OPINIÃO

«Vejo no meu filho a minha força»

A grande entrevista a Dolores Aveiro.

Antes de ser «a mãe de Cristiano Ronaldo», Dolores Aveiro foi uma mulher com uma vida pobre e sofrida. Mas nunca deixou de trabalhar, de ter força e esperança. Numa entrevista exclusiva, a propósito do livro sobre a sua vida, Mãe Coragem, esta madeirense simples que o destino catapultou para as bocas do mundo explica, de forma inspiradora, como deu a volta ao fado e recebeu, em troca, a sorte.

Quando vê o seu filho Cristiano Ronaldo jogar, o que vê de si nele?
Força. Vejo a minha força nele. Qualquer jogo que ele vá fazer, ele liga-me e eu digo: «Boa sorte, filho. A mãe vai acender uma velinha para a Nossa Senhora de Fátima iluminar o caminho que tu passares.» Sempre, sempre. Quando perde, ligo a dizer: «Não correu bem, paciência…» Ele fica triste quando perde, claro que ninguém gosta, mas também não pode ganhar sempre.

Neste livro sobre a sua vida percebe-se o quanto foi sofrida. Ficou orfã de mãe com 6 anos, o seu pai internou-a num orfanato, foi maltratada pela madrasta, e, mais tarde, com um marido ausente e quatro filhos… E sempre a trabalhar, a trabalhar… Onde é que vai buscar essa força?
Através da minha mãe. Também sofreu muito. Foi casada três vezes e morreu aos 37. Os dois maridos que ela teve antes do meu pai eram pescadores e morreram no mar. Ela teve muita força. Depois casou-se com o meu pai, teve cinco filhos e… morre aos 37 anos.

Que memórias guarda dela?
Lembro-me de ser bordadeira da Madeira. Bordava para casas para ganhar dinheiro. Lembro-me dela a bordar com aquelas pernas cruzadas e tinha o cabelo apanhado. Era uma mãe que não dava muitos mimos, mas era carinhosa com os filhos. A pouca memória que tenho dela era isso. Era uma mãe exemplar. Foi pena…

É conhecido o enorme sentido da família Aveiro, que agora se reúne em volta do Cristiano Ronaldo. Quando começou a construir esta família tinha noção de que toda a realização da sua vida passava por aí?
Era a minha força de viver. Engravidei aos 19, fui mãe aos 20 pela primeira vez, da minha filha mais velha, a Ema. Quando nasceu aquela filha, para mim, foi uma alegria… e foi um refúgio. E nisto, três meses depois fiquei grávida do segundo filho. O meu marido foi para o ultramar e aquilo foi um ninho que eu tive ali. E foi a minha alegria de viver. Tinha de fazer mais do que aquilo que eu passei. Dar o melhor do que aquilo que eu tive.

O destino tem um grande peso na sua vida, ter um filho com o dom do Cristiano Ronaldo mostra isso.
É o destino, é.

Mas não acha que parte do seu destino foi construída por si?
Eu acho que sim. Existe o destino, mas se não houver um bom pilar na família tudo se perde. A grande força que eu tinha era saber que a minha mãe tinha deixado quatro filhos, o mais novo com 9 meses. Imagino a dor que ela devia ter tido. E eu tinha sempre essa coisa de que aos 37 talvez também fosse… Portanto, tentei sempre proteger os meus filhos, fazer o ninho à minha maneira. Abrir as minhas asas e ter os meus filhos sempre debaixo das minhas asas, e assim foi.

O destino é que parecia ir em sentido contrário…
Tinha de passar por aquilo que passei. Tanta coisa…

Depois de a sua mãe morrer, como foi parar ao orfanato? Ainda tinha pai…
O meu pai viu-se com cinco filhos – e ele não era muito responsável. Ele caminhava… Passavam semanas que não aparecia. Ele foi falar com o padre do Caniçal, a ver o que podia fazer por nós, a ver se conseguia internar os quatro filhos mais novos, e ele ficava com o mais velho. Acabámos por nos separar – porque os mais novos não podiam ficar connosco, comigo e com a minha irmã.

Nunca aceitou essa decisão?
Fiquei revoltada por ficarmos todos separados.

Lembra-se de quando entrou pela primeira vez no orfanato?
Eu tinha 6 anos, ia para os 7. Senti-me revoltada por estar ali com crianças que não conhecia. Mas tinha bom conforto: tinha casa de banho, tomava duche, tinha banheira. Tinha estudos.

Esse conforto não foi suficiente para colmatar a falha da família?
Para mim aquilo era tudo estranho. Tinha conforto e comida, era tudo melhor do que eu tinha em casa, mas não tinha a família por perto. Só tinha a minha irmã. O meu pai podia não me dar carinho, mas estava presente, para mim era bom.

Foi nesse momento que começou a sua luta para sair daquele sítio?
Não, não foi logo. Foi na continuação de estar ali, e eu via os outros a receber visitas e eu não tinha ninguém para me ir ver. O meu pai não me ia ver.

Chegava a ver os seus irmãos?
Via-os através de uma vedação. A gente acenava ao longe. Não me deixavam nem a mim nem à minha irmã ir ter com eles. Sozinhas, não. A superior não nos levava…

Nessa altura não tinha a resignação que demonstra agora, pois não?
Claro que não. Depois de ser mãe percebi algumas coisas… A partir dos meus 14, 15 anos.

Perdoou o seu pai?
Sim…

Percebeu que ele não tinha outra hipótese?
Não sei. Eu agora compreendo que as mulheres dão a volta aos homens. A minha madrasta tinha cinco filhos e acabou por ter mais três do meu pai. Como costumo dizer: «A primeira mulher é um trapo, a segunda um guardanapo.» O meu pai passou a trabalhar e a dar sustento aos enteados. A vida dele passou a ser de outra maneira. Hoje, ele olha mais pelos enteados do que pelos filhos. Está na Austrália com os enteados. Mas não deixo de gostar do meu pai. Na altura que ele foi para a Austrália eu disse: «Pai, o pai sabe da vida que eu levo, se chegar lá e conseguir arranjar os papéis para eu ir, pense no futuro dos seus netos.» E ele disse que da parte dele não podia fazer nada, tinha de ser o meu irmão. E então eles nunca fizeram nada. É o destino. Isto não acontece por acaso.

Já lhe ofereceu uma viagem para ele ver o neto?
Sim, já. Foi da Austrália para a Alemanha e para o Funchal. Foi o primeiro reencontro com o neto.

Voltando atrás, houve aquele momento em que saiu do orfanato por ser muito rebelde, e acabou por voltar para a casa do seu pai. Foi a sua primeira grande felicidade?
Sim, pensei, eu vou encontrar uma nova família, vou com o meu pai, vou ter carinho. No orfanato tinha tudo, mas não tinha o carinho da família. Mas… foi tudo ao contrário. Num certo sentido, porque nós demo-nos sempre bem com os filhos da minha madrasta, até hoje. Comecei a ficar revoltada quando comecei a ser muito maltratada. Daí a minha revolta.

Era uma rapariga alegre?
Era, era… Sentia-me revoltada, mas era muito alegre. A minha madrasta saía para a casa de bordados e para mim já estava tudo bem. Os vizinhos aproveitavam-se de que eu era muito traquina e iam-lhe dizer. Apanhava todos os dias! Já estava feita à pancada. Mas eu ficava mais revoltada se apanhasse um castigo do que a levar. Por isso o que eu faço agora, e na altura dos meus filhos, eu castigava-os castigando, não batendo. Porque a pancada dói na ocasião, mas depois…

Fala como quem conseguiu encontrar um sentido de família nesses anos em que vivia com o seu pai e com a sua madrasta.
Nós éramos felizes à nossa maneira. Apesar de eu ser maltratada, era feliz, sentia-me feliz. Porque era assim: eu levava pancada agora, mas daqui a bocado não me importava. Conseguia ser feliz.

Quando regressou, a casa ainda era a mesma?
Sim, sempre fui. Uma casa, pronto… era pequena, não tinha boas condições. Era um quarto para as mulheres, um quarto para os homens. Nunca dormimos juntos, homens e mulheres, o meu pai não admitia. E o quarto do meu pai era o quarto de dormir e a salinha. A televisão existia ali e era ali que a gente convivia.

Apesar disso, não largou a escola?
Fui para a escola no orfanato, mas a partir do momento em que perdi a cesta no autocarro, o meu pai não me deixou voltar. Passei a frequentar a escola da freguesia. O meu pai não gostava que eu estudasse porque perdia seis dias de trabalho.

Quando é que saiu da escola?
Aos 14 anos. Porque o meu pai era assim: as mulheres não estudavam, eram os homens… E depois era a obra de vimes, ele queria era que a gente trabalhasse. Eu ia à escola, na parte da manhã ou na parte da tarde, conforme, vinha-se da escola e ia-se para a oficina trabalhar. Eu passei da terceira para a quarta e já não estudei mais. Eu estive dois anos na segunda, dois anos na terceira… não tinha tempo para estudar.

E gostava de estudar?
Gostava de estudar porque sentia liberdade. Naquelas quatro horas em que estava na escola, estava com outras crianças, brincava… Era uma borboleta [risos]. Pelo meu pai e pela minha madrasta, nós não íamos para a escola.

Queria ter continuado a estudar?
Sim, não há como nós termos os nossos estudos. Quando os meus filhos foram para a escola, disse-lhes sempre para aproveitarem aquilo que eu não tinha tido. No entanto, a necessidade fez que tivessem de abandonar os estudos para me virem ajudar. Mas foi por eles, nunca lhes disse para desistirem da escola.

Nessa altura achou que a sua vida ia ser sempre assim ou tinha esperança?
Pensei em muita loucura. Mas tive uma visão da minha mãe e ela deu-me força. Eu sempre fui lutadora, tenho essa consciência. Sempre trabalhei muito: o meu pai punha-nos a trabalhar e ele, depois, só trabalhava de quinta a sábado… Era em Santo António. Nós íamos para a oficina e vínhamos da oficina. E o meu pai é que tomava conta de tudo. Tomava conta de tudo que nós ganhávamos. Ao domingo, ele dava-nos um escudo para a gente comprar tremoços. Ao domingo, o meu pai chateava-me porque eu irritada trabalhava mais e o trabalho rendia-me mais. Ele dava-me mais castigo ao domingo para na segunda-feira render mais trabalho. E era assim, era a minha vida. Não foi nada fácil.

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Essa parte não vem no livro…

Nem tudo vem. Muita coisa não vem. Também não quero magoar o meu pai, até porque já o perdoei.

Nessa altura, qual era a luz ao fundo do túnel?
Eu tinha de ter muita força, de lutar. Depois estava com aquela coisa de namorar cedo para sair de casa. Foi o que fiz. Queria ter a minha liberdade, e foi isso que me fez casar nova. Casei-me aos 18.

Com o primeiro rapaz que lhe apareceu à frente?
Era vizinho, morava ao lado da minha casa. Foi o meu primeiro namorado. Falava com ele porque era meu vizinho. Ele andou na escola, trabalhava na mercearia e continuámos a falar, mas nada de especial. Já estava para casar e se o visse na estrada não lhe podia dar um beijo. Era só bom-dia, boa-tarde. Se o meu pai soubesse…

Isso era já nos anos 1960, em plena revolução sexual, rock and roll, minissaia…
Pois, eu quando ia à mercearia, quando usava saia, dobrava-a por cima… E a minha madrasta ia à minha procura, via aquilo e dizia: «A saia encolheu-te pelo caminho?» Quando chegava a casa, lá ia mais umas cacetadas. A minha adolescência era chegar a domingo e ir à missa das nove, para ver as pessoas. Quando havia o São João e o Santo António ia-se às festas. Não era aos bailes, era só ver a procissão. Às 08h30 já tinha de estar em casa.

Os primeiros tempos do casamento foram uma espécie de fantasia, apesar de não estar apaixonada?
Eu estava apaixonada! Era o amor da minha vida, na altura era. Por ele eu era capaz de tudo. Eu casei-me por amor.

Apesar de ser o vizinho do lado?
Sim, sim… Também não conhecia muita coisa! E o Dinis era uma pessoa culta. Os pais dele deram-lhe estudos. Aprendi muita coisa com ele. Era uma pessoa muito inteligente. E eu soube muita coisa por causa dele. Eu casei-me e não sabia nada do que era a vida, e ele lá me explicou o que eram as coisas. Tudo… Nem sabia como é que nascia um filho [risos]. E ele então deu a entender: «Vai nascer por onde foi feito!» Foram as suas palavras… Ia muito ao cinema, por isso é que percebia o inglês, pelos filmes que via. Eu nunca fui ver um filme.

Por isso é que ele conhecia o Ronald Reagan… que acabou por dar nome ao seu filho Ronaldo.
A escolha do nome foi minha, não foi dele! Eu achava que era um homem a sério. Fiz a conversa ao meu marido e ele concordou.

Quando o seu marido voltou da guerra veio completamente diferente. É disso que fala muito no livro. Passou também a ser um pai ausente…
Ele também foi uma pessoa que nunca teve aquela responsabilidade de homem casado. É a tal coisa: eu trabalhava, punha tudo em casa… E para ele, se tinha tinha, se não tinha, não tinha. A realidade é esta. Mas depois do ultramar é que as coisas mudaram para pior. Veio revoltado. Comigo, porque os filhos para ele eram um orgulho muito grande. Nunca maltratou os filhos. Quando ele se revoltava contra mim, os filhos punham-se contra ele.

Qual foi o papel do pai na carreira do filho, por exemplo?
O Dinis gostava muito de futebol e tinha muito orgulho no facto de o filho ser jogador de futebol. Foi por causa dele que ele foi para roupeiro no Andorinha. E ele chegou a ir a Manchester, o Ronaldo chegou a perguntar-lhe se ele queria ficar lá. Ficou lá uma semana… Mas aquilo não era vida para ele, não se adaptou. Quis continuar a trabalhar na Madeira mesmo contra a vontade do Ronaldo. Levou a vida para o álcool e a morte dele foi derivada disso. Mas ele tinha um enorme orgulho no filho e dizia sempre que um dia o Ronaldo ainda ia ser o melhor jogador do mundo. Se ele ainda fosse vivo ninguém o calava.

Na sua vida acabou sempre por fazer um papel que era suposto ser o de outras pessoas…
Teve de ser… E sinto-me bem assim.

Nunca se sentiu farta de tudo?
Às vezes, na minha cama chorava muito. Chorava e os meus filhos choravam. O meu marido chegava muito tarde, e eu metia os quatro filhos na cama e contava-lhes as histórias de tudo o que vivi. E eles diziam: a mãe que não chore. O Ronaldo era o mais feliz, dizia: «Não chore! Um dia a mãe vai ter uma casa boa e eu vou-lhe tirar do trabalho e a mãe não vai trabalhar mais!» O mais pequenino é que dizia isso… Mas nunca pensei que chegasse a isto!

No livro confessa que o nascimento do Ronaldo foi um pouco fora de tempo.
Tinha 29 e ia para os 30. A minha filha mais nova, a Cátia, tinha 7 anos, ia fazer 8. Com as dificuldades que eu estava a passar, já tinha três filhos… Trabalhava nos vimes, começava às seis e meia da manhã, largava às oito da noite. É que durante a tarde os vimes secavam, era pior. Cortava as mãos. Quanto mais cedo eu entrava, mais eu rendia, e, parecendo que não, tirava 300 escudos por semana. A minha Elma e o meu Hugo já me ajudavam…Trabalhava em casa. Para não os deixar na mão de ninguém, eles iam à oficina buscar os vimes e levavam os cestos que eu fazia.

Estávamos a falar da sua gravidez inesperada…
Ah, a gravidez! [risos] A Elma ia fazer 12 e o Hugo ia fazer 11… Eles não queriam… Tentei abortar. Mas não era permitido…

Tentou pelas vias legais, foi ao médico…
Fui ao médico e contei a minha situação de vida. E ele disse: «Não podes abortar porque ainda és nova. E esta criança vai-te dar muita alegria.» Ia dar-me muita alegria como as outras também me deram… Vim para casa toda triste e contei a uma vizinha. E a vizinha disse-me que comprasse uma cerveja preta, fervesse e bebesse. E corresse muito… Fiz isso, mas nada… Olhe, o Ronaldo nasceu com quatro quilos, veio grande e olhe… valeu à conta de dois.

Quando é que percebeu que a sua vida – e o seu destino – iam mudar por causa deste seu filho mais novo?
Quando ele era pequeno e veio para Lisboa nunca pensei que a minha vida fosse mudar. Pensei que ele podia dar jogador profissional, mas nunca daquelas estrelas mundiais. Mas continuei a trabalhar, como até ali… Quando o Ronaldo foi chamado à equipa principal do Sporting, aí já mudou um pedacinho. Ele pediu-me para eu me despedir do trabalho e vir ter com ele a Lisboa. Nessa altura também já havia olheiros de outros clubes atentos. Foi aí que eu percebi que as coisas iam melhorar. E logo que ele foi para Manchester, pagou a casa e, claro, já houve mais dinheiro e já começou a mudar a minha vida.

Não era normal a mãe vir atrás do filho, pois não?
Viemos viver para casa do Hugo Viana, na Expo. Para mim, Lisboa era como se fosse a Venezuela. Para mim era outro mundo. Foi muito complicado: tive de deixar o meu trabalho, os meus filhos… Estar sempre fechada num apartamento sem conhecer ninguém foi muito complicado, mas valeu a pena.

E os colegas de equipa do Ronaldo tinham as mães com eles aqui também?
Não, não. Só que muitos eram daqui, a outros bastava ir ao Norte. Muitas vezes o Ronaldo chegou a ir com os colegas de equipa ao Norte ver as famílias deles.

E quando foi para Manchester?
Ele é que pediu… Eu pensei: «Ele fez 18, vai para Manchester…» Na altura também não tinha namorada, e eu pensei: «Ele vai querer que eu vá atrás, fazer o comer…» Quis sempre que eu estivesse ao lado dele. Até para Madrid. Esteve sozinho um ano, mas depois do menino nascer, ele pediu para eu ir para lá. Estive um ano na casa dele, hoje moro a cinco minutos, quis a minha independência.

Qual foi a primeira coisa que comprou, que queria mas nunca tinha tido dinheiro?
Nunca pensei muito nisso… Um dia estávamos a falar e ele disse: «A mãe devia tirar a carta!» Eu achei que nunca ia conseguir, ainda para mais aos 51 anos. Foi numa altura complicada, em que me apareceu o cancro da mama. Parei a carta para me poder tratar, fui ao Porto fazer radioterapia… Mas depois dei a volta à situação e foi aí que decidi que havia de fazer o livro. Porque é assim: há muitas mulheres que desistem da vida, e eu acho que sou um exemplo, para terem muita força. Hoje está-se mal, mas amanhã o dia será melhor. Temos de pensar assim.

Ele concordou que escrevesse este livro?
Quando eu lhe contei a minha decisão ele perguntou-me qual era a necessidade que eu tinha de expor a minha vida. Eu disse-lhe para me respeitar porque ele também já tinha escrito um livro. O que eu tinha a escrever no livro não era nada de mal e podia passar um exemplo às outras pessoas. Ele aí consentiu. Só disse: «Mas há coisas que a mãe também não tem de expor, a sua vida toda.» E eu disse: «A mãe sabe o que tem de dizer!»

Ele tem muito essa preocupação?
Ele tem, pronto. Eu podia falar de algo nalguma entrevista e depois tentarem dizer aquilo que a gente não diz. E às vezes eu evito falar…

Por exemplo: as mulheres dele, de que não fala no livro. Porquê?
Nem tenho de falar! Eu fui casada durante muitos anos e depois arranjei outra pessoa. A vida dá muitas voltas e ele já teve mais do que uma namorada. Ele está feliz agora e eu só tenho de apoiá-lo. Se ele estiver feliz, eu também estou.

Qual é a mensagem que quer transmitir com este livro?
Quero que percebam que para chegar onde eu cheguei foi preciso acarinhar muito os meus filhos. É preciso ter muita força, porque nada acontece por acaso. A vida é uma passagem. Temos de sofrer, mas a vida é boa.

Hoje, continua a ensinar o seu filho ou já é ele que lhe ensina coisas?
Eu ensino mais a ele do que ele me ensina [risos]. Digo-lhe para ser humilde como tem sido sempre, para o dinheiro não lhe subir à cabeça. Que tão rapidamente estamos no auge como na ruína e quanto mais alto subimos maior é a queda. Mas ele dá muito valor ao que tem, porque cresceu sem este luxo. Temos de pensar no dia de amanhã e em ajudar quem precisa.

No livro diz-se que quando apareceu a oportunidade de o Ronaldo vir para Lisboa não queria que ele se perdesse no sonho de ser jogador de futebol.
É verdade. Na altura, telefonei para o meu pai, que já estava na Austrália, a dizer-lhe que o Ronaldo tinha ido para o Sporting, e ele lembrou-me que o Ronaldo se podia perder no continente. O meu pai ficou preocupado. Há muitos miúdos que jogavam com ele que eram bons e acabaram por se perder.

Porque é que acha que isso aconteceu?
Falta de acompanhamento da família. Nós estivemos sempre ao lado dele, e isso ajudou. E a força de vontade dele também. Ao ver as necessidades por que nós passávamos, tinha ainda mais força para cumprir o objetivo dele.

Foi muito difícil essa decisão de ter deixado o seu filho vir para o continente, aos 12 anos. Mudou-lhe a vida. Tinha essa sensação?
Não quis cortar as pernas ao meu filho… Eu pensei: «Aqui na Madeira não passa disto.» Vivia num bairro, havia droga… tudo! E ele era um rapaz certinho. Tinha regras. Quando ele tinha 7 meses comecei a trabalhar no Funchal, cozinheira, primeiro em casas particulares, depois no Hotel de São João. Eu não estava, mas às nove e meia tinha de estar tudo dentro de casa. Eu tinha uma vizinha para deitar os mais velhos. O meu horário era repartido, vinha a casa e deixava o jantar feito… A mais velha dava banho aos mais novos…

E como é que a sua vida mudou a partir do momento em que o Cristiano passou a ser uma estrela de dimensão mundial?
Comecei a ter mais cuidado com o que dizia, mas não me resguardei mais. Continuo a ser a Dolores, os meus amigos são os mesmos que tinha antes.

No início houve muitas reações da imprensa…
[interrompe] Chorei muito. Quando ouvia falar mal de mim ou dos meus filhos ia atrás das pessoas. Fui muito criticada. Era criticada pelo facto de o Ronaldo ajudar a família, se não ajudasse era criticado na mesma. Foi muito complicado. Ver a imprensa a escrever mentiras, como dizerem que eu era culpada de alguns namoros do Ronaldo terem acabado. Fui muito prejudicada em muitas coisas.

Quando é que deixou de preocupar-se com essas coisas?
Preocupa-me sempre. É triste a pessoa ser falada sem ter culpa do que se passa. Mas eu tenho as costas largas. Faço a minha vida normal: não deixo de ir ao café nem de dar as minhas voltinhas. É triste é que haja muita gente a pedir.

Favores?
Dinheiro. Eu ajudo da minha livre vontade. As pessoas têm de perceber que o meu filho trabalha muito para ter aquilo que tem. Não gosto que as pessoas abusem, tanto que aquelas que não pedem são aquelas a quem acabo por ajudar.

A sua família mais distante também tentou chegar mais perto do Cristiano Ronaldo agora?
Não, nem eu ajudo todos. Muitos deles voltaram-me as costas quando eu precisei, portanto agora só ajudo aqueles que um dia me ajudaram. A vida é assim, cada um vive com aquilo que tem. Não é por haver um sobrinho que ganha bem que tem de haver um aproveitamento. Vai-se ajudando, mas quando se vê que há um aproveitamento, corta-se logo.

Já gostava de futebol ou passou a gostar por causa do seu filho?
Sempre gostei. Eu era muito maria-rapaz. Quando havia jogos ao fim de semana, ia ver e levava os meus filhos comigo. Percebi desde cedo que o Ronaldo tinha um dom para jogar futebol. Como o meu filho mais velho [Hugo], que também era bom.

O que diferenciava os dois?
O Hugo tinha muito cuidado com o irmão, tinha medo que alguém desse uma pancada no Ronaldo. Ele brigava muito com ele, não gostava que jogasse contra rapazes mais velhos, como sempre acontecia. Até em jogos de casados contra solteiros o Ronaldo jogava do lado dos casados [risos].

O Cristiano era muito mimado?
Era. Na altura em que engravidei, os meus filhos ficaram revoltados, mas depois quando nasceu foi uma alegria. Era o nosso menino, o menino deles.

Quando ele foi jogar para o Andorinha, não despertou em si o sonho comum de todas as mães, de que ele pudesse ser um grande jogador?
Sim! Eu sempre tive na ideia que um dia haveria de ter um filho jogador profissional. Aos 14 anos, o Hugo teve uma proposta para ir jogar para o Marítimo, mas o Andorinha não deixou. Foi o momento em que ele desistiu do futebol. Ficou revoltado, mas não era o destino dele… Já o Ronaldo foi diferente. Eu sou fã do Luís Figo, sempre fui. E disse: «um dia ainda vou ter um filho a jogar ao lado do Figo.» Assim foi.

Ele era bem comportado?
Sim, era. O Ronaldo às vezes falhava porque ia jogar à bola, então chegava a casa às dez, dez e tal…

Ele passava a vida com uma bola atrás?
Sempre, sempre. Ele ficava revoltado quando tinha um brinquedo. Não gostava de brinquedos.

Estava a contar a história da vinda de Ronaldo para Lisboa…
Houve aqueles torneios da Páscoa e o Ronaldo foi chamado, quando foi a equipa do Sporting à Madeira. Chamaram-me ao hotel para ir falar com o Sr. Aurélio Pereira. Disse-me: «O seu filho tem dom para o futebol», e perguntou se eu dava autorização para que ele fosse a Lisboa a umas provas. Eu disse que sim, porque era o meu clube, porque se não fosse… O Benfica tinha-me falado primeiro, mas eu disse que para o Benfica ele não ia. E ele veio e o senhor Aurélio comunicou-me que ele ficava, que na próxima época o Ronaldo vinha para Lisboa. E eu disse: «Então, mas um miúdo de 12 anos…?» Tinha direito a três viagens por ano, se ele entrasse em crise que me pagavam mais alguma. Ganhava dez contos. E eu controlava, porque ele tinha a sua mesada, teve sempre controlo em dinheiros. E ele teve crises, momentos em que queria voltar, quando gozavam dele. Na altura era o mais pequenino dos colegas. E pela maneira de ele falar.

E qual foi o seu papel nesse momento?
Sempre foi ponto assente que caso ele não se desse bem em Lisboa eu seria a primeira a ir buscá-lo. Da primeira vez, quando vim deixar o Ronaldo e voltei para trás… foi uma dor muito grande que eu tive. Pensei para mim: «Uma mãe a abandonar um filho…» E quando ele entrava naquelas crises, eu dizia à minha diretora, que por sorte era do Sporting, e trocava a minha folga com outro colega e vinha aqui ao fim de semana. Comprava alguma coisa para ele de marca, porque ele dizia-me: «Mãe, os meus amigos têm todos coisas de marca…» Eu ia à feira comprar qualquer coisa de marca, ele ficava contente, ia ao hotel dormir comigo, via o jogo ao domingo, ele já ficava mais calmo e eu ia-me embora. E ele dizia-me: «Mãe, já não vou.» E eu: «Filho, se é isso que tu gostas, luta. Não te importes que eles gozem de ti. Tu ainda vais ser melhor do que eles!» E assim foi.

Portanto, aí está. Mais uma vez foi a sua força que foi determinante…
Mais uma vez. Houve outro ano em que ele veio à Madeira e nós fizemos cartazes de apoio quando ele chegou, já que ele tinha feito umas quantas asneiras no Sporting.

Era rebelde?
Rebelde… era da idade! Ele estava sozinho, sem família… E esteve uma semana a despejar o lixo do centro de estágio e a fazer as camas. E até houve um jogador, o Carlos Martins, que disse: «Ronaldo lá vais tu com o teu Ferrari!», que era o caixote do lixo. E ele dizia: «Estás a gozar, mas um dia ainda hei de ter um!» Ele ao telefone dizia-me isto tudo. E eu: «Tu tens de lutar filho!». E dava muita força… Eu, as irmãs… E ele tinha muita vontade mesmo. Se ele não tivesse vontade… A nossa força ajudou, mas se não fosse a vontade dele… Portanto, está nele.

É também um orgulho para si que ele seja a pessoa que é?
É verdade. É o orgulho de nós todos. Não me deixa faltar nada, preocupa-se tanto comigo como com toda a família mais chegada. É um filho que merece tudo de bom.

Quando acontecem situações difíceis na vida dele, como esta lesão que o prejudicou imenso no Mundial, como fica o seu coração?
Fico aflita! Sofro muito. Se lhe dói cinquenta por cento, a mim dói-me cem. Quando há jogos importantes não consigo ver até ao fim. Na final da Liga dos Campeões desmaiei! Nem consegui ir ao Estádio, fiquei em casa. No jogo com os Estados Unidos, no Mundial, tinha 40 pessoas em casa e na segunda parte fui-me embora para dar uma volta. Era uma hora da manhã e andava na estrada sozinha. É complicado.

O Ronaldo atualmente é o homem da família?
Sim. É o melhor de nós todos.

O que espera que lhe aconteça nos próximos tempos?
Que um dia que acabe a carreira seja muito feliz. Que merece. Faça caso do seu filho sempre. E vamos esperar para ver se há mais filhos, que pode… E se um dia eu falta, que ele nunca deixe de ser unido à família como tem sido até agora. Que a união continue sempre igual.

A sua vida agora é como? Trata do seu neto, divide-se entre Lisboa, Madeira e Madrid?
Estou a viver em Madrid agora. Quando ele tem algum jogo fora, vou ver os netos que vivem em Lisboa. E uma vez por mês também vou à Madeira. Nunca estou muito tempo ser ir à minha ilha.

Mais uma vez, está praticamente a criar o seu neto. Qual é a diferença da educação que está a dar-lhe e a que deu aos seus filhos?
É igual! Claro que passo mais tempo com o meu neto do que passava com os meus filhos. Os tempos também são outros. Mas o Ronaldo quando me disse que ia ser pai, disse-me para passar ao bebé a educação que eu lhe tinha dado. Ele é um menino que tem tudo, mas se eu digo que não, é mesmo não. Não é por ele ter um pai que tem tudo que não pode levar uma nega. Também lhe digo para não ser egoísta, para partilhar o que tem.

Como é que ele reage ao ver o pai na televisão?
Ele já vai percebendo as coisas. Às vezes pergunta o porquê de o pai tirar tantas fotografias, mas já vai compreendendo algumas coisas.

O seu neto, e a decisão do Ronaldo de o ter, ter ido buscá-lo aos EUA, foi tudo uma grande surpresa para si?
Foi, sim. Tinha duas horas quando veio para os meus braços, é mais um filho que tenho.

Deixou de trabalhar muito nova, não lhe fez falta?
Fez, fez. Eu senti falta do meu trabalho. Senti muito mesmo. E vim para Lisboa, comecei a bordar em Lisboa. A fazer bordado para mim. Bordado da Madeira. O primeiro ano custou-me muito, mas depois comecei a habituar-me.

E em Manchester?
Em Manchester, eu disse ao Ronaldo que não queria empregada, que fazia a vida de casa. Tinha de fazer qualquer coisa. Ele ia treinar de manhã, eu ficava em casa a tratar da casa. Fazia o comer, à tarde fazia o jantar e ocupava o meu dia assim. Fazia as compras… Fazia tudo.

A sua vida é um sonho?
É… acaba por ser um sonho, sim!

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NOS BASTIDORES DE UMA ENTREVISTA
CATARINA CARVALHO

É nos olhos, sobretudo, que se transmite a força de Dolores Aveiro. Ela chega com eles fugidios à entrevista que marcámos através da sua editora,
a Matéria Prima, a propósito do seu livro Mãe Coragem – ou, melhor dizendo, da biografia que Paulo Sousa e Costa (em cima) escreveu sobre a sua vida. Ela não gosta de dar entrevistas, está escaldada, aprendeu há muito que todas as palavras podem ser mal interpretadas quando o assunto é o filho, Cristiano Ronaldo. Vem preparada. Maquilhada e penteada como uma estrela. Mas não é aí que reside o seu brilho. E quando os olhos assentam na conversa calma, mostram a sua personalidade colorida – ora alegre ora revolta, magoada ou feliz. Sempre forte. É o que dá conta a história abreviada da sua vida: Maria Dolores nasceu em Santo António, na Madeira, há 59 anos. A mãe morreu quando tinha seis anos, o pai mandou-a para um orfanato, de onde saiu para uma vida de maus-tratos com a madrasta, aos 11. Trabalhou, casou e repetiu a dureza de uma vida com um marido ausente, quatro filhos e sendo o único sustento da casa. A força com que enfrentou tudo isso, a família que criou e a forma como educou e apostou nos filhos, tudo isso está presente na estrela em que o mais novo, Cristiano Ronaldo, se tornou. A sua estrela da sorte. A entrevista foi feita num hotel junto da sua casa, no Parque das Nações, enquanto o neto, filho homónimo de Cristiano Ronaldo, corre e
brinca no deck, junto ao Tejo. «Não tinha com quem deixá-lo», desabafa, avó normal num mundo surreal de fama e sonho. Como se tornou o dela.

Catarina Carvalho
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens