OPINIÃO

«Odeio o fado tanto quanto o amo»

As memórias portuenses da fadista Gisela João levam-na da criação de roupas à descoberta do fado.

Andam aí as bocas do mundo a dizer que Amália tem herdeira, mas «carago, quero é cantar». Foi por ter ido para o Porto estudar moda que embarcou no circuito da fadistagem. Primeiro no Norte, depois em toda a parte. As memórias portuenses de Gisela João são assim: cantigas, criar roupas e uma casa com terraço. História de uma viagem de regresso.

Pim, pam, pum, cada fado mata um. Mata o velhote com uns bons oitenta anos que está ali a dizer que começou agora a aprender a amar. Dá cabo de uma mulher que só tem tempo de afinar o lamento de um amor perdido antes de ir buscar a neta à creche. E ainda fere de morte o coração de um viúvo que espera que a mulher volte um dia num barco rabelo. São seis da tarde de uma terça-feira e a Tasca da Piedade – de nome oficial Adega Rio Douro, refúgio cinquentenário do fado vadio da Invicta – está completamente à pinha. Encostada a um canto, uma mulher recebe aquela dor toda de olhos fechados. Daí a nada hão de chamá-la para cantar, ela há de calar toda a gente a dizer, em timbre grave, que «o fado quando é triste é que é verdade». E, ao recitar a letra de Aracélia, Gisela João há de matar-se mais um bocadinho. Pim, pam, pum, que o fado dói.

«Odeio o fado, odeio», diz a fadista que anda nas bocas do mundo. «Porque não podemos cantar o fado se não o sentirmos, e eu, que canto todos os dias, tenho de sentir isto tudo a toda a hora, raios parta.» Emociona-se, chora. Explica que, de cada vez que dá voz à dor, tem de ir procurar dentro dela um motivo para o lamento. E que, por causa disso, todas as emoções são vividas ao extremo, bem vistas as coisas é preciso compensar a depressão com euforia. Um fadista ri alto e chora muito, tem de tornar visível as feridas que toda a gente anda a tentar esconder. «Mas depois há aquele alívio de seres absolutamente sincero, de não te poderes esconder de ti próprio. Odeio o fado, sim, e amo-o tanto.»

O romance muito sério entre Gisela e o fado começou no Porto há sete anos, nem mais nem menos. A rapariga tinha vindo de Barcelos para estudar design de moda, trazia meia dúzia de cantigas na bagagem, nada de especial. Chegou antes de as aulas começarem e, na verdade, nunca chegou a começar as aulas. Meteu-se nos refúgios dos marialvas e dos boémios, nunca mais saiu. Quando lançou o disco de estreia, em julho, Miguel Esteves Cardoso chamou-lhe no Público a Amália deste século, o Expresso deu-lhe cinco estrelas e catalogou-a como o rosto do novo fado, a Visão definiu-a como «o coração na boca» e a Time Out disse que Gisela João ia ficar para a História. Antes, já a Notícias Magazine a tinha anunciado como a grande aposta musical de 2013 e a velocidade com que ela chegou ao primeiro lugar no top de vendas não deixa margem para enganos. Não perdeu o gosto do estilo, de dia trabalhava numa loja e à noite, entre canções, fazia as suas próprias roupas. Precisávamos de uma boa desculpa para falar de Gisela João numa edição especial de moda, e esta não está nada mal. Fotografar as suas criações na cidade onde as criou, e aproveitar para reviver o Norte onde começou tudo.

A mãe era modista numa fábrica, ela conhece bem o mundo dos moldes, das linhas e das agulhas. Mas Barcelos, onde nasceu e cresceu, era mundo pouco, a vontade de sair de casa estava traçada desde a puberdade. «Vir para o Porto foi a minha libertação, mas também foi a minha angústia.» Tinha 22 anos, não conhecia ninguém na cidade. Chegou em julho de 2006, o plano era arranjar emprego de dia para pagar as aulas de noite. Para trás tinha ficado uma infância que não era infância, a tomar conta de seis irmãos mais novos. «Agora ia ser a minha vez, pensava eu, mas ao início as coisas foram muito duras.» Amigos faltavam, namorados nem vê-los, solidão maior do que a que canta nos fados. «Havia um café perto de minha casa aberto até às duas da manhã, às sextas e sábados à noite sentava-me sozinha no balcão e pedia um whisky, olhava para as pessoas que passavam e não paravam, não falava com ninguém. Depois pronto, ia para casa chorar.»

Havia na baixa uma loja que era o sonho de qualquer miúda que gostasse de roupa. A Downtown vende há 15 anos modelos muito cool a preços que Gisela não podia pagar. Nos passeios solitários pela cidade era paragem para o deleite, havia vestidos tão bonitos como a Ribeira ao por do sol. «Um dia soube que precisavam de gente e, pronto, fui para lá trabalhar.» Experimentava tudo o que chegava e, desta vez, mal chegou à porta da loja, agarrou-se a um fato de banho que haveria de comprar, mesmo que a época balnear há muito tenha acabado. «Foi aqui que as coisas começaram a melhorar», suspira. O dinheiro de um ordenado, pois claro, mas também o alívio dos dias ocupados e duas amigas para a vida.

Gisela conheceu Ana Rodrigues na loja, é em casa dela que fica sempre que tem de rumar a Norte. Tornaram-se amigas a dobrar camisolas, nas esperas dos clientes. «A Gi passava os dias a tricotar e a falar comigo, às vezes fazíamos vídeos com sketches de situações que se passavam aqui dentro, pessoas malucas que apareciam ou assim.» Joana Caetano também trabalhou ali, mas em boa verdade as raparigas conheceram-se nos fados. «Eu fui uma terça com a minha irmã à Tasca da Piedade e a Gisela cantou um fado. Nós aplaudimos muito e ela veio meter-se connosco no fim, mas pensava que éramos estrangeiras e começou a falar connosco em inglês.» As gargalhadas do engano tornaram-se cumplicidade, começaram a andar sempre juntas, sempre, sempre. Mesmo nesta reportagem.

Como é que Gisela podia não amar o fado (pelo menos tanto quanto odiá-lo), se o fado lhe salvou a vida? Na Tasca da Piedade há um quadro de Amália e um dia haverá outro dela. A cozinheira que empresta o nome ao estabelecimento, Piedade Rodrigues, bem se lembra dela chegar ali sozinha, começar a cantar, calar tudo de espanto. Alice, a filha, passa as tardes de terça a pedir silêncio, que se vai cantar fado, mas sabe que, na hora da Gisela, o pedido é perda de tempo. A rapariga de Barcelos só se salvou com o canto – e talvez por isso nunca tenha chegado a estudar moda. As paixões renovam-se, a vida é que é só uma.

FAMÍLIA É ISTO
Um dia foi ao restaurante O Fado, poiso antigo na Ribeira, portas abertas logo a seguir à revolução. Está a rua toda dentro de portas, candeeiros, tijoleira e painéis de azulejos e bancos de jardim. Cinco fados, intervalo, cinco fados, intervalo. Há mesas corridas que recebem grupos vindos de excursões ou de hotéis e uma mesa isolada em frente ao palco. Foi ali que Gisela se sentou, pediu comida e bebida, «e ai que aflita que eu estava porque não tinha dinheiro para pagar aquilo.»

Hoje há um grupo de holandeses, casa cheia a dia de semana. Lá ao fundo Gisela, Ana e Joana. Ela é recebida com abraços, o bom filho a casa torna. Nessa primeira noite em que apareceu e se sentou à mesa ninguém a conhecia, e foi o dono que a atendeu. «Estranhei, ver uma moça ali sozinha, e pensei que ela era uma cliente normal», conta Artur Almeida. «A meio do intervalo ela pediu-me se podia cantar. Eu perguntei-lhe se sabia, ela disse: ‘qualquer coisita’. E eu, que nem costumo dar voz a quem não é do elenco, deixei.» O homem virou-se para a audiência, anunciou uma estreia. Não meteu as mãos no fogo, recorda Gisela, vamos lá ver o que isto dá. E depois ela cantou. No fim da noite, trouxe-lhe em vez da conta uma folha em branco: «Deixe aqui o seu número de telefone, que a menina está contratada.»

Quatro anos n’O Fado é cantiga bastante. O fadista residente da casa, Fernando João, lembra-se de muitas vezes a ouvir e virem-lhe lágrimas aos olhos. Fê-la madrinha das rusgas do seu bairro, honra maior das festas populares na Invicta. E também aconteceu a primeira vez que ouviu o disco homónimo da Gisela. «Havia uma emoção qualquer que não se podia explicar, qualquer coisa de dentro. Sou fadista há cinquenta anos e nunca vi nada assim.» Os guitarra e viola da casa, Samuel Cabral e Paulo Faria Carvalho – que também tocaram à tarde na Tasca da Piedade – dizem o mesmo. «É que nunca se viu nada assim.»

Assim que acabava de soltar a voz, Gisela ia esconder-se na cozinha. Manuela Almeida, mulher do dono, andava de volta dos tachos a ouvi-la falar de medos e amores, enquanto a ia ensinando a cozinhar. «Só tenho rapazes, ela é a filha que não tive», diz a mulher, toda comoção quando vê Gisela fazer-se enorme e, ao mesmo tempo, tão pequenina. Trata Artur por pai e Manuela por mãe, ainda hoje. Foi a sua família nos anos que passou no Porto, o apoio financeiro e moral, antes de se fazer à vida em Lisboa. E, pronto, requintaram-lhe o tempero. A rapariga gosta de cozinhar.

Gisela vivia no Lordelo do Ouro, pertinho do Aleixo, numa casa com cinco quartos partilhada a meias com um francês de nome russo: Dimitri. Do terraço onde passava os dias a cantar, via a Foz. «Tão bonita era a minha casa, anda lá vê-la.» E, quando começa a subir a rua do Senhor da Boa Morte, desata num pranto danado. Os passos abrandam, cada metro vale uma memória feliz ou triste, «é a vida». E, quando chega à vivenda, vê uma placa a anunciar o arrendamento. «Ai que eu vou alugar a casa outra vez.» Telefona logo, pergunta o preço. Diz que há de ligar de volta.

Quando chegou a Lisboa, desafiada pelo fadista Helder Moutinho, foi viver para a Mouraria. Depois mudou-se para o Príncipe Real – mas o que Gisela João diz, com uma convicção inabalável, é que nunca cantou tanto nas suas residências lisboetas como o fazia no Porto. «Eu passava o dia inteiro a debitar fados, estivesse a cozinhar, a limpar a sala, a tomar banho ou a fazer os meus bordados. E uma casa onde cantas assim é a tua casa, só pode ser.» Tantos saltos deu Gisela na vida que cada refúgio seguro tem valor de tesouro. Daí por umas horas já tinha plano traçado. Ia alugar a casa com amigos, que renda dividida custa menos a pagar. Assim, sempre que vier ao Porto, tem poiso certo, e palco sem público.

Gisela gosta de fados que contem histórias. A vida é dura e a narrativa das canções não é só amor e saudade, é também a dureza do quotidiano. A sua versão d’A Casa da Mariquinhas tem letra de Capicua (uma rapper do Porto) e é toda uma crónica dos tempos. Fala que «mesmo sem ditadura, até hoje em dia as vacas são lingrinhas», que «as janelas estão tapadas com tijolos», que «a casa que está morta e em ruínas, por causa destes senhores, até já nem tem penhores, porque mais ninguém tem ouro.» E agora, a descer da Batalha para a Ribeira, queixa-se das cidades magoadas e de um povo pobre, que já merecia menos uma vida menos sofrida. É como se quisesse que a antropologia do fado fosse toda passado e presente nenhum.

Pouca gente conhece a cena fadista do Porto, mas é possível ir ouvir música todos os dias da semana – talvez não na cidade, mas seguramente na área metropolitana. Antes de se fazer à estrada para o Sul, foi vocalista dos Atlantihda, uma banda de World Music que mistura o fado com o folclore. Mas o caminho de Gisela João estava traçado, era fado e fado e fado. Mesmo que ela goste de música eletrónica e de festas rave, mesmo que continue a fazer as suas próprias roupas, é fado e fado e fado. E, quando assim é, o centralismo dita as regras, e a rapariga foi para Lisboa.

Na capital, tem uma agenda cheia, mas continua a cantar no senhor Vinho, a casa que Maria da Fé, fadista portuense, abriu em 1975, oito anos antes de Gisela nascer. Também solta a voz na Severa, a casa no largo homónimo onde nasceu a mítica fadista – e que depois de vários anos ao abandono foi recuperada para a única vocação que podia ter: o fado. Mas o Porto é o Porto, e para Gisela João o Porto é fado. Tanto que, na véspera de partir para Lisboa, tatuou uma guitarra portuguesa no braço.

[Publicado originalmente na edição de 20 de Outubro de 2013]

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia: Jorge Simão