Livros com muita rodagem

A 23 de maio de 1958, nascia o projeto das bibliotecas itinerantes, um dos mais queridos da Fundação Gulbenkian e do público a quem chegava. Até 2002, andaram livros sobre rodas.

Texto de Ana Pago | Fotografia de Arquivo DN

O mundo está cheio de livros fantásticos que ninguém lê, dizia o filósofo Umberto Eco. Um desperdício, terá pensado o escritor Branquinho da Fonseca, que primeiro adaptou uma carrinha para distribuir livros em Cascais e mais tarde levou a ideia à Fundação Calouste Gulbenkian.

O primeiro presidente da instituição, que acreditava na educação como «a melhor salvaguarda das virtudes cívicas e patrióticas do povo», adotou-a e tornou possível a maravilha cultural que foram as bibliotecas itinerantes: 15 carrinhas Citroën, inauguradas a 23 de maio de 1958, a levar «através do país uma aragem de cultura e de recreio espiritual», como noticiava o DN do dia seguinte.

Mais do que só aprender a ler e a escrever, havia que «despertar nas populações rurais o hábito e o gosto pela leitura, e manter vivo esse gosto em todas as circunstâncias».

«Quando o homem não procura o livro – ou porque não tem condições financeiras ou porque habita longe dos centros populacionais onde mais facilmente o poderia adquirir –, o livro tem de procurar e interessar o homem para o servir, quer instruindo-o quer recreando-o», justificava Azeredo Perdigão, o funcionário número um da Fundação Gulbenkian e presidente de 1955 a 1993 (a data da sua morte, aos 97 anos).

Foi assim que na Praça Luís de Camões, em Lisboa, 30 mil livros começaram «a sua caminhada numa faixa entre Ponte de Lima e Lagos», a fim de alcançarem unidades militares, escolas, grémios, fábricas, sindicatos, juntas de freguesia, casas do povo e associações particulares de operários fabris.

Mais do que só aprender a ler e a escrever, havia que «despertar nas populações rurais o hábito e o gosto pela leitura, e manter vivo esse gosto em todas as circunstâncias». E que melhor forma de chegar às estantes do que sobre rodas?

PRESENÇA
Poucos dias antes de inaugurar as bibliotecas, o então ministro da Educação Nacional, Francisco Leite Pinto, «estreou» o Laboratório de Microscopia Eletrónica, também da Fundação Gulbenkian.

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.