OPINIÃO

Como Fátima está a tornar-se um fenónemo na Coreia

Em setembro, uma comitiva de empresários e representantes de entidades oficiais portuguesas, encabeçada pela secretária de Estado do Turismo, rumou à Coreia do Sul com uma uma curiosa missão em agenda: promover Fátima como destino de turismo religioso e ponto de partida para a descoberta do território nacional. E não deverá ser um tiro no escuro: em 2017, os hotéis da cidade­‑santuário esperam fechar o ano com 60 mil dormidas de sul­‑coreanos. O potencial de crescimento, esse, é enorme. Se Deus quiser.

Texto e fotografias João Mestre, em Seul

Arroz de polvo. Viaja­‑se dez mil quilómetros, atravessa­‑se oito fusos horários em 16 horas de voo, para encontrar um prato de arroz de polvo como comitiva de boas­-vindas. Cortesia de Taehyun Kwon, coreano que há um par de anos se deixou encantar por ­Portugal e Espanha ao ponto de abrir um restaurante onde ambos os países estão representados. Cozinha espanhola, uma ou outra especialidade portuguesa, proporção ­inversa na parte de vinhos, e a voz de Amália para dar alma à casa.

Taehyun é um entre consideráveis milhares de sul­‑coreanos que nos últimos anos têm escolhido a Península Ibérica como destino de férias. O seu Namsan Wine­ry é, aliás, uma espécie de posto do turismo português na capital coreana.

Muitos clientes vêm para matar saudades daquilo que comeram e beberam nas suas férias ibéricas, outros aproveitam o seu conhecimento do terreno (e o de Margarida Patrão, responsável pela sala, chegada da Covilhã há três meses) para pedir dicas, sugestões e até ajuda na marcação deste hotel ou daquela experiência.

Há particularidades neste arroz de ­polvo. É servido insosso, pica que se farta e a textu­ra do octópode não apresenta a macieza que um europeu do Sul esperaria dele. «­Está adaptado ao nosso gosto», explica Taehyun.

Na culinária coreana, o sal não abunda e o pi­cante toma­‑lhe o protagonismo, ao ­ponto de quando um conterrâneo seu vai a Portugal aquilo que mais o aflige é o salgado de certos pratos. Se há coisa mais cu­riosa do que as semelhanças que se encontram a meio mundo de distância são as di­fe­renças que cabem dentro dessas parecenças.

Dez por cento dos sul­‑coreanos são católicos. O que, numa população de 50 milhões, dá cinco milhões. Ou, se preferirmos o detalhe, 5 741 949 fiéis, segundo dados da Igreja coreana referentes a 2016.

Em setembro deste ano, a secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, e uma comitiva de empresários e representantes de entidades oficiais portuguesas rumaram à Coreia do Sul em missão de diplomacia económica, com um ponto de aproximação no mínimo surpreendente.

De entre a agenda de reuniões e apresentações, a comitiva levava como um dos focos principais a promoção do turismo religioso em Fátima. O que, à vista desarmada, poderá soar a sermão aos peixes, não fosse este detalhe nada insignificante: dez por cento dos sul­‑coreanos são católicos. O que, numa população de 50 milhões, dá o número expressivo de cinco milhões. Ou, se preferirmos o detalhe, 5 741 949 fiéis, segundo dados da Igreja coreana referentes a 2016.

Perante o facto, é quase inevitável que emerja a pergunta «Os portugueses tiveram alguma coisa que ver com isso?» E a memória da presença de padres portugueses no Japão, que Martin Scorsese levou ao ecrã no ano passado com o filme Silêncio? Na Coreia, a história do cristianismo não foi muito diferente: perseguição, tortura, execuções e um amplo panteão de mártires que se tornaram um dos símbolos maiores da fé católica.

Em 2014, um dos momentos­‑chave da visita do papa Francisco foi a beatificação de 124 mártires e, três décadas antes, já João Paulo II havia canonizado outros 103. Porém, respondendo à pergunta: não, os portugueses não tiveram qualquer responsabilidade no assunto. Nem espanhóis, franceses ou quaisquer outras potências ocidentais. Foi por conta própria que os coreanos chegaram ao catolicismo. E essa é outra daquelas diferenças de vulto dentro da parecença.

Foi a curiosidade por aquilo que chamavam «filosofia ocidental» que despertou o in­teresse coreano pelo catolicismo, nomea­da­mente o ideal de igualdade

A Igreja Católica coreana foi fundada em 1784, por um grupo de estudiosos que tomaram o primeiro contacto com a doutrina da Igreja através de jesuítas em Pequim. Na altura, a Coreia era um reino ­isolacionis­ta, governado pela dinastia Chosun, que dete­ve o poder de finais do século XIV até 1897.

Foi a curiosidade por aquilo que chamavam «filosofia ocidental» que despertou o in­teresse coreano pelo catolicismo, nomea­da­mente o ideal de igualdade ­– junto dos reis Chosun, porém, o efeito foi o inverso, a noção de todos os homens serem iguais pe­rante Deus acabou encarada como uma a­meaça aberta ao seu poder. E, com o nascimento da Igreja, nasce também a perse­gui­ção.

«Ao ser perseguida, uma pessoa sente se é verdadeiramente cristã. Se tiver dúvidas, diz “Ah, então deixe estar”.» Marcos Coelho fala com leveza, mas conhece bem o assunto e a sua seriedade. Tal como conhece a rea­lidade do catolicismo sul­‑coreano.

O padre Marcos Coelho vive na Coeria do Sul há nove anos.

Há nove anos que este padre português de sorriso fácil, natural de Paço de Sousa, Penafiel, vive entre coreanos – na casa dos Missionários da Consolata de Yeokgok, cidade vizinha de Seul. «Quando é provado a fogo», continua, «o cristianismo realmente fica marcado numa cultura e consegue crescer e tornar­‑se aquilo que é hoje».

Mencionar «aquilo que é hoje» é, por outras palavras, falar numa comunidade em crescimento. Pela contagem da Igreja coreana, em 2016 houve um aumento de 86 mil fiéis, porventura ainda um resultado daquilo que Marcos chama «efeito­ papa».

Um dos aspetos que mais surpreenderam o padre português em missão na Coreia foi a devoção a Maria. «Na minha paróquia, em Portugal, quan­do se rezava o rosário tinha quatro ou cin­co pessoas; aqui, na paróquia onde esti­ve de início, iam quase todos os paroquianos»

Por outro lado, é também falar de uma comunidade ativa, organizada, mobilizada, que o Vaticano vê como ponta-de-lança para a evangelização da Ásia. «Devido ao milagre económico», escreveu a teóloga Kirsteen Kim na revista inglesa Catholic Herald, «os cinco milhões de católicos coreanos, que detêm um estatuto socioeconómico acima da média, têm possibilidade de financiar generosamente as missões». Segundo a mesma fonte, em 2016 havia 600 padres sul­‑coreanos em missão fora do seu país, mais 700 religiosos não sacerdotes.

Ainda que não lhe agrade tecer comparações entre católicos, foram várias as pequenas diferenças que o missionário português no­tou quando chegou à Coreia. Pormenores, se quisermos: ao nível da organização da paróquia, na forma como as pessoas se ves­tem para ir à missa.

Mas um dos aspetos que mais o surpreenderam foi a devoção a Maria. «Na minha paróquia, em Portugal, quan­do se rezava o rosário tinha quatro ou cin­co pessoas; aqui, na paróquia onde esti­ve de início, iam quase todos os paroquianos, imagine!» Já Fátima, isso é todo um assunto.

«Os coreanos viajam muito e, sendo católicos, têm de ir ao menos uma vez na vida à Terra Santa ou a Fátima.»

Quando Marcos se apresenta como português, a primeira reação que obtém é «Ah, Fátima!». «Toda a gente conhece ou passou por lá», diz. «Os coreanos viajam muito e, sendo católicos, têm de ir ao menos uma vez na vida à Terra Santa ou a Fátima.»

Não admiram, portanto, os números que Domingos Neves, presidente da Associação Empresarial Ourém­‑Fátima (ACISO), apresenta: em 2015, a hotelaria da Cidade­‑Santuário registou 40 670 dormidas de sul­‑coreanos.

«Passou a ser o terceiro mercado internacional de Fátima», à frente de mercados emissores geográfica ou historicamente mais próximos e com maior tradição católica, como França, Polónia, Brasil. Para 2017, estima o presidente da ACISO, «estão previstas 60 mil noites».

Domingos Neves integrou a comitiva da secretária de Estado a Seul, e com ele doze associados da ACISO, maioritariamente hoteleiros e agentes de viagens, com um propósito bem delineado: aproveitar este impulso para promover Fátima e a região envolvente enquanto produto turístico.

«O reconhecimento do turismo religioso co­mo produto estratégico para a promoção de Portugal é o culminar de uma luta de muitos anos»

«O reconhecimento do turismo religioso co­mo produto estratégico para a promoção de Portugal é o culminar de uma luta de muitos anos», afirmou, perante uma plateia de operadores turísticos sul­‑coreanos, numa conferência que contou também com a participação de Filipe Silva, vice­‑presidente do Turismo de Portugal, Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro, e Ana Mendes Godinho, que começou os trabalhos com uma curiosidade histórica, um ponto de contacto inesperado.

«Gostaria de contar­‑vos que o vosso kim­chi existe, tal como o conhecemos, ­graças aos portugueses», começou a secretária de Estado. Nota de contexto, o kimchi é um dos elementos basilares da cozinha coreana, um fermentado de couve branca com malagueta que acompanha quase tudo. «Foram os portugueses que trouxeram a malagueta para cá.»

Ouvem­‑se aplausos dis­­persos na sala, algumas reações de espanto. O discurso, curto, conciso, baseou­‑se no momento de crescimento da ­economia portuguesa, mas também no sublinhar de que Portugal e Espanha são países complementares porém diferentes, um sinal importante, uma vez que é pelo país vizinho que os coreanos entram na Península Ibérica e é por lá que ficam na maior parte dos dias, com a ocasional excursão ao lado de cá da fronteira.

«Estamos a tentar posicionar Portugal para que estes operadores façam um pacote equilibrado, em que os viajantes estejam bastante tempo no país, e não a maior parte do tempo em Espanha e Portugal ser só depois uma “curiosidade”», revelou Ana Mendes Godinho, à margem do evento.

«Os sul­‑coreanos são muito devotos», diz Domingos Neves, presidente da Associação Empresarial Ourém­‑Fátima. «Se houver duas missas por dia, vão às duas. Querem viver ao máximo a experiência de Fátima.»

Nesse sentido, decorreram diversas reu­niões entre empresários de Fátima e operadores coreanos, que a generalidade dos intervenientes portugueses classificaram de po­sitiva, ainda que não seja um trabalho com frutos imediatos.

«É um mercado de pe­netração lenta, não é compatível com apenas uma visita e a partir daqui acharmos que temos operação turística», comenta Pe­dro Machado, em jeito de balanço. «Temos de insistir, de estar perto dos ­mercados», continua, deixando aberta a porta para um re­gresso em 2018.

Trata­‑se, afinal, de um mer­cado que em 2016 registou 103 mil hóspedes (138 mil dormidas) na hotelaria portuguesa, um crescimento de 400 por cento, se compararmos com os 25 mil (37 mil dor­midas) contabilizados em 2010.

Para este ano, as perspetivas são animadoras. «O volume de turistas coreanos que viajaram para Portugal nos primeiros seis meses de 2017 ultrapassa o total do ano passado inteiro»

Em termos de receita, os números apurados pelo Ban­co de Portugal são também expressivos: se em 2010 a faturação se cifrou em 3,4 mi­lhões de euros, no ano passado os turistas sul­‑coreanos deixaram 12,5 milhões de eu­ros em Portugal. E isto com uma estada média muito curta, que as partes interessadas do lado português estão a fazer por au­mentar.

Para este ano, as perspetivas são animadoras. «O volume de turistas coreanos que viajaram para Portugal nos primeiros seis meses de 2017 ultrapassa o total do ano passado inteiro», afiançou um representante da Hana Tour, principal operador local na venda de viagens para a Península Ibérica. «Mantendo­‑se a tendência, o crescimento pode subir até cem por cento.»

E, note­‑se, este é, na opinião de Ana Mendes Godinho, o tipo de turista que «interessa claramente» ao país: «Viaja durante todo o ano, não só na época alta, gasta bastante no destino onde está e tem também uma grande vontade de descobrir sítios e experiências diferentes, que nos interessa também na estratégia de desconcentração ao longo do território», afirmou, em entrevista, poucos minutos antes de embarcar, ainda no aeroporto da Portela.

«Para grande parte dos coreanos que estão a visitar-nos, a motivação principal é religiosa. O nosso grande desafio é mostrar­‑lhes aquilo que podem conhecer para além dessa motivação principal.»

Daí que, na sua intervenção na conferência, Pedro Machado tenha tocado os pontos fortes da região centro, nomeadamente através de um filme promocional recentemente premiado nos Estados Unidos. Que Filipe Silva tenha puxado pela diversidade do país, pelo clima de paz social e segurança, e pelo apelo aspiracional da campanha Can’t Skip Portugal. E que a secretária de Estado tenha aproveitado para mencionar a mudança de Madonna para Lisboa.

Mas voltemos à motivação principal. Mesmo na peregrinação a Fátima, há diferença na forma de estar dos coreanos, nota o presidente da ACISO: «Se houver duas missas por dia, vão às duas. São muito devotos. Querem viver ao máximo a experiência de Fátima.»

Mister Park, engenheiro mecânico reformado e motorista da embaixada portuguesa, confere. «A coisa mais bonita a que assisti foi a Procissão das Velas», recorda. Park é católico, frequentador assíduo da igreja da sua paróquia, e já fez a sua peregrinação a Fátima.

A caminho do aeroporto, Park aponta para um edifício no cimo de um monte, «Ali é o Santuário dos Mártires de Jeoldusan». Este oásis de tranquilidade no coração de Seul é um dos lugares com maior simbolismo católico no país. Além de uma capela e de um museu dedicados à memória de 27 santos coreanos, guarda um jardim de oração e diversas imagens religiosas das quais se destaca, logo à entrada, um Cristo de olhos rasgados e um sorriso acolhedor, muito mais próximo da imagética oriental do que daquela que por norma se associa ao catolicismo.

Não é a única. No museu, um folheto para as crianças colorirem apresenta a Senhora de Fátima e os pastorinhos desenhados ao estilo de BD coreana. E à entrada da casa dos Missionários da Consolata, em Yeokgok, está uma versão asiática da Virgem da Consolata, de olhos amendoa­dos, cabelo preto e liso, cara redonda, tez ligeiramente mais morena. Pequenas diferenças dentro de uma grande semelhança ­– que, tal como o arroz de polvo de Taehyun, não se espera encontrar a meio mundo de distância.

A secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, esteve três dias em Seul a vender Fátima.

Fátima, futebol e filmagens

A promoção de Fátima e da região centro foi um dos focos principais da visita da secretária de Estado do Turismo a Seul, no início de setembro. Não foi, contudo, o único. Nos três dias que passou na capital sul­‑coreana, Ana Mendes Godinho jantou com a imprensa local, reuniu-se com companhias aéreas, com vista ao estabelecimento de uma ligação direta a Lisboa, e intermediou um protocolo entre o Turismo de Portugal e a Universidade de Woosong para o intercâmbio de estudantes de hotelaria e turismo, «por um lado, uma forma de promovermos a aproximação cultural, por outro um veículo de exportação», avalia.

Porém, a ação que pode vir a dar mais frutos em matéria de fluxo turístico foi a apresentação do país como destino de filmagens junto de produtoras de cinema e de televisão, em articulação com o Instituto do Cinema e do Audiovisual. Alvo primordial: as telenovelas, uma indústria em crescimento que em 2011 valia já 155 milhões de dólares em exportações, com audiências em toda a Ásia. O futebol, esse, surge como o desbloqueador ideal: «Nas reuniões que tivemos, oferecemos um cachecol autografado pela seleção nacional, e só isso abria­‑nos portas», conta a secretária de Estado.

A igreja coreana

Podemos começar por excluir a população sem religião: metade dos sul­‑coreanos não têm credo. Os restantes cinquenta por cento dividem­‑se praticamente a meio entre budistas e cristãos. Os números são redondos porque, consoante a fonte, há ligeiras discrepâncias, mas a «família» cristã surge sempre como o grupo maior, englobando católicos e protestantes (estes em maioria, perto de dez milhões).

Ao contrário da generalidade dos países onde a Igreja Católica ganhou força nos últimos 500 anos, na Coreia não houve imposição colonial nem evangelização missionária ­– a doutrina católica entrou por via de coreanos que tiveram contacto com a Bíblia na China, no século XVIII, e cresceu a partir daí. Durante a ocupação japonesa, o cristianismo acabou por se implementar como uma voz do nacionalismo coreano ­– entre 1895 e 1942, Pyongyang era conhecida como Jerusalém do Oriente.

Com a Guerra da Coreia, o trabalho missionário junto dos desfavorecidos ajudou a cimentar a importância do cristianismo na sociedade. No período da ditadura (1961­‑1987) a Igreja Católica assumiu­‑se como uma força impulsionadora da democracia e dos direitos humanos

Com a Guerra da Coreia, o trabalho missionário junto dos desfavorecidos ajudou a cimentar a importância do cristianismo na sociedade, e no período da ditadura (1961­‑1987) a Igreja Católica assumiu­‑se como uma força impulsionadora da democracia e dos direitos humanos, com o cardeal Kim Sou Hwan a tomar um papel de relevo perante católicos e não católicos, pela forma aberta como condenou e desafiou o regime.

Atualmente, a Coreia do Norte é uma das prioridades. Tanto no sentido da ajuda humanitária no terreno e no apoio aos refugiados, como no esforço de reunificação e no que pode suceder posteriormente. «Há um comité para a unificação e reconciliação dentro da igreja», explica o padre Marcos Coelho. «Se ela acontecer, há todo um plano estudado, de como se vai fazer, que ajudas estão preparadas, para se poder atuar de súbito.»

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