OPINIÃO

Mergulhe na natureza

É primavera. Saia de casa e desfrute da natureza. A ciência garante que faz bem à cabeça. E ao corpo

Farto do stress e do cansaço crónico? Saia das quatro paredes e enfie-se na natureza. Este é o conselho dado por cada vez mais especialistas, que recomendam o contacto com o verde para aumentar o bem-estar. Está na hora de aproveitar a energia da primavera!

Para quem só acredita se ler num es­tudo, estes não faltam. Na última década, foram muitas as investi­gações a garantir duas coisas: pri­meira, uma vida passada em ambientes ex­clusivamente humanos, e com muita esti­mulação artificial, origina exaustão e perda de bem-estar; segunda, a convivência regu­lar com árvores, jardins, campos e paisagens silvestres aumenta o vigor físico e psicológi­co. Conclusão? O contacto com a natureza faz bem à saúde. Desde logo, dissipa o stress, fortalece o sistema imunitário e dá maior vi­talidade, mas traz outros benefícios precio­sos, garantem os cientistas.

Um dos mais explorados tem sido o com­bate à depressão. Desde que uma pesquisa da inglesa Universidade de Essex, divulgada em 2007, relevou que basta uma caminhada diá­ria de meia hora, por qualquer paisagem na­tural, para obter, nas depressões suaves, um efeito semelhante ao dos antidepressivos, a estratégia de recorrer ao ambiente para ali­viar males modernos não parou de ganhar adeptos. Sobretudo no Reino Unido, onde a ecoterapia, como lhe chamam os especialis­tas, levou também à expansão dos chamados Green Gymns, um projeto comunitário ino­vador que propõe, em vez de horas nos apare­lhos dos ginásios, trabalhos de conservação da natureza. A criação de jardins públicos, plantação de árvores e flores, manutenção de áreas florestais ou defesa da vida selvagem levam para ambientes campestres pessoas que, de outra forma, dificilmente aproveita­riam os benefícios psicológicos e físicos, dos cenários verdejantes.

Recentemente, outra investigação, vinda dos EUA, defendeu que o convívio com árvores é importante para o bem–estar cardíaco e respiratório. Publica­da no ano passado, na revista científica American Journal of Preventive Medicine, a pesquisa, realizada em mais de 15 esta­dos norte-americanos, demonstrou que a mortalidade por doenças destes foros é maior em zonas sem vegetação ou quase privadas de verde.

Donde vem o poder terapêutico da na­tureza? Há quem diga, como as culturas tradicionais, que sempre lá esteve, apenas foi esquecido. Não é por acaso que os japo­neses praticam, há muito, o shinrin-yoku ou banho de floresta. Um hábito simples que consiste apenas em passear num bos­que e deixar-se impregnar pelo ambiente, mas com efeitos comprovados no equilí­brio da tensão arterial, do batimento cardí­aco e do sistema imunitário e que contribui ainda para baixar a concentração de corti­sol, mais conhecida por hormona do stress.

A explicação? «Temos uma ligação es­pontânea com as coisas vivas. A natureza é algo do qual florescemos, por isso é crucial tê-la mais presente nas nossas vidas», avança o norte-americano Richard Ryan, investigador da Universidade de Roches­ter e coautor de um estudo sobre o tema. «Quando nos sentimos esgotados temos tendência a agarrar uma chávena de café, mas a pesquisa mostra que a melhor ma­neira de nos energizarmos é ligarmo-nos ao meio natural. A natureza é mesmo um combustível para a alma.»

SAIA DE CASA, GOZE O VERDE…
[MESMO NA CIDADE E ARREDORES]

COM EXERCÍCIO
Se o contacto com a natureza ajuda a diminuir o cortisol, a hormona do stress, a atividade física gera endorfinas, hormonas da felicidade, bem como equilibra a produção de serotonina e dopamina, neurotransmissores que regulam o estado de ânimo. O que mais se pode pedir de uma corrida, caminhada ou partida de futebol numa zona verde citadina? Aumento da concentração e mais energia? Também.

COM PIQUENIQUES
As temperaturas primaveris convidam ao ar livre e é só pegar numa manta, preparar um lanche e telefonar aos amigos. O que não faltam, nas nossas cidades, são espaços verdes mal aproveitados. Perca a vergonha de se sentar no chão e use os jardins. Estes, e a sua saúde, agradecem.

COM OBSERVAÇÃO DE PÁSSAROS
Nesta época eles não faltam, chegados para aproveitar o nosso clima. Escolher um parque recatado, farto em árvores e relva, é garantia de uma pausa em pleno contacto com a natureza. A melhor altura para os ver e ouvir, em atividade frenética, é de manhã cedinho ou ao cair da tarde.

COM HORTAS URBANAS
Mexer na terra e no que ela nos dá é uma excelente estratégia de recuperar a ligação à natureza e aos seus ritmos, sendo também uma maneira ativa de passar tempo ao ar livre e garantir o bem-estar. Se não conseguir um pedacinho de terreno para cultivar, visite hortas abertas ao público ou tente, juntamente com os vizinhos, criar um espaço comunitário.

COM BANHOS DE BOSQUE
Procure uma mata ou zona verde silvestre nos arredores da cidade e, à maneira tradicional japonesa, embrenhe-se pelos trilhos e deixe-se contaminar pela natureza, pelos seus aromas e sons. Os benefícios para a saúde desta espécie de meditação ativa são muitos e comprovados.

Cristina Azedo
Ilustração: Sofia Bartolo / WHO