OPINIÃO

Primeiro ano

Num só ano cabem tantos outros que mais parece que um minuto dura um segundo, aos olhos de quem vê crescer, e que um minuto dura uma semana, aos olhos de quem cresce.

No primeiro ano de vida estão todos os anos que viveremos. Tudo o que podemos ser está ali plantado, à espera de colheita.

Num só ano cabem tantos outros que mais parece que um minuto dura um segundo, aos olhos de quem vê crescer, e que um minuto dura uma semana, aos olhos de quem cresce.

Lembramos como é trabalhoso aprender algumas das coisas que fazemos sem pensar. Levam tempo e esforço, muito empenho e alguma audácia. Coragem, certamente. Abrir os pulmões pela primeira vez, segurar a cabeça, sentar direito, dar o primeiro passo.

A verticalidade começa ali. Fisicamente e espiritualmente. Esperamos nunca cair. No entanto, o medo não impede que avancemos. Um bebé sabe que tem um destino a cumprir, a sua natureza impele-o a andar.

Percebemos quão frágeis somos e fomos. À mercê de outros para sobrevivermos. Sempre foi assim desde o início. Agora queremos crer que já não. Que não precisamos de ninguém para nos safarmos.

Acho que não é bem assim, contudo. Podemos não precisar de quem nos leve a comida à boca, mas precisamos de quem nos dê sustento. Podemos não precisar de quem nos ajude a adormecer à noite, mas precisamos de dormir com a consciência tranquila. Podemos não precisar que nos segurem a cabeça para ela não tombar, mas precisamos de andar de cabeça erguida. Podemos não precisar de quem nos dê banho, mas precisamos de nos sentir limpos. Podemos não precisar de quem nos trate das feridas, mas precisamos de alguém que nos lamba as feridas.

A nossa dependência do outro não nos abandona, tal como a obrigatoriedade de cumprirmos a nossa natureza nunca se extingue.

Tenho para mim que aí reside o segredo da miséria ou da bonança. Negarmos o que somos e o que temos de fazer para nos cumprirmos ou aceitarmos a nossa natureza, buscando-a e vivendo-a sem reservas.

Um bebé é um bebé. Não quer nem pode ser outra coisa. Aspira a poder crescer, sabe que é esse o seu destino e empenha-se.

Naquele primeiro ano percebe-se que adulto nascerá daquele bebé. Se um que não esquece o difícil que é crescer e que sabe que é essa a sua missão até ao fim, se um que acha que o tempo de aprender a andar terminou na infância.