OPINIÃO

A pequena loja que se tornou o império da fotografia em Portugal

Há trinta anos, José Veríssimo lançou aquele que viria a ser um império da fotografia em Portugal. A partir dos Laboratórios Fotográficos do Marco, a empresa familiar andou à frente da concorrência, com lojas de revelação espalhadas pelo país. O advento das câmaras digitais obrigou a repensar o negócio, mas continua a ser um caso de sucesso.

Texto de Ana Isabel Pereira | Fotografias de Igor Martins/Global Imagens

Filho de pais agricultores, um entre cinco irmãos, José Veríssimo nasceu em 1954 no Marco de Canaveses. Não havia câmara fotográfica lá em casa e na escola ficaria pela quarta classe. Mas nenhuma das circunstâncias o impediu de enveredar pela fotografia e de vir a ter sucesso nesse negócio.

Começou a fotografar na adolescência e aos 16 anos já batia chapas em casamentos. «Eu e o meu irmão começámos a trabalhar na Foto Moderna, em Gaia, pela mão de um amigo, Joaquim Machado. Hoje qualquer pessoa tira fotos, mas na altura tínhamos de ter vocação e aprender.»

Aos 22 anos montou o primeiro laboratório de fotografia. «Fazíamos muita reportagem social. Entrava para o quarto escuro de dia e saía de noite. Não havia reportagem aqui. Quem tinha posses e conhecimento ia buscar fotógrafos ao Porto.»

José Veríssimo tem hoje 63 anos e é dono de um império chamado Laboratórios Fotográficos do Marco, que fatura 14 milhões de euros por ano. A face mais visível da empresa é a marca Dreambooks – personalização de álbuns fotográficos.

Ocupam um open space na Zona Industrial de Tuias – no verão mudam‑se para novas instalações, mais amplas, na mesma zona – onde trabalham 250 pessoas e um punhado de engenheiros se ocupa de um software que permite, quer a amadores quer a fotógrafos profissionais, paginar e personalizar os álbuns.

«Se escolher um fotógrafo em Portugal, há oitenta por cento de probabilidade de o álbum ser feito por nós», diz Diogo Teixeira, um dos três filhos de José Veríssimo, diretor da Dreambooks.

Essas coleções de memórias ganham forma num edifício contíguo ao dos escritórios. Uma fábrica labiríntica onde se fazem gravações em baixo-relevo, se cortam capas de pele ou de outros tecidos, seguindo as últimas tendências de moda, e se imprimem aromas aos álbuns – uma novidade em fase de testes.

Na oficina das telas imprimem‑se fotografias nos mais variados suportes. O cliente encomenda e paga online e recebe a tela em casa. Noutras salas personalizam‑se objetos, há uma unidade de impressão fine art e laminação e das impressoras a laser saem formatos até 76 centímetros por quatro metros.

A oficina dos álbuns é onde se vê um trabalho mais manual. Há uma máquina de gravação em baixo-relevo e, num dashboard colocado no meio da sala, o diretor de produção controla todo o laboratório.

«Produzimos os álbuns de amadores e de fotógrafos profissionais de todo o país. Se escolher um fotógrafo em Portugal, há oitenta por cento de probabilidade de o álbum ser feito por nós», diz Diogo Teixeira, um dos três filhos de José Veríssimo, diretor de marca e uma das duas pessoas que trabalham no desenvolvimento de produto.

Além desta, a empresa tem outras quatro marcas: DreambooksPro, LFM Pro (líder nacional na distribuição de equipamentos fotográficos), OneLab Pro (laboratório profissional de fotografia) e Fotosport, cadeia com 41 lojas de fotografia.

Mas a LFM deu muitas voltas até chegar onde está hoje. José tinha 27 anos quando conheceu Ascensão Carvalho, então com 18. Casaram-se em 1981 e ergueram juntos o negócio. Pouco dada a entrevistas e a estar do outro lado da câmara, Ascensão apaixonou‑se por ele e pela fotografia.

Começaram por vender material fotográfico e, em 1987, abriram as duas primeiras lojas. Em pouco tempo estavam a fazer impressão e distribuição de fotografias. «Era o futuro», diz o empresário.

Foi pelas lojas, então CityLab, que começou o negócio, com José e Ascensão a abrirem dois espaços no Marco de Canaveses e em Penafiel. «Os clientes faziam fila. Eu tinha rolos Fujifilm, quando todos os outros tinham Kodac, mas enchemos a loja de Kodac e por debaixo do balcão tínhamos Fuji. Eu oferecia sempre um rolo. A qualidade era melhor.»

Nessa altura, Ascensão chegou a fazer reportagem com o marido. Era ela quem filmava. No final dos anos 1980, passou a dedicar‑se à fotografia de estúdio. Mais tarde, trataria das finanças da empresa.

Hoje as margens já não são o que eram, mas a empresa não se pode queixar, com presença assegurada também em Espanha e Brasil com os respetivos mercados.

«Foi um casamento perfeito», diz José. «Começávamos às oito da manhã. Às sete jantávamos no restaurante mesmo ao lado da empresa, e ainda voltávamos ao trabalho. Só terminávamos à meia‑noite, uma da manhã. Chegámos a fazer dois casamentos no mesmo dia. Mas não recomendo esta vida a ninguém. É preciso gostar do que se faz.»

Quando nasceu o primeiro filho, tiveram de arranjar ajuda em casa. Continuavam a trabalhar longas horas – chegaram a ter uma empresa de eventos e catering e uma loja de desporto –, «de domingo a domingo», e a jantar fora. Mas iam almoçar a casa.

Entretanto nasceram os outros dois filhos. Hoje Leandro tem 32 anos, Diogo 30, e Bruno 29. O mais velho trabalha em marketing digital e tem a LFM entre os seus clientes. O mais novo é responsável pela área da programação na empresa.

Quando eram crianças, «ajudavam aos fins de semana, em casa da avó materna», diz Diogo. «Metíamos as fotos nos álbuns analógicos, naquelas micas.» «A ausência» dos pais era sentida mas os rapazes cedo perceberam o alcance do sucesso do negócio de família. «Não fomos para a faculdade. Gostávamos disto e, entre o 8º e o 12º anos, nos verões, trabalhávamos na empresa. O irmão Leandro ainda estudou Economia, mas não chegou a acabar», conta.

Entretanto já a empresa dera o salto. Atento ao que acontecia lá fora e às oportunidades no setor, José Veríssimo percebeu que «o futuro estava no laboratório» e comprou então a primeira máquina Polielettronica. Foi busca‑la a Espanha, por cá ainda não existia. «Permitiu‑nos triplicar o volume de negócios. Depois, toda a gente comprou uma igual. Ainda hoje é assim.» E o negócio ia de vento em popa. «Era como ir ao casino e a máquina dar sempre bingo.»

Hoje as margens já não são o que eram, mas a empresa não se pode queixar, com presença assegurada também em Espanha e Brasil com os repetivos mercados. Também se dedica à formação de profissionais, através da Academy Dreambooks‑ Pro e do Photobook Show.

O futuro passará pelas novas instalações, em frente às atuais e com mais de 3500 metros quadrados, já a partir de junho, e pela gestão da segunda geração. «O mundo mudou e as inovações já pertencem à nova gente. Se os meus filhos não tivessem optado pela fotografia, eu não teria a empresa que tenho hoje.»

RECUPERAR MEMÓRIAS

A LFM lançou em 2017 um serviço de arquivo dos álbuns fotográficos em parceria com a Amazon. Mas antes disso já guardava as memórias dos clientes por algum tempo. Algumas por muitos anos. Na fábrica de Tuias estão guardados «caixotes e caixotes de negativos». «Antigamente, os negativos eram propriedade nossa. E nós guardamo‑los porque achamos que temos alguma responsabilidade », diz José Verísismo.

Com as câmaras digitais não é possível guardar tudo mas, diz o filho Diogo, a empresa já ajudou «a recuperar fotografias com sete anos». Um desses clientes, uma família de Penacova, perdeu a casa e as memórias fotográficas sem preço nos incêndios de 15 de outubro do ano passado.

«Só ficaram as paredes de casa da minha mãe», conta Zaida, que, juntamente com as irmãs, se lembrou de recorrer à Dreambooks para recuperar um álbum que haviam oferecido ao pai, falecido há cerca de dois anos.

Neste caso, o digital salvou o papel, mas José Veríssimo expressa outra preocupação: «Nunca se tiraram tantas fotografias e nunca se imprimiu tão pouco. Não é preciso imprimir tudo, mas é importante ir fazendo apontamentos. Isso vai ser importante no futuro.»

CRONOLOGIA

1987 – José Veríssimo e Ascensão Carvalho abrem as duas primeiras lojas, no Marco de Canaveses e em Penafiel.

1998 – Primeiros álbuns digitais (deixaram de colar as fotografias nas páginas dos álbuns).

2001 – Lançam a DreambooksPro (para profissionais).

2004 – Compram um grupo de lojas e ficam com espaços nos centros comerciais Brasília, Arrábida e NorteShopping, no Grande Porto. A LFM já soma cem funcionários e dez lojas.

2007 – Lançam a Dreambooks (para amadores) e a primeira plataforma online (editor) de personalização de álbuns digitais e de produtos fotográficos a nível europeu.

2008 – Lançam a plataforma online de personalização de produtos para profissionais.

2012 – Iniciam o processo de internacionalização da DreambooksPro.

2014 – Instalam uma equipa comercial em Espanha e abrem um laboratório em São Paulo, no Brasil, onde estão com a Dreambooks e a DreambooksPro.

2017 – Adquirem a Fotosport, que fundem com a CityLab, mantendo a primeira marca. Lançam um serviço de paginação de álbuns online e um serviço de backup em parceria com a Amazon.

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