OPINIÃO

Prata da Casa

Já não há empregos para a vida, mas ainda há quem trabalhe há mais de trinta anos na mesma empresa.
Milé, 52 anos
Orlando Almeida/Global Imagens
 Já não há empregos para a vida. A vida profissional tornou-se volátil, instável, os funcionários querem-se flexíveis, adaptáveis, nómadas até. Mas há quem ainda viva noutro tempo, em que se ficava toda uma existência a trabalhar no mesmo sítio, em que os patrões viravam amigos, praticamente família. Conhecemos seis funcionários que trabalham há mais de trinta anos na mesma empresa e e vestem a camisola como se o negócio fosse deles.

MILÉ, 52 anos
Trabalha há 37 anos nos cabeleireiros Marina Cruz
Está nos cabeleireiros Marina Cruz desde o início, ou seja, há 33 anos, na Rua Miguel Bombarda, em Lisboa. Mas Milé já trabalhava com a «mestra» antes mesmo de ela se tornar empresária. Trabalharam juntas no Centro Comercial Alvalade e, depois disso, nunca mais se largaram. «Quando a Marina abriu o primeiro cabeleireiro, eu fui para assistente dela. Fiz isso durante cinco anos e, ao mesmo tempo, tirei o curso de cabeleireira, à noite. Depois, passei à cadeira, ou seja, assumi a função de cabeleireira. Foi uma grande responsabilidade. Estava um bocadinho nervosa mas acho que sempre transmiti segurança. E andei para a frente. O meu primeiro ordenado foi 3.500 escudos. E tinha prémios de produção, por produtos vendidos às clientes. Sempre fui boa nisso. Cheguei a ganhar oito contos só em prémios!»

Ser cabeleireira, explica Milé, é muito mais que saber cortar, pintar ou secar o cabelo. É saber que corte favorece mais certo tipo de rosto, é saber aconselhar sem impor, é fazer o contrário do que ficaria melhor à cliente se for realmente esse o seu gosto, o seu desejo. É ter de ouvir muita coisa e calar outras tantas, também. «A cliente muitas vezes tem problemas em casa ou no trabalho e desabafa connosco. Nós temos de saber ouvir e deixar os nossos próprios problemas na rua.»

Milé parecia destinada a ser cabeleireira. A mãe era manicura, dois tios eram cabeleireiros, outra tia também arranjava mãos. Estava-lhe no sangue. Os pais não queriam saber disso para nada. Queriam que fosse advogada. Não deu. «Queria ganhar dinheiro, ser independente. Não estou arrependida. Tenho tido a vida com que sonhei.»

Mas se é verdade que há clientes admiráveis, também não é menos verdade que há quem seja difícil de aturar. Milé não o diz assim, tem uma diplomacia que não lho permite, mas nota-se que já terá passado por muito, nestes quase quarenta anos de profissão: «Uma vez uma senhora desatou aos gritos no salão a dizer que se nós soubéssemos quem ela era estávamos à sua espera de toalha na mão. Depois, no final, ia gratificar-nos com 50 escudos ou 100 escudos e dizia, alto e bom som para toda a gente ouvir, “isto é meu!”, fazendo questão de mostrar que estava a dar uma boa gorjeta. Já a mulher de um actor conhecido gratificava-nos com 500 escudos! Uma fortuna! Via-se que gostava de mostrar que o podia fazer. E nós todas contentes, claro.»

Ao longo dos anos, teve convites para sair mas ficou sempre hesitante. «Para quê arriscar se faço o que gosto, com quem gosto? A dona Marina e o senhor Carlos já não são só os meus patrões. São meus amigos, são meus padrinhos de casamento. Arranjar pessoas idênticas com quem trabalhar seria complicado.»

Milé refere-se à patroa, umas vezes como «a Marina», outras como «a dona Marina». Percebe-se que quer mostrar a deferência e distância que julga serem as corretas entre patroa e empregada, mas depois, de vez em quando, esquece-se e vem à tona apenas a amizade que a une à mestra e companheira de trabalho de tantos anos. Sobre Marina Cruz, diz: «É muito exigente. É fácil lidar com ela conhecendo o feitio que tem. É ótima conselheira e não se esqueceu de como começou. Põe-se ao nosso nível e trabalha em conjunto connosco. Não está num pedestal e tenta transmitir tudo o que sabe.»

Além dos elogios a quem lhe abriu as portas, Milé agradece também ao marido, que segurou as pontas (metáfora bem apropriada) para que ela chegasse muitas vezes tarde e a más horas a casa: «O meu marido foi – e é – um super pai. Este é um trabalho difícil, em que não há horários para sair, não há fins-de-semana, feriados… ele soube virar-se muito bem, mesmo quando o nosso filho era bebé. Hoje é um grande homem e vai entrar agora para a faculdade. Estou muito orgulhosa dele e acho que muito deste sucesso se deve, justamente, ao pai. Ai, vai escrever isso? Eles vão ficar tão vaidosos…»

 

Pedro Granadeiro/Global Imagens
Pedro Granadeiro/Global Imagens

FRANCISCO MOTA, 52 anos
Trabalha há 37 anos no Grande Hotel do Porto
Queria ser ferroviário, como o pai. Gostava dos comboios, da magia das partidas, do embalo da viagem sobre carris. Gostava sobretudo do pai, e queria ser como ele, quando se fizesse homem. Mas a vida trocou-lhe as voltas e, aos 14 anos (em 1976), entrou no Grande Hotel do Porto, pela mão de familiares que lá trabalhavam, para começar a ganhar a vida. «Quando aqui entrei pela primeira vez… ui! Parecia que estava a entrar num palácio. Que fausto, que beleza! “Onde me vim meter!”, pensei.»

Francisco Mota começou então aos 14 anos, como mandarete. «Eu era um menino fraquinho, cabelo claro, olho azul. Uma cliente olhou para mim e disse: “ah, coitadinho, ainda precisa de chupeta… anda cá, filho, vais-me ali aos Correios, mas tu ainda precisas de chupeta!” Fiquei danado. Queria que me vissem como um homem!»

O ordenado era de 1900 escudos limpos. Fora as gorjetas, que eram muitas e, algumas vezes, bem generosas. Começou a trabalhar no hotel no tempo em que ainda havia quem lá vivesse. «Viviam cinco clientes. Uma dessas senhoras, que aqui vivia, dava-me vinte escudos por semana para a despertar. Eu passava pela porta, dava três pancadinhas e, pronto, era o “serviço despertar”. Ao sábado eu já sabia que vinha lá a notinha de 20.»

Foi moço de recados até aos 17 anos. Depois passou a porteiro. A seguir saltou para a receção, e há cinco anos que é rececionista principal. Francisco é um fabuloso contador de histórias e dá para perceber que cada episódio relatado é apenas a ponta de um imenso novelo. As personalidades conhecidas, por exemplo, são apenas um pedaço da linha desse novelo: «Recordo a Natália Correia, por exemplo… uma noite, depois de um jantar, chegou com a sua grande boquilha, veio ter comigo com a chave na mão e disse: “Ó meu filho, eu não consigo encontrar o quarto”. Eu respondi: “Não tem problema. Vamos juntos ver se ele terá fugido para o terraço”. Fui a ampará-la, chegámos ao quarto e dei-lhe só um encostozinho. Ela caiu na cama a dormir. Tapei-a com o cobertor e fechei a porta. Mas houve tantos nomes importantes! O Gorbachev, o Dalai Lama, o Sharon…»

O funcionário do hotel, que já faz parte da mobília, tem tantas histórias para contar que nem faz intervalo entre umas e outras. «Uma vez veio aí uma senhora muito rica, passar uma temporada. Era muito esquisita com a higiene, de modo que só eu e outro senhor é que tínhamos autorização de entrar no quarto. Tinha de ser tudo desinfetado com álcool. Um dia disse-me que queria que almoçasse com ela. Apesar de lhe ter explicado que não o podia fazer, que era só um empregado, ela ralhou que isso não importava nada e que eu tinha de lhe fazer companhia. E assim foi. Sentei-me com ela no salão dos jantares, os dois sozinhos, e comi um bacalhau à brás com a dona Carlinda. No dia seguinte, pediu-me para ir à farmácia com um recado. Dizia assim: “Caríssimo farmacêutico: ontem comi um bacalhau à brás, que por sinal estava excelente, mas tenho uma grande diarreia. Avie-me por favor qualquer coisa para me aliviar.»

Percebe-se bem a razão pela qual Francisco Mota está no Grande Hotel do Porto há tantos anos. O seu olhar brilha, ilumina-se, cada vez que recorda o passado e relata o presente, tantos e tantos dias passados ali, num hotel sumptuoso carregado de História. Entre os tempos antigos e os tempos que correm, há anos-luz de diferenças: «Antigamente, só vinham para aqui pessoas distintas. Gente, em geral, com muita educação. Hoje não. Sou do tempo em que se uma suite custava 500 escudos não se vendia por 400. Ficava livre anos, se fosse preciso. Hoje isso seria impensável. E claro que temos também outro tipo de clientes. Mas, ainda assim, o Grande Hotel do Porto é e será sempre o Grande Hotel do Porto. E eu sinto um grande orgulho em fazer parte dele.»

 

Paulo Spranger/Global Imagens
Paulo Spranger/Global Imagens

PAULA CAMPOS, 61 anos
Trabalha há 40 anos na Loja das Meias, em Lisboa
No primeiro dia de trabalho na Loja das Meias do Castil, em Lisboa, Paula Campos, então com 21 anos, sentiu-se cumprir um sonho. Entrou e há-de ter respirado fundo, há-de ter endireitado as costas, há-de ter pigarreado um pouco para afinar a voz. Queria estar à altura. Corria o ano de 1973 e ser empregada de uma loja de tão alto gabarito não era para todas. «Era quase como chegar ao topo da carreira, aos 21 anos», desabafa, com um sorriso. «Era uma deslumbre».

Ser uma «menina» da Loja das Meias era sinónimo de bem-receber. Ainda hoje é mas, os tempos são outros. Nos anos 70 do século passado não havia a quantidade de lojas que hoje há, para todos os gostos e para todos os bolsos. Quem queria vestir com qualidade e elegância comprava, inevitavelmente, na Loja das Meias. Era, além do mais, uma questão de status. E as funcionárias também lucravam com o prestígio da marca.

Paula começou por ir para a caixa, função que já nem sequer existe (hoje todos fazem tudo). «Fui ganhar 3.500 escudos. Na altura era muito bom.» Ainda se lembra da sua primeira farda, em linho bege, «com muita classe, como são sempre».

Consta que muito do segredo do sucesso desta loja centenária passa pela proximidade dos funcionários com os patrões: «É uma casa familiar, em que todos os patrões, desde o avô do senhor Pedro António até aos filhos – que também já trabalham todos [são três] na empresa -, sempre respeitaram o pessoal, sempre mantiveram uma relação muito estreita com todos. Uma das coisas que creio que diz tudo é que os nossos patrões estão todos os dias a trabalhar às nove horas da manhã, a menos que estejam em viagem de trabalho. E isso diz tudo. Somos uma equipa.»

Rapidamente, Paula começou a dar uma mãozinha ao balcão, sobretudo à hora do almoço, quando havia grandes enchentes. E uns 10 ou 15 anos depois de ter entrado, passou definitivamente para a parte do atendimento. Especializou-se, digamos assim, na secção de Homem. E confessa, no seu jeito diplomático de ser, que apesar de gostar de tudo na sua profissão, prefere atender homens do que senhoras: «Os homens não complicam tanto. Confiam mais. Tenho muitos clientes há anos que me dizem: “Paula, quando chegar mercadoria nova escolha umas peças para mim e ligue-me”. E assim é. O cliente chega, eu tenho umas coisinhas de parte que julgo irem de encontro aos seus gostos, eles chegam, confirmam e pronto. Com as senhoras nunca é assim.»

Paula Campos, 61 anos,é a mais antiga funcionária da Loja das Meias. Está ali há quarenta anos. Uma vida. A eficiência fê-la ir subindo de posto e hoje é responsável de loja. Sabe de cor aquilo de que os clientes gostam. E gostam, por exemplo, de serem tratados pelo nome. Gostam do cuidado nos embrulhos: «Aqui, nem que o cliente só leve um par de meias, leva-o embrulhado em papel de seda. E isso, parecendo que não, faz toda a diferença. Noutras lojas as pessoas atendem-se. Aqui são atendidas.»

Nestes quarenta anos de trabalho, já atendeu muita gente conhecida. Nomes sonantes da política, do teatro, da televisão. O primeiro que se lembra de ter parado o carro com chauffeurà porta foi António Champalimaud. Ficou impressionada, claro. Mas depois as personalidades não pararam de entrar e acostumou-se.

Paula quer trabalhar até poder porque não se imagina a fazer outra coisa. «Isto é a minha vida. Venho todos os dias para aqui com muito prazer.» Afinal, são 40 anos. Uma vida.

 

Pedro Granadeiro/Global Imagens
Pedro Granadeiro/Global Imagens

JORGE RIBEIRO, 60 anos
Trabalha há 38 anos na Livraria Bertrand, no Porto
Era filho de livreiro, mais propriamente de um gerente de uma loja Bertrand. António Ribeiro, o pai, ainda trabalhava aos 73 anos e chegou a ser considerado o mais antigo livreiro da Europa. Em casa sempre houve livros, sempre houve esse respeito e esse amor pelas obras de autores portugueses e estrangeiros, de maneira que foi assim: a literatura inundou-lhe a infância. E aos 21 anos, perdido por esse amor às letras, começou a trabalhar no armazém da Bertrand. Empacotava os livros, separava os livros, dividia as revistas. Começou por baixo porque o pai, homem recto e inflexível, queria que o filho vencesse por mérito próprio e não por empurrões familiares. «Fui ganhar 2500 escudos, se não estou em erro». Um ano depois, Jorge Ribeiro entrava para os escritórios e, dois anos depois, dividia o mês ao meio: 15 dias nos escritórios, 15 dias na livraria da Rua 31 de Janeiro, no Porto.

Era o seu sonho, chegar às livrarias. Atender os clientes, ajudá-los a escolher um bom livro, aconselhar, encontrar a obra certa para a pessoa e o momento certos. Entrar naquela loja, que era uma loja de referência, «frequentada por deputados, pianistas, pelo bispo do Porto…», foi como um sonho tornado realidade. O pai não lhe perdoava um minuto de atraso. Era implacável com ele, muito mais do que com os outros funcionários. O filho não podia falhar.

Jorge empenhou-se, tirou vários cursos, fez por ser o melhor. E, aos 25 anos, tornou-se gerente dessa Bertrand tão importante. «Era tudo muito diferente do que é hoje. Não havia sistema informático, éramos nós que fazíamos as fichas todas. Tínhamos 200 mil fichas com toda a informação sobre cada livro: título, autor, preço… era o ficheiro mais completo que havia. E tínhamos de saber, de cor, onde estava cada um. Era um grande exercício de memória.»

Ser o gerente de uma loja, aos 25 anos, estava longe de ser fácil. Os colegas tinham idade para serem seus pais ou avós e era preciso saber gerir muitas sensibilidades. Tê-lo-á feito com mestria, ou não estivesse o seu percurso cheio de sucessos, de aberturas de lojas importantes. Sempre que um novo espaço abria, era por ele que chamavam. Foi gerente das Bertrands do Gaia Shopping, do Norte Shopping (era a loja mais importante do norte e do centro do país), do DolceVita das Antas (a maior do norte, com 700 metros quadrados), da rua Júlio Dinis, e há dois anos que está no Porto Plaza.

Tornou-se um workaholic. «Entrava de manhã, saía à noite, esquecia-me das férias, esquecia-me dos fins-de-semana… quando se ama o que se faz fica difícil ser diferente. Hoje noto que as pessoas não estão para isso. Chegam, ficam uma semana e depois vão embora. Falta saber atender. Falta dedicação. Falta ler muito para se poder saber aconselhar. Falta paciência e sabedoria para engolir sapos de clientes maldispostos e ser sempre gentil.»

As diferenças não estão apenas do lado de cá do balcão. Do lado de quem compra também as existem. «Sou do tempo em que os clientes estabeleciam connosco uma relação de proximidade, de amizade até. No Natal os clientes vinham dar uma lembrança aos funcionários. Era a sua forma de expressar a gratidão pelas boas leituras proporcionadas. Hoje é tudo mais apressado. Continuo a ter clientes desses, mas são mais raros. Há muitas pessoas que não nos tratam como devemos ser tratados. Atiram com o dinheiro, nem boa tarde dizem… há uma arrogância e um desdém que ferem.»

Para se ser um bom livreiro, explica Jorge Ribeiro, é preciso ter algumas características especiais: «Para começar, é preciso gostar muito de livros. Ler muito. Depois, é preciso “perder” tempo com as pessoas. Ouvi-las. Conhecê-las. Perceber que vão gostar de um livro de que nós não gostámos e conseguir, ainda assim, aconselhá-lo. Porque o livro não é para nós. E as pessoas são diferentes de nós. E depois é preciso ser um bocadinho psicólogo. Saber que há quem venha só para criar conflito. Porque precisa dessa explosão, dessa catarse. E nós temos de cá estar também para isso. Nunca me enervo. Controlo-me. Um cliente, se for bem tratado, volta. E é isso que queremos. Que volte.»

Jorge Ribeiro até já podia escrever um livro sobre as situações caricatas que já lhe aconteceram, ao longo de quase 4 décadas a vender livros: «Uma vez uma senhora perguntou se era verdade que um livro de feitiçarias que aí estava agredia as pessoas durante a noite. Também me acontece muito chegar alguém e dizer que quer um livro de capa amarela, como se só houvesse um de capa amarela. Ou que quer um livro que seja bonito por fora, pouco lhe importando o conteúdo. Ou clientes que dão o título completamente errado mas insistem, como se nós é que fôssemos ignorantes… há tantas histórias… ficávamos aqui todo o dia!»

Nestes anos, tantos anos, de trabalho, já atendeu gente anónima que o marcou para sempre, mas também figuras conhecidas que também o impressionaram. «Gosto muito do bispo do Porto. Tenho muito prazer em conversar com ele e julgo que é recíproco. Quando eu não estou cá, ele leva um livro. Se eu estiver, é capaz de comprar 10 ou 12. Gosto de lhos levar ao paço episcopal. Ximenes Belo também é uma pessoa excelente. Olhe, o Pinto da Costa foi uma pessoa que me surpreendeu pela positiva. Gostava de livros fora do vulgar, muito interessantes. Há algum tempo que não o vejo.»

Jorge Ribeiro não imagina a vida longe dos livros. Não é de prever que se reforme, não sonha com uma vida sossegada balançando debaixo de uma palmeira. Quer envelhecer ali mesmo ou noutra Bertrand qualquer, de volta dos seus amigos de sempre: os livros e os clientes.

 

nm1121_prata01
Pedro Granadeiro/Global Imagens

ABÍLIO OLIVEIRA, 43 anos
Trabalha há 31 anos na Mercearia Pérola do Bolhão, no Porto
Na busca por funcionários antigos, destes que já fazem parte da mobília, ligámos para a mítica Pérola do Bolhão, na baixa do Porto. Do outro lado, uma voz que aparentava ter muitos anos garantia existirem, na mercearia antiga, muitos funcionários com longos anos de casa: «Pode vir em qualquer dia, menina! Há cá muita gente que está há 30, 40, 50 anos! Se não estiver um, está outro! Venha à confiança, menina!»

A menina escolheu então um dia e apareceu. Encontrou, além do patrão, um funcionário com 40 anos de casa zangado com a vida e indisponível para entrevistas, e um rapaz que, claramente, não preenchia os requisitos de antiguidade procurados. A menina teve um ataque de fúria, porque lhe tinham garantido que haveria sempre alguém para conversar com ela. O empregado rezingão encolheu os ombros, vociferando frases de protesto contra as férias de «certas pessoas», e foi então que o «rapaz» proclamou um: «Vá, menina, eu ofereço-me para a entrevista. Não veio agora de Lisboa para ir embora de mãos a abanar…»

A menina sorriu educadamente para o moço, gentil mas demasiado jovem para poder ser considerado «prata da casa». Foi aí que Abílio Oliveira declarou: «Trabalho aqui há 31 anos. Serve?» Não podia ser… «Pode, pode. Comecei com 13. Quando vim, o patrão disse que quando viessem os fiscais eu tinha de ir a correr lá para cima! Só se podia começar com 14!»

Abílio Oliveira ainda se lembra bem do primeiro dia: «Então não me lembro? Achei difícil! Tínhamos de andar pelas ruas a fazer entregas aos clientes, com uma cesta enorme de vime. Há 30 anos não havia elevadores na maior parte das casas aqui da baixa, era tudo pelas escadas, às vezes andares altos, ui!»

Sacos de batata, grades de água e de vinho, toda a sorte de produtos pesados para uma longa lista de clientes fiéis que, à época, não dispunham de hipermercados onde fazer as compras do mês. «Carregar isso tudo era duro mas mais difícil ainda era fazer contas. 125 gramas disto, 150 dl daquilo, 1/8 do outro… via-me aflito.»

Hoje, muita da clientela tem 80 e 90 anos. É gente que olha para Abílio como o eterno menino, que eles viram crescer, tal e qual como viram subir o preço do bacalhau e do queijo, e os escudos virarem euros, e a reforma deixar de chegar para tudo.

Além dos seniores e dos turistas, a Pérola do Bolhão recebe muitas personalidades conhecidas: artistas, presidentes de câmara, escritores, jornalistas… há de tudo, como na farmácia. Todos gostam de ver aquela mercearia antiga com móveis de madeira e tectos trabalhados.

Sobre os produtos que vende todos os dias, desde há 31 anos, garante que são de se lhe tirar o chapéu. Vinho do Porto, frutos secos, fumados, queijo da serra e biscoitos artesanais. «Tudo uma maravilha! Palavra de quem aqui está há uma vida e não é dono disto, menina!»

 

Paulo Spranger/Global Imagens
Paulo Spranger/Global Imagens

JOÃO LICO, 61 anos
Trabalha há 36 anos na pastelaria Califa, em Lisboa
Tinha 25 anos quando começou a trabalhar no Califa, célebre pastelaria de Lisboa. Sentiu-se mais ou menos como se sentiria um jogador de um clube de aldeia que fosse transferido para o Real Madrid. João Lico, que já trabalhava desde os 11 anos, ficou impressionado com o tamanho da pastelaria, com a quantidade de clientela, e com o tanto que havia para fazer. «Senti que era uma grande responsabilidade. E eu ainda não tinha visto nada. Quando chegou o Natal… meu Deus! Quando chegou o Natal é que eu percebi a enorme máquina que aquilo era!»

Com efeito, em 1977, a fila para comprar sonhos, fatias douradas ou bolo rei dava a volta ao quarteirão e, no Califa, não havia mãos a medir. O jovem João Lico, destacado para as encomendas, parecia doido varrido, zás e bumba, zás e bumba, a ir buscar lampreias, troncos de Natal, broas e filhoses, e chegava ao fim do dia como um trapo do chão. Hoje, sorri com nostalgia. «Eram outros tempos…» Ainda assim, o Natal é sempre o Natal, e mesmo quem já mudou de bairro continua a ir a Benfica comprar a doçaria para a consoada. Só há cinco anos é que João Lico passou a estar na bancada do Natal, um patamar só para quem tem muita estaleca: «Nas encomendas é só ir buscar o que já está de parte. Na bancada é estar debaixo de fogo. São centenas de pessoas, de manhã à noite, a pedir, a escolher, a mudar de ideias, a pagar, a reclamar por estarem ali há muitas horas. Nós temos de sorrir e explicar que fazemos o nosso melhor.»

Sorrir e ser eficiente e cordial. Talvez sejam essas as três chaves do sucesso. Isso e engolir alguns sapos, pois então. Mesmo que não a tendo, o cliente terá sempre razão, e não vale a pena ganhar úlceras por causa disso. É com este pensamento que João Lico tem vivido a sua vida, 36 anos de vida, como empregado de mesa do Califa. «É muito tempo. Conheci aqui rapazes e raparigas, que vinham com os pais, a quem dava caricas para se entreterem. Agora vejo-os entrarem com os filhos e assim é que eu percebo que não estou a ficar novo.» Nestes anos – uma vida inteira – chegou a ponderar aceitar um convite para sair. Mas entre o incerto e o certo, jogou pelo seguro. E hoje sabe ter tomado a melhor decisão: «É uma casa segura, certinha nos pagamentos, uma grande casa. Os patrões são fantásticos, compreensivos… sair? Era difícil encontrar melhor.»

João Lico tem muitos clientes habituais. Daqueles que pedem sempre a mesma coisa e que, por isso mesmo, já nem precisam de pedir. Ele sabe os seus nomes de cor, o nome dos filhos e dos pais, sabe a profissão, o feitio e os gostos, sabe que preferem o café cheio, a chávena quente, o pastel de nata queimado, o chá de erva cidreira com uma pinga de leite frio. «Um cliente é um cliente, não podemos confundir as coisas. Temos de saber manter as distâncias. Não faço perguntas, não me meto na vida de ninguém, mas claro que há aqueles que vão contando isto e aquilo, e também há os que acabam mesmo por se tornar amigos.» João recorda com carinho aquele rapaz que vinha com um grupo de amigos e que escondia os cálices de aguardente debaixo da mesa, para não serem contados na hora de pagar a conta. «Era um grande malandro. Depois cresceu, ganhou juízo e ficámos amigos. Ele até me convidou para fazer o copo de água, que eu fazia nas minhas folgas. Infelizmente, já cá não está. Trabalhar aqui há muitos anos também é ver partir muita gente. E isso custa.»

Sónia Morais Santos
Fotografia @ Orlando Almeida / Global Imagens