OPINIÃO

Flutuação, a experiência antigravidade

Sem som, sem cheiro, sem visão.

E sem peso. Uma cápsula de flutuação é a experiência mais próxima da gravidade zero que pode encontrar. Uma experiência que leva corpo e mente a um estado de relaxamento que pode ser terapêutico.

Algumas cápsulas de flutuação têm um design que faz lembrar uma nave espacial. E podem mesmo levar quem entra nelas para outra dimensão. Cerca de trezentos quilos de sal numa altura de trinta centímetros de água eliminam a gravidade e a tampa elimina som e luzes exteriores. É entrar e, durante cerca de uma hora, deixar o corpo ficar suspenso no vazio. Uma ausência de estímulos que permite «desligar» do mundo lá fora e que conduz a um estado físico e mental com benefícios reconhecidos.

Como se de um pequeno Mar Morto se tratasse, é o sal que permite que o corpo se mantenha sempre à superfície. Mas não um sal qualquer: o sal Epsom usado nas cápsulas é composto por sulfato de magnésio, carbono e oxigénio, e não de cloreto de sódio como o sal comum. Tem por isso propriedades terapêuticas favorecendo, por exemplo, a circulação sanguínea.

E se estiver a pensar que a experiência não é para si porque sofre de claustrofobia, saiba que há sempre a hipótese de optar por deixar a tampa da cápsula aberta – embora a experiência de privação sensorial não seja tão eficaz.

A flutuação com privação sensorial não é propriamente uma invenção nova. Ocorreu na década de 1950 e, como em muitas outras descobertas, o acaso também cumpriu o seu papel. O neuropsiquiatra americano John Lilly estava ligado ao National Institute of Mental Health, nos EUA, e procurava um meio de privação sensorial que limitasse o mais possível os estímulos exteriores para avaliar os efeitos neurofisiológicos deste isolamento, como forma de estudar a natureza da consciência humana. Quando tentou os flutuários percebeu que quem saía de lá vinha calmo e relaxado. E foi assim que se iniciaram os primeiros testes para aferir os efeitos terapêuticos da flutuação em ambiente de privação sensorial. Com mais testes e respetiva sistematização das várias aplicações clínicas do método, foi desenvolvida a restricted environment stimulation therapy (REST).

Dizem os estudos, alguns muito recentes (2014), que a resposta fisiológica do corpo a este ambiente passa pela diminuição da pressão arterial, da tensão muscular, da frequência cardíaca e dos parâmetros hormonais associados ao stress, nomeadamente com a descida dos níveis de epifarina (conhecida como adrenalina, a hormona da excitação) e do cortisol. Por isso, é um poderoso indutor de relaxamento que pode, em conjugação com outras terapias, ajudar pacientes com problemas de stress, dor crónica, insónia e até dores musculares e artrites. Sem a gravidade a trabalhar contra o corpo, as articulações descomprimem, aliviando dores.

Mas todo este abrandar não acontece apenas com o corpo físico. Os estudos mostram que o cérebro pode alcançar um estado de igual «suspensão»: muitos dos participantes alcançam um estado no qual o cérebro emite ondas teta, o tipo de atividade elétrica cerebral apenas associado a estados mistos entre o sono e a vigília ou num estado de relaxamento puro que, por norma, só se encontra durante a meditação.

ONDE PODE FLUTUAR?

_Flutuarte, Gondomar
Tel.: 918 989 447 | www.flutuarte.pt
_Puro SPA by Hotel Lusitano, Golegã
Tel.: 249 979 170 | www.hotellusitano.com
_Float In, Lisboa
Tel.: 213 880 193 | www.float-in.pt

* PODERÁ HAVER OUTROS LOCAIS, ALÉM DOS SUGERIDOS

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Em que casos é recomendado?
Genericamente a todas as pessoas que queiram relaxar. Há estudos que demonstram que em continuidade pode ajudar a regularizar o sono, a controlar a dor crónica e as dores musculares.

Quanto tempo dura uma sessão?
Entre 50 e 60 minutos. Em alguns sítios há a opção de 1h30.

Quanto custa?
Os preços rondam os 30 a 50 euros. Geralmente há packs de várias sessões que diminuem o valor unitário de cada uma.

Há contraindicações?
Sim. A flutuação em ambiente de privação sensorial está contraindicado para pessoas com alguns problemas graves de pele, com doença mental grave, como esquizofrenia, e para pessoa com epilepsia só é possível fazê-lo com supervisão. É ainda desaconselhável a quem tem hipertensão grave.

Que preocupações se deve ter na altura de fazer a sessão?
Não devem ser feitas sessões durante o período menstrual, após a depilação ou se existem feridas ou cortes recentes na pele porque o sal vai provocar desconforto. Em alguns locais sugerem que não se tome café antes da sessão, de forma a aproveitar melhor o efeito de relaxamento.

As cápsulas são suficientemente limpas?
A preocupação com a higiene é legítima, mas a água é habitualmente filtrada entre sessões e, além disso, a enorme quantidade de sal tem uma forte ação antibacteriana.

Sofia Teixeira
Ilustração de Filipa Viana