OPINIÃO

«E eu aqui tão longe sem conseguir falar com a minha família»

Tudo soa a absurdo: 523 incêndios num só dia, num só país; o meu distrito, Viseu, a arder; os distritos em redor nas mãos do fogo; o meu concelho, Nelas, em pânico; a minha aldeia, Vale de Madeiros, rodeada de chamas; as projecções a atingirem o centro da minha localidade.

Texto de Liliana Garcia

Este fim-de-semana começou comigo a ser surpreendida com um ramo de girassóis na estação de Santa Apolónia, em Lisboa, neste outono de mau tempo. Sim, este outono em situação de seca extrema, de temperaturas acima dos 30 graus, de barragens quase vazias, não é bom tempo.

Para quem vive na redoma da capital esta afirmação pode ser incompreensível, porque não vê a água da rede pública a falhar, nem a água do poço a minguar, nem os pastores aflitos com a falta de pasto para as ovelhas, nem os incêndios florestais a destruírem a alma do interior do país. Mas, bom tempo seria estar a chover, mesmo que esse boletim meteorológico não fosse favorável a boas fotos no Instagram e obrigasse a andar com um guarda-chuva.

E tudo soa a absurdo: 523 incêndios num só dia, num só país; o meu distrito, Viseu, a arder; os distritos em redor nas mãos do fogo; o meu concelho, Nelas, em pânico; a minha aldeia, Vale de Madeiros, rodeada de chamas; as projecções a atingirem o centro da minha localidade.

Este fim-de-semana, de verão prolongado, terminou comigo em choque a ouvir notícias que mostram o meu país em câmara ardente. A jarra com os girassóis ao lado do televisor que me mostra o horror de uma noite dominical. E tudo soa a absurdo: 523 incêndios num só dia, num só país; o meu distrito, Viseu, a arder; os distritos em redor nas mãos do fogo; o meu concelho, Nelas, em pânico; a minha aldeia, Vale de Madeiros, rodeada de chamas; as projecções a atingirem o centro da minha localidade.

Os amigos, impedidos de sair de casa, a procurarem trocar, no Facebook, informações sobre os incêndios, a perceção de que os bombeiros são escassos para tamanha dimensão da tragédia, as publicações de Facebook a mostrarem-me que o fogo anda nas proximidades de minha casa. O meu lar, a casa que também sou, que somos.

Até às 23h30 de domingo, alheada do terror de fogo que se vivia fora de Lisboa, andei com o meu namorado em arrumações afetivas. Arrumações que fazem parte de um luto. A mãe dele morreu em 2013, e os caixotes com os despojos da existência de quem se amou (e ama) aguardavam decisão.

Aprender o desapego, também de bens materiais, faz parte do processo de luto. E passar a tarde e a noite a arrumar e a deitar fora coisas que fizeram parte da existência de uma mãe é uma decisão emocional. Irónico é isto ter acontecido num dia em que tantos portugueses se viram a perder o que são, a sua geografia sentimental, sem escolha. Irónico partilhar esta minha aflição de ver a minha terra arder com o meu namorado, que perdeu, há anos, a avó paterna num incêndio.

Lembrei-me que deixei duas janelas abertas no primeiro andar de casa e que o meu pai não se deve ter lembrado disso. Receei que o fumo intenso chegasse ao rés-do-chão e que ele intoxicasse, durante o sono.

Durante a longa madrugada de domingo, os relatos no Facebook começaram a angustiar-me e, apesar da hora tardia, decidi ligar para casa, para perceber se estava tudo bem com o meu pai. Chamada em vão. Ligo para o meu irmão. Chamada em vão. Ligo para a minha cunhada, chamada em vão.

Os telefones fixos não funcionam e os telemóveis de rede Vodafone também não. Nelas está sem comunicações. Liguei várias vezes para a linha telefónica de informações criada pela Autoridade Nacional de Protecção Civil e nada. Mando mensagem, via Messenger, a uma amiga, conterrânea, e ela contou-me que há pouca rede e que está tudo a arder em redor. “Tu não imaginas o cenário”, desabafou. “Fizeste bem em ficar aí, aqui mal se consegue respirar com tanto fumo”, disse-me, com um tom aflito.

Lembrei-me que deixei duas janelas abertas no primeiro andar de casa e que o meu pai não se deve ter lembrado disso. Receei que o fumo intenso chegasse ao rés-do-chão e que ele ficasse intoxicado durante o sono. Peço à minha amiga-mana para ir a minha casa avisar o meu pai. E ela vai, como vai sempre, de coração aberto, ajudar os seus. Ligou-me para me pôr a falar com o meu pai, que estava, de facto, a dormir. Não se tinha lembrado das janelas.

A minha amiga diz-me que tem de ir embora, que mal consegue respirar com o fumo. Diz-me ainda que o fogo chegou a uma quinta que atravessa o miolo da aldeia, e que estavam a tocar o sino a rebate, para pedir ajuda.

Quem está aqui, em Lisboa, pode desconhecer o que é um sino a tocar a rebate. Mas quem está ali, no interior do país, sabe o que significam esses toques. Quem está ali sabe o que é defender o que é seu e dos vizinhos. Sabe o que é meter as mãos na terra, sabe o que é pegar numa mangueira, num balde, numa enxada, num trator, para tentar salvar o que é seu.

Quem está no interior, sabe o que é auxiliar as corporações no que pode, seja no auxílio ao combate ao incêndio, seja na entrega de alimentos e bebidas aos bombeiros nos momentos em que estes estão exaustos e famintos. Sabem os novos e os velhos. Só não sabe a senhora Ministra da Administração Interna, que, num contexto de mais de 30 mortes e perto de 60 feridos, ousa dar lições de moral às populações afectadas pelos incêndios. Ouço as afirmações de quem tem responsabilidades políticas e fico incrédula. Tanto desconhecimento sobre aquele Portugal que não é para turista ver.

As escolas estão fechadas e algumas empresas dispensaram os funcionários, para que estes possam ocupar-se da defesa dos seus mundos. O ar está irrespirável, os olhos lacrimejantes, as mãos farruscas, o céu a escurecer o peito. E eu continuo em Lisboa sem conseguir falar com a minha família.

“Temos de começar a trabalhar com as comunidades para tornar as nossas comunidades mais resilientes”, “têm de ser as próprias comunidades a ser proactivas e não ficarmos todos à espera que apareçam os nossos bombeiros e que apareçam os aviões para nos resolveram o problema”, “para mim, seria mais fácil, pessoalmente, ir-me embora e ter as férias que não tive”, “não há uma solução mágica para acabar com isto”.

Leio e não acredito que o melhor que quem governa tem para dizer, num momento destes e após Pedrógão Grande, é isto. Quem governa que diga isto, olhos nos olhos, a quem andou e anda aflito a tentar sobreviver ao lume. A quem tem poder de decisão em Portugal não falta mundo, falta país.

Estou em Lisboa, com umas dores de cabeça cheias de olheiras, e os sons das tropelias infantis, vindos de uma escola, em Benfica, soam-me a irrealidade, a falsa normalidade. Porque estou aqui, mas a minha cabeça está em Nelas, num concelho onde hoje crianças e adultos saíram das suas rotinas.

As escolas estão fechadas e algumas empresas dispensaram os funcionários, para que estes possam ocupar-se da defesa dos seus mundos. O ar está irrespirável, os olhos lacrimejantes, as mãos farruscas, o céu a escurecer o peito. E eu em Lisboa, aqui tão longe, sem conseguir falar com a minha família.

O nosso triste 11 de Setembro são as mãos criminosas que usam como arma a força incontrolável da natureza, o nosso 11 de Setembro são décadas de inércia ao nível da gestão florestal. Este não é mesmo um postal para turista ver.

[ATUALIZAÇÃO]
São 20h00 de segunda-feira, e só agora consegui falar com o meu pai, por telefone. Está bem, tanto quanto se pode estar depois de vivenciar uma noite aterradora. Contou-me que já foi com o meu irmão ver propriedades nossas que arderam durante a madrugada. Matas e olivais que viraram sombra. Houve uma vítima mortal, que iria a fugir do fogo de mota, conta-me. Terá morrido perto do cemitério das Caldas da Felgueira, perto de casa.