OPINIÃO

Perigo à beira da piscina

Em Portugal já existem cursos de sobrevivência para bebés de meses ou crianças até aos 6 anos. Objetivo: evitar a morte por afogamento.

Quedas de crianças na água dão-se num segundo. Saberem flutuar e respirar, segundo uma técnica de sobrevivência chamada Infant Swimming Resource (ISR), pode ser a diferença entre a vida e a morte. Os EUA têm 450 instrutores certificados. Portugal tem dois e foi pioneiro na Europa. E não, os acidentes na água não ocorrem só no verão. Nem só com os filhos dos outros.


Veja o vídeo para perceber como funciona o Infant Swimming Resource.



Madalena Machado tinha a bebé de 6 meses na água, em Lisboa, quando se dava a tragédia no Porto: Gonçalo Pereira, de 2 anos, acordou da sesta, iludiu a vigilância dos avós que o julgavam a dormir e caiu na piscina, onde se perdeu para a família num sopro. Foi a 5 de abril deste ano. Lembra-se perfeitamente do dia porque o seu coração de mãe mirrou por aquela outra mãe que nunca mais veria o seu rapazinho, uma dor inexplicável. Só lhe apetecia interromper a aula, pegar na filha ao colo e abraçar-se a Estela Florindo, imensamente grata à formadora por um dia ter ido aos EUA aprender a Infant Swimming Resource (ISR), uma técnica de sobrevivência aquática que previne afogamentos de crianças entre os 6 meses e os 6 anos. É ela a pioneira em Portugal e na Europa, a ensinar desde 2010.

«Decidi fazer o curso em 2008 depois de o meu filho mais velho, hoje com 10 anos, ter caído como um parafuso à piscina, todo vestido, numa visita aos meus sogros», explica Estela. O marido tirou-o logo da água, mas não se poupou na descrição de como afundara e não reagira para voltar acima. «Eu não estava presente, mas o episódio marcou-me muito. Na altura, por acaso, recebi um vídeo de ISR com um bebé americano a simular um acidente. Fiquei a pensar nisso.» O facto de ser diretora técnica e comercial numa empresa de construção de túneis não a demoveu da ideia. Foi dez semanas para Miami, determinada a aprender tudo naquelas aulas intensivas: três horas teóricas, mais quatro dentro de água com crianças, todos os dias. Ainda conciliou ambas as ocupações, porém há um ano que se dedica à ISR a tempo inteiro.

«Os EUA têm cerca de 450 instrutores certificados, oito milhões de aulas dadas e 50 anos de experiência desde que Harvey Barnett, doutorado em psicologia infantil e salva-vidas, criou a técnica em 1966, na Flórida.» Nada a ver com o vazio absoluto com que se deparou quando, no regresso, constatou que apenas uma alemã tirara o curso de ISR e nunca dera uma aula. «Durante cinco anos fui a única na ISR Portugal – única na Europa –, antes de o Diogo Santos se juntar em 2015, a ensinar em Faro.» Os filhos foram as suas primeiras cobaias quando mal se falava do assunto, ele com 3 anos, ela com 2. Pelo menos agora nota que os pais estão mais cientes de que os acidentes na água acontecem em qualquer altura, não apenas no verão, e procuram outras medidas.

«Por mais vedações, alarmes, cadeados e proteções que ponham nas piscinas – e é fundamental continuarem a pô-los –, é importante perceber que a criança pode chegar à água sozinha. Somos humanos, não podemos jurar que não acontece aos nossos filhos», sublinha Estela. Quanto a Madalena, pensa muitas vezes que o seu Vicente era pouco mais velho que o menino do Porto quando aprendeu a ISR com a instrutora. «Calhou ver o vídeo de um bebé a fazer a técnica e soube que, tendo casa com piscina, faria tudo para que os meus filhos a aprendessem», conta. Vicente e Alice tiraram o curso em 2013, ele com 3 anos, ela com 1. Caetana fê-lo em abril deste ano, aos 6 meses. «Tornou-se a maneira lúdica de os três entrarem na água e eu fico tão mais descansada.»

Nos últimos 13 anos, em Portugal, houve 215 afogamentos com desfecho fatal e 512 internamentos na sequência de afogamento. Desde que a Associação para a Promoção de segurança Infantil (APSI) lançou a primeira campanha de prevenção de afogamentos, em 2003, a média de 27 mortes por ano passou para nove. Ainda assim, continua a haver acidentes graves.

Também Fernanda Santos chorou o pequeno Gonçalo, em dor pelo casal que conhecia pessoalmente. Só de imaginar a quantidade de acidentes pavorosos registados nos últimos 13 anos – 215 afogamentos com desfecho fatal e 512 internamentos na sequência de afogamento, segundo dados da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI) –, dá graças pelo curso de ISR atualmente a decorrer no Porto. «Tinha oferecido um à minha sobrinha-neta lisboeta de 24 meses, Mercedes, que entretanto adoeceu e vem cá acabá-lo nas férias. Mal soube que a Estela estaria no norte a partir de junho, aqui mesmo no Clube Fluvial Portuense, inscrevi o meu outro sobrinho-neto, Guilherme, de 2 anos e 3 meses. Já vi o bastante para saber que num instante de distração o pior pode acontecer.»

Na água, a instrutora fá-lo boiar, rodar e avançar submerso para a parede – o normal é que crianças de 1 a 6 anos, ao fim de seis a oito semanas, sejam capazes de nadar uma curta distância, flutuem para respirar/descansar e depois se virem de barriga para baixo e nadem mais um pouco, até alcançarem um ponto de segurança ou serem salvas por um adulto. «Boa, Gui! Vamos só descansar um bocadinho e repetir?» Bebés dos 6 aos 12 meses, sem tanta maturidade, levam geralmente entre quatro e seis semanas a aprender a flutuar. Fernanda aproveita o momento de enrolar Guilherme na toalha para contar a Estela a novidade: há uns dias Mercedes caiu na piscina e os adultos presentes garantem que se desembaraçou muito bem sozinha. Nuno Guerra, pai do Martim, de 10 meses, fica impressionado.

«Os acidentes nestas idades acontecem em dois segundos: eles são imprevisíveis e nós falíveis», justifica o nadador federado, cuja ligação ao Clube Fluvial Portuense, na competição e a orientar os mais novos, facilitou o contacto para este primeiro curso de ISR no Porto. «Conforme caem em casa num piscar de olhos, caem numa piscina, numa poça, num lago.» Daí coordenar-se com a mulher para levarem o Martim àquelas aulas de dez minutos, de segunda a sexta-feira, sem falhas. «A água é a minha vida, acaba por ser também a dele. Precisava de lhe garantir esta mais-valia de sobrevivência», diz. Obviamente, o programa não exclui nunca a sua própria responsabilidade, mas dá-lhe os tais dois segundos que podem fazer a diferença entre a vida e a morte.

«Sempre que os pais percebem que o filho consegue salvar-se numa queda acidental, é uma alegria para eles e para nós, instrutores», confirma Diogo Santos, terapeuta ocupacional no ativo e o segundo elemento da ISR Portugal.

Sem contar com os pequenos do curso que tirou em Naples, na Flórida – aulas práticas de manhã e teóricas à tarde, durante dois meses exaustivos –, num ano teve cerca de 15 crianças (pelas mãos de Estela passaram à volta de 200). «Dei o primeiro curso em março de 2015, com o meu filho e duas filhas de amigos como alunos, e cada vez a procura é maior.» No futuro, considera deslocar-se pelo Algarve, pelo país e até adaptar a ISR às crianças com deficiência com quem trabalha. Para já assegura a zona de Faro, onde a água é uma constante somando a ria, as praias e as piscinas. «Tem sido fantástico ver que os miúdos são todos diferentes, mas no final é possível fazer com que cada um tenha sucesso.»

Ana Champallimaud agarra-se com todas as suas forças de mãe a esta ideia. «Tive um irmão que morreu afogado numa piscina aos 2 anos e meio, tinha eu 9 meses. Cresci com o pânico de haver tantas crianças que se afogam e, quando não morrem, ficam com lesões irreparáveis para o resto da vida», desabafa. O Vasco tem 12 meses, é o terceiro filho a seguir a uma menina de 5 anos e a outro rapaz de 3. Ana não stressa se eles caem, batem com a cabeça, arranham os joelhos, em contrapartida passa os verões a gritar. «É mais forte do que eu, este medo. O meu marido insistiu em fazer piscina e foi uma luta, nem durmo bem.» Desde os mais velhos que tentava conciliar a sua agenda no Porto com a de Estela em Lisboa, mas só Vasco teve essa sorte. «Era decisivo pô-lo a aguentar-se dentro de água. Claro que haverá redes, alarmes, coletes, tudo e mais alguma coisa. Mas a última barreira de segurança é ele próprio e tranquiliza-me imenso saber que nunca se deu uma fatalidade com crianças que fizeram a ISR.»

A haver um contra – e Vanda Palmeiro não lhe consegue chamar isso – será o compromisso de manter a rotina todos os dias: «Era essa a parte mais difícil de gerir. A Carlota só tinha 8 meses e eu levantava-a às 07h00 para poder ir com ela», recorda a mãe de Lisboa, disposta ao mesmo quando tiver o próximo filho. «É um esforço largamente compensado, nem se discute.» Rita Aleixo concorda após ter posto a bebé Sofia sob os cuidados de Estela, numa primeira fase para rodar e flutuar (com 10 meses) e mais tarde para aprender a sequência completa de nadar-flutuar-nadar (aos 14). «Moramos num condomínio com piscina, preocupava-me que a minha filha começasse a andar e a chegar às coisas sem antes ter uma ferramenta de sobrevivência na água. Felizmente cheguei à ISR e fez todo o sentido.»

Falando em nome da APSI, Helena Sacadura Botte, técnica de segurança infantil, adianta que a associação concorda com «este tipo de ensino, nunca descurando as estratégias de prevenção tradicionais que, infelizmente, ainda são pouco valorizadas e nem sempre de fácil acesso a todas as famílias». O decréscimo no número de mortes foi significativo desde que lançaram a primeira campanha de prevenção de afogamentos em 2003: de uma média de 27 óbitos por ano entre 2002 e 2004, passou-se para nove mortes anuais entre 2011 e 2014. Ainda assim, continua a haver acidentes graves, lamenta. «Os adultos deixam as crianças sozinhas na banheira ou em piscinas insufláveis “só por uns segundos”, para atenderem o telefone ou abrirem a porta; não despejam os recipientes logo após a utilização, incluindo baldes e alguidares; não colocam tampas nos poços, apesar de ser obrigatório por lei; não vedam piscinas e tanques em casas particulares.»

Helena crê que o vazio na Europa no que toca à ISR tem a ver com falta de informação e de formadores – algo que Estela Florindo pretende resolver indo aos EUA em breve tirar o master para poder formar (já tem 200 interessados). Outro receio da APSI – o de saber até que ponto a eficácia é total, dado que cair à água vestido e calçado não é o mesmo que ir para uma aula em fato de banho – é rebatido pela instrutora: «No fim do curso fazemos uma aula com roupa de verão – com sapatos, chucha e fralda, que na água pesa mais dois a três quilos – e outra com roupa integral de inverno, para aprenderem a ajustar a técnica que aprenderam ao peso do corpo.» Há vários relatos, em Portugal e nos EUA, de crianças que caíram à água e foram encontradas todas vestidas a boiar. «A ISR é boa até aos 5/6 anos, idade em que terão maturidade para aprender a nadar bem e assegurar a sua própria sobrevivência», resume. Depois disso não se tornam à prova de água, mas o nosso coração de pais já falha menos batidas.

 

AS DÚVIDAS DOS PAIS

O meu filho vai esquecer o que aprendeu nas aulas de ISR?
Não, tal como quem aprende a andar de bicicleta não esquece. Ainda assim, as técnicas de sobrevivência aquática podem ser mais difíceis de executar se o seu filho tiver crescido demasiado ou estiver numa situação aquática diferente – cair num rio ou lago, por exemplo, quando está habituado a reagir na piscina. Daí serem importantes as aulas de refrescamento: uma ou duas a cada três meses, até ao ano de idade, e a partir daí um refrescamento a cada seis a doze meses. Dão confiança à criança, assegurando-lhe que pode continuar a realizar a sequência num corpo maior, mais maduro.

Devo trabalhar estas técnicas com ele fora das aulas?
Só depois de o formador certificado o instruir a fazê-lo e lhe mostrar como desenvolver a boa prática do método para brincarem juntos na água. Antes disso, nunca. Trabalhar com o seu filho fora do ambiente de aulas pode ser contraproducente, na medida em que existe a possibilidade de estar, inadvertidamente, a reforçar as técnicas de forma errada.

É normal a criança chorar quando está na água?
Sim, e tal não significa que tenha medo da água, entrado em pânico ou ficado traumatizada. Tem sobretudo a ver com o facto de estar a ser contrariada e a fazer coisas que não quer no momento, seja por cansaço, sono, porque não lhe apetece ou preferia que a deixassem sossegada a brincar. A verdade é que aprende sempre, quer passe a aula a chorar ou a rir.

O meu filho é portador de deficiência. Também pode fazer o curso?
O fundador da ISR, Harvey Barnett, trabalhou com crianças portadoras de diversas deficiências físicas e mentais, muitas das quais concluíram o curso com êxito. Se for esse o caso do seu filho, entre diretamente em contacto com a ISR Portugal e forneça informações medicas detalhadas, de modo a poderem informá-lo com conhecimento de causa e indicar-lhe os instrutores da sua área mais qualificados para ensiná-lo.

Quanto custa o curso?
Custa 500 euros. Dura quatro a seis semanas (para bebés dos 6 aos 12 meses); seis a oito semanas (dos 12 meses aos 6 anos), em aulas de dez minutos, de 2ª a 6ª. Os cursos são dados em locais a combinar mediante grupo de alunos suficiente. Estela Florindo (Grande Lisboa): 916 168 270 / e.florindo@infantswim.com. Diogo Santos (Algarve): 964 425 895 / d.santos@infantswim.com. Mais informações no website e Facebook.

Ana Pago
Fotografia Artur Machado/Global Imagens