OPINIÃO

Como evitar que o dinheiro seja motivo de discussão

Onde gastar? Quanto poupar? Como dividir? O que partilhar? Haja muito ou pouco dinheiro, a gestão das finanças num casal nem sempre é pacífica. As opções de cada um estão enraizadas na educação e nas necessidades emocionais e podem ser bastante diferentes, mas há uma regra igual para todos: é preciso aprender a falar abertamente sobre dinheiro.
Finanças Familiares

Texto Sofia Teixeira Ilustração | Sérgio Condeço/Who

Num mundo perfeito, cada membro do casal tem um ordenado ou rendimento digno, as despesas comuns são divididas a meias ou proporcionalmente, de acordo com os vencimentos, e, para objetivos individuais, cada um usa a sua poupança e faz os gastos que quer.

Mas não é tão simples. Há desigualdades salariais que desequilibram os pratos da balança do poder, há a casa onde vivem os dois mas é só de um, há desemprego e trabalho precário, há ideias diferentes do que são as despesas comuns e opiniões distintas sobre o caminho a dar ao que sobra depois de pago o essencial – e até noções diferentes do que é essencial. E há gastadores compulsivos e maníacos da poupança e educações financeiras familiares distintas.

E depois há o tabu. Falar da «intimidade financeira» de cada um é um assunto delicado e nem sempre o tema é abordado de maneira franca. Para a psicóloga Filipa Jardim da Silva, o tema ainda está envolto numa grande dose de autocrítica traduzida na frase corrente: «Não acredito que estamos a discutir por causa de dinheiro.» Como se o assunto não merecesse ser tema de conversa. «Ainda se nota algum preconceito em discutir sobre questões tidas como menores, como tarefas domésticas e dinheiro. É como pensarmos numa casa e considerarmos que o chão e as paredes são aspetos menores quando apreciamos a decoração.»

Em termos práticos, a regra devia ser separar finanças pessoais de finanças do casal.

«O que funciona melhor é haver uma conta comum alimentada por ambos, na proporção daquilo que ganham», diz Susana Albuquerque, autora do livro Independência Financeira para Mulheres (ed. Estrela Polar). Em termos práticos, a regra devia ser separar finanças pessoais de finanças do casal, com contas separadas para gastos e poupanças individuais e uma conta comum para despesas comuns. Mas há diversidade.

«Às vezes colocam os dois o mesmo valor, independentemente de os ordenados serem diferentes, e há casais que têm as contas todas em comum e outros não têm conta nenhuma em comum e cada um está responsável pelo pagamento de certas contas.» E funciona na mesma, sem discussões, que é a única coisa que realmente importa, reforça a coach, com 12 anos de experiência em gestão financeira pessoal.

Em casa de Cátia e de João vigora uma destas muitas variantes. Ela é assistente numa clínica dentária, ele é gerente de um restaurante. Têm duas filhas pequenas, estão casados há seis anos e cada um tem a sua conta pessoal. «Ele paga a água, luz, gás e a creche das miúdas e eu pago a renda, a internet e os seguros de saúde.» Em comum há apenas um plano poupança reforma (PPR).

As diferenças são sobretudo entre educações de base e perfis de personalidade diferentes. Homens e mulheres tendem a reproduzir a gestão financeira da família de origem.

O marido entra com mais dinheiro, porque ganha mais, mas as contas não são feitas propriamente ao cêntimo ou recorrendo a uma regra de três simples para apurar proporções. «As despesas de comida, vacinas ou medicação dependem de quem vai às compras nesse dia e vamos alternando. Para as férias ou outras saídas, muitas vezes aproveitamos o dinheiro do IRS. Mas há anos em que pago só eu e outros em que paga só ele. Tentamos fazer uma viagem para fora do país todos os anos e nessas viagens, mais dispendiosas, por norma o meu marido paga a maior parte.»

A ter de ser atribuído uma etiqueta de «gastador» e «poupado» a cada um, Cátia assume que apesar de o ordenado dela voar num instante, por ser pequeno, ela é a mais rigorosa e comedida com os gastos. «Ele gasta mais, porque tem mais, e muitas vezes não olha a preços.» É assim, mas podia ser ao contrário porque nesta área não há diferenças entre homens e mulheres fundadas no género.

«As diferenças são sobretudo entre educações de base e perfis de personalidade diferentes. Tanto os homens como as mulheres tendem a reproduzir automaticamente a gestão financeira da sua família de origem, o que por vezes se revela incompatível entre parceiros», diz a psicóloga Filipa Jardim da Silva.

Tentar gerir os conflitos que resultam de questões financeiras não depende do dinheiro. Depende das expetativas com necessidades, prioridades, desejos e emoções.

No que toca à personalidade, «pessoas mais rígidas e desconfiadas tendem a ter dificuldade em partilhar uma só conta bancária, as mais inseguras podem sentir mais necessidade de dividir tudo de igual forma, mesmo quando existem desigualdades salariais, as mais ansiosas tendem a dividir-se entre preocupações significativas com o futuro, o que as leva a querer poupar muito ou, por outro lado, a apresentar comportamentos de consumo impulsivos como escape.»

Cátia tem uma conta poupança desde pequena, em que era depositado o dinheiro do Natal, aniversário e outros presentes. «O meu marido só abriu uma conta quando começou a trabalhar e nunca foi educado para poupar.» Mas, apesar das diferenças, é mais aquilo que os junta do que os separa, e Cátia garante que o facto de ganhar menos e pagar menos coisas, não faz que se sinta com menos poder de decisão. «É tudo conversado entre os dois e não é por ganhar menos que deixo de opinar.»

Apesar de ser mais ou menos aceite que as despesas pessoais saem da bolsa de cada um e as despesas comuns saem em igual medida ou em proporção das carteiras, há variantes condicionadas pelas circunstâncias, até na própria definição do que são despesas comuns. «Para a maioria dos casais a casa é uma despesa comum, mas há muitas situações em que o casal vive na casa que já era de um e quem é proprietário prefere continuar a pagá-la sozinho.»

Uma das regras básicas é tirar uma hora por mês para falar só sobre dinheiro e sobre as decisões que queremos tomar em relação às finanças, com as contas em cima da mesa.

É o caso de Ana e Carlos. Casados há oito anos, mas namorados muito antes, a casa onde vivem foi comprada apenas por ela, que assegura todas as despesas: prestação ao banco, seguro e obras de manutenção. «Foi uma decisão minha antes de casar», diz a engenheira civil. «Queria ter a certeza de que se me quisesse divorciar não ia ter problemas com a casa. Sei que é muito pouco romântico, mas para mim foi importante. O meu marido na altura não achou a mais pequena graça, mas não lhe dei hipótese nesse aspeto. Somos casados com separação total de bens e gosto assim.»

Durante os primeiros anos de casamento, com exceção da casa, foi tudo dividido a meias. Iam pagando e no final do mês faziam as contas ao que cada um tinha pago e acertavam. «Três anos depois do casamento, Carlos ficou desempregado e a fazer apenas trabalhos precários de higiene e segurança no trabalho. Resultado: nunca trás o mesmo valor para casa todos os meses. » E na mesma altura em que diminuíram as receitas do casal, também aumentaram as despesas: o primeiro filho nasceu pouco depois. Em conjunto acabaram por decidir uma nova forma de gestão financeira: Ana paga todas as contas e o marido, com o que não gasta, faz a poupança que ela não consegue fazer.

Quem olhe de fora pode dizer que é uma situação com potencial para criar conflitos. Mas, para Ana, é uma opção que reflete a transparência com que se está na relação e a solidez que ela tem. «Não me preocupa nada que ele poupe enquanto eu gasto. Tenho 41 anos e namoro com o meu marido desde os 16. Não tenho a mais pequena dúvida acerca do seu caráter.» Apesar disso, as coisas estão salvaguardadas: «Esse mealheiro que ele faz é repartido entre a sua própria conta, uma conta da qual eu sou a única titular e a conta dos nossos filhos.»

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Tentar gerir os conflitos que resultam de questões financeiras não depende do dinheiro. Depende, isso, sim, das expectativas com necessidades, prioridades, desejos e emoções. Cada um de nós tem um conjunto de valores único e é com base nele que toma decisões em relação ao dinheiro. O problema começa quando as necessidades e prioridades dos membros do casal são diferentes, explica Susana Albuquerque. «Para a mulher de um casal com crianças é possível que o mais importante sejam os filhos e a sua educação. Logo, as necessidades que vai identificar estão relacionadas com eles: colégio privado, atividades extracurriculares, brinquedos, livros. Mas é possível que o marido esteja numa fase em que tem como prioridade a carreira, querendo aplicar o dinheiro em formação, num computador novo, em roupa que acha que é necessária para a atividade profissional. É um exemplo estereotipado, mas frequente, que pode dar muitos mal-entendidos e conflitos.»

Quando o marido diz que não concorda que se gaste dinheiro no colégio privado, o que a mulher «ouve» é que ele não está interessado em dar aos filhos as melhores condições de educação, e quando ela o critica por gastar dinheiro em roupa nova para o trabalho ou em gadgets, o que o ele pensa é que a sua ambição profissional não está a ser valorizada.

Como resolvermos isto? Susana Albuquerque defende que uma das regras básicas é tirar uma hora por mês para falar só sobre dinheiro e sobre as decisões que queremos tomar em relação às finanças, com as contas em cima da mesa. «Isto ajuda a que cada um tome consciência do que precisa, o que valoriza e porquê. O primeiro passo é sempre perceber qual é a necessidade emocional que está na base do gasto ou da poupança, qual é a motivação mais profunda. Só depois de cada um identificar essas necessidades que vão além do dinheiro é que é possível comunicar com o outro e ouvi-lo, sem ceder a emoções de zanga e frustração.»

Uma coisa são as divergências de gestão financeira, outra são os comportamentos patológicos que possam envolver mentiras ou perda de controlo.

Claro que é importante distinguir estas questões de outras, mais profundas e desestruturantes. Uma coisa são as divergências de gestão financeira, outra são os comportamentos patológicos que possam envolver mentiras ou perda de controlo. «Os comportamentos compulsivos (compras, jogo) que levam ao endividamento constituem um problema real e sério», diz a psicóloga Filipa Jardim da Silva.

«Não se trata de uma questão de feitio que o tempo faz passar. A tolerância e o adiamento de confronto são estratégias que agravam o problema em vez de o solucionar e podem causar danos práticos a todo o sistema familiar.» Tal como noutros quadros de doença psicológica, é importante que ambos os elementos estejam atentos a si mesmos e ao outro, de forma a pedir ajuda externa, quando necessário.

INFIDELIDADE FINANCEIRA

É uma outra forma de traição e consiste em não ser honesto com o outro acerca de gastos e poupanças. Esconder compras feitas (dizendo que foi oferecido) ou ter uma conta poupança que o outro desconhece são duas das modalidades mais comuns. Comportamentos que dizem muito sobre a relação com o dinheiro, mas dizem mais ainda sobre a forma como se está na relação. «Coloca um dos elementos do casal com um pé dentro e outro fora da relação», diz a psicóloga Filipa Jardim da Silva. «Quando alguém está numa relação com uma conta poupança oculta do companheiro, denota não estar inteiro na relação. E quando alguém esconde compras de forma persistente, parece não se sentir suficientemente seguro para se afirmar e defender as suas escolhas.»