OPINIÃO

Os operários do Natal

Quer conhecer os «bastidores» desta tradição festiva que já conta com mais de dois mil anos de existência?

Por que razão o pinheiro é a árvore desta quadra? Qual o segredo do bolo-rei perfeito? Ainda há muitos postais para entregar, na era da internet e dos e-mails?  Continuam a vender-se muitos brinquedos, apesar da crise? Para esclarecer estas e outras dúvidas sobre o Natal, falámos com profissionais de várias áreas que nesta altura do ano costumam ter mais trabalho.

O VENDEDOR ANDRÉ SANTOS
Não, não! O coelhinho vai com o Pai Natal e o palhaço no comboio ao circo…» André Santos, 27 anos, ainda não era nascido quando o anúncio dos chocolates Fantasia de Natal se estreou em 1981, mas de comboios percebe ele. Está à frente da loja La Ferrovie de Paris, no número 4A, da Avenida de Paris, em Lisboa, um espaço dedicado ao modelismo, onde os «brinquedos» são, sobretudo, para adultos. É uma lufa-lufa todo o dia – os clientes que procuram novos modelos, os que compram árvores (que trocam por diferentes tonalidades respeitando as estações do ano), carros, pessoas, candeeiros, etc., tudo em miniatura, os que trazem locomotivas para arranjar, os curiosos que colam o nariz ao vidro para ver em pormenor ou que compram peças soltas sem critério, só pela graça.

Para se iniciar – a sério! –, facilmente se gasta «entre 1000 a 1500 euros na maqueta», diz o gerente da loja. Depois, é um vício. Como o chocolate. André cresceu a ver o pai trocar o trabalho numa fábrica de tintas, por uma casa de modelismo. Fernando Santos tinha uma paixão maior por carros do que por comboios, colecionava ambos, mas quando saiu de casa dos pais acabou por ficar com os comboios — na década de 1960, não havia videojogos. André andava pela loja aos fins de semana, ajudava nos arranjos, mas sem se apaixonar pelas locomotivas. Acompanhou o pai muitas vezes nas viagens à Feira do Brinquedo, em Nuremberga, na Alemanha, a principal montra mundial do sector. «Em janeiro, lá estarei outra vez.»

Quando deixou o curso de Engenharia Mecânica a meio gás e o pai se reformou, André deitou mãos ao negócio e, em abril, abriu um novo espaço, do outro lado da rua, onde sempre estiveram. E são muitos, na maioria homens, a partir dos 50 anos. Como em todas as máquinas, estas também têm o equivalente ao Rolls-Royce: «A Märklin, alemã, tem mais de 150 anos e começou pelos brinquedos de corda, feitos de lata, e tornou-se conhecida pelos comboios. É a preferida dos colecionadores que podem inscrever-se no Insider Clube para ter acesso a peças exclusivas.» Entre as portuguesas, a Norbrass, «com edições limitadas, é a que mais valoriza».

André discute os modelos e as características com os clientes, como quem fala de carros de verdade. Os conhecimentos do curso universitário, ainda que incompleto, ajudam-no nas reparações. «Gosto de perceber a maquinaria. E quanto mais antigo, mais luta dá.» Com o Natal à porta, André não tem mãos a medir. «Há muita gente que integra o comboio no presépio ou na decoração da mesa e compra os acessórios para os cenários.» E é na La Ferrovie de Paris que fazem as compras. Um mundo de faz-de-conta que alimenta fantasias. SN

 

Adelino Meireles/Global Imagens
Filipa Almeida e Marina Sousa, designers do Atelier de Costura Portuense, ensinam a fazer presentes de Natal originais. Fotografia: Adelino Meireles/Global Imagens

AS DESIGNERS FILIPA ALMEIDA E MARINA SOUSA
Com agulha, linha, tesoura, tecidos coloridos – e alguma imaginação – pode nascer uma ideia única e diferente. Até para um presente de Natal original. A proposta foi lançada por duas designers do Atelier de Costura Portuense e chama-se «DIY: Faz tu mesmo». Os kits de Natal já vêm já com o material necessário para fazer uma prenda especial, com assinatura de autor, como guardanapos, enfeites, sacos de pão, porta-lenços ou bolsas e decorações. Os kits, no valor de 22 euros, incluem quatro tecidos com padrão, dois tecidos lisos, dois metros de cordão, linha, um alfinete e moldes necessários para dar asas à vontade e à imaginação.

Ou seja, todos os materiais necessários à confeção de alguns dos objetos realizados nos workshops do Atelier de Costura Portuense, e com um manual de instruções passo a passo, permitindo a qualquer pessoa a sua execução. Quanto às ferramentas necessárias, precisa de máquina de costura, tesoura de tecido, aristo, giz, alfinetes, agulha de tricô  e muita genica para seguir a interpretação dos  moldes e ilustrações, explicados tintim por tintim. Todos os conjuntos trazem um glossário que permite identificar cada técnica e facilitar procedimentos.

O atelier, no primeiro andar de uma casa antiga de tetos altos e longas janelas inspiradoras, com uma grande mesa de trabalho repleta de fitas métricas, moldes, agulhas, tecidos e linhas, na Rua da Picaria, no Porto, foi inaugurado em julho do ano passado e tornou-se um sucesso imediato. «Quando começámos, não havia nada assim no Porto e sentimos logo uma grande adesão», diz Marina Sousa, uma das mentoras, juntamente com Filipa Almeida.

O projeto de formação, com cursos de média duração (até três meses) e workshops intensivos (até três dias), decorre neste espaço de criação das designers, que assinam as marcas Ring Ding Dong e Mari  Mari. Com formação em Design de Moda na Escola  Artística e Profissional Árvore, no Porto, e ainda  Design de Comunicação na Faculdade de Belas  Artes da Universidade do Porto, no caso de  Filipa, ambas tiveram a ideia de criar o seu próprio atelier, onde promovem formação, cursos de costura e workshops. «A ideia é que cada um consiga fazer as próprias peças de vestuário», diz Filipa.

«Acaba por ser muito procurado, porque assim cada um pode ter peças diferentes e únicas que não existem em mais nenhum lugar.» As aulas podem ser particulares ou em grupo. «Temos clientes dos 13 aos 65 anos», diz Filipa. «Mesmo que não se saiba muito de costura, pode aqui aprender-se de tudo um pouco. E assim pode-se personalizar cada peça.» FI

 

Nos muitos anos que leva de profissão, Luís Santos tem várias recordações da quadra natalícia. Uma vez um miúdo agarrou-se a ele confundindo-o com o Carteiro Paulo, dos desenhos animados.
Nos muitos anos que leva de profissão, Luís Santos tem várias recordações da quadra natalícia. Uma vez um miúdo agarrou-se a ele confundindo-o com o Carteiro Paulo, dos desenhos animados. Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens

O CARTEIRO LUÍS SANTOS
Há dois dias, chegaram as contas da água. Luís Santos sabe que nesse dia o giro é mais demorado e o volume de correspondência duplica. O carteiro percorre em passo ligeiro a Bobadela, São João da Talha e Vale de Figueira. Não faz contas aos quilómetros diários, mas leva o carro até meio caminho, entre uma e outra remessa. Sabe os apelidos de quem vive ou trabalha em muitas das portas onde toca. São ossos do ofício de quem abraçou a profissão de carteiro há três décadas. Aos 61, «gosto do que faço». Tanto assim é que quando chega ao fim de semana aborrece-se: «Sinto falta das minhas voltas.»

Entrou por concurso, «com uma boa nota», no dia 1 de setembro de 1983, e sempre esteve ligado ao Centro de Distribuição Postal no Prior Velho. Sabe que é respeitado por onde passa e que tem uma grande responsabilidade em mãos. Sabe também quem espera ansiosamente pela carta da reforma, mas também quem recebe declarações de amor. «Eu gosto de brincar e digo: ‘O namorado está a escrever com frequência. Está cheia de sorte.’ E, às vezes, contam-me a história toda.»

É sempre discreto, mas gosta de dar atenção a quem está sozinho. «Há muita gente que precisa de um minuto de conversa. Há muita solidão por trás das portas.» Isso custa-lhe. Como o casal que não tinha mais do que as couves da horta para a consoada, como nos outros dias. «Um ano, disse para a minha mulher: “Vou-lhes levar um bacalhau.”» E assim fez. Agradeceram-lhe, quiseram retribuir com couves, mas ele ficou contente só pelo gesto.

Os miúdos não recebem muitas cartas, mas há alguns que se sentem importantes quando lhes passa um papelinho para as mãos, como se fosse uma correspondência vinda de longe ao seu cuidado. Certa vez, um agarrou-se a ele e chamou-lhe Carteiro Paulo, como o boneco animado que conhecia da televisão. E apesar de se escrever menos, graças ao correio eletrónico, e das muitas cartas das Finanças que tem de entregar, Luís sabe que este mês de dezembro será concorrido e que na sacola há de levar encomendas do Pai Natal para os meninos que lhe escreveram — mesmo sem saberem a morada, bastava deixar a carta ao seu cuidado numa estação de correios. «É um pequeno gesto, mas eles ficam felizes.» SN

 

Fotografia: Pedro Granadeiro/Global Imagens
Os bolos rei criados por Francisco Gomes trazem sempre surpresas. E não são os brindes. Fotografia: Pedro Granadeiro/Global Imagens

O PASTELEIRO FRANCISCO GOMES
Com Francisco Gomes aos comandos do rolo da massa, pode mesmo dizer-se que a tradição já não é o que era. Criativo e adepto da aplicação das tendências contemporâneas à pastelaria, faz questão de todos os anos lançar novas receitas.

No Natal, claro, a azáfama intensifica-se, mas a criatividade continua na linha da frente. «Todos os anos, crio novas versões de bolo-rei além do tradicional, que confecionamos em simultâneo.» Este ano, é a vez do bolo-rei «Estrela», uma massa de brioche «completamente diferente do habitual, mais leve e trabalhada com outras técnicas», a que são ligados citrinos, frutos secos e pralinés num formato estelar. Mas noutros anos houve versões de maracujá ou de rosas, por exemplo…

«As pessoas andam à procura de novos sabores. Gostam sobretudo de ser surpreendidas. E quando lanço novas versões de doces é para criar emoções», diz o pasteleiro. «Tentamos sempre surpreender os clientes e fazer a fusão de dois mundos, o tradicional e o moderno, de forma que comer doces seja divertido, criando sempre bolos de autor. O gosto das pessoas tem vindo a alterar-se e é preciso acompanhar o ritmo, como a preferência pelas massas mais leves.»

Só na época de Natal, são confecionados três mil bolos-rei tradicionais e mil da «novidade». Pode imaginar-se que são centenas de quilos de ovos e de farinha a circular pela cozinha, numa notável coreografia em que nove pessoas reproduzem verdadeiras obras de arte, entre fornadas, tabuleiros, mãos na massa, rolos que esticam e moldam esculturas nas longas mesas.

Francisco Gomes, gestor e pasteleiro, é proprietário da Confeitaria Colonial e de um atelier de pastelaria, em Barcelos, e, em me-ados de novembro, abriu uma filial no Porto, no Mercado do Bom Sucesso. Começou por ser gestor, mas a história da família ligada às confeitarias criadas pelo seu avô falou mais alto. Atirou-se,  assim, de cabeça aos segredos da pastelaria, apostando numa formação intensa com a nata nacional e estrangeira. Já fez parcerias com a École Valrhona, com  Michel Willaume ou com o atelier de Pierre Hermé e colaborou com chefs de cozinha como José Avillez, Henrique Sá Pessoa, Pedro Nunes ou Rui Paula.

O chefe pasteleiro, de 41 anos, e a sua equipa de nove pessoas procuram, por isso, lançar sempre novos sabores e sensações, seja pela combinação de ingredientes seja pela técnica e forma de os apresentar. Quanto ao célebre bolo-rei, apesar de já fazer parte da nossa história coletiva há mais de 140 anos, não é português. A origem de um bolo em forma de coroa, feito de massa levedada e com fru-tas cristalizadas, chamado gâteau des rois, radica numa receita do Sul de França. Esta espécie de grande brioche, perfumado por essência de flor de laranjeira e coberto de açúcar e fruta confitada, ganha o nome de roscón em Espanha (mais especificamente, tortell, na Catalunha) e vasilopita na Grécia. Este ano, na Colonial, chama-se «Estrela» e promete brilhar… FI

 

Especialista em decorações de Natal de centros comerciais, a decoradora Cláudia Perdigão não tem mãos a medir nesta época do ano.
Responsável pela decoração de Natal de grandes centros comerciais, a decoradora Cláudia Perdigão não tem mãos a medir nesta época do ano. Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens

A DECORADORA CLÁUDIA PERDIGÃO
Esqueça tudo o que acha que sabe sobre enfeites de Natal: se há alguém que percebe da coisa, é a decoradora Cláudia Perdigão, responsável, entre outros projetos, pela decoração de Natal do Cascaishopping ou da Praça Central do Centro Comercial Colombo. Há 34 anos que Cláudia, dona da empresa Perspectivas Coloridas, se dedica à arte de decorar grandes espaços, sobretudo para esta época.  E, ao contrário do que se possa pensar, este é um trabalho a tempo e ano inteiros.

Quando a maioria das pessoas está a desfazer a árvore, no início de janeiro, já Cláudia tem na manga as propostas para o Natal seguinte. «Normalmente apresento a proposta criativa entre fevereiro e maio, para começar a execução em junho.  A partir daí, executamos e ensaiamos todos os cenários na empresa e organizamos as montagens a serem realizadas em novembro.» Todos os anos, as propostas são diferentes.

No Centro Colombo, a grande novidade deste ano é um presépio enorme. «A montagem levou duas madrugadas. Mas tinha sido muito bem ensaiado na empresa e levou cerca de um mês para executar», diz a decoradora. O presépio que agora pode ser visto na Praça Central atinge uma altura de três metros e «dispõe de 22 imagens mecanizadas, cerca de trinta imagens fixas, 35 casas, dez barraquinhas de feira, vinte palmeiras, trinta árvores de Natal que variam entre 1,80 metros e os 30 centímetros iluminadas e vários animais.

Além do lago com a cascata de água corrente onde as pessoas podem deitar moedas e pedir um desejo.» À imaginação de Cláudia somou-se o trabalho de nove pessoas que a ajudaram a executar o projeto e 24 que ajudaram na montagem, «além de mim, que arregaço as mangas e ponho a mão na massa!» Ao presépio, junta-se ainda a árvore de Natal com 18 metros de altura e nove metros de diâmetro – uma delícia para miúdos e graúdos, com cerca de 2500 quilos e que, este ano, é iluminada por 21 mil LED. O presépio é o ponto alto da decoração e está a fazer grande sucesso junto do público. E não me refiro apenas às crianças, mas também aos adultos que levam bastante tempo a apreciar a riqueza de detalhes. Adoro a ideia de ficar incógnita a apreciar e ouvir os comentários de quem passa e olha.»

A tarefa não é fácil – «as pessoas não fazem ideia de quantos obstáculos, por vezes, temos de enfrentar para que tudo funcione e esteja lindo» – , mas a máxima de Cláudia é clara: «Aconteça o que acontecer, tudo tem sempre de funcionar!» E nem mesmo as dificuldades ou o facto de passar um ano inteiro a viver o Natal lhe retiram a paixão por esta época. LP

 

Carlos Ançã fundou em 2007 o Coro Gospel de Lisboa e no Natal as 24 vozes que conduz não têm descanso.
Carlos Ançã fundou em 2007 o Coro Gospel de Lisboa e no Natal as 24 vozes que conduz não têm descanso. Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens

O MAESTRO CARLOS ANÇÃ
Começou com uma viagem aos Estados Unidos, com 7 anos – aquela que o maestro Carlos Ançã define como a razão da sua «perdição». A imensidão americana encheu-lhe os olhos e contagiou-lhe os sonhos. Mais tarde, a primeira missa, com o maestro Christopher Bochmann, havia de lhe definir o futuro: «Fiquei fascinado pela música coral.»

Fez parte dos Shout!, talvez o mais conhecido dos coros gospel nacionais, passou por Londres, esteve nos coros do Teatro Nacional de São Carlos e da Fundação Gulbenkian, foi diretor de vozes no musical Amália, de Filipe La Féria, é ainda integrou o Coro Gregoriano de Lisboa, além de ter sido professor de técnica vocal. E fundou, em 2007, o Coro Gospel de Lisboa.

O nome, curiosamente, foi dado pelo atual Presidente da República, durante a inauguração da árvore de Natal na Presidência, em 2007. «Eu não sabia se havia de dar o nome em português ou inglês. Sabia que queria as palavras “gospel” e “Lisboa”, mas não sa-bia exatamente com que nome batizar o coro. Então, pedi orientação a Deus.» Não se apresentaram com nenhum nome, nesse dia. E Cavaco Silva acabou por lhes chamar Coro Gospel de Lisboa. Carlos reconheceu a orientação pedida e o nome ficou.

Hoje conduz 24 vozes. «A mais nova tem 16 anos, a mais velha talvez uns 60.» Um grupo que mais quer ver a música como profissão encara o gospel como missão. «Como a minha maestrina, Helena Pires de Matos, costumava dizer sobre o canto gregoriano, vejo o gospel como “uma oração cantada”.» O objetivo é celebrar a vida e a espiritualidade e transmitir a sensação de «coração cheio» a quem assiste e, inevitavelmente, se junta ao coro nos temas mais conhecidos. «Temos um livro através do qual convidamos as pessoas a partilharem connosco a sua experiência, após as nossas atuações. E é incrível ler os comentários. As pessoas  saem dali com o coração cheio.»

O Natal é, tipicamente, uma época trabalhosa para o coro. Para este ano, já têm agendadas duas festas de empresas e um concerto solidário, dia 7 de dezembro, no Teatro Cinema, em Ponte de Sor. Nesta altura, o repertório é escolhido para incluir temas de Natal e a relação entre o gospel e a fé é ainda mais acentuada.

Para o maestro português, cujo trabalho já o impediu de passar o Natal junto da família – «uma experiência estranha mas que encarei como uma oportunidade, já que acredito que todas as experiências são enriquecedoras» –, o trabalho com o Coro Gospel de Lisboa é «um sonho em desenvolvimento», cujo futuro passa, também, pela tentativa de «dar ao gospel as nossas próprias características». Nos ensaios, inglês, português e crioulo são as línguas com que se canta a espiritualidade e a alegria. E Lisboa é apenas o epicentro a partir de onde pretendem começar a espalhar esta «oração». LP

 

Habituado a trabalhar na noite de Natal, o o chef João Sá, do Assinatura, em Lisboa, este ano terá descanso.
Habituado a trabalhar na noite de Natal, o o chef João Sá, do Assinatura, em Lisboa, este ano terá descanso. Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens

O COZINHEIRO JOÃO SÁ
De génio e de louco todos temos um pouco» – e de cozinheiro também. No Natal, estes substantivos convivem uns com os outros, entre tachos e frigideiras que têm como propósito alimentar a família que se reúne. E o que para uns pode parecer uma sequela da saga Missão Impossível, para outros é uma situação vivida com a tranquilidade de quem faz da cozinha o dia a dia.

Aqueles que seguem os bastidores da gastronomia que se faz em Portugal há muito que fixaram o nome de João Sá. Primeiro, operou uma pequena revolução em Sintra com o seu GSpot; depois, entrou no concurso TopChef, transmitido pela RTP1; e, no início do verão, veio substituir Henrique Mouro nos comandos do restaurante Assinatura, em Lisboa.

A mudança trouxe novas oportunidades. «Agora procuro outros objetivos, elegância, consistência e mais maturidade na cozinha que estamos a fazer. Agora sou “menos patrão”, o que me deixa espaço para poder criar e pensar melhor nos pratos. E a cozinha do Assinatura também tem outros equipamentos que me permitem diferentes técnicas, mais pessoas, o que implica gerir os recursos humanos… A mudança faz-nos sempre crescer», conclui o chef de 27 anos, que começou a cozinhar desde cedo, por influência do padrinho.

«Nas festas da minha família passava-se muito tempo na cozinha e à mesa. Quando o meu padrinho estava presente, eu era a única pessoa que podia estar com ele a cozinhar,  e o cheiro, o efeito que o calor fazia nos ingredientes… tudo isso me fascinava.»Habituado aos horários de quem trabalha em hotelaria, muitos foram os Natais passados longe de casa. «No início, ficava um pouco chateado com o facto de ter de trabalhar durante os Natais, as passagens de ano, os feriados, mas ao fim de um tempo habituamo-nos e a família até compreende. Já passei Natais a trabalhar e confesso que não é muito agradável, mas também é uma noite em que os clientes jantam mais cedo.»

A tendência de comer fora na noite de consoada é cada vez mais uma realidade em Portugal, com espaços que propõem menus que poupam ao comum dos mortais o trabalho na cozinha. Assim co-mo se torna também cada vez mais comum deixar de lado as receitas e encomendar a ceia para levar para casa. Este ano, porém, os clientes serão outros. Como o Assinatura estará encerrado nos dias 24 e 25, é a família quem terá o privilégio de degustar as criações do chef. A oportunidade tem sabor a presente de Natal. E à mesa estarão, seguramente, aqueles que considera os ingredientes fundamentais para o Natal: «Boa disposição, alegria e a baba de camelo da minha mãe.» LP

 

Margarida Tomé, presidente do Conselho Científico do ISA, explica por que o pinheiro é árvore de Natal. Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens
Margarida Tomé, presidente do Conselho Científico do ISA, explica por que o pinheiro é árvore de Natal. Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens

A PROFESSORA MARGARIDA TOMÉ
Os registos geológicos e arqueológicos confirmam a presença do pinheiro-bravo em Portugal há pelo menos 33 mil anos, mas só há pouco mais de século e meio é que o costume de, pelo Natal, enfeitar um pinheiro com flores, velas, bolas e frutos terá chegado ao nosso país.

Margarida Tomé, professora no Instituto Superior de Agronomia (ISA) de Lisboa, não tem exatamente mais trabalho quando chega este altura do ano, mas é uma das pessoas em Portugal que mais sabem sobre a espécie. A atual tradição foi importada por D. Fernando II, príncipe de Saxe-Coburgo, que se casou com a rainha D. Maria II em 1836.  Reza a história que o príncipe animava os Natais da família real e dos seus sete filhos vestindo-se ele próprio de São Nicolau e distribuindo os presentes, como era tradição nas cortes germânicas, onde cresceu. A festa e os ambientes natalícios do Palácio da Pena, em Sintra, foram retratados pelo próprio rei artista em gravuras que pintou e onde o pinheiro de Natal já ocupa um lugar central.

Mas quais são as especificidades do pinheiro? E porque escolhemos esta árvore para a festa do Natal? Em Portugal, as espécies mais comuns são o pinheiro-bravo (Pinus pinaster) e o pinheiro-manso (Pinus pinea), mas também há pequenas manchas de pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris), de pinheiro-de-alepo (Pinus halepensis) e de pinheiro-insigne (Pinus radiata). O pinheiro-bravo, habitualmente usado para fazer as árvores de Natal, ainda é muito importante na floresta nacional: «Dos 3,2 milhões de hectares de floresta (cerca de 35 por cento do território), 714 mil são pinheiro-bravo (22 por cento da área florestal). Ocupa uma área ligeiramente inferior ao sobreiro (737 mil hectares) e ao eucalipto (812 mil hectares), mas nos anos 60 o pinheiro-bravo chegou a ocupar 1,2 milhões de hectares.»

Nas últimas décadas, a floresta portuguesa registou diversas alterações e a área ocupada pelo pinheiro-bravo foi muito afetada, sobretudo devido aos fogos florestais e ao nemátode da madeira, uma doença muito destrutiva e que já alastrou a todo o país. Mas a presidente do Conselho Científico do ISA destaca outra mudança. A dos hábitos de consumo dos portugueses: «Devido à forma e ao crescimento rápido, nem sempre os pinheiros-bravos têm o aspeto desejado para uma árvore de Natal e, por isso, muitas pessoas passaram a comprar outras árvores. O que muitas não sabem é que as que se vendem nas grandes superfícies não são pinheiros, são maioritariamente árvores dos géneros Picea ou Abies (abeto).» Mas na casa da professora a tradição mantém-se e o pinheiro continua a ser a sua árvore de Natal! CR

Célia Rosa, Fátima Iken, Laura Patrício e Sandra Nobre
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens