OPINIÃO

Emigrantes fora da caixa

Foram à procura de uma vida melhor. E alcançaram-na com profissões extraordinárias...

Fogem todos do mesmo: desemprego e salários baixos. À procura de uma vida melhor – é por isso que há mais de dois milhões de portugueses a viver no estrangeiro, cinquenta mil a sair do país em cada ano. Mas alguns encontram até mais do que buscavam: vidas fora do comum, experiências em que se tornaram excecionais.

NORUEGA
Nuno Cruz
POUCA GENTE, MUITOS URSOS EM LONGYEARBYEN

MILHARES DE PESSOAS NAS RUAS A MANIFESTAREM-SE CONTRA as medidas de austeridade do Governo: «Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas.» A polícia a reprimir as revoltas à cacetada. Preocupação, política, medo, desemprego, impostos, falta de dinheiro, crise. Se no início de 2012 Nuno Cruz aspirava a algo que o motivasse pessoal e profissionalmente – uma espécie de vontade de começar do zero para se sentir vivo –, no final do ano já não reconhecia o país e mudou-se para o Ártico em janeiro de 2013. Deixou para trás casa, gestão de marketing, estabilidade, mas também uma imensa revolta com a desigualdade, os recibos verdes e a visão tacanha das pessoas como números, que têm de gerar receita a todo o custo.

«Conheci Svalbard numa viagem que fiz em 2008 e pensei logo que um dia gostaria de morar num sítio assim», conta o aventureiro, 38 anos e guia de natureza do Ártico há dois como freelancer, após uns meses a servir às mesas. Instalou-se com a namorada Sofia (agora esposa) em Longyearbyen, a capital económica e administrativa do arquipélago de Svalbard, na Noruega. E para quem gosta, Longyearbyen é uma ótima cidade para se viver: dois mil habitantes para três mil ursos polares; quatro meses de escuridão total e seis de luz permanente; idas ao supermercado em motas de neve; crianças a brincar por toda a parte; índices nulos de criminalidade; auroras boreais e passeios nos glaciares da ilha.

«Nunca fui dos que dizem que em Portugal é tudo mau, portanto regressar não está posto de parte, embora num futuro muito longínquo.» Nuno sente especial saudade das tardes de calor a comer caracóis com os amigos junto ao Tejo, sobretudo quando as temperaturas caem facilmente para os 40 graus negativos. Sente falta dos serões à lareira na casa de família na Beira Interior, mas enquanto tiverem aquela qualidade de vida é para ficar. «Seria impossível voltar a perder mais de duas horas por dia fechado num carro, ou chegar a casa quase à hora de ter que me deitar.» Longyerbyen até pode ser o fim do mundo para muita gente, pelas condições extremas. Para o guia é só o princípio de uma etapa mais feliz.

nm1211_portugueses02
Foto: Paulo Alexandrino/Global Imagens

EGITO
Joana Saahirah
CHAMAR A DANÇA PELO NOME NO CAIRO

AQUILO QUE PARA MUITAS DANÇARINAS É UMA VANTAGEM – poder ter êxito sem saberem nada da cultura por trás, à custa de públicos que acham exótico tudo o que lhes aparece de lantejoulas – sempre irritou Joana Saahirah. Não por quem faz carreiras inteiras sem nunca chegar à fonte: cada um vai buscar o que lhe apetece, não critica. Mas ela precisava de saber mais sobre as danças egípcias quando a área se tornou óbvia no seu caminho pela dança oriental. Intuía que só uma experiência profunda no Egito lhe daria segurança para se lançar numa carreira a solo com orquestra própria. E então em 2004 mudou-se para o Cairo. Não como turista – nessa altura já conhecia o país de norte a sul –, mas para viver e criar um mercado a partir do zero no sítio mais difícil de todos: o berço da dança egípcia.

«Queria testar-me, perceber se havia talento em mim para isto», resume Joana, 35 anos e dona de uma «pancada de Messias» que a leva a querer ir ao fundo das coisas, mesmo se lhe dizem que é louca em tentar. «Queria escrever um livro sobre dança egípcia como ninguém fez: a perspetiva de uma bailarina estrangeira fazendo sucesso no Cairo e os meandros do que isso implica a nível pessoal, de trabalho, relações sociais, valores, tudo. Eu achava que sabia muito sobre o Egito, porque tinha feito imensas viagens de estudo após um curso em Madrid com o professor de dança Shokry Mohamed. Mas uma coisa é estarmos de passagem, outra é chegares para te inserires na comunidade e ainda por cima quereres trabalhar numa área tão egípcia, em que os empresários só te contratam se te prostituíres.»

Joana não vendeu a alma ao diabo. Enquanto a lei impediu as estrangeiras de serem solistas, fez trabalhos de folclore e videoclipes árabes, aprendendo a língua das ruas para se fazer ouvir. Mais tarde conheceu o indiano Mr. Chaudhri, que a deixou dançar sem segundas intenções e a viu lotar espetáculos noite após noite. Tornou-se aluna, amiga e assistente de Mahmoud Reda, o coreógrafo de 85 anos que recriou o folclore egípcio. «Estava com ele no início da revolução de 2011, quando o presidente Mubarak renunciou.» Ao mesmo tempo que viajava pelo mundo a ensinar, escrevia o rascunho do tal livro biográfico que idealizou desde o início e irá lançar em 2016, se tudo correr bem. «Fiz um curso de escrita criativa em Oxford, em agosto do ano passado, e apetece-me muito ir por aí», revela. Continua a dançar, a dar cursos em vários países, mas saiu do Cairo e pensa se não é Oxford o destino que se segue, com os seus lagos e colégios antigos. «Onde puder estudar, desafiar-me e descobrir-me estarei em casa.»

nm1211_portugueses03
Foto: José Sarmento Matos

REINO UNIDO
Andreia Salvador
CONCHAS E MAIS CONCHAS EM LONDRES

TODA A SUA VIDA TINHA DESEJADO SER CURADORA. Organizar acervos em caixinhas, etiquetar, atualizar, arquivar, explicar. Deixar as coleções num estado melhor do que aquele em que as encontra porque, enquanto bióloga de formação e coração, sempre lhe fez sentido cuidar da história dos seres vivos com mãos zelosas. «São cerca de nove milhões as conchas a meu cargo e é impagável a oportunidade de tomar conta de todas», assegura Andreia Salvador, 38 anos e há 11 a viver em Londres. Pelo Museu de História Natural lançou raízes noutro país, sem pieguices. Não se sente tão bem em nenhum lado como dentro daquelas paredes de pedra, a mirar os espécimes que o evolucionista Charles Darwin apanhou para o amigo paleontólogo Charles Lyell. «Estar aqui é um sonho tornado realidade. E ainda me pagam por isso.»

Licenciada pela Universidade de Évora em 2002, fez curadoria no centro Português de Atividades Subaquáticas, em Lisboa, até o contrato acabar e ficar sem nada. «Enviei currículo a todos os museus de Portugal, ilhas incluídas, sem perspetivas. Decidi então tentar o Museu de História Natural – teria habilitações mais fortes à vinda – e bati-lhes à porta dizendo que estava ali de graça, a oferecer o meu trabalho cinco dias por semana, só queria aprender. Aceitaram-me imediatamente.» Ao fim de quatro meses de voluntariado em 2004, Andreia foi assistente de curador, fez consultadoria e tudo o mais que lhe pediam. Tornou-se ela própria curadora de mamíferos em 2008, antes de passar para os moluscos marinhos em 2011 e perceber que só podia ser feliz ali. Rodeada de conchas por todos os lados.

«Sinto falta da família, da luz de Lisboa, de estar perto do mar e comer bolas-de-berlim na praia. Mas a verdade é que o trabalho me absorve tanto, é tudo tão excitante, que os meses passaram a voar desde o início. Nunca me senti sozinha nem desadaptada», confessa. A regra é a irmã ir ter com ela a Londres uma vez por ano, para estarem mais tempo juntas. Ela retribui com quatro vindas a Portugal no Natal, verão e dois fins-de-semana à escolha, que deem jeito a todos. «Sinto-me honrada por ser uma das três pessoas responsáveis pelo departamento de moluscos do museu, a única portuguesa. E sim, tenciono ficar em Londres para sempre. Mesmo que quisesse já não conseguiria voltar.»

nm1211_portugueses04
Foto: Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

EUA
João de Macedo
AMOR E ONDAS GIGANTES NA CALIFÓRNIA

AQUELE VERÃO DE 1989, tinha 12 anos, foi o seu primeiro a apanhar ondas na Praia Grande. Lembra-se como se fosse ontem da sensação: ele de pé sobre a prancha, a deslizar sobre as águas; o mar a sacudi-lo por baixo; o coração a rebentar-lhe no peito. Depois disso foi subindo a fasquia: tubos de 30 segundos e ondas com mais de dez metros (as vagas do Atlântico são professoras exigentes). Uma licenciatura em economia na Universidade Nova de Lisboa com o aval do pai, o antigo ministro das Finanças Braga de Macedo. Uma academia de surf cofundada com os amigos Pedro Monteiro e Miguel Mantero, na Praia Grande, em 2000. A proeza de ser um dos melhores big wave riders de todos os tempos, ao lado de nomes como Garrett McNamara, e o único português a disputar o Big Wave World Tour, com o quinto lugar no ranking final de 2012/13. Aquilo que João de Macedo faz, faz em grande.

«Parti para a Califórnia há dez anos. Na altura fazia todo o sentido mudar-me para o epicentro do surf global, onde tinha tanto a aprender», explica o profissional de 38 anos, adepto de se ir buscar fora outros sabores para a vida. «Estava numa fase de estagnação como treinador na Portugal Surf Academia, não me sentia a evoluir profissionalmente e queria editar em inglês o meu Livro 7 – Como Ser Surfista, que nos EUA saiu com o título How To Be a Surfer.» Quando a namorada, Shelly Michaelis, ganhou uma bolsa para jogar ténis na Universidade de São Francisco, foi impossível não ir. «Acabei por fazer mestrado em Gestão Desportiva naquela universidade. Tornei-me embaixador da Rip Curl Planet e pude continuar o trabalho realizado com o programa de Reservas Mundiais de Surf, para que as comunidades locais aprendam a proteger as melhores ondas do planeta. O meu filho de dois anos e meio já nasceu fora.»

E depois havia a onda gigante de Mavericks, que adora surfar: uma massa esmagadora de água temida pelos tubarões, o fundo de pedras serrilhadas e as correntes. É disso que mais sente saudades agora, que vai estando a trabalhar entre cá e lá desde janeiro. «A Califórnia é como imagino que Hollywood seja para os atores, realizadores e produtores: um lugar que cria tendências mundiais.» Por outro lado, brinca, sentia falta da nossa comida, as coisas equilibraram-se. «Os meus pais também emigraram para os EUA, nasci no Connecticut, viemos morar para Sintra tinha eu sete anos.» Sair em 2004 para apanhar as maiores ondas, estar perto dos melhores surfistas, foi-lhe tão natural como voltar. «No fim, é importante que os emigrantes regressem e inspirem outras gerações a fazer o mesmo. O meu surf vem de Portugal.»

nm1211_portugueses05
Foto: Constantino Leite

LAOS
Susana Norte
TERAPIAS ALTERNATIVAS EM VIENTIANE
TEXTO DE PETRA ALVES

NASCEU EM ÓBIDOS, É PROFESSORA DE FORMAÇÃO MAS NUNCA exerceu. Aos 41 anos Susana Norte decidiu mudar de vida. Outra vez. A primeira aconteceu em 2000. Tinha 24 anos quando foi viver para Londres. «Lancei-me no mercado de moda como gerente de lojas e acabei por ser responsável pela gestão de grandes equipas. Foram 15 anos a trabalhar muito, resultou num enorme crescimento, pessoal e profissional. Poupei dinheiro para viajar pelo mundo e para investir na compra de propriedades na cidade.»

Mas a prosperidade trouxe-lhe uma dose generosa de cansaço físico e emocional, que acabou por sentenciar a segunda grande mudança. Largou o trabalho e a vida na capital inglesa e partiu para o Sul da Ásia. «Fui ao encontro do silêncio e em silêncio permaneci por longos períodos fazendo meditação Vipassana. Descomprimi 33 anos de existência.» Dois anos depois, voltou a Londres, (re)iniciou a carreira, mas agora sabia que não iria ficar por muito tempo: «O meu destino estava virado para a Ásia. Durante este novo período em Londres licenciei-me em Terapias Holísticas e Aconselhamento Espiritual.» Entretanto conheceu o namorado, Luke Hancock, que também queria deixar o frenesim citadino. Juntos, apontaram o Laos como próximo destino, depois de uma temporada no Sul da Tailândia.

Hoje, Susana soma no currículo a especialidade em nutrição e dietas alimentares, e Luke, o design em permacultura e a autoria do livro The Inner Revolution. Vivem em Vientiane, capital do Laos. O clima tropical, a riqueza da biodiversidade, o baixo custo de vida, mas também o facto de o país estar aberto a investimento estrangeiro e a pouca, ou nenhuma, concorrência foram argumentos de peso na decisão. Compraram um terreno e lá estão a construir um novo projeto de vida: um centro de terapias holísticas, saúde, educação e sustentabilidade. Meditação, coaching, consultadoria ambiental, detox do fígado, fazem parte do menu de serviços, alguns já a ser prestados. Quando construção do centro estiver concluída, o Sacred Place vai materializar o que por ora podemos ver no mundo virtual do casal, sacred-place.com.

nm1211_portugueses06
Foto: Mat Jacob

FRANÇA
Mário Lopes
UM HAUT COIFFEUR EM PARIS

PARA ELE AS HORAS PASSAM SEM AS SENTIR, absorto no metódico processo de avaliar, lavar, separar madeixas, cortar, pentear e mimar os seus clientes – Mário Lopes garante que este amor pelas pessoas é meio caminho andado para ter sido considerado o melhor cabeleireiro de França em 2006 e 2011, além de uma referência como colorista e criador de moda. Chegou a Paris aos 13 anos com a mãe e dois irmãos: o pai, pedreiro em Paris desde 1957, foi buscá-los em 76 à casa da Soutaria onde viviam, na freguesia do Olival, em Ourém. Mário ainda ponderou ser mecânico, pedreiro como o pai ou professor primário, até se tornar aprendiz de barbeiro por acaso. Descobriu que tão depressa cortava um cabelo à escovinha como fazia um apanhado feminino de cortar a respiração. Nunca chegaria a este patamar se tivesse ficado em Portugal.

«Naquele tempo era muito difícil obter a carta de residente no estrangeiro, lembro-me bem dos dias perdidos em filas para consegui-la», conta o haut coiffeur de 53 anos, seguro de que o segredo é não desistir do sonho. «Paris é a cidade da moda, marcante e única por essa razão.» Por outro lado, o mais importante é ter amigos e isso leva muito tempo. «Tinha-os portugueses e depois de várias nacionalidades, mas amigos franceses com quem possa contar não tenho.» Nunca se sentiu mal-vindo, nada disso: França acolheu-o sem lugar a rancores e ele não pensa regressar às origens senão para passar férias na sua casa de Pedras Salgadas, onde gosta de desfrutar do silêncio. «Ainda assim, mesmo estando bem integrados, somos sempre diferentes.»

Mário abriu o primeiro cabeleireiro aos 22 anos, um espaço barato fora do centro, que podia pagar. Em 2003 mudou-se para a Avenue Mozart, no 16.º arrondissement de Paris, o bairro das pessoas ricas e famosas da cidade. Hoje é diretor artístico dos seus dois salões, la crème de la crème numa cidade altamente competitiva, proprietário da marca Mário Lopes e membro do comité diretivo da Haute Coiffure Française, entidade que reúne os melhores estabelecimentos internacionais com vista a elevar a criação artística dos cabelos. «Penteio algumas personalidades conhecidas, cujos nomes não divulgo por questões de discrição, mas todos os clientes são importantes para mim», afiança. Ter subido a pulso ajuda-o a manter a perspetiva.

Ana Pago