OPINIÃO

Primeira árvore humana plantada no Parque Natural de Sintra-Cascais

Diz a Bíblia que Deus colocou uma árvore da vida no jardim do Éden – a par da do conhecimento, cuja maçã tramou Eva. Babilónios, egípcios, aztecas e muitos outros povos viam a árvore como um símbolo da imortalidade. E se, afinal, não for mito, agora que há urnas biodegradáveis a propor vida para lá do fim? Quem escolhe morrer quando pode viver na natureza sendo uma árvore?

Texto de Ana Pago

A morte está cheia de rumores, o pó que ao pó retorna, o fim de tudo. Num instante respiramos, apaixonados pela existência, no outro somos nada. Para onde vamos? Como? Quando? O que resta de nós quando a vida se vai? Resposta: um ácer, um carvalho, uma faia, um freixo, um gingko, um pinheiro. Florestas inteiras no lugar de cemitérios depressivos, agora que a SigmaPack nos dá a opção de vermos as nossas cinzas transformadas na árvore que quisermos. E não, não temos de ser plantados no quintal lá de casa: em abril, já foi colocada a primeira urna biodegradável com cinzas humanas no Parque Nacional de Sintra-Cascais. Uma pessoa em tempos, é hoje um belo sobreiro, a contribuir para a renaturalização do local com espécies autóctones.

A morte é um imenso tabu: não falando, é como se não existisse. Mas temos de insistir para se perceber o impacto ambiental.

«Abatem-se duas árvores para construir um caixão de cremação comum, em madeira. E matamo-las para as queimarmos», indigna-se Nuno Gonçalves, o mentor da ideia das urnas ecológicas biodegradáveis em Portugal. Mais: como é possível que se continue a utilizar modelos com revestimentos nocivos, metais, ceras e vernizes que contaminam as águas subterrâneas dos cemitérios? «A morte é um imenso tabu: não falando, é como se não existisse. Mas temos de insistir para se perceber o impacto ambiental», diz. Se uma só árvore dá para fazer cem urnas das dele, então o eco-friendly tem de ser o caminho.

No meio de tantos fantasmas em torno da morte, a única certeza é a de que iremos todos acabar com os ossos na terra, de uma maneira ou de outra. Nuno cismava na ideia desde 2006, quando ainda trabalhava no negócio das embalagens e imaginava outros conteúdos e formas de acondicioná-los. «Um dia chegou a casa e perguntou-me o que é que eu pensava acerca de urnas ecológicas biodegradáveis», conta Raquel Lopes Gonçalves, a esposa e sócia. «Disse-lhe que era um conceito muito à frente.»

Em 2014 fundaram a SigmaPack, primeira empresa europeia com certificação de sustentabilidade. Nuno saiu entretanto da direção comercial da Inapa, uma multinacional de distribuição de papel, e em 2015 agarrou o sonho da morte ao importar da Argentina as urnas Restbox, provenientes da reciclagem de papel e cartão, que não só reduzem para metade o consumo de gás e o tempo de cremação, como são reutilizadas pela terra como fonte de nutrientes.

Ainda pouca gente sabe que a SigmaPack presta serviço completo numa funerária por valores abaixo dos 100 euros, quando só a urna tradicional para cremação (em madeira, ultrapassada) custa no mínimo 200.

«No país de origem, a Restbox tem ainda uma vertente de responsabilidade social, além da ecológica: pessoas que viviam nas ruas são integradas em empresas para fazer a recolha dos resíduos, que são depois entregues a uma cooperativa de reciclagem para o fabrico das urnas», explica o empreendedor. Quanto mais sabia sobre o processo, mais lhe saltavam à vista as vantagens: proteção do planeta, dos recoletores e dos solos; reutilização dos materiais; conversão dos cemitérios em zonas naturais e sustentáveis; funerais dignos acessíveis a todos.

«Por cá, cerca de 80 por cento das cerimónias tradicionais são pagas a crédito ou a prestações pela família, num mínimo de 1600 euros. Muitas ficam endividadas», lamenta. Ainda pouca gente sabe que a SigmaPack presta serviço completo numa funerária por valores abaixo dos 100 euros, quando só a urna tradicional para cremação (a tal de madeira, ultrapassada) custa no mínimo 200. O ritual fúnebre inclui uma urna clássica a envolver a Restbox – de ar luxuoso, embora feita da compactação de restos –, e no fim apenas é cremada a urna ecológica biodegradável no interior (a porta-Restbox fica assim livre para ser usada noutros funerais).

A cereja no topo do serviço fúnebre surge na fase seguinte com as urnas Bios, um produto que descobriram em Barcelona e custa 103 euros online: em vez de se guardar as cinzas do ente querido num pote, são colocadas nesta urna à base de turfa, casca de coco e celulose, com uma semente à escolha, e irão dar origem uma árvore.

«Em Espanha há cemitérios que são autênticas florestas, com gente a passear, muito verde. Cá só vamos ao cemitério quando tem de ser e não nos identificamos com tanta tristeza», aponta o business manager. Já para não falar nos custos da compra do terreno ou, no caso das sepulturas temporárias, das exumações e outros procedimentos que podem duplicar a despesa inicial. «Que melhor forma de encerrar o ciclo do que transformar uma vida noutra?»

Se a nós nos agrada ser árvore, muitos são os donos que fazem também questão de prestar esta última homenagem aos seus animais de estimação.

A SigmaPack tem hoje as representações da Restbox e da Bios para Portugal, Europa e países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP). É a única detentora do conceito que associa ambas as urnas em sequência (até agora só existiam no mundo em separado). Planeia ainda criar a primeira agência funerária ecológica, ao mesmo tempo que alarga a sua visão única da morte aos animais com os serviços fúnebres ecológicos PerPETuate.

«Se a nós nos agrada ser árvore, muitos são os donos que fazem também questão de prestar esta última homenagem aos seus pets», afirma Raquel, adiantando que os preços oscilam entre os 240 e os 400 euros e incluem a recolha e transporte do corpo no veterinário ou em casa, cremação individual num forno para animais de companhia, emissão de documentos de controlo, certificado de cremação e devolução das cinzas na urna Bios, pronta a utilizar.

Os menos dotados para a jardinagem podem recorrer a uma incubadora bonita que lhes desenvolva a árvore em casa.

Uma lei de março de 1998 autoriza o enlutado a dar o destino que bem entender às cinzas dos entes queridos – são do mais clean que existe. Pode plantá-las no quintal, onde gostavam de apanhar sol em vida, ou escolher um vaso com a semente de um bonsai se morar num apartamento. Os menos dotados para a jardinagem podem ainda recorrer a uma incubadora bonita que lhes desenvolva a árvore em casa ou pedir à SigmaPack que lhes germine a semente e entregue a pequena árvore pronta a vingar. E cuidar dela é sempre preferível ao buraco negro que nos fica no peito depois da perda.

EM PAZ NA CATÁSTROFE

Devastação à passagem do furacão Katrina. (Foto da Shutterstock)

Dezembro de 2004, um dia a seguir ao Natal: um sismo de magnitude 9.1 na província de Aceh, Indonésia, provocou um tsunami no oceano Índico que fez 230 mil mortos e deixou um rasto de destruição no país, Tailândia, Sri Lanka e Índia. Agosto de 2005: o furacão Katrina arrasou o litoral sul dos EUA, matou 1800 pessoas e por pouco não apagou Nova Orleães do mapa. Em ambos os casos, as Restbox cumpriram bem a sua missão: foram armazenadas num contentor em paletes, espalmadas; voaram da Argentina para as zonas sinistradas (então ainda não havia SigmaPack ou sairiam de Portugal); foram armadas sem recurso a ferramentas e usadas imediatamente para fazer os serviços funerários nos locais do desastre.

«Somos a única empresa capaz de colocar 1200 caixões num contentor de 40 pés. Se tentássemos fazer o mesmo com urnas de madeira, tínhamos que enviar pelo menos uns 12 contentores», traduz Nuno. Hoje têm o seu próprio depósito com resposta imediata – um stock permanente de duas mil urnas em armazém – e formam as parcerias certas com a Autoridade Nacional de Proteção Civil, a Cruz Vermelha, os Médicos Sem Fronteiras e outras entidades que reforcem este trabalho. «Se uma coisa já é difícil por si, cabe-nos simplificá-la.»

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