OPINIÃO

Do Oriente com amor

A paz interior que vem de exercícios com nomes estranhos.

Cansadas do stress de todos os dias, são cada vez mais as pessoas que se voltam para as práticas orientais milenares em busca de orientação e de paz. E não há que ter medo de experimentar: por detrás de nomes esquisitos, todas visam o auto desenvolvimento ao ritmo de cada um.

No instante em que começou a fazer kiryu com o mestre Francisco Castro, nas aulas ao ar livre em Paço de Arcos, que não perde há quatro anos, Bartolomeu Costa Cabral ga­nhou uma cabeça de jovem. Os 85 anos não o deixam esquecer os problemas de circu­lação e dos joelhos, o corpo lento, a elastici­dade reduzida, mas o ânimo que sente com­pensa largamente as mazelas físicas da ida­de. «O Francisco diz que isto é uma espécie de ginástica para o funcionamento do orga­nismo. Ajuda a tratar o fígado, os rins e uma série de outras coisas, e eu acredito porque me faz sentir bem», assegura o praticante, enquanto inspira o amor do universo e ex­pira as suas tristezas. À luz do stress da vida moderna, hábil a afastar-nos do caminho da auto descoberta, não admira que haja cada vez mais pessoas a procurar a sabedoria das práticas ancestrais que vieram do Oriente. A saúde vale todos os esforços.

«O kiryu é mais antigo do que o chi kung, um saber com quase cinco mil anos transmi­tido de mestre para discípulo, e ainda hoje é pouco conhecido porque os movimentos são subtis e femininos. Chamaram pouco a atenção dos ocidentais quando chegaram à China e ao Japão e quiseram sistemati­zar as práticas antigas», explica Francisco Castro, formado em medicina convencio­nal, medicina tradicional chinesa e intro­dutor do primeiro curso de kiryu em Portu­gal há cerca de um ano, após enraizar bem o chi kung junto de quem o procura.

«O kiryu é uma arte marcial externa e uma arte interna. Quando praticamos não pensa­mos só no corpo, mas no lugar onde estamos, na estação e época do ano, no clima, no que conseguimos fazer em cada segundo.» Kiryu significa o fluxo do chi, o sopro divino; é tudo o que está vivo e flui à nossa volta. «Os exercí­cios deixam-nos perceber esse fluxo no cor­po, nos órgãos internos, naquilo que nos ro­deia, e permitem prever e solucionar situa­ções de desequilíbrio», diz.

À semelhança das mulheres das aldeias de então, as monjas dos mosteiros taoistas eram atacadas com frequência. Aos poucos, descobriram forma de se defender copiando a natureza. Quem as via deslizar com graça e economia de gestos, imitando as serpentes ou um ramo batido pelo vento, não imagina­va tratar-se de uma arte marcial eficaz, além de servir de base a práticas tão diversas (e aparentemente independentes) como a acupunctura, a reflexologia, o feng shui, o tai chi, o chi kung e outras. «A respiração, por exem­plo, é importante para energizar o corpo. Muita gente tem problemas devido a uma respiração equivocada», insiste o profes­sor da Associação Internacional de Medi­cinas Tradicionais e Atividades Saudáveis (SALVA), conduzindo a aula: exercícios que ativam a circulação; exercícios que corrigem a postura e o equilíbrio; exercícios que bene­ficiam a musculatura, o sistema imunitário, a flexibilidade, as vísceras. «Tornarmo-nos mais completos como seres humanos traz menos desequilíbrios e frustrações.»

Inácio Dias sabe bem a que se refere Fran­cisco Castro quando fala simultaneamente em arte externa e trabalho interno. Seguidor do método desenvolvido pelo japonês Ken­ji Tokitsu, segundo o qual as artes marciais são uma via de desenvolvimento global do ser humano, há 24 anos que pratica tai chi nesta perspetiva integrada. «Chi quer dizer ener­gia vital e ji significa centro, por isso é mais correto dizer tai ji chuan do que tai chi chuan, no sentido de ser o trabalho de desenvolvimento do centro do corpo», emenda logo à entrada do Jisei Dojo, em Lisboa, onde dá aulas. A partir daí, percebemos o que ali se faz: as sequências técnicas, que os alunos executam com gestos lentos e movimentos flexíveis, tanto podem ser aplicadas em combate como em jeito descontraído, em grupos heterogéneos nos jardins e parques.

«Seja qual for a intenção com que se pratica tai ji, há sempre um objetivo de bem-estar inerente. Não andamos aqui só à pancada, é muito maior a construção interna que procuramos», defende Inácio, para quem cuidar do corpo físico passa necessariamente por cuidar também do corpo energético, mental e espiritual. «O trabalho que aqui fazemos é ao nível da saúde e ao nível da eficácia, e isso é arte marcial, atenção! Às vezes entende-se mal esta noção, mas as artes marciais são um caminho de paz e não de guerra.» Nas suas aulas, além de se trabalhar o tai ji e o chi kung(séries de exercícios e katas que visam aumentar as capacidades físicas e otimizar o dinamismo natural do corpo humano), a prática dosabre japonês – kenjutsu– surge como uma extensão natural dos outros dois.«No fundo, tentamos viver o espírito dos samurais, esses gentlemenà japonesa que valorizam a lealdade, a coragem, o autocontrolo e a firmeza, ao mesmo tempo que sabem explorar os pontos vitais do adversário.» Mais do que uma forma de estar, sublinha, é uma forma de ser, aplicada a homens e mulheres de todas as idades. «O praticante mais novo tem 16 anos, o mais velho tem 74 e é meu aluno há seis.

E todos transportam este espírito de desenvolvimento pessoal no dia a dia, sejam eles juristas ou informáticos ou outra coisa qualquer.» Estudos recentes apontam ainda os efeitos de rejuvenescimento do tai chi chuan, já que a prática diminui a pressão sanguínea, fortalece os músculos e o sistema imunológico, estimula a circulação, irriga as articulações e promove a calma mental.

José Carlos Santos é outro professor que parece tranquilo e ponderado como um Buda, muito por conta dos 43 anos que leva de práticas orientais: começou com o karatéem 1972 e praticou-o intensamente durante 18 anos. Em 1975 teve o seu primeiro contacto com o tai chino Parque Ibirapuera, quando viveu dois anos em São Paulo, no Brasil. Em 1988, numa viagem empresarial à China, iniciou-se e praticou sozinho até 1994, altura em que conheceu o mestre chinês Xuan Wu, que ensinava tai chino Jardim das Rosas da Fundação Calouste Gulbenkian. Juntos lançaram as bases da prática em Portugal, foram pioneiros na formação profissional de monitores, José Carlos aprofundou o chi kunge vai agora dedicar–se em primeira mão à formação específica em yôgong, uma prática que agarra as virtudes melhores do yogae do chi kunge ainda lhe acrescenta uns pozinhos dos valores das artes marciais. «O yôgong não pretende ser uma condensação de artes», avisa o professor do Círculo de Artes do Movimento Interno (CAMI), satisfeito com o seu método de recuperação energética e postural. «Nasceu porque vi que é difícil as pessoas digerirem as culturas védica, hindu e chinesa, e era importante aplicar uma linguagem que lhes fosse mais acessível.» As coisas surgiram naturalmente, com base nas várias experiências de movimento interno que testou nos últimos vinte anos. As vantagens? «Correção de posturas, acalmia do ritmo respiratório, melhoria da concentração, aumento da autoestima e gestão do stresssão apenas algumas. Costumo dizer que os benefícios vêm em conformidade com a atitude do praticante, sobretudo em matéria de assiduidade e de insistência na aula.» Francisco Dias, 85 anos e seu aluno há 16, concorda com a exigência do mestre: «Os exercícios não são fáceis, mas a persistência faz toda a diferença», salienta.

Ana Fonseca também a sente desde que tirou o curso de yôgong com José Carlos Santos (neste momento serão eles os únicos a dar essas aulas), o de kiryucom Francisco Castro e o de chi kung integral com ambos, potenciando a sua atividade enquanto professora de yoga há mais de uma década. «As pessoas andam tão desnorteadas, tão sem rumo, que a ideia é viverem o momento enquanto aqui estão», revela a terapeuta, recordada de como a prática a ajudava a serenar nos tempos em que foi jornalista e vivia em stress permanente. A ela, aprender a respirar e a trabalhar a coluna vertebral – «um dos pontos mais negros da existência humana» – permitiram–lhe fazer do corpo um templo saudável e a ler os seus alunos para ajudá-los. Abrir a sua Associação Pétalas Cósmicas há cinco anos fez parte desse trabalho de cura.

«Pessoas com a tensão alta não devem fazer posições invertidas sobre a cabeça, mas essas beneficiam muito a oxigenação do cérebro e a tendência normal de os órgãos descaírem com a idade. Não são as pessoas que se vão adaptar ao yoga e sim o yoga que se adapta a cada pessoa. Numa aula é perfeitamente possível conciliar isso», garante.

Ana não tem qualquer dificuldade em meditar nem em induzir a meditação nos outros, mas concede que tanto o yôgong como o chi kung poderão facilitar mais o relaxamento do que o yoga. «Penso que é fácil os praticantes relaxarem quando a mente está ocupada a acompanhar os movimentos. Nessas aulas ninguém está a pensar em nada, no almoço, no jantar, nos filhos, além de que dão uma paz de espírito fantástica enquanto se faz um trabalho interno muito intenso.»

Pela parte que lhe toca, Teresa Amaral, 51 anos, não troca por nada as suas duas aulas semanais de yoga nas Pétalas Cósmicas, que a ajudam a ligar-se à terra, por um lado, e ao etéreo por outro. «Os meus colegas dizem que eu venho ao yoga para me reencontrar e, por isso, quando por alguma razão não venho, fico sempre pior», ri-se. Teresa gosta da sensação de relaxamento, da mente vazia de pensamentos por um bocado. Gosta desse tempo que tira só para si. «Sou engenheira de petróleos e uma das coisas que me encantam na profissão é precisamente a transformação de uma matéria-prima numa série de outros produtos. Como sou química de início, é muito engraçado pensar nas coisas até ao nível do átomo, que me faz sempre imaginar o universo.» Em matéria de saúde e bem-estar, parece que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.

 

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ONDE PRATICAR

JISEI DOJO

Tem tai ji, chi kung e kenjutsu. Rua Fernão Lopes, 9, 1.º Esq., Lisboa. Telefone: 210 993 092.

www.jiseidojo.pt.

PÉTALAS CÓSMICAS

Tem yoga, yôgong, kiryu e dança oriental. Rua Teixeira de Pascoais, 21 A-B, Lisboa (metro Roma). Telefone: 211 561 754.

yogamilpetalas@gmail.com.

ESPASSUS GINÁSIO

Tem yôgong e chi kung. Rua dos Táxis Palhinha (junto à piscina), Carnide. Telefone: 936 140 724.

www.jf-carnide.pt.

JARDIM DAS ROSAS

(FUNDAÇÃO GULBENKIAN)

Tem tai chi e yôgong. Av. Berna, 45, Lisboa. Telefone: 218 221 704.

cami_lisboa.blogs.sapo.pt/.

CASA DE LAFÕES

Tem yôgong e chi kung. Rua da Madalena, 199, Lisboa. Telefone: 218 872 065.

cami_lisboa.blogs.sapo.pt/.

ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE MEDICINAS TRADICIONAIS E ATIVIDADES SAUDÁVEIS

Tem kiryu e chi kung. Rua José Ferrão Castelo Branco, 8, R/C Esq., Paço de Arcos, Oeiras.Telefone: 214 427 302.

salvablogue.blogspot.pt/.

FIGUEIRA MANSA WELLNESS

Tem yôgong e chi kung. Av. da República, 3, 1.º andar, Lisboa. Telefone: 967 002 068.

www.figueiramansa.pt.

CENTRO MÉDICO PORTELA

Tem yôgong e chi kung. Morada: Urbanização da Portela de Sacavém, Edif. Concórdia, 2.º andar. Telefone: 929 084 049.

http://pedroferromeneses.pt/.

CENTRO DE YOGA DO PORTO

Tem yoga. Rua Gonçalo Cristóvão, 128, 11.º Dir., Porto. Telefone: 222 050 923.

https://www.facebook.com/ CentroYogaPorto.

ASSOCIAÇÃO TAI CHI CENTER

Tem tai chi e chi kung. Rua Marques Leitão, 68, R/C Dir., Gondomar, Porto.

Telefone: 914 129 998.

www.taichicenter.pt/.

 

Ana Pago
Fotografia: Steven Governo/Global Imagens