Mário Dias

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«Aceito dizer que modifiquei a noite em Lisboa»

Chegou ao Cais Sodré no calor de 1975, revolucionou os bares e discotecas daquela zona da capital, deu vida nova à noite dos lisboetas ao som de música portuguesa, popular e rock, de blues e de reggae, de punk e de new wave. Mário Dias o primeiro DJ do Jamaica, recorda esse tempo de prazer, novidade e desafio. Esforço e risco que várias gerações agradecem.

A mãe sonhava com um filho arquiteto mas a escola não era para ele, miúdo mimado e precoce, fumador desde os 9 anos, casado aos 16, «birra» que demorou apenas uns meses – chamavam-no «os copos, os charros e as mulheres». A música e a rádio. Primeiro DJ do Jamaica, na febre de 1975, fez história: depois dele, o Cais Sodré nunca mais seria o mesmo. Depressa chegou a rádio, em 1986, na Telefonia, há 26 anos na TSF. Mário Dias é radialista, «bela palavra», sonhada desde sempre. O microfone liberta-o da timidez crónica, ao microfone não gagueja, na cabine ou em palco «é o outro». Fumo, álcool, luzes artificiais moem e matam. Rejuvenesceu quando largou a noite. Hoje, raramente sai, agora é o tempo da Beatriz. A filha que lhe nasceu há cinco anos podia ser neta. Renascimento mas também medos, que um parto complicado agravaram. Desaparecem ao fim do dia, aos primeiros acordes de Mulher da Erva, canção de embalar da menina. Encontramo-nos na TSF. De cigarro na mão, apresenta-se: «Sou tipo que erra, que é simples, simpático.» Tão experimentado e tão frágil. E de uma cortesia rara.

A partir da sua chegada à discoteca Jamaica, em meados dos anos 1970, o Cais de Sodré nunca mais foi o mesmo. Tem a noção da influência que teve, como DJ, na noite lisboeta?
_Por uma questão de feitio, não ligo muito a essas coisas, mas aceito dizer que modifiquei a noite em Lisboa. Chegar ao Jamaica e passar do disco-sound para o rock e o reggae foi uma aposta arriscada. Fui indo devagarinho, numa espécie de guerrilha com o patronato, até que as pessoas começaram aderir. Quanto aos «descobridores» do Jamaica, primeiro, apareceu alguma intelectualidade de esquerda e a partir daí funcionou o boca-a-boca. A verdade é que em 1975 não havia grande concorrência.

Nessa época, que música se ouvia em Lisboa?
_A grande catedral do rock continuava a ser o 2001, mas só lá chegava quem tivesse carro. Ou então o Browns, que já não existe. Para os «betos», havia o Stones, o Ad Lib.

Como lhe chega o convite para ir para o Jamaica?
_Em 1974/75, dava-me muito com um grupo de malta minhota e galega e um ou dois desses amigos conheciam bem os donos do Jamaica e do Europa. E, por isso, rara era a noite em que não fôssemos lá beber uns copos. A certa altura, por brincadeira, comecei a fazer as folgas do DJ do Europa. Isso durou apenas uns meses mas já então apostei noutro tipo de música, em contraste total com a que então passava – o pior do pior do disco-sound à mistura com umas espanholadas insuportáveis. Pouco depois, o Jamaica ficou sem DJ, convidaram-me para o substituir e nem pensei duas vezes. Como tinha desde miúdo o gosto pela rádio, aproveitei para brincar um bocadinho e comecei a usar o microfone. Começa então a constar que chegou ao Cais do Sodré um tipo maluco, que põe uma música diferente.

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A noite do cais do Sodré era marcada pela prostituição e pelos estrangeiros que atracavam no porto de Lisboa. O Jamaica era uma casa de alterne. Como reagiram os clientes habituais à «guerrilha»?
_Inicialmente muito mal e iam à cabine dar-me conta do desagrado. Quer as mulheres que trabalhavam ali, quer os visitantes/clientes. Lembro-me da vez em que um tipo com sotaque alentejano e ar de «beto» latifundiário foi protestar à cabina porque, dizia ele «não tinha pagado à porta» para ouvir Sérgio Godinho, Zeca (Afonso) e Fausto. Mas com o tempo, a tal malta que primeiro descobriu aquilo – a Teresa Madruga, a Leonor Pinhão, o António Caeiro, o João Botelho, o Luís Pinheiro de Almeida, o Luís Vita, o Bernardo Brito e Cunha, o falecido João Galamba de Oliveira (na altura jornalista do DN) entre outros – começou a divulgar e a «marcar» o espaço.

Foi uma aposta arriscada sobretudo dos donos dos bares.
_A determinada altura tiveram medo de perder a clientela habitual. Mas quando quando ao final da noite faziam as contas, viam que compensava e o medo passou. Pelo menos até eu começar a passar Sérgio Godinho, Zeca Afonso e Fausto.

Porquê?
_Não sei se o «Boss» (como lhe chamávamos) era do PSD ou do CDS – era de direita – mas lembro-me de, não poucas vezes, acabarmos a noite a discutir política. Ele chamava-me comuna, eu chamava-lhe reacionário e lembrava-lhe quem o levava a faturar. Mas era divertido. Tínhamos uma relação antagónica mas saudável.

Ele não andava longe. O Mário era do PCP.
_O PCP veio mais tarde, já nos anos 80. Nessa altura (1975) andei pela UDP e pelo MES. Era engraçado, os bares da mudança estavam politizados.

Eduardo Prado Coelho escreveria, mais tarde, sobre a «jamaicijação da esquerda».
_É verdade. O Shangrilá era mais MRPP, a malta do Jamaica andava pelo PCP, pela UDP e outros partidos de esquerda.

Entretanto, outros bares foram aderindo à «sua» música.
_Claro, porque dava massa. Fizeram isso o Shangrilá e o Tóquio. E é assim que a certa altura o Cais do Sodré começa ganhar forma. A que tem hoje.

Um sucesso. Havia filas para entrar no Jamaica.
_Enormes. Quando em finais da década de 70 e início de 80 se dá o grande boom, devo até dizer que tinha sonhos, alguns megalómanos. Um deles era ligar o Jamaica ao Europa, ambos com os mesmos donos. Bastava-lhes então comprar o Tóquio e abrir ali uma grande discoteca, ao estilo do Studio 54 de Nova Iorque. Porque o Jamaica era muito pequeno. Houve alturas em que era impossível chegar à casa de banho. Outro dos sonhos – hoje realidade – era «fazer» um Cais do Sodré totalmente voltado para uma certa movida.

Desse tempo ficaram famosas as noites de 24 para 25 de Abril.
_Eram superenchentes, com os meus amigos, ambos já desaparecidos, Eduardo Guerra Carneiro e Adriano Correia de Oliveira quase sempre presentes. Por ali passava toda a gente. Lembro as visitas dos Devo, irrequietos em palco mas que ficaram sentadinhos e quietos enquanto estiveram no Jamaica, do Andy Summers e do Stewart Copeland, dos Police (o Sting já nessa altura estava noutra dimensão talvez tântrica), dos Clash e, muito em especial, do grande Joe Strummer, que ficou mais uns dias de férias em Lisboa, voltou no ano seguinte e de quem fiquei amigo com alguns copos e charros à mistura. E os nacionais também marcavam presença – UHF, alguns dos elementos dos Sétima Legião, o António Variações, o Vitorino, o Paulo Gonzo e muitos outros.

E memórias de gente anónima?
_Muitas, também. Ainda hoje guardo um livro (Angela Davis – An Autobiography) que me foi oferecido por um marinheiro negro da esquadra dos Estados Unidos, na noite em que desertou. E recordo a descoberta de alguma música basca, que me era levada por alguém que se dizia da ETA.

Já a relação com a polícia não era a melhor.
_Era mesmo a pior e chegou à agressão à bastonada, com o lado do ferro, presente da polícia de choque por não ter obedecido à ordem de acabar com a música durante uma rusga.

Passou a ser uma figura icónica daquela zona?
_É possível que sim.

O que mudou na sua vida?
_Nada. Ficticiamente, estava a concretizar um sonho antigo – fazer rádio. Porque o que eu fazia no Jamaica era rádio. Já então lia muito sobre a música que punha e estava sempre em cima da realidade política da altura.

Nada? Alguma coisa terá mudado.
_Sobretudo fiz bons amigos e amigas. E, claro, apesar de a partir de certa altura ser já pai e viver com a mãe do meu filho mais velho, ganhei seguramente mais namoradas.

Fumador inveterado, nessa fase, quantos maços consumia por noite?
_Um e meio/dois, em poucas horas. Pode dizer-se que fumava e bebia bem. Cheguei a beber uma grade de cervejas por noite. 24 cervejas é obra. Quando larguei essa vida rejuvenesci uns bons anos. Fumo, álcool, luzes artificiais, quando não matam, moem muito.

Que meios técnicos tinha na altura?
_Trabalhava com duas boas mesas de som e de luzes, dois excelentes gira-discos, mas o problema eram as agulhas. O dono era um pouco miserabilista nesse aspeto e as agulhas tinham de durar até serem autênticos «arados».

Não tem registo gravado?
_Há quem tenha gravações em cassete. Eu não. Não é do meu feitio. Mesmo na rádio, que já faço desde 1986, só muito recentemente comecei a guardar as minhas coisas.

O que guardou então desse tempo para um livro?
_O gosto que me deu, os amigos que fiz, a intervenção política e social que tive. Foram tempos muito bons, de grande animação, enchentes atrás de enchentes. O Jamaica só teve uma quebra em frequência quando abriu o Frágil.

Saiu em 1986. Nunca mais voltou à cabine?
_Uma ou outra vez, quando ainda saía à noite, bebia uns copos, fumava uns charros, ia ao Jamaica e batia-me a nostalgia. As últimas, há quatro anos, quando a casa celebrou os 40 anos.

Continua a ser um notívago.
_Cada vez menos, a minha filha Beatriz não deixa. Se bem que, quando ela nasceu, já eu tinha mudado um pouco. A minha companheira não gosta muito de sair à noite e ir sozinho para os copos já não me agrada. Depois de montes de anos a beber copos sozinho ou mal acompanhado, fui mudando.

Mas quando lhe apetece sair à noite vai onde?
_Ultimamente e muito esporadicamente, copos só no Hot Club ou no Páginas Tantas, porque sou um amante de jazz, e no Jamaica por razões afetivas. A música continua a ser boa e fui ali feliz. Mas há coisas que não mudam – mesmo deitando-me mais cedo, continuo a adorar dormir de manhã. Quem inventou as manhãs, inventou-as para dormir. O sono da manhã é o melhor.

A Beatriz, que tem 5 anos contra os seus 63 (nasceu em 1952).
_Fiquei muito assustado com o nascimento da Beatriz. Por negligência no parto, a minha filha nasceu com encefalopatia. De forma espetacular, recuperou a nível cognitivo e motor, mas o problema refletiu-se nos intestinos. Pai de um filho com 35 anos (o Bruno) e de outro com 29 (o Pedro), tive portanto de reaprender, ainda com mais responsabilidade, uma série de coisas de que já estava destreinado há quase 25 anos. A única despreocupação foram as fraldas sem alfinetes!

O que mudou na paternidade, com o nascimento da Beatriz, se é que mudou alguma coisa?
_Agora tenho mais disponibilidade. Não mental mas real. Quando o meu filho mais velho nasceu eu ainda era disc-jockey do Jamaica. Passava as noites fora de casa, as manhãs a dormir, as tardes nas várias editoras a fornecer-me de discos e quando o do meio nasceu, estava na fase final do Jamaica e no início das andanças radiofónicas a sério e com muitas madrugadas para cumprir.

O filho mais velho é DJ no Jamaica. Gostou que o Bruno lhe seguisse os passos?
_Embora pense que, actualmente, ser DJ não é uma profissão de horizontes alargados, foi uma opção do Bruno, que foi descobrindo sozinho as músicas e o seu próprio caminho enquanto disc-jockey. As dicas que lhe dei foram poucas (as básicas). No fundo, o Bruno é o que é enquanto DJ por mérito e opção próprios. O futuro pode ser uma incógnita, mas tenho muito orgulho nele. Enquanto filho e enquanto profissional.

Qual foi a primeira música que ouviu hoje?
_A versão dança de um tema do António Variações, que me enviaram por e-mail. Em casa só oiço música à noite, quando me enfio no meu recanto, porque a Beatriz monopoliza o espaço audiovisual com o Panda e afins, de manhã à noite. Até em férias.

O que ouve no carro?
_As coisas que me vão chegando e que não tenho tempo de ouvir nem aqui (TSF) nem em casa, pelas razões que disse há pouco.

Chega-lhe muito material para divulgação?
_Agora menos, porque, como tudo neste país,as editoras estão em crise. Mas ainda assim, recebo muita música popular portuguesa e jazz, porque as pessoas sabem que podem passar nos meus dois programas de autor na TSF: a Zona Global, à segunda-feira e a Zona Groovy, à quarta-feira.

Anda a fazer-se boa música em Portugal?
_Está a fazer-se muita coisa boa, sobretudo em música popular. O Medeiros e Lucas, dois açorianos de gerações diferentes, são um exemplo. A aposta do Lucas é na musica eletrónica mas muito bem feita, prova de que música de raiz pode vestir roupa contemporânea sem ficar adulterada. No jazz temos também uma infinidade de excelentes músicos e alguns muito miúdos.

O rock português vai bem e recomenda-se?
_Continua a existir e vão aparecendo coisas muito boas.

Qual foi a grande banda portuguesa dos anos 1980?
_Existiu o bom e o mau. As minhas de eleição são os Xutos & Pontapés, Rádio Macau, Sétima Legião.

A melhor voz masculinas desses anos ? Veloso, Represas, Reininho, Tim, Variações?
_O Reininho, não tendo uma boa voz, sabe usá-la muito bem. E o Tim faz o mesmo. O Rui e o Represas têm uma bela voz.

Como o Tordo ou o Paulo de Carvalho?
_Como o Tordo ou o Paulo de Carvalho.

Como o Marco Paulo e o Calvário?
_Como o Marco Paulo e o Calvário, duas belas vozes. E o Paulo (de Carvalho) ainda há não muito tempo teve a humildade de frequentar aulas de canto.

Um álbum especial?
_Por Este Rio Acima, do Fausto. É um trabalho brilhante. Fazer melhor é praticamente impossível.

E vozes femininas?
_Em Portugal, temos tantas e tão boas vozes femininas em todos os géneros de música que, se fosse a citar algumas, correria o risco de ser injusto com outras.

Continua a ouvir a música que ouvia há 30 anos?
_Sim.

O gosto musical altera com a idade?
_Quando cheguei ao Jamaica, o disco-sound estava na moda. Eu odiava disco. Hoje oiço e acho alguma graça àquilo. De resto, continuo a gostar da música que gostava. No entanto, oiço menos rock agora. Não quer dizer que goste menos, mas ouço menos. Rock mais duro, por exemplo. O meu último disco de rock mais duro de paixão foi o Made in Japan, dos Deep Purple. Um duplo álbum, do qual consta um solo de bateria completamente louco. O hard metal e o heavy metal não são a minha praia, mas não demonizo o género.

Ouve mais o que se fez ou o que se vai fazendo?
_Muitas antigas. E em vinil, o que me dá um especial gozo.

Tem uma grande coleção de vinil. Quantos?
_LP, uns seis mil.

É um colecionador organizado ou caótico?
_A coleção está devidamente arrumada. Embora continue a gastar algum dinheiro em música do mundo, a coleção vive essencialmente de ofertas. Felizmente, o vinil está na moda, há gira-discos caríssimos, belas máquinas, mas têm um problema – profissionalmente não dão jeito. Por exemplo, aqui [TSF], não temos um gira-discos operacional. Os que há estão arrumados. E fazem falta pontualmente.

Conta-se que reagiu mal à passagem da máquina de escrever para o computador. E do vinil para os CD?
_Foi mais ou menos a mesma coisa. Na Telefonia de Lisboa ainda apostei mais no vinil e o mesmo nos primeiros tempos de TSF, mas depois tive de me render ao CD. Como tive de me render ao computador, como tive de me render ao telemóvel. Enfim. Mas depois da rendição chego à conclusão que de facto dão imenso jeito.

Conseguiria voltar a viver sem eles?
_Não era impossível. Apenas um bocado complicado.

Quais são as recordações mais antigas da relação com a música e com os discos?
_Um gira-discos pequeno, a pilhas e cuja tampa era um altifalante, que os meus pais me deram quando eu fiz 10 anos. E o primeiro single dos Beatles, também em 1962.

Que menino de dez anos era esse que vivia no bairro operário da Graça?
_Filho único da parte da mãe, com uma infância feliz, mimado, habituado a brincar na rua, à bola e à carica – como se pode passar a infância sem brincar na rua? Filho de mãe doméstica e de pai ladrilhador que a certa altura se tornou empreiteiro, cresci numa família da classe média, a ouvir Beatles e Rita Pavoni, sempre muito tímido. Ainda hoje sou, exceto quando estou atrás do microfone.

Atrás do microfone não gagueja. Sabe a razão?
_Não consigo explicar isso. Nunca mo conseguiram explicar a mim. Não será por me sentir mais protegido no aconchego do estúdio, porque a verdade é que em palco também não gaguejo. Durante muitos anos, fiz a apresentação de palco do Festival Cantigas de Maio, no Seixal, e do Festival de Músicas do Mundo, em Sines. E sem um gaguejo.

Não suporta que lhe terminem as frases e nunca conseguiu dizer orange juice. É verdade?
_Cada gago arranja a sua forma de dar a volta ao texto. É verdade, não gosto que me acabem as frases. Sei que quem o faz é porque pretende ajudar, mas não gosto.

Nunca tirou vantagens da gaguez? Por exemplo, numa prova oral?
_Por duas ocasiões: no exame oral de quinto ano e na inspeção militar. No primeiro caso, os professores deram-me alguma margem até porque carreguei bem na gaguez. No segundo, passei à reserva territorial escapando à guerra colonial. Foi sorte, porque eu já tinha avisado os meus pais: se fosse para África, mal lá chegasse, passar-me-ia para o lado oposto, o lado onde estava a razão. Curiosamente, em miúdo, cheguei a pensar ir para a força aérea.

Porquê a força aérea?
_Em puto, o meu sonho eram os aviões. Fascinavam-me. Os meus pais levavam-me à Portela a vê-los.

Os pais também eram contra o regime?
_Nada. Os meus pais eram da classe média direitinha. A minha consciência politica vinha do contacto que tive com os operários do meu pai ao longo dos anos. Apesar de ser o filho do patrão, gostavam de mim. Alguns eram da minha idade.

Foi um bom aluno?
_Ótimo até à quarta classe. Depois, no liceu, chumbei logo no primeiro ano. Lembro-me de que já fumava. Comecei a fumar com 9 anos, cigarros Sagres, que gamava ao meu pai. Ou Paris, que eram os do meu padrinho. Havia uma tasca junto ao miradouro do Monte, perto de casa, que vendia Definitivos, dois por um tostão. Sempre fui um bocado precoce.

Tão precoce que casou aos 16 anos. Foi fácil obter a autorização dos pais?
_Foi, na medida em que, tal era a parvoíce, ameacei matar-me. Eu tinha 16, ela 18. Eu era um miúdo mimado e parvo. Deixei de estudar e fui trabalhar com o meu pai. Um ano depois estava separado judicialmente e depois do 25 de Abril divorciei-me. O meu divórcio terá sido dos primeiros a serem despachados.

E voltou a casa dos pais e à escola?
_Voltei para casa dos pais e comecei a estudar à noite. Acabei o então quinto ano do liceu mas depois parei. Chamavam-me os copos, os charros, as mulheres. É nessa altura, com 17 anos, que começo a dar-me conta do fascínio pela rádio. Um amigo de infância tinha um gravador de bobinas e eu comecei a brincar com aquilo.

Como reagiram os seus pais a esse chamamento?
_A minha mãe sonhava com um filho arquiteto. Mas tiveram de habituar-se à minha vida noturna de DJ. Depois de ter trabalhado na Robbialac, na Sacor, na Siderurgia, a encapar discos numa editora, fui para o Jamaica.

E do Jamaica para a rádio «a sério». A convite de Ruben de Carvalho.
_Quando passei a ser militante do PCP, passei a ser responsável de sector da Rádio Paz, uma rádio em circuito interno na Festa do Avante. Isto a partir de 1982. Em 1986, o Ruben de Carvalho, que conheci no Jamaica, convidou-me para a Telefonia de Lisboa, uma rádio local ligada ao partido, e na qual participei na direção colegial que tinha. Foi a concretização do meu sonho. Podia ter ido muito longe esse projeto. Mas dois anos depois não nos foi concedido alvará. Era Cavaco Silva primeiro-ministro.

O governo «vetou» uma rádio do PCP, é isso que quer dizer?
_Acredito ter sido por isso. Que outra razão haveria?

Como correu a estreia na rádio?
_Emitíamos entre as sete da manhã e a meia-noite e quando o nosso indicativo – o Canto Moço, do Zeca Afonso – foi para o ar a primeira vez, foi o arrepio na espinha. Foi uma estreia feita com muita garra e muito amor, por todos aqueles que faziam parte daquela equipa e depois foi o continuar com muito gozo. Até à destruição de algo que era incómodo ao poder de então.

Chega depois à TSF, a convite de Emídio Rangel. Que recorda desse tempo?
_Fica a lembrança saudosista do entusiasmo de todos, o profundo gosto pelo que fazíamos, a união e a coesão da equipa. Era uma coisa nova a que aderimos, vestindo a camisola por inteiro. A Telefonia tinha sido uma experiência enorme, foi inovadora numa série de coisas, mas era um formato local. A TSF foi desde sempre muito mais ambiciosa, exatamente à semelhança do Rangel.

Esperava o convite de Rangel?
_Depois de a Telefonia fechar andei uns tempos à toa, tanto mais que também já tinha saído do Jamaica e não queria regressar. E quando digo à toa é apenas no sentido de «e agora?», já que a Telefonia de Lisboa, mesmo encerrada, pagou os ordenados às pessoas durante uns meses. É então que um amigo leva o meu nome ao Rangel que me chamou às Amoreiras.

E então?
_Eu saí a achar que tinha corrido bem. Mais tarde, contou-me a Maria Flor Pedroso que ele saiu do gabinete estupefato, porque lhe tinham mandado um gago – «um locutor gago». Quando me telefonaram, algumas vezes, no Dia Mundial dos Gagos, contei sempre este episódio. Por ser divertido e curioso.

Completa em 2016 trinta anos de rádio. Que fases, momentos, quer destacar?
_O programa da manhã, que comecei por fazer na Telefonia. Sendo eu um notívago, imagina-se o quanto eu gostava daquilo mas também por isso o destaco. Vivi momentos muito engraçados e úteis, mas assim que pude passei a pasta à Ana Bravo. Tive também nessa altura dois espaços de música – entre o meio-dia e a uma e entre as três e as seis da tarde, que foram muito importantes para mim. Uma vez que a Telefonia ficava no Largo de São Roque, o programa da tarde chamava-se São Roques. Na TSF, estou muito feliz com os meus dois programas de autor. Já me falta alguma paciência, confesso, para as reportagens em festivais, embora ainda me dê algum gozo fazê-las.

Nos anos 1980 e 1990 fez recensão de discos em vários jornais. Foi um crítico duro?
_Ainda hoje tenho uma regra que só quebrei uma vez: apenas falo dos discos ou de concertos de que gosto. Quando não me agradam, passo à frente. A exceção foi um concerto dos Ban. Lembro-me de ter dito que, se fosse o João Loureiro, não cantaria nem no banho com medo de avariar o esquentador. Rodeou-se de boas vozes mas a dele, francamente, deixava muito a desejar.

Como se define profissionalmente?
_Internamente sou um animador. Para as finanças, um artista de rádio, TV e espetáculos; na escola da minha filha, radialista, palavra que me soa muito bem.

Há quem diga que é das duas ou três pessoas que mais sabe de música em Portugal. Quem escolheria para este top 3?
_É sempre muito subjetivo afirmar esse tipo de coisas, tão subjetivo quanto fazer um top.

Como se define pessoalmente?
_Sou um tipo organizado dentro da minha desorganização; às vezes gosto de trabalhar sob pressão; dou um valor imenso à amizade; prefiro as pessoas sinceras, mesmo que o sejam à bruta, às hipócritas e de falinhas mansas – as que querem estar sempre bem com deus e com o diabo; desprezo profundamente aqueles que se julgam acima de tudo e todos; odeio a mentira e a vaidade. Sou um tipo que erra, simples e, dizem, simpático.

A paixão pela música nunca o levou a quer ser músico?
_Em miúdo, sim, tinha uma paixão pela bateria. Nunca tive nenhuma e nunca foi grave. Não sou um músico frustrado.

Se tivesse sido, que música gostaria de ter composto?
_Aquela com que adormeço a minha filha: A Mulher da Erva, do Zeca Afonso.