
Passaram ontem duas semanas desde aquele sábado em que ficámos a saber, pelos rodapés nos noticiários, pelos diretos a partir do local, pela rádio, pelas redes sociais ou porque o vizinho comentou, em choque. Foi há duas semanas, o dia em que o cabo da Roca se tornou o alvo da atenção, o foco da incredulidade, a razão das orações. Foi há duas semanas que Hania e Michal Mackowiak morreram. Foi há duas semanas que o casal polaco tirou a última fotografia das suas vidas, já em queda ou em desequilíbrio, cem metros acima do mar. Foi há duas semanas, ali, «onde a terra acaba e o mar começa» (como o próprio Michal tinha escrito no seu blogue), que a vida deles acabou. Pior: foi tudo à frente dos filhos. Foi há duas semanas que Leo, de 6 anos, e Sophie, de 5, viram os pais ultrapassar a barreira de segurança, aproximar-se do precipício, à procura do local perfeito para uma selfie poderosa, e desaparecer. Para sempre.
A história não me sai da cabeça. Primeiro foi o soco que nos deixou de queixo caído: não bastava a fatalidade do mergulho involuntário, havia – também, ainda por cima, sobretudo – o facto de os filhos terem sido testemunhas. Depois foram as notícias nos jornais dos dias seguintes, o eco no Facebook, a informação de que não eram turistas, mas residentes em Portugal, o interesse natural pelo bem-estar das crianças, a confirmação de que estavam a ter acompanhamento psicológico e que deverão ir viver para a Polónia, com familiares. Passou a dor do murro na cara, mas instalou-se o mal-estar no estômago, a náusea, o desconforto por pensar naqueles miúdos. No que viram. No que passaram. Nos gritos de pavor e alerta que eles deram, às 18h46 daquele sábado. Terão pesadelos? Terão saudades? Vão lembrar-se disto a vida toda?
De seguida veio a pergunta: porquê? Por que carga de água é que aqueles dois fizeram aquela estupidez? Por uma fotografia?! E ler ainda mais sobre eles, ficar a saber o que faziam, a vida que levavam, os estudos que tinham, os anos entre nós, a paixão pela nossa comida e pelo nosso país, a forma como promoviam Portugal na Polónia, as fotografias que foram captando ao longo dos anos e que estão ainda disponíveis nos sites que geriam, tudo isso me deixou ainda mais incrédulo: porquê?
Agora é outra coisa. É o medo. O medo que tenho que uma coisa destas me aconteça a mim. Aos meus. Hania e Michal não morreram porque quiseram tirar uma selfie ou porque procuraram o sítio perfeito, mais espetacular, mais arriscado. Morreram porque tiveram pouco cuidado. Porque um deles, talvez os dois, andou mais do que devia. E isso, sendo uma enorme asneira, uma grandessíssima irresponsabilidade, não é diferente – com a devida distância – das vezes que me lanço para a frente de um carro porque sei que vou conseguir chegar rapidamente ao outro lado da estrada. Não é diferente das vezes em que me distraio com o peso do pé no acelerador. Não é diferente dos riscos estúpidos, diários, em que não penso. Porque temos mais que fazer e não podemos passar a vida com medo de que uma desgraça nos aterre no colo.
Duas semanas depois, isto continua na minha cabeça. Continuava no dia em que escrevi estas linhas e, possivelmente, continua até hoje, dia em que podem ser lidas. Desde aquele fatídico 9 de agosto, não houve dia em que eu não tenha pensado nisto. E na minha família. Não me tornei um paranoico da segurança nem desenvolvi pavor a autorretratos. Em vez disso, o medo fez de mim um tipo melhor. Apenas humano.
Publicado originalmente na edição de 24 de agosto de 2014