OPINIÃO

O português da Lacoste

A exposição do estilista português Felipe Oliveira Baptista no MUDE é já a mais visitada de sempre.

A exposição do estilista português Felipe Oliveira Baptista no MUDE – Museu do Design e da Moda – é já a mais visitada de sempre, o que levou ao seu prolongamento, até ao fim deste mês. A NM entrevistou o estilista português e atual diretor criativo da Lacoste por ocasião da inauguração.

A exposição que inaugurou esta semana no MUDE (Museu do Design e da Moda), em Lisboa, faz uma retrospetiva dos seus dez anos de carreira em nome próprio. O que podemos esperar?
_Nunca houve uma intenção clara de fazer desta mostra uma exposição com uma cronologia tradicional. À medida que o tempo foi passando, o estilo foi mudando, as ideias foram-nos levando por um caminho que passou a fazer sentido. Todo o percurso de uma década de trabalho é apresentado como um conjunto de instalações com um fio condutor, através de um vídeo que explica o trabalho que envolve o processo criativo de uma coleção, Um conjunto de oitenta ecrãs agrupados por grupos de quatro dão a perspetiva global do que é fazer uma coleção, desde a ideia até ao momento em é publicado nas revistas.

Como surgiu a ideia de fazer esta exposição?
_O convite foi feito pela Bárbara [Coutinho, diretora do MUDE] há cerca de um ano. Em dezembro começámos a trabalhar. O mais curioso é que a Bárbara desconhecia que em 2013 passam dez anos desde que criei a marca Felipe Oliveira Batista, o que acabou por ser ainda mais interessante.

Já conhecia o MUDE?
_Não conhecia. Fiquei fascinado.

Sente que é importante mostrar o seu processo criativo e como esse processo tem evoluído ao longo dos anos?
_Penso que quem trabalha em moda pode ver e perceber esse processo criativo e a sua evolução. Mas para o público em geral, esta exposição dá a conhecer todos os passos necessários à concretização de uma coleção. O que se passa antes do produto final – que é o desfile -, as campanhas, a roupa nas lojas…

Depois de Lisboa está planeada alguma digressão para a exposição?
_Julgo que existe essa ideia por parte da diretora do museu, mas ainda não sei detalhes ou sequer se isso virá a acontecer.

É o diretor criativo da Lacoste e tem uma marca em nome próprio. Como foi possível conciliar estes dois projetos e como é que essas duas vertentes profissionais se refletem na exposição?
_Com muitos sacrifícios familiares, com uma boa gestão da agenda, com muitas horas de trabalho e com boas equipas. Pensar em coleções de projetos diferentes exige que se tenha o apoio de outras pessoas que sabem como e quando colocar em prática o que estou a pensar e se isso é viável ou não. Mas esta exposição é só sobre mim e a minha marca, a Lacoste não foi contemplada porque não fazia sentido.

Construiu uma imagem de criador de «vanguarda minimalista». Quem são as suas referências? Como se inspira?
_Confesso que sou muito eclético nas minhas criações. Gosto de cruzar referências clássicas com modernas, onde o resultado pode nem ser o mais óbvio. Tudo na minha vida interage com o meu trabalho. É o caso das viagens, dos livros, do cinema, do dia-a-dia. É essa vivência que se pode ver na instalação no MUDE.

Como se define o seu trabalho criativo? Consegue descrevê-lo?
_Não sei… Um trabalho em constante aperfeiçoamento, evolução e novas procuras!

O público português vai conhecer, dentro de dias, no Portugal Fashion, no Porto, as suas propostas para o verão de 2014, que já desfilaram na Semana de Moda de Paris. Os estampados são mais «frios», as cores são mais «duras» e o jogo de sobreposições destaca-se em algumas peças como os casacos de três quartos. É uma coleção pensada para novos mercados?
_Não. É uma coleção pensada para todos os mercados. Conjuguei matérias-primas para climas quentes e outras para climas mais frios. Acho que as estações estão cada vez mais esbatidas e o consumidor quer ter acesso a roupa que lhe permita viajar em qualquer altura do ano e estar na moda.

O deserto serviu de inspiração para criar esta coleção. Como?
_Adoro o deserto. Estive três vezes em Marrocos e percebi que a nossa cultura está muito ligada à do norte de África. Isso é muito interessante e só tive essa consciência depois de lá ter ido. Por vezes camuflamos conhecimentos e heranças culturais que poderiam enriquecer-nos. Depois das viagens a Marrocos, decidi fazer um cruzamento entre as minhas influências culturais, a europeia, e o Norte de África. Por isso, inspirei-me na natureza local, nos povos, nas cores e nas suas vestimentas. Daí o azul tuaregue ou os verdes cristalinos. Os estampados jacquard de seda e algodão pretendem recriar as paredes em erosão que vi.

A marca Felipe Oliveira Baptista não vende em Portugal. Espera que isso venha a acontecer? Existe essa possibilidade?
_Sim, existe.

E com loja própria ou em regime de multimarca?
_Numa primeira fase faz sentido que seja num espaço multimarca. Aguardo a oportunidade.

Paris e Porto, por vezes Lisboa, são as cidades onde se podem ver as coleções da sua marca. Para estas apresentações tem contado com o apoio do Portugal Fashion. Se esta parceria não existisse, conseguiria expor da mesma forma a marca F e lipe Oliveira Baptista?
_O Portugal Fashion tem sido fundamental. Sem o apoio deles, a exposição da marca não seria possível. Assim como o do banco BPI.

O que acha do panorama atual da moda nacional. Considera existir uma «moda portuguesa»?
_Acho que a moda portuguesa se está a construir. Cada povo tem a sua abordagem, mas se compararmos com a moda francesa, a moda portuguesa é ainda uma criança. Mas mais importante do que o facto de saber se há ou não uma moda portuguesa, é haver uma tradição têxtil, uma tradição de indústria, e isso é fulcral para a existência da moda. E penso que esse conhecimento é mais importante, porque a moda é um conjunto de fatores que funcionam para um mesmo fim.

A escolha da cidade de Paris para viver foi fulcral para construir a carreira que tem hoje?
_Paris, Londres, Milão ou Nova Iorque. Estudei em Londres, vivi em Milão e em Nova Iorque. Cada uma destas cidades poderia ter sido a escolha, porque são cidade importantes no setor e onde poderia ter alcançado o sucesso mais rapidamente. Mas foi Paris que escolhi, apesar de ser muito competitiva, devido às grandes marcas e à sua história na moda. É aqui que se conquista a credibilidade e o reconhecimento.

Gostaria de trabalhar em projetos de características diferentes, além da moda?
_Gosto de fazer e de pensar noutras coisas. Este ano fui convidado pela Herdade do Esporão para criar os rótulos do vinho Reserva 2013. Gostava de fazer um projeto de fotografia, que é uma paixão. Gostaria de desenhar mobiliário. Mas tudo isto exige uma coisa que não tenho ou que tenho muito pouco, que é tempo. Explorar outros campos artísticos sempre me interessou e hei-de ter oportunidade…

[Publicado originalmente na edição de 20 de Outubro de 2013]

Catarina Vasques Rito