OPINIÃO

É possível estudar sem ir à escola?

Esta americana defende que sim, propondo um sistema de educação que não inclui a escola: o unschooling.
Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Sandra Dodd tem três filhos, de 22, 24 e 27 anos, e nenhum deles foi à escola. Para esta ex-professora, isso é a prova maior da sua teoria: para se ser feliz e realizado não é preciso ter aulas fora de casa. Mas é preciso aprender. E as migalhas que lhes deixa no caminho são o meio para atingir esse fim.

O que é o unschooling?
 Um tipo de aprendizagem que envolve a integração da criança num ambiente, sem ser a escola. Um espaço onde ela pode apanhar as pequenas migalhas que lhe vamos deixando no caminho. Desta forma, aprende à sua maneira, brincando e explorando. Tem raízes na open classroom das décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos, quando se achou que as escolas podiam dispensar os testes, livros e papel e virar-se para o mundo real. A ideia permaneceu em algumas escolas, embora não tenham abandonado os testes, relatórios e trabalhos.

O unschooling não é ensino doméstico?
 O ensino doméstico é semelhante ao ensino na escola, embora numa base individual. Para mim o problema não está nos currículos mas sim na resposta à questão: e se as pessoas nunca fossem à escola?

Há estudos comparativos entre estes três tipos: escola, ensino doméstico e unschooling ?
Não, não há. No unschooling não existe um controlo exterior. E é difícil fazer acreditar que não fomos nós a ensinar os nossos filhos a ler, mas que foram eles a aprender por si. Quem está de fora não acredita. Dou um exemplo: aos 11 anos a minha filha Holly ainda não lia. Tinha vocabulário, juntava letras, mas não conseguia ler um recado, por exemplo. Tinha uma amiga, a quem a mãe dera um livro para treinar a leitura e «não ficar como a Holly Dodd». A Holly teve pena e achou que a ajudaria se lessem juntas. A amiga lia-lhe em voz alta e a Holly ia juntando as letras. Liam alternadamente. Ao fim de seis ou sete capítulos, a amiga ia mais atrasada na leitura. Quando Holly chegou ao último capítulo, já lia rapidamente. Como um dos seus filmes preferidos é o Stand by Me [de Rob Reiner], perguntou-me se havia uma versão em livro. Disse-lhe que era baseado em O Corpo , de Stephen King, e fomos à procura. Foi o segundo livro que leu!

Também foi professora. O que a fez desistir?
Ensinei alunos entre os 13 e os 15 anos, durante seis anos. Vi os efeitos da escola nas crianças e vi como os professores as viam. Desde pequena que queria ser professora e estava sempre a observar como os meus professores o faziam. Conhecia bem os alunos e cheguei a trabalhar com alguns dos meus professores, pelo que consegui perceber porque é que as pessoas tomam determinadas decisões. Vi que, independentemente dos professores, há crianças que gostam da escola e que, independentemente das crianças, há professores que gostam deste sistema. Não é, portanto, uma questão de dizer que há bons e maus professores… No entanto, mesmo que alguém abrace a profissão de coração aberto dedicado às crianças, não demora muito tempo a ficar cansado, rabugento e a querer apenas o seu dinheiro ao fim do mês. Em determinado momento, senti que não devia estar ali e saí.

Um dos argumentos a favor da escola prende–se com o facto de nem todas as famílias poderem dispensar um dos membros para ficar em casa com os filhos.
Mas podem arranjar alguém que tome conta das crianças, que possa lá viver em casa. Não um professor ou alguém que ensine, porque ainda há muitas horas na semana para os pais estarem com as crianças. As pessoas estão tão habituadas ao facto de as crianças estarem na escola que bloqueiam.

Ainda assim, nem toda a gente tem perfil para ficar em casa com os filhos.
Nem acho que seja bom para toda a gente. No meu caso, por exemplo, em que a minha mãe era alcoólica, eu estava melhor fora de casa. Acabei por usar a escola como um escape, para conhecer melhor o mundo e não as matérias. Vi uma vez um psicólogo na televisão a dizer que lhe apareciam no consultório casais introvertidos que tinham um filho extrovertido, ou vice-versa. Eles pediam-lhe que tratasse os filhos, pois não os entendiam. Nestes casos, é preferível que pais e filhos se separem.

Há quem critique o sistema, porque as crianças ficam limitadas ao que os pais sabem.
É um disparate total. Temos vizinhos, amigos, primos, tios… uma rede de relações interminável. Além disso, a escola já não é o único sítio onde se pode aprender a ler ou estudar sobre outras ciências. É mais um sítio onde isso se pode fazer. Em casa temos a internet, livros, mapas… e mais recentes do que os da escola. Ao deixar as crianças fazer as suas próprias ligações, seja a partir de livros de banda desenhada, músicas, filmes ou pessoas que conheceram, acreditamos que estão também a aprender e muito provavelmente a assimilar mais, uma vez que estão a construir uma rede de ligações mais forte e duradoura baseada nas suas associações de conhecimento.

A matemática é o maior problema…
No século XIX, era exigido um determinado conhecimento aos guarda-livros, para fazer a contabilidade. Os números tinham de ser todos iguais, para poderem ser lidos por qualquer um. Hoje usamos computadores e máquinas calculadoras mas continuamos a pedir aos alunos algo que já não se faz há cem anos. Os meus filhos não aprenderam nenhuma matemática formalmente. No entanto, faziam cálculos de cabeça, nomeadamente com a sua mesada. Há pouco tempo frequentaram aulas de Matemática na Community College [instituição local de ensino superior] e pela primeira vez tiveram de trabalhar com fórmulas e símbolos que desconheciam. Não me preocupei: se pensarmos, também há músicos que sabem tocar instrumentos, embora não saibam ler uma pauta. Aprenderam «a ler e a escrever a música». Levaram três semanas a ficar ao nível dos outros alunos. No fim, o Kirby foi o melhor da turma.

Quando se sabe que os seus filhos não vão à escola, criticam-na?
Às vezes. Na maior parte dos casos as pessoas não têm referências para poder comparar. É difícil falar sobre isso. Perguntam «isso é legal?», ou «o meu primo também faz isso». E pronto. Não há mais nada a dizer. Não têm noção. Ou então acham que fechamos os nossos filhos em casa. E o nosso espírito é totalmente o contrário. O meu marido disse algo que espelha o que pensamos: «Quero que cresçam sem danos.»

Perguntam-lhe como irão estas crianças encarar a vida real?
Eu devolvo a pergunta: como irá o seu, que está fechado? Os meus filhos andam no mundo real. A escola é um mundo a fingir. Às vezes perguntam-me: mas não usam li vros? Que livros? Não, não usamos os seis livros da escola. Esses não. Usamos todas as outras centenas à nossa disposição. Só um exemplo: um dia, a minha filha Holly estava num jardim, sentada numa manta a almoçar, quando foi abordada por outra menina que, sabendo que ela não ia à escola, lhe perguntou como é que ela conhecia pessoas novas. A minha filha estendeu-lhe a mão e disse: «Olá, sou a Holly.» A outra rapariga nem sequer estendeu a mão e perguntou: «O que queres dizer com isso?» A minha filha então virou-se para ela e retorquiu: «E tu, como é que tu conheces pessoas?»

Rita Penedos Duarte
Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens