OPINIÃO

Até que nem a morte os separe

O casal mais velho do país jurou há quase 78 anos que só a morte o iria separar.

Vicente, 104 anos; Augusta, 100. O casal mais velho de Portugal. Juraram há quase 78 anos que iam ficar juntos «até que a morte os separe». Não vão cumprir o juramento. Já compraram duas campas no cemitério da aldeia onde viveram a maior parte da vida. Para que nem a morte os separe.

Lucinda pousa a mão no rosto enrugado de Vicente antes de fazer a pergunta: «Estás bem?» O marido já tem dificuldade em ouvir à primeira. Acaba por responder, mas sem gastar mais do que duas palavras, que pronuncia de olhos fechados: «Estou… Cala-te.» Lucinda obedece. Dá-lhe um beijo na face e sossega. Fica deitada ao lado de Vicente. Vigilante. Lucinda, com um século de vida, passa as noites com uma das mãos no ombro de Vicente. Com a outra vai compondo o edredão quadriculado, em tons vermelho e amarelo. Fica muitas noites a olhar para as paredes vazias, pintadas de bege. Entre a porta e as duas camas individuais, en­costadas uma à outra, há um pequeno móvel com a Sagrada Família. Reza para que Deus não lhe leve ainda o único homem para quem teve olhos, antes e ao longo dos quase 78 anos que levam de casamento. No último ano, Vicente Dias passou a estar numa cadeira de rodas. Duas cirurgias à mão direita, já amputada, enfraqueceram-lhe as pernas de 104 anos. O casal mais velho do país saiu há três anos da casa alugada onde vivia em São Cipriano. Deixaram a aldeia do concelho de Resende com a promessa de voltar. Foi aqui que escolheram ter a última morada. A dois. Agora vivem ali perto, em Freigil, na casa da neta Maria do Céu Dias, que trabalha num centro para idosos mas para onde se recusa levar os avós.

«Po-los num lar estava fora de questão e tomei a opção de ficar com eles», diz a mulher de 47 anos, casada e com dois filhos. Vivem todos numa grande vivenda isolada, da cor do cimento, já que a tinta não chegou às paredes exteriores. Foi construída há uma década, com vista para uma imensa paisagem verde, cortada por uma estrada pouco movimentada e onde quase só se ouvem pássaros. «A nossa casa era muito pobre, aqui estamos melhor, mas não é a nossa», diz Lucinda, com o olhar em direção à porta da sala, de um castanho mais claro do que os seus olhos. Sentada direita no sofá estampado, vai ajeitando a saia e o longo cabelo branco, preso atrás com uma travessa. Tem pele demasiado lisa para a idade. Abeira-se do marido, mima-o com beijos no rosto. Vicente nem se mexe. Lucinda sempre cuidou dele «na saúde e na doença». Por mais anos que passem não lhe encontra defeitos. «Não tem nenhum», assegura. «Fez-me sempre as vontades, foi muito meu amigo.» Une as palmas das mão e diz: «Fomos sempre assim…» Faz uma pausa, ganha fôlego e conclui orgulhosa: «Nunca me chegou uma bofetada!», convencida de ser a protagonista de um caso raro de respeito para a época. «Ele também deu com uma mulher que fazia tudo. Até as ceroulas!», diz, como quem explica que o amor do marido foi merecido. Conhecem-se desde crianças. Moravam ambos em São Cipriano. Não frequentaram a escola. Não era para pobres. Cruzaram-se nos trabalhos da lavoura. Acabou por escolhê-la para esposa, depois de ter ido à tropa e de ter acabado o namoro com a filha de um regedor. «Ela era rica e eu uma triste, mas ele gostou de mim», diz Lucinda, com os olhos a brilhar e o sorriso fácil. Está sempre disposta para dois dedos de conversa, apesar das frases soltas. Vicente, de olhos azuis-claros, observa de forma fixa e demorada quem o rodeia. Não diz quase nada, mas tem expressão de quem pensa tudo. Sem perder a lucidez. Esboça um sorriso matreiro quando, a custo, confessa do que mais sente sauda­des: «De querer ir às raparigas.»

Nasceu a 25 de dezembro de 1910. Foi o ano em que foram publicadas as leis da família e do divórcio. Desde então, o registo civil passou a ser obrigatório além do paroquial. Para o casal só existe a lei da família. Casaram-se a 28 de julho de 1938, com nove escudos que não davam para comprar as alianças, que nunca tiveram e nunca lhes fizeram falta. «No dia do casamento, uma cunhada emprestou-me a dela, fiz de conta que a coloquei no dedo. No final devolvi-a», recorda Lucinda, a sorrir. Foi uma cerimónia simples. «Só tivemos um almocito, mas graças a Deus fomos todos bem», diz. Melhores foram os anos que se seguiram. Tiveram um rapaz e duas raparigas que lhes deram 12 netos que, por sua vez, acrescentaram 20 bisnetos. Seguiram-se mais nove tetranetos e mais um que está para nascer. Vão ser 42. Reuniu-os todos a 24 de maio, na festa dos 100 anos, assinalados com uma missa na igreja de São Cipriano, à qual deixou de ir, não por não ter quem a leve mas porque recusa ir sem o companheiro. A missa e o terço passaram a ser vistos pela televisão.Levantam-se às nove horas. Ela toma banho e veste-se sozinha. Vicente não faz nada sem a neta ou a empregada contratada para ajudar. Uma das duas empurra-lhe a cadeira de rodas em direção à cozinha para comer as papas. A companheira já o aguarda, pronta a beber o leite com cevada e comer o pão. Comem de tudo, mas para ele é tudo triturado. Sem a mão direita, só aceita que a comida lhe chegue à bo­ca pelas mãos da neta ou da empregada. Lucinda só pede ajuda à bengala. Abre a porta da rua, desce a barreira em aço inox que foi colocada ao lado de dois degraus que levam ao acesso de terra batida. Fica ali a apreciar o jardim, as cerejei­ras carregadas e as oliveiras junto à casa. Depois desce o caminho até à estrada. Dá meia volta e regressa a casa para se juntar ao marido, que, quase sempre, prefere ficar a descansar no quarto. «Agora não faço nada!» É a maior queixa de Lucinda, que agradecia que a deixassem fazer mais do que descascar batatas e cebolas. «A minha avó sempre foi muito ativa e lembro-me da cama fofinha que me fazia», recorda a neta. Agora é tempo de retribuir. Lucinda encolhe os ombros e desabafa: «Trabalhei desde que me conheço», diz, agora a querer falar mais depressa para relatar as duras tarefas do campo. «Fazia tudo, menos a poda, que era só para os homens, mas tratava de quatro vacas e de um boi.» Olhando para trás, recorda: «Era uma vida muito alegre.» Nas horas de calor e aos serões jogavam às cartas, umas vezes à bisca, outras ao burro ou ao que calhava. «Era um vício muito grande.»Agora quando olha para o marido suspira. «Acho que ele está por dias. E eu, só Deus é que sabe», diz, com as mãos erguidas para o céu. O que o casal tem é a certeza de que quando partir regressa a São Cipriano. Juntos em vida, não serão separados pela morte. Vão ficar unidos no pequeno cemitério, onde há dez anos compraram duas campas. Uma ao lado da outra. «Assim continuamos a tomar conta um do outro», diz Lucinda, em jeito de brincadeira. «Até podemos jogar às cartas.»

Sandra Ferreira
Fotografia: Adelino Meireles/Global Imagens