OPINIÃO

Última paragem: Alentejo

O litoral alentejano está a ser colonizado por gente do Norte da Europa que sonha ser livre do capitalismo selvagem.

Rumam a sul em busca de terras baratas que sirvam de cenário a experiências de amor livre, de agricultura sustentável e de vida comunitária. Querem inventar a liberdade, mas ainda não inventaram a forma de abdicar do controlo, da hierarquia e da desconfiança.

A estrada de terra batida que separa o Monte do Cerro das freguesia de Colos e Relíquias, no concelho de Odemira, tem um tom avermelhado, cor de cobre. O carro avança aos solavancos pelo terreno acidentado e cheio de pedregulhos, rodeado pela paisagem de montado típica desta zona do país, que, no verão, ganha um tom dourado. As folhas que se vão mantendo verdes têm uma cobertura prateada, como se tivessem sido enterradas em cinza. Há catos e palmeiras raquíticos cobertos pelo pó que se liberta da terra e que trazem à memória imagens da estepe africana e lembram a aridez do Médio Oriente. Depois, o caminho abre e chega-se a um gigantesco lago cujos contornos parecem ter sido definidos a lápis pela mão humana. A mancha de água permanece imóvel e controlada, como se ali não pertencesse. A toda à volta, crescem árvores carregadas de ameixas e vegetação verdejante. Um oásis no meio de um deserto. Ou melhor: um oásis artificial, imposto e escavado no meio de um deserto.

«Quando chegámos, em 1995, não havia nada, nada. Nada que nos fizesse dizer “Que belo país”», explica Marianne Hendrich, um dos membros de Tamera, uma comunidade que se autointitula Centro Internacional de Pesquisa para a Paz e que se instalou em Portugal há precisamente vinte anos, dando continuidade a um projeto iniciado na Alemanha em 1978 e que tem como objetivo desenvolver um novo modelo para a sociedade futura, pós-capitalista, livre de ódio, de violência, de ciúme e posse sexual, capaz de viver em autossuficiência alimentar, capaz de aproveitar a luz solar, transformando-a em energia, e de gerir, de forma sustentável, os recursos hídricos. A ideia é que parte da pesquisa comece aqui, mas possa ser aplicada em zonas de conflito ou de extrema pobreza em todo o mundo. A Tamera chegam grupos de israelitas, palestinianos, quenianos, brasileiros ou colombianos para aprenderem os conceitos e desenvolverem a melhor forma de os aplicar nos seus países de origem.

O Monte do Cerro, que se estende ao longo de 136 hectares que à primeira vista se apresentavam quase estéreis e onde «nada» existia, foi escolhido também pelo desafio que colocava. «Era necessário mostrar que é possível começar do zero», diz Marianne Hendrich. Tamera consultou o engenheiro austríaco e especialista em permacultura Sepp Holzer para, sem grande esperança, perceber o que era possível fazer em termos de aproveitamento dos recursos hídricos. «Se pudessem ver este país com os meus olhos não lamentariam a falta de água, só veriam a abundância», terá dito.

A comunidade teve de recorrer a um empréstimo bancário de cem mil euros para financiar o primeiro empreendimento que implicou a construção de diques e socalcos sem recurso a cimento ou plástico para que a água da chuva fosse direcionada para os vales e aí ficasse retida, criando lagos artificiais. No primeiro ano depois de a obra ter sido concluída não houve chuva suficiente para encher o vale. Sem lago, restou o desânimo. O ano seguinte trouxe um Inverno chuvoso e, no dia 31 de dezembro, a comunidade juntou-se no lago transbordante para celebrar a conquista e o Ano Novo. A obra foi um sucesso. A água dos lagos infiltra-se na terra, sendo sugada pela vegetação circundante. Por isso mesmo, as hortas e os jardins próximos dos lagos não necessitam de qualquer sistema de irrigação. A recém-criada fertilidade dos terrenos de Tamera é suficiente para um dia garantir alimentação e água, de forma sustentável, a cerca de quinhentas pessoas. Dez lagos artificiais depois, Tamera criou uma companhia para ajudar as comunidades vizinhas a empreender obras semelhantes. Nas palavras de Marianne Hendrich, «o Alentejo foi criado para servir de modelo de aproveitamento da água».

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Talvez este exemplo ajude a explicar, parcialmente, o fenómeno assistido no concelho de Odemira nos últimos anos. Muitos estrangeiros em busca de um estilo de vida alternativo, baseado na ecossustentabilidade e na agricultura orgânica, e de uma experiência comunitária, onde a sexualidade e o amor livre são possibilidades, estão a rumar em direção ao litoral alentejano, nem todos para viver em Tamera. A poucos quilómetros do Monte do Cerro, seguindo por diferentes caminhos de terra batida, comunidades como a Cento e Oito ou Vale Bacias tentam escapar a um sistema que, consideram, está a destruir o planeta e as relações entre os homens. O Ashram Mooji, logo ali ao lado, é ponto de passagem para pessoas de todo o mundo em busca da liderança espiritual e das respostas de um guru jamaicano que mudou o seu retiro do Reino Unido para Portugal.

De alguma forma, estes autointitulados pioneiros chegam a Portugal em busca da possibilidade de povoar território pouco explorado, aproveitando um clima favorável e a vantagem competitiva na hora de comprar terra. Desencantados com a vida no Norte da Europa, procuram desesperadamente a inocência perdida, acabando por encontrar misticismo e espiritualidade no subdesenvolvimento e na pobreza. Alguns apaixonaram-se por Portugal enquanto viviam em Tamera, onde se foram desencantando com o espírito pouco português, mas muito alemão, da comunidade. Há quem encontre na paisagem portuguesa semelhanças com o território africano e se regozije com o exotismo vivido num grau superior de conforto. Outros descobriram Portugal durante as férias de verão e deixaram-se hipnotizar pelo cacarejar de um galo ou pela figura do velho que adormece encostado a uma parede, no banco de pedra da aldeia. De alguma forma, este olhar nostálgico sobre o Alentejo, como se de um museu se tratasse, traduz uma postura ideológica. Esta terra, historicamente associada às lutas da esquerda, não foi ainda totalmente contaminada pela competição e a exploração desenfreadas do capitalismo selvagem, dizem alguns. Mais: há-de resistir-lhe. E os modelos para o que se seguirá ensaiam-se aqui, entre as freguesias de Colos, Relíquias e São Martinho das Amoreiras, concelho de Odemira, Alentejo, Portugal.

FINANCIAR O SONHO
O modelo que triunfará sobre o capitalismo não foi ainda inventado e até que esse dia chegue é necessário angariar dinheiro. As primeiras pancadas do xilofone ouvidas na música Money, Money, Money do grupo sueco ABBA são recebidas com timidez pela audiência presente na Aura de Tamera, uma espécie de auditório/igreja/local de culto, onde é costume a comunidade reunir-se para celebrar com cânticos e danças. Hoje, dia 8 de agosto, festeja-se o Dia da Abundância, ou Dia da Economia, bem como a celebração dos vinte anos de Tamera, fundada em 1995, e é anunciado que, tal como em anos anteriores, haverá um peditório. A comunidade procura ser sustentável, consumindo aquilo que produz, ou trocando certos produtos a nível regional, mas há gastos necessários para acomodar as cerca de duzentas pessoas que aqui vivem ou que por aqui passam todos os anos. É necessário comprar produtos como o arroz, importado da Alemanha. Além disso, os colaboradores recebem mensalmente uma quantia monetária – a organização não revela um número, dizendo que não se trata de um «valor oficial, mas sim de uma partilha entre amigos» – para cobrir as «necessidades básicas». As receitas incluem o total do bolo acumulado com as inscrições nos workshops realizados ao longo do ano. A propina de participação na «Semana Introdutória» (indispensável àqueles que pensam um dia ingressar a comunidade), por exemplo, é de 350 euros (235 euros para participantes portugueses). A esse valor acrescem custos de alojamento e de alimentação de 30 euros por dia (20 euros para portugueses). Os residentes mais novos têm de dar uma contribuição mensal de algumas dezenas de euros até se tornarem colaboradores em treino.

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«Como sabem, é no verão que fazemos dinheiro», diz um dos apresentadores da cerimónia a um auditório cheio. «Como podemos financiar o sonho?», questiona outro. O sonho, neste caso, inclui três projetos atualmente em desenvolvimento em Tamera e que precisam de financiamento extra. «Para 2015 precisamos de mais 80 mil euros para podermos sustentar a economia da comunidade», diz alguém ao microfone, referindo-se ao dinheiro necessário para pagar as mesadas atribuídas aos colaboradores da comunidade. Depois é apresentado o estado das negociações com o governo local de Odemira sobre o estatuto legal de comunidades como Tamera. «Precisamos de mais 95 mil euros para o PIER (Plano de Intervenção no Espaço Rural).» Por fim, são pedidos 75 mil euros para financiar a Escola da Esperança, frequentada por cerca de vinte crianças tamerianas.

No fim do refrão, todos estão de pé, dançando em conjunto ou adaptando poses de yoga a uma coreografia improvisada. Outro tameriano explica que o sistema de angariação de fundos será diferente este ano. «Começámos por vender quadros e fazer leilões. Agora queremos um sistema mais transparente. Hoje há um microfone aberto para quem quiser dar dinheiro. Aqueles que quiserem fazê-lo devem levantar-se e dizer quanto querem dar e a quê.»

Os longos e desconfortáveis segundos de silêncio são quebrados por um homem que se põe de pé e começa por contar a história de como a sua vontade de financiar diversas causas alimentava discussões com a mulher. «Mas este projeto toca-me no coração», diz, anunciando que vai contribuir com 300 euros para a Escola e outros 300 euros para as negociações do PIER. Logo de seguida, uma mulher quer dar 20 euros para a economia de Tamera, uma jovem acrescenta mais 100 euros, outra mulher promete 10 euros por mês à comunidade durante o próximo ano. A audiência bate palmas, o ritmo aumenta. Dar é contagiante. Há um certo histerismo no ar, como naqueles programas em que se adivinha o preço dos produtos em exposição. Um homem diz não ter muito dinheiro, mas quer contribuir com os 50 euros que poupou desde que prometeu deixar de fumar. Há quem doe ideias e intenções. «Pensei em doar o investimento que fiz na Bitcoin. Assim que ganhar valor dou o dinheiro a Tamera», diz um jovem. A jogada capitalista da tarde chega pela voz de uma mulher que promete dar cinco por cento dos lucros da sua empresa de cosméticos naturais. Uma jovem sussurra em espanto à amiga: «Uau, incrível!». A mulher recupera o microfone e acrescenta: «Assim, quem comprar os meus produtos também está a ajudar Tamera.»

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O objetivo em Tamera é criar um novo modelo para a sociedade futura, pós-capitalista. Na cozinha, a preparação da comida está distribuída por turnos.

Muito perto do Monte do Cerro está a comunidade Cento e Oito, criada há seis anos por alguns residentes que decidiram abandonar Tamera. Neste momento, perdidos no meio de Vale Rodrigo, vivem dez pessoas entre alemães, suíços, ingleses, irlandeses e dois portugueses. Arriscando uma comparação com Tamera, Manuel, um desses portugueses, diz que a Cento e Oito é «mais funcional e familiar», procurando «nivelar horizontalmente», sem que exista uma hierarquia. A organização de Tamera rejeita a existência desta hierarquia, referindo-se ao «governo» da comunidade – constituído por Robert Gasse, Saskia Breithardt e Vera Kleinhammes, filha dos fundadores Dieter Duhm, um dos líderes do movimento estudantil alemão do final dos anos 1960, e da parceira, Sabine Lichtenfels – com um «sorriso» e insistindo na ideia de que se trata, na verdade, de uma «equipa organizacional», que gere as questões que não é possível resolver nos grupos de trabalho e nos fóruns. Todos os anos há eleições para eleger o novo «governo», o que pode significar reeleger aquele que existe. Quanto ao papel atual dos fundadores, Leila Dregger, 55 anos, residente da comunidade há 11 e autora do livro Tamera, a Model for the Future, explica que Sabina e Dieter não fazem parte do «governo», mas são considerados «sábios», podendo ser consultados sempre que a comunidade sentir necessidade. «Vamos ter com eles para perguntar “Acham que esta forma de agir se enquadra no objetivo geral?”», diz.

UMA PEQUENA ALEMANHA
A comunidade Cento e Oito foi fundada quando a Associação com o mesmo nome, composta por quatro dissidentes de Tamera e outros quatro elementos, comprou 7,5 hectares de terreno. «Criámos a associação para não existir propriedade privada. Cada um dos oito fundadores deu 15 mil euros», diz Rute, 57 anos, uma suíça que deixou Tamera por «muitas razões». Em primeiro lugar, porque «procurava uma casa, uma família» e não conseguia encontrar essa intimidade no meio de duzentas pessoas. «Como podia sentir-me segura e em confiança com tanta gente?». Além disso, Rute acaba por confessar que Tamera não parecia Portugal. «Aquilo era demasiado alemão. Não venho para Portugal para viver na Alemanha», diz, referindo-se à organização e à hierarquia existentes na comunidade do Monte do Cerro.

A ordem visível em Tamera, onde todos os horários são cumpridos e tudo é inevitavelmente discutido para se adequar à visão geral dos fundadores, contrasta com um certo caos aparente na comunidade Cento e Oito. Por todo o lado, ouve-se o som de martelos e outras ferramentas utilizadas para construções temporárias, que estão a ser instaladas, de forma dispersa, no meio da propriedade. Há pedaços de maçã a secar ao sol, por debaixo de miniestufas e um palco improvisado onde se celebram aniversários. Não parece haver espaços especiais para fóruns ou grupos de discussão como em Tamera, apesar de esta comunidade também sentir necessidade de partilhar questões do foro íntimo, resolver conflitos de forma transparente e discutir grandes questões da economia global como o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento e o domínio mundial nas mãos da China ou das corporações multinacionais.

Na entrada da casa principal existe um quadro de ardósia onde se pode consultar uma espécie de horário da comunidade. As segundas-feiras, às 20h30, estão reservadas para o «Círculo de Homens». Diariamente, às 12h00, há uma reunião de finanças. «Não temos grandes idealismos, manifestos ou teorias. Fazemos tudo de uma maneira natural, mais orgânica», diz Manuel. E os elementos desta comunidade desejam manter-se assim, temendo  que o equilíbrio que de alguma forma alcançaram aqui seja perturbado pelo excesso de visitantes. Quem quiser juntar-se à Cento e Oito tem de fazer o pedido e, uma vez aceite, passar por um período de teste de um ano. «Se gostarem, podem dar dinheiro para entrar na Associação – 15 mil euros ou aquilo que puderem», diz Rute. Um elemento da comunidade chamado Ingo faz questão de sublinhar que aqueles que querem visitar a Cento Oito têm de entrar em contacto com a comunidade antes de aparecerem de livre vontade. «Estamos a começar uma experiência democrática que pode ser levada para outros sítios», diz Ingo, momentaneamente entusiasmado. Depois, a preocupação assombra-lhe o rosto: «Mas não conseguimos fazer isso com muita gente.»

AMOR LIVRE NÃO OBRIGATÓRIO
Para que a sociedade pós-capitalista seja, efetivamente, uma sociedade de paz, os fundadores de Tamera acreditam que é necessário que o indivíduo comece um processo de cura interior centrado na resolução dos problemas em torno da sexualidade e do amor. Por detrás desta teoria está a ideia de que a violência entre os homens brota originalmente da violência existente no seio das relações amorosas – a guerra entre os sexos, o sentimento de posse, o ciúme. Em Tamera, pratica-se a sexualidade livre, o que na prática significa que a atração sexual não deve ser negada ou reprimida, mas discutida de forma transparente com o objeto dessa atração, o parceiro regular (no caso de existir) e toda a comunidade. Numa tarde de verão em Tamera, após o almoço, essa transparência é visível por todo o lado. Homens e mulheres falam, separados do grupo, junto a fontes e lagos. É possível notar a atração que sentem porque evitam o contacto visual, têm gestos tímidos, mas mantêm-se próximos. Perto dos lavatórios onde cada um é responsável por cuidar da loiça que utilizou à refeição, duas raparigas abraçam-se longamente, de forma apertada, mas delicada. Depois olham‑se profundamente. Estão coradas. Não falam, mas não conseguem desviar o olhar. Voltam a abraçar-se, e, no final, não desprendem as mãos.

Isabel Pedrosa, 48 anos, é um dos sete residentes portugueses de Tamera, cuja população é maioritariamente constituída por alemães (cerca de 70 por cento). Mudou- se para aqui há cinco por estar insatisfeita com a vida que levava em Coimbra, onde dava aulas num colégio privado e onde se sentia sozinha e a contribuir para a «destruição do planeta». Apesar de ter um companheiro, diz não ser monogâmica. Diz que o amor livre «nem sempre é fácil», mas que a discussão das situações mais sensíveis em grupo a tem ajudado. «Se algo me incomoda, posso falar disso num fórum. Se houver ciúme, todos podem dar inputs. Informamos o companheiro e a comunidade daquilo que está a acontecer. Não precisamos de esconder nada. Lá fora, as traições e os conflitos que ocorrem nas relações surgem precisamente da necessidade de esconder», diz. Isabel Pedrosa diz que a sexualidade livre não é uma imposição em Tamera: «Há pessoas aqui em monogamia, outros em relação aberta. Por vezes, um parceiro pode optar por não alimentar a atração que sente por outra pessoa se o seu parceiro não estiver confortável com isso.»

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Ute, a companheira do holandês Franck Kraakman, fundador de Vale Bacias, com Lena, a jovem que criou.

Mas há quem não consiga tolerar o amor livre e acabe por se afastar de Tamera. Essa foi uma das principais razões por detrás da decisão de Rute de deixar a comunidade e fundar a Cento e Oito. «Tentei o meu melhor com o amor livre, mas não consegui. Tinha tantos ciúmes…», diz esta suíça de pele bronzeada, cabelo ruivo pintado com henna, mordendo ligeiramente os lábios, olhar nostálgico, como quem recorda um amor perdido. O parceiro de quem tinha ciúmes não é o mesmo com quem vive agora. «Em Tamera, há muitas mulheres e não há tantos homens. Para eles é fácil. Têm muito por onde escolher», diz. Ainda assim, a experiência não a levou a afastar a sexualidade livre na nova comunidade. «Se as pessoas quiserem há amor livre, mas não é obrigatório», diz. Ou, como explica Manuel: «Trabalhamos o lado emocional e relacional. Existe amor livre sem que façamos disso uma bandeira. Evitamos estar colados a algum tipo de dogma. Queremos apenas cuidar uns dos outros e deste espaço.»

O QUE É QUE O ALENTEJO TEM?
O concelho de Odemira foi também o local escolhido pelo guru e líder espiritual de origem jamaicana Mooji, que conduz Satsangs – definido pelos membros do seu Ashram como «encontros na verdade» – e retiros para pessoas que chegam ao Alentejo vindas de todo o mundo para «colocar questões sobre a vida, procurar a paz e significado». Ao contrário de comunidades como a de Tamera ou a Cento e Oito, não é comum residir no Ashram de Mooji, com exceção dos colaboradores com postos de trabalho no retiro. «As pessoas deixam as suas vidas durante uma semana ou dez dias e vêm até aqui», diz Shree, uma funcionária norte-americana.

Numa propriedade cuja paisagem mistura elementos do Médio Oriente – as palmeiras, a referência ao monte Sião, num dos locais – e da Ásia – o jardim de meditação sobre um lago coberto de lótus –, há voluntários por todo o lado, ocupados em aperfeiçoar o espaço, pintando muros e bordas de telhados em tons de verde ou de castanho-terra. Tudo é harmonioso, nivelado, extremamente arranjado.

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O Monte Sahaja é dirigido por Sri Mooji, líder espiritual jamaicano. Aos seus retiros vem gente de todo o mundo, em busca da verdade.

O Ashram ocupa um espaço de trinta hectares na freguesia de São Martinho das Amoreiras e foi comprado depois de o guru Mooji ter passado uma temporada de férias em Portugal, nesta região. Conduzindo um carrinho de golfe e acompanhado por várias mulheres que não param de sorrir, o guru Mooji faz uma breve aparição junto dos jornalistas a quem não foi permitido fotografar o espaço. O departamento de comunicação do Ashram pediu ainda a possibilidade de ler o artigo antes da publicação, ou a assinatura de um formulário que atribuía à Mooji Media Ltd. os direitos de utilização de todo o material recolhido no local. A breve e curta entrevista com o guru foi gravada, fotografada e filmada pela equipa de comunicação do Ashram. Houve apenas tempo para perguntar ao guru, um homem imponente, apesar da simples camisa de flanela e das calças cor de camelo, porquê o Alentejo. «Há uma inocência neste local», diz, referindo-se às aldeias onde «ainda é possível ver velhotes sentados em bancos às portas de casa». «Uma amiga disse-me que Espanha costumava ser assim, mas esses tempos tinham acabado», continua. Durante as férias no concelho de Odemira, o guru Mooji acordou uma manhã com o som de um galo a cacarejar. Foi o suficiente. Sorri, enigmático, como se soubesse algo que não quer revelar. «Senti que isto era diferente», diz.

COMBOIOS CHEIOS DE GENTE ESFOMEADA
Franck Kraakman, 50 anos, apaixonou-se por Portugal aos 23. Visitou o país todos os anos até que aos 35 decidiu deixar a Holanda e mudar-se para aqui. Chegou a viver em Tamera um ano e outros quatro na comunidade Cento e Oito, que ajudou a fundar. Franck deixou Tamera porque «era um sítio antiquado com uma hierarquia antiquada» e a comunidade Cento e Oito porque era «demasiado caótica». Com a companheira, a alemã Ute Strunk-Twelkemeier, criou a associação Copa da Vida, que está no processo de criação da comunidade/projeto Vale Bacias, com o objetivo de alcançar um «modo de vida sustentável, consciente e baseado no amor». Em dezembro de 2013, uma organização suíça – Pinú’u Foundation – encarregou Franck de comprar o espaço de cem hectares de Vale Bacias, passando a arrendá-la a este para que a associação Copa da Vida aí desenvolvesse seminários e retiros junto da natureza, que entretanto ajudariam a revitalizar. Franck concordou em arrendar a propriedade por um período de 99 anos, renovável a cada cinco. É o sistema ideal, considera este holandês, convencido de que esta é a forma de libertar a terra da especulação e da sobre-exploração. «Porque hei-de pedir um empréstimo ao banco? Para depois explorar a terra até à exaustão para conseguir pagar esse empréstimo? Isso prejudica-me a mim, prejudica a terra e prejudica os meus filhos», diz.

Na propriedade Vale Bacias, Franck e a companheira estão a levar a cabo processos de regeneração da terra, plantando espécies autóctones que não prejudiquem o terreno. Além disso, procuram combater a desertificação e a falta de água com a construção de lagos semelhantes aos que foram construídos em Tamera, mas sem o recurso «a grandes brinquedos», diz Franck, referindo-se à maquinaria pesada utilizada no Monte do Cerro. «Há quarenta anos corria um rio aqui», diz Franck, em desafio. «Se fizermos o correto, talvez possamos trazer o rio de volta.» Franck e Ute vivem em yurts, tendas circulares tradicionalmente usadas pelos pastores mongóis, que se multiplicam pela propriedade, tal como acontece com outros edifícios temporários. O casal construiu uma grande casa de madeira sem pregos, importada da Holanda em peças de legos, e pela qual pagou apenas 3500 euros. Será utilizada como o centro de workshops e seminários da propriedade onde serão partilhadas técnicas de permacultura, construção sustentável com argila e outros materiais naturais, e abordados temas como a comunicação não violenta e a construção comunitária.

Na próxima semana, Franck e Ute esperam receber 15 visitantes para participar nas primeiras atividades. Para já, Franck diz que está bastante ocupado a aprender como viver em harmonia consigo mesmo, com os parceiros e com a natureza. «Estou aqui para tentar construir um lago e resolver o meu problema de género. Sim, eu tenho um problema de género, ou melhor, tenho dificuldade com a igualdade de género», diz, revelando logo de seguida: «Sou divorciado e acho que grande parte da culpa foi minha.» Seguindo um pouco daquilo que aprendeu em Tamera, Franck diz que na sua relação também se pratica o amor livre («Tenho necessidades especiais relativamente ao sexo», diz, recusando sentir orgulho na multiplicidade de parceiras) e que o faz para perceber como viver em paz. «A questão da sexualidade é muito importante porque foi negada até aqui. Agora não temos de ter medo de declarar que achamos alguém atraente», diz.

Mas acima de tudo Franck diz adorar a ideia de «ser pioneiro», algo que já não é possível na Holanda e que ainda vai sendo possível nesta região. Com a ajuda de Ute lembra o número de casais do Norte da Europa ou de Israel que chegam ao Alentejo com planos semelhantes. «Na Alemanha já não dá para comprar terra. Aqui ninguém a quer. Tentamos sempre negociar os preços para não destruir o mercado para os portugueses, para que ninguém diga “estúpidos estrangeiros a comprar terra”», diz Ute. Admirando as semelhanças da paisagem seca do montado que os rodeia com as paisagens africanas, Franck e Ute dizem conhecer casais que viveram em África e que, ao regressarem à Europa, não conseguiam deixar de sentir falta do continente. No Alentejo, em plena União Europeia, encontraram um local que lhes lembra os tempos vividos em África. «Não se sentem bem em casa, mas sentem-se bem aqui», diz Ute.

Franck também não pode regressar à Holanda. «A liberdade do Alentejo tira-me o ar», diz, rindo-se às gargalhadas. «Não posso sair daqui. Um ser humano que tenta tomar conta da sua barriga tem aqui tudo aquilo de que precisa», continua. Enquanto massaja o estômago com as mãos, Franck reage a uma imagem que lhe ocupou, brevemente, a cabeça e para de sorrir: «Só tenho medo que comecem a chegar comboios à Funcheira cheios de pessoas esfomeadas vindas de Lisboa à procura dos últimos tomates.» Esta imagem de um mundo perdido, da invasão urbana, da destruição da inocência, não se coaduna com a sua crença mais profunda de que há outro mundo que está a chegar ao fim. E, por isso, Franck volta a encontrar sossego: «25 anos depois da queda do comunismo, o capitalismo também está a acabar. Antes de a hospitalidade terminar em Portugal, o capitalismo vai chegar ao fim.»

Catarina Fernandes Martins
Fotografia: Miguel Pereira/Global Imagens