europeus, em Itália, em agosto, foram dez as medalhas arrebatadas pelos patinadores dos arredores do Porto – entre 12 conquistadas por Portugal.

Fundado em outubro de 1993 – completou 22 anos na última quarta-feira –, o grupo desportivo cresceu aos poucos. E se no início, quando ainda se chamava Rolar Custóias Clube, era preciso distribuir panfletos pelas escolas para divulgar o clube e a modalidade, hoje é preciso uma calendarização ao milímetro para que haja espaço para toda a gente – mais de uma centena de patinadores, entre iniciação e competição, dos 3 aos 30 anos. Parte do sucesso do Rolar deve-se ao trabalho de Hugo Chapouto. Em 2010, em Portimão, o patinador que entrou para o clube com 6 anos, sagrou-se bicampeão mundial. Na altura quis retirar-se da modalidade, num despertar de consciências para que outros não tivessem que passar pelo mesmo e «desbravar trilhos e matas selvagens» que travavam ambições. Passados cinco anos, o caminho é diferente. Hugo, 29 anos, é agora coordenador técnico do clube e a patinagem artística ganha adeptos e popularidade – e mais títulos. O Rolar Matosinhos está na vanguarda e o antigo atleta, com mestrado em Arquitetura, orgulha-se de ser um dos responsáveis pela mudança do paradigma. «Não está completo, mas dá-me gozo o que temos vindo a conseguir. Cresci a patinar aqui e regressei há cerca de cinco anos, quando fui convidado pela direção, pois a secção estava a morrer. Demos a volta, com dinâmica, e aumentámos o número de atletas.

O Rolar alcançou vários títulos regionais e nacionais na década de 1990, sob a orientação de Pedro Craveiro e Dora Cunha, os técnicos fundadores. Mas os primeiros títulos internacionais só surgiram no arranque do milénio, pelos patins de Hugo Chapouto. Em 2007, o Rolar perdeu a dupla de treinadores e passou um mau bocado, com Chapouto a assumir, provisoriamente, a gestão. No ano seguinte, o patinador deixou o clube para concluir o curso em Barcelona e, simultaneamente, o Rolar perdeu as instalações. «Um momento de transição complexo», recorda o atual coordenador, que em 2010 assumiu o projeto de regeneração da coletividade, com a alteração do nome, imagem e estrutura desportiva.

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Entre os atuais patinadores de sucesso do clube estão os irmãos Walgode. Pedro e Ana são de Espinho e todos os dias fazem quarenta quilómetros para treinar no pavilhão de Custóias. Começaram a patinar quando eram crianças (ela com 6, ele com 9), por sugestão da mãe, mas há dois anos aceitaram o desafio de formar um par. O título de campeões europeus de pares de dança seniores, que conquistaram em Itália, é um dos resultados mais recentes da dupla. «Trabalhamos imenso ao longo do ano e encaramos a patinagem a sério», diz Ana, 17 anos, que, individualmente, se sagrou vice-campeã júnior nos Mundiais na Colômbia, na semana passada. «No verão, nem tivemos férias. Treinávamos das nove da manhã às seis da tarde.»

Ainda assim, a atleta que quer estudar Medicina conseguiu concluir o 11.º ano com média de 19 valores. «Com método, tudo se consegue.» O irmão, 21 anos, ouve-a atentamente e concorda. «Não é fácil. Ela tem os seus momentos de irritação [sorriso], mas temos conseguido funcionar como uma verdadeira dupla.» Aluno do 4.º ano da Faculdade de Engenharia, no Porto, Pedro tem uma ambição: «Gostava de ser profissional na patinagem, mas tenho consciência de que, para já, é impossível. Resta-me desfrutar destes momentos e das vitórias. Ouvir o hino nacional é arrepiante.» A dedicação à modalidade reflete-se nas seis horas que treinam por dia.

Ricardo Pinto é outro nome de peso do Rolar. Aos 22 anos já carrega o estatuto de campeão do mundo, depois de ter garantido o ouro na Colômbia. Na final, obteve quatro notas máximas (em sete possíveis). Pouco antes, tinha-se sagrado tricampeão da Europa, em Itália. «Todos os títulos têm algo diferente. Este foi mais complicado porque tive mais dificuldade em conciliar os treinos com os estudos.» O patinador do Rolar frequenta o 2.º ano do curso de Biologia, na Faculdade do Porto, e já começa a transmitir novos conhecimentos na modalidade. «Dou treinos aos mais novos no Rolar, mas também sou monitor no Grupo Desportivo e Coral de Fânzeres e no Araújo Patinagem Artística, de Leça do Balio.»

A face mais visível do desenvolvimento do clube são os títulos. «Essas conquistas chamam gente e dão visibilidade e credibilidade ao Rolar», diz Ricardo.«Mostra que fazemos trabalho sério.» Mas há outras coisas importantes. Que não se fazem só de medalhas e títulos. «O que fazemos no Rolar passa pela prática desportiva para que a transportem para a vida», diz Hugo Chapouto. «Perceber que a nossa existência tem algum sentido. É preciso trabalhar com perseverança e dedicação para atingir metas e saber partilhar
o sucesso, o insucesso, a medalha e não medalha, o balneário, o treinador e a amizade. É esta aprendizagem que gostava que eles levassem para a vida.» Um desses passos prioritários visa o diálogo com a comunidade escolar. «A modalidade é muito especializada, pela sua natureza técnica e artística. Exige tempo e estas crianças também andam na escola, como todas as outras, e têm a mesma carga horária. É urgente valorizar quem, em situações normais com outras atividades, consegue lugares de relevo.»

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O treinador Hugo Chapouto com Pedro e Ana Walgode, que na semana passada conquistaram o bronze no campeonato do mundo da Colômbia.

E, além do empenho dos treinadores e do esforço dos atletas, o que contribui mais para o sucesso? «A sinergia entre o corpo técnico e a direção. E os atletas sentem-se bem aqui», diz Luísa Lopes, presidente do clube. A professora e advogada, que tomou posse em janeiro de 2012, garante que isso faz a diferença. Mas não chega, sobretudo a nível financeiro, numa modalidade que tem cerca de três mil praticantes federados em Portugal. «É urgente que as pessoas tomem consciência de que a patinagem artística é uma modalidade de topo, que dá visibilidade e reconhecimento ao país. A federação suporta as viagens dos atletas, mas estes, se quiserem levar o treinador, têm de ser eles a financiar. Os pais têm sido fantásticos e ajudam em tudo, mas é um grande sacrifício. A câmara subsidia cinquenta euros por cada atleta e faculta-nos a utilização do pavilhão nas horas que nos são adjudicadas. Se quisermos mais, temos de pagar.» As dificuldades podiam ser desmotivadoras e podiam levar os atletas a desistir. Mas o Rolar consegue mantê-los. E, quem sabe, continuar a formar a próxima geração de patinadores em Portugal.

Arnaldo Martins
Fotografia: Pedro Granadeiro/Global Imagens