OPINIÃO

Mário Ferreira

«Em Portugal existem oportunidades mas também muitos velhos do Restelo»

Adolescente, saiu de Portugal para conhecer mundo. Regressou decidido 36 mil milhas náuticas depois. Começou pela restauração e pela hotelaria, mas foi no Douro que encontrou inspiração e fortuna – dos cruzeiros fluviais ao Museu dos Descobrimentos que agora inaugurou, palco da viagem de barco do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, cuja fotografia se tornou viral nas redes sociais. Mário Ferreira, presidente da DouroAzul, que prevê faturar 36 milhões de euros neste ano, acorda às seis da manhã, diz que Portugal é um país de oportunidades e explica como tem conseguido trocar as voltas à crise.

 

Que episódio da sua vida escolheria para abrir uma biografia?
O episódio mais marcante seria certamente o primeiro passo, a saída de casa e de Portugal aos 16 anos, contra a vontade do meu pai. Por muita confiança que sentisse, não deixava de ser, julgo ago­ra, um pouco leviana.
Que recorda do dia de partida (em 1984)?
O que o meu pai me disse na véspera, por exemplo: «Pensa no que vais fazer, porque se saíres não voltas a entrar.» A interrupção dos es­tudos foi para ele um desgosto enorme. Mas eu estava tão determi­nado que não pensei duas vezes.
Que profissões tinham na altura os seus pais?
O meu pai trabalhava nos portos do Douro e Leixões e a minha mãe era dona de casa, cuidava dos quatro filhos. Na altura já estavam di­vorciados, mas o  meu pai tinha um bom trabalho que permitia dar uma vida e educação adequadas a todos.
Não foi uma vida difícil o que o levou a emigrar.
Pelo contrário. Só decidi partir porque o meu pai alargou o meu horizonte possibilitando-me a ida e a estada para os campos de fé­rias em Inglaterra. Dificuldades tiveram os meus tios do lado da mi­nha mãe, que emigraram a salto para fugir às muitas dificuldades que se viviam nos anos sessenta na zona do Douro. A minha história não é essa, nem comparável à dureza e exigência desses tempos. Dois anos antes, com 14 anos, chegara-me a informação de que o consu­lado inglês estava a promover a ida de estudantes portugueses pa­ra os campos de verão. Uma oportunidade para estudar e trabalhar uma hora por dia na apanha de morangos. Fui duas vezes, com 14 e 15 anos, e adorei. Havia uma décalage social, cultural e económica entre o meu país e o que encontrei. Na altura, Portugal era uma pasmacei­ra e Londres um deslumbre.
Partiu com que propósito?
Ver o mundo. Esse foi o principal propósito. Sabia, claro, que tinha de trabalhar e ter sucesso rapidamente, senão não teria forma de me sustentar. Mas fui sem emprego à vista. Apenas com uma expetativa frágil, criada por um rapaz que conheci num desses campos de fé­rias. Tinha-me prometido que poderia ficar no apartamento dele e que me ajudaria a procurar o primeiro emprego. Ao fim do primei­ro dia de procura tinha trabalho como empregado de mesa. Pouco depois ganhava 250 contos, três vezes mais do que o meu pai – que já tinha um bom ordenado para a altura –, com oferta de comida e alojamento. Aos 18 anos comprei o primeiro apartamento em Mato­sinhos, num prédio onde viviam diretores de bancos e outras empre­sas. A primeira reação do meu pai foi de desconfiança. «Onde é que este rapaz foi arranjar tanto dinheiro?»
Fica em Londres até aos 20 anos. Fale-me desses quatro anos.
Quatro anos a trabalhar em restaurantes. Como falava bem inglês nunca lavei pratos. Não tinha ainda 19 anos, desafiaram-me  para ge­rir um restaurante em Chelsea, perto da King’s Road, um sítio mui­to chique. Não é fácil para um miúdo coordenar um grupo em que há pessoas muito mais velhas. Tive de lhes ganhar a confiança e o apoio sem me impor à força.
Como explica o sucesso repentino? O que viram os ingleses em si?
Trabalho e lealdade. O dono desse restaurante entregou-me a cha­ve ao fim de uma semana. Ao início, passava por lá duas ou três vezes por dia, ao fim de um algum tempo duas ou três vezes por semana e, por fim, só telefonava. Eu fechava as contas, metia no cofre o dinheiro que a contabilista recolheria na manhã seguinte. Enfim, tratava de tu­do. Eu geria o restaurante, ele jogava ténis e lia. Foi assim até aos meus 20 anos.
Até que se cansou ou teve um novo desafio.
Um administrador de uma das maiores empresas de cruzeiros do mundo, a Cunard, era nosso cliente regular e várias vezes me ali­ciara com a possibilidade de trabalhar num desses barcos. A certa altura achei que estava na hora. Se fosse para fazer pequenos cru­zeiros não teria aceitado, mas a ideia de dar a volta ao mundo agra­dava-me. Pedi para me marcar a entrevista, passei nos testes físicos e teóricos, tinha a vantagem de ser o único tripulante que falava português, muito importante para os turistas brasileiros – e, como empregado de mesa, levava a promessa de progressão rápida na carreira. O Vistafjord era um navio sumptuoso.  A Cunard contra­tou 482 tripulantes para 736 passageiros: reformados endinheira­dos, empresários, casais de meia-idade, ricaços solitários de todas as nacionalidades, a duzentos mil dólares por cabeça.
Um relato dessa primeira viagem.
A coisa começou bem com o sol da meia-noite em Reiquejavique. Depois, seguiu-se uma catástrofe. Fui batizado com a pior tempesta­de dos cinco anos em que andei embarcado. Um enjoo de morte per­manente, andava verde, sem conseguir comer ou beber. Perdi dois quilos e, não sendo pessoa de desistir, naqueles dias só tinha uma ideia: pôr-me a andar dali o mais depressa possível. Reconheço, foi tratamento de choque, nunca mais enjoei. A partir daí, veio o paraí­so. Fiordes, quatro ou cinco horas de pôr do Sol e nascer do Sol contí­nuo. Não há melhor maneira de viajar do que num cruzeiro.
Porquê?
O viajante só abre e fecha a mala uma vez, o quarto viaja com ele para cada local que visita. Não há faz e desfaz a mala, nem vários check in. É um conforto e uma garantia permanente de serviço e qua­lidade. Ao fim de uma visita é recebido como se estivesse a voltar a casa. Este é também o segredo do nosso sucesso no Douro.
Dos 20 aos 25 anos andou embarcado. Como é a vida de tripulante num cruzeiro de luxo?
Muito, muito trabalho, mas com tempo para tudo. Para passear, para conhecer os locais que se visitam, para fazer mergulho, para namorar, claro. Enfim, muito tempo para diversão, mas essencial­mente muito trabalho. Teoricamente trabalha-se seis meses para dois de folga. Eu nunca tive esses dois meses de férias. Bati mesmo o recorde ao trabalhar 14 meses seguidos sem um único dia de folga.
Porquê? Ambição?
Não tinha coragem de dizer não quando precisavam de mim. E ao fim desses 14 meses julguei que cumpriria dois de férias. Engano. Um dos herdeiros da família Bacardi, Mr. Rodriguez, recusava-se a embarcar em Miami para uma volta ao mundo na minha ausência. E lá fui eu um mês mais cedo.
Gente endinheirada com manias e birras bizarras, não?
Muitos deles, sim. Mr. Rodriguez, exilado em Miami e dono de uma ilha em Nassau, contava que  fora colega de escola, de carteira até, de  Fidel Castro. Trabalhava dois dias por ano, os dias das duas assem­bleias gerais do grupo, uma nos EUA e outra na Europa. Vivia como um príncipe, com a mulher e sem filhos. Todos os anos fazia uma vol­ta ao mundo, conheceu-me e quer ele quer a mulher engraçaram co­migo. Eram muito meus amigos. Durante três meses, a tripulação era a família deles. Todas as manhãs o cumprimento de «buenos dias» era acompanhado de uma nota de cem dólares, dobrada em seis partes, que me metia na mão. Todos os dias durante três meses. E em cada porto recebia da mulher dele um presente.
Quanto ganhava nessa altura?
Cinco a oito mil dólares [três mil a seis mil euros]– livres de impos­tos e sem gastos, além de uma percentagem de comissão semanal. E depois ainda havia os «cumprimentos» dos  senhores Rodriguez.
E presidentes e ministros e reis, não?
Reis e ex-reis, presidentes e ex-presidentes, ministros e ex-minis­tros, histórias incontáveis. Vão comigo para o túmulo. No fundo são histórias do dia-a-dia. Um dos nossos clientes era um lorde inglês, um dos maiores proprietários de terra de Inglaterra. Todos os anos fazia com a mulher  a volta ao mundo. A senhora antes de partir cho­rava muito. Era da praxe. E ele, proibido de fumar pelos médicos, fa­zia-me guardião do maço de cigarros e de vez em quando lá me pe­dia um. Também havia quem me pedisse que lhe escondesse a gar­rafa. Tenho várias histórias dessas, sobretudo na fase em que estava à frente do nigth club do navio.
E locais que o  impressionaram  especialmente?
Algumas das mais emblemáticas e míticas entradas em portos como Nova Iorque, Sydney, Rio de Janeiro, Hong Kong, São Francisco e Lisboa.  Em terra, fiquei impressionado com  Petra, na Jordânia.
Como reagiu o pai – que tanto questionou a partida do filho – a esse sucesso?
Os primeiros sinais do meu pai foram de desconfiança. Não perce­bia como podia eu ganhar tanto dinheiro e tão jovem. Era a visão de quem nunca tinha saído de Portugal. Naquela altura, a décalage era enorme. Depois, foi uma reação de orgulho, completada com a mi­nha licenciatura em Gestão de Empresas Turísticas. Nunca se con­formou com o facto de o filho ter abandonado a escola tão cedo.
Aos 24 anos, com uma carreira  estável num barco de cruzeiro de luxo, a ganhar muito bem, a correr mundo e a conhecer gente, decidiu abando­nar o que o fez sair de Portugal aos 16 anos. O que o levou a regressar?
Tive um click na Cidade do Cabo, na África do Sul. Estava com um gru­po de amigos a olhar, embevecido, para um stand da Ferrari, a pensar como gostaria de ter um daqueles carros, quando Juan, um espanhol que trabalhava em cruzeiros há mais de três décadas, me disse que apesar de poder comprar aqueles carros não tinha vontade alguma de o fazer. Foi uma confissão tão triste que me pôs a pensar. Ali estava aquele homem, perto dos 60 anos, com muito dinheiro mas sem famí­lia, sem pais,  sem filhos,  sem mulher. Temi, se continuasse nos barcos, acabar como ele. Não era esse futuro que queria para mim. Decidi naquele momento que no final do cruzeiro regressaria a Portugal. E também que, um dia, um Ferrari entraria na minha garagem.
E entrou?
Entrou, ou, diria até, entraram. Mas neste momento já passei essa fase e já não tenho nenhum. São umas belas máquinas, mas um ho­mem de família precisa de carros maiores e mais confortáveis.
Em que fase está agora?
Tenho um Mercedes e, para os dias de verão, um Bentley cabrio. Há uns anos, entre os empresários do Norte havia a moda das garagens com vinte ou trinta carros. Nunca foi o meu fetiche.
Em 1992, começa por comprar um restaurante.
O Avó Miquinhas. Poucos meses depois, seis talvez, comecei a olhar para o primeiro barquito, o Vista Douro, com capacidade pa­ra 130 passageiros. Nessa altura, nas viagens no Douro, os serviços eram caros e maus. Percebi isso numa viagem Porto-Régua. Estava ali uma mina de ouro. Ninguém acreditava.
Hoje tem dez barcos-hotel, três rabelos, um iate de luxo e, no Tejo, com cruzeiros de uma hora entre o Terreiro do Paço e a Torre de Belém, o Trafa­ria Praia, pavilhão de Portugal na Bienal de Veneza. Fale-me de números.
O nosso negócio é 97por cento para exportação. Para este ano esperamos 45 mil passageiros, sobretudo americanos, alemães e ingleses. Em 2013 os nossos autocarros turísticos transportaram 50 mil pessoas, faturámos 25 milhões de euros. Para este ano, es­tão previstos cerca de 36 milhões, com um EBITDA («lucros bru­tos») esperado de 12 milhões. Em março passado recebemos dois novos navios, construídos em Portugal, por portugueses e ain­da preciso de mais quatro. O que me falta são infraestruturas. Não tenho onde os pôr e precisamos urgentemente de mais cais. Ao início ninguém acreditava.
Qual é o segredo deste oásis num cenário de crise?
Com toda a modéstia, julgo que consigo perceber o que os tu­ristas querem antes de eles próprios o saberem. Parece uma fra­se feita, mas só com inovação e capacidade de prever grandes ne­gócios um pouco à frente do meu tempo consegui este sucesso. Foi assim com a hotelaria em terra, com o Hotel Vintage House, no Pinhão, e sobretudo com o Solar da Rede. «É maluco, quem é que vai para Mesão Frio?», diziam. Pois foi um sucesso. E com os bar­cos, igual. O reconhecimento, parcial, só chegou há pouco tempo.
A própria banca não aderiu de imediato. Valeu-se do  QREN.
Esse é outro grande segredo destes 21 anos. O QREN está e sem­pre esteve disponível, em especial nos últimos 15 anos, para to­dos os que apresentem projetos válidos e nós, há quase duas dé­cadas, aproveitámos. O que custa é o primeiro. Tivemos suces­so com todos eles, nunca tivemos um atraso – cumprimos prazos de investimento, criámos novos postos de trabalho, várias cente­nas, estamos no mercado externo e essencialmente a exportar. Nunca falhando, o sucesso está garantido. Repare: imaginemos um investimento de dez milhões. É muito dinheiro. Mas 55 por cento vêm do QREN, a taxa zero, com um período de carência de três anos, devendo o empréstimo  ser reembolsado em quatro. Sobram 4, 5 milhões, mas como o QREN obrigava a ter um míni­mo de 25 por cento de capitais próprios, só há necessidade de ir buscar à banca dois milhões. A banca fica assim com um ativo de dez milhões por dois milhões. O apoio bancário, até internacio­nal, não é portanto um problema. Os contratos de pré-vendas por vários anos, garantindo a regularidade, também ajudam muito.
Diz que lhe acontece estar muitas vezes no lugar certo na hora certa e que assim conseguiu comprar o Spirit of Chartwell, barco utilizado na comemoração do Jubileu de Isabel II de Inglaterra. Como é que conseguiu isso?
Estava a correr com um amigo em frente ao mar quando tive a ideia de comprar a barcaça real. Nesse mesmo dia percebi que, afi­nal, a barcaça não pertencia à família real mas a um o mecenas, que, por sorte, conheço. Enviei-lhe um e-mail e mas ele mandou–me passear. Ficou  até ofendido. Passados 15 dias, liga-me a pedir para me reunir com ele em Londres. Ui, falei com a minha mulher e fomos logo, cheios de curiosidade. Compreendi que a conjuga­ção de uma série de situações permitiu que fechássemos o negó­cio em duas horas.
Começou com os barcos diários, acrescentou os navios-hotel e depois vendeu os barcos diários e passou para os hotéis em terra. Vendou os hotéis em terra e consolidou os navios-hotel. Agora vai voltar aos hotéis em terra com o Monumental Palace Hotel, na Ave­nida dos Aliados, no Porto, e outro ainda surpresa.
Os negócios devem ser dinâmicos até porque têm prazo de va­lidade, mesmo os com muito sucesso. Por isso, nos próximos dois anos, vou focar-me nos hotéis em terra e parar a construção de mais navios-hotel. Porquê? Porque neste momento o centro histórico do Porto tem uma grande capacidade de crescimento, quer em volume de clientes quer em preço. As cidades de charme es­tão em alta. Sei que o Porto não é Veneza mas também tem es­pecificidades que não são menos atraentes. Ora um bom quar­to de cinco estrelas em Veneza custa em média oitocentos eu­ros por noite. No Porto nem oitenta. E isso tem de mudar. Para isso, comprei e estou a recuperar o edifício mais bonito da Ave­nida dos Aliados para fazer aí um hotel. Estou também a de­senvolver um resort, em boa parte dedicado ao turismo de saú­de, a pensar sobretudo nas grandes elites internacionais. Vivemos cada vez mais tempo e estes lugares de lazer para carre­gar baterias são o futuro.
Qual vai ser o preço de um quarto?
Ao certo ainda não sei,  mas serão assumidamente os quartos mais caros da cidade do Porto.
Na comemoração dos 20 anos da empresa DouroAzul trouxe a Por­tugal duas estrelas de Hollywood. Quanto lhe custou a presença de Sharon  Stone  e  de Andie  Mac Dowell? E porquê essas?
Nos 20 anos da DouroAzul estiveram presentes estrelas de todo o lado, incluindo portuguesas. A escolha destas duas madrinhas te­ve o objetivo de pôr os americanos a falar da nossa região, da cida­de do Porto e do vale do Douro. O sucesso foi muito para lá do espe­rado. Prefiro falar dos proveitos do que referir os custos, mas posso dizer que o retorno foi medido, confirmado e muitas vezes superior ao investimento.
O Porto tem merecido reconhecimento turístico  internacional. O que ainda falta fazer em matéria de divulgação da cidade?
Falta fazer muito, não devemos ficar ofuscados com o que te­mos. É preciso  compreender que o crescimento acentuado parte de números muito baixos e que ainda estamos a vender os quar­tos muito baratos. Temos de aproveitar este rumo e esta onda de boas notícias e distinções para crescer muito mais, em número e em qualidade.
Rui Rio e Rui Moreira, quais são as diferenças?
São ambos homens muito capazes, mas também com estilos mui­to diferentes.
Como é a sua relação com Rui Moreira?
É boa, tenho muita fé no trabalho que ele irá fazer. Teve a sorte de receber de Rui Rio a cidade com as contas em dia e a casa arrumada. Fiquei especialmente satisfeito por saber que ele chamou a si e assu­miu o pelouro do turismo. A cidade tem ainda muito para mostrar e dar.  No setor do turismo estamos apenas no início.
Quantos funcionários tem a DouroAzul?
Mais de quatrocentos diretos.
Uma empresa que vive em  prosperidade  em plena crise atrai segura­mente muitos currículos.
Todos os dias recebo e-mails, vários por dia. No LinkedIn e no Face­book são às dezenas. Fico triste por não poder atender a todos.
Acima de tudo, o que é preciso ter para trabalhar na DouroAzul?
Esquecer o relógio em casa. Digo isto relativamente à saída mas também à entrada. Não estamos com um pica-ponto a verificar en­tradas e saídas e também sei que o funcionário que trabalha mais horas pode não ser o melhor. O que quero é responsabilidade pró­pria e que não fique para amanhã o que tem de ser feito hoje. Eu dou o exemplo. Quem não entende isso terá de ir trabalhar para outro lado.
Recruta pessoalmente?
Só posso e insisto em recrutar os que vão trabalhar diretamente comigo. É uma receita que tem funcionado bem. De vez em quando acerto ao lado, mas é raro.
Como olha para o embaratecimento do trabalho o presidente de uma empresa com os lucros da DouroAzul?
O valor do trabalho tem de voltar a subir. A partir do momento em que abrandar a carga de impostos, é fundamental que assim seja. Os ordenados estão muito baixos – basta ver o ordenado mínimo, indigno de um país europeu. E isso afeta toda a economia. Quan­to menos sementes pusermos na fonte menos frutos teremos. É preciso devolver o poder de compra e isso passa em muito pelo au­mento dos salários. Não falo em créditos loucos ao consumo como os que existiram, fruto de muita estupidez de quem neles se meteu e de muita falta de escrúpulo de quem os vendia, mas sim de um po­der de compra saudável. Não tenho ninguém na minha empresa a ganhar quinhentos euros nem perto disso. E pudesse eu criar mais postos de trabalho… Ainda agora com o Museu dos Descobrimentos alarguei o mais possível o quadro de pessoal. Tive o prazer de poder empregar um português emigrado em Inglaterra que me escreveu a dizer que era o sonho dos filhos ter o pai em casa. Cá está connosco.
A economia portuguesa pode ser competitiva pagando bons salários?
Com criatividade e inovação pode. Fazendo melhor e diferen­te. Nem tudo está inventado e em Portugal há tantas oportuni­dades… Tomara eu ter tempo para poder ir por outros caminhos. Ainda ontem abracei quatro novos projetos e hoje o plano já es­tá desatualizado porque há um quinto. Mas não é fácil fazer isto em Portugal. Existem muitas oportunidades mas também ainda existem muitos velhos do Restelo.
Burocracia?
Burocracia e uns fundamentalistas, sobretudo na área da cultura. Por exem­plo, a propósito do museu, deparei com vários entraves criados por esses funda­mentalistas da Direção Regional da Cul­tura, responsáveis por se terem perdido alguns bons negócios pa­ra a cidade. Rui Moreira é muito open minded e pode trazer nova luz, mas não tem autonomia sobre estes fundamentalistas que têm pa­recer vinculativo. Terá de ver as suas competências reforçadas pa­ra que, quando necessário, a decisão seja política. Quando estou tris­te e desiludido com a burocracia deste país – e por vezes estou – di­go que vou reformar-me aos 55 anos. A minha mulher, ele e o meu sogro riem-se.
Nos mercados  internacionais, que é onde compete, o que o distingue dos demais?
A autenticidade do destino, o atendimento feito por portugue­ses em Portugal, um dado fundamental – num cruzeiro no Reno, por exemplo, encontra tripulação filipina, romena ou búlgara, não consegue associar o destino escolhido ao respetivo povo – e a po­lítica value for money. Os cruzeiros duram 12 dias – uma semana no Douro e três a quatro dias em Lisboa – e os clientes não podem ter as expetativas defraudadas. Os preços devem permitir-nos ganhar dinheiro, mas perante um cliente insatisfeito há que dar mais e ganhar menos. Temos de ter uma taxa de agradabilidade de 94 por cento.
Se for necessário, vai o próprio presidente resolver o assunto com o cliente?
Já aconteceu mais do que uma vez, embora atualmente não seja ne­cessário.  No passado fui até cozinhar uma refeição vegetariana pa­ra duas clientes que se queixavam de só comer salada. Fiz-lhes ca­membert frito com molho de framboesas e spaghetti alla puttanesca. Adoraram. Caso delicado passou-se com um grupo de judeus de Nova Iorque, que não estavam a gostar dos menus. Fui à Régua tentar re­solver o problema. Comecei por oferecer um belo Tawny de vinte anos,  mas não aderiram logo. Depois dos desabafos percebi o proble­ma e até lhes contei a história dos judeus e das alheiras. Ficaram tão curiosos que quiseram provar alheiras de caça. No dia seguinte, co­meram alheiras de caça. E assim se resol­veu o problema.
Abriu recentemente o Museu dos Des­cobrimentos ( World of Discoveries), on­de foi tirada a fotografia  polémica com o primeiro-ministro no barquinho.
Não existe má publicidade. Dito isto, la­mento que uma única foto tenha servido para fazer uma avaliação de um museu.  Uma foto tirada com uma lente de gran­de angular que, é fácil perceber, dá uma perspetiva errada. Eu próprio me ri quando vi a imagem. Mas não é sério pegar numa foto para fazer a avaliação do museu.
Como surgiu a ideia?
A ideia surgiu da conjugação de vários fatores: a necessidade que a cidade tem de espaços como este, o meu gosto pelo tema dos Desco­brimentos, o aproveitamento deste magnífico espaço que tão bem se adequou ao projeto.
Há dez anos candidatou-se a uma viagem espacial. Nunca se arrependeu?
Nunca.
Foi já submetido a vários testes. Como descreve a ausência de gravidade?
Só há três únicos aviões onde é possível realizar esse teste. Saímos uma vez do Cabo Canaveral com esse avião e fizemos 15 vezes 30 se­gundos de ausência de gravidade. Não há palavras que descrevam o que se sente. É uma sensação estranha e mágica e muito mais que não sei explicar porque não há vocabulário.
Continua sem data marcada?
Ainda não desesperei. Já espero há dez anos. Posso esperar mais dez.
O que fará na véspera desse dia?
O testamento não, porque já está feito. Só se fizer umas atualiza­ções. Não sei, não pensei nisso. Na véspera, estarei seguramente no deserto, no spaceport. A minha família vai comigo para os Estados Unidos e por isso far-se-á uma grande festa, antes e depois. Vou ao espaço e venho no mesmo dia.
O testamento de que falou é relativo à gestão da empresa, suponho. Já tem sucessor?
A DouroAzul é uma holding com mais de uma dezena de empresas, tem mais de quatrocentos empregados, pessoas bem pagas, muito especializadas, equipas muito válidas. É importante deixar tudo muito bem organizado de forma a que as coisas funcionem. neste momento sinto-me confiante. Se precisasse de estar au­sente temporariamente as coisas fun­cionavam porque a estrutura está muito bem montada em termos de management. De resto, só assim consigo liberdade para criar os meus novos pro­jetos. À minha mulher digo-lhe sempre que, se acontecesse alguma coisa, ficaria a black widow mais bonita e mais rica de Portugal.
A Terra pode parecer pequena a quem navegou 36 500 milhas naúti­cas. Daí a vontade de viajar no espaço?
Também. O gosto pela aventura, a possibilidade de ver a Terra de fo­ra e de tirar fotografias são motivos decisivos.
Mantém a ideia inicial e vai levar para o espaço uma garrafa de vinho do Porto?
São garrafas de vinho do Porto Taylor’s feitas especialmente pa­ra o efeito . O vinho vai ser, depois, alvo de provas cegas para se sa­ber até que ponto a ausência de gravidade interfere na sua qualidade.
E tem uma agência de turismo espacial, a Caminho das Estrelas. Quanto custa uma viagem como a que vai fazer?
Atualmente 250 mil dólares.
Como é o seu dia-a-dia?
Acordo às 6h00, 6h30, tomo o pequeno-almoço e leio os e-mails na cama. Normalmente corro ou nado, a atividade física de que mais gosto. Agora não. Devido a uma hérnia na cervical nem se­quer uso o ginásio que tenho em casa. Seguem-se as horas que fo­rem precisas na empresa. Depois, tento jantar com a família, ou então apenas com a minha mulher. Por vezes, vamos ao cinema.Aos fins de semana vamos para a quinta, em Torres Vedras. As mi­údas têm os animais e eu aproveito pa­ra brincar com elas  aos agricultores. Às vezes sou eu que cozinho. Gosto de co­zinhar e ainda mais de comer.
Uma juíza leva seguramente trabalho pa­ra casa.
Tenta não levar.
Em que gasta dinheiro?
Evito compras supérfluas. Prefiro in­vestir a gastar. Gosto de alguns porme­nores, como botões de punho e de carros, que para mim são instrumentos de trabalho. Vou quase todas as se­manas a Lisboa, vou e regresso no mesmo dia, preciso, por isso, de um carro seguro e confortável.
Continua a viajar muito?
Por ano fazemos várias viagens, umas com e outras sem os miúdos. No início do ano estivemos na neve, a família toda. Depois, foram duas semanas em Marbella. Agora, vamos num cruzeiro à Rússia para a minha mulher conhecer São Petersburgo e fechamos em agosto com uma viagem a Banguecoque e Bali. Como conheço mais de meio mundo o que mais valorizo nesta fase é a qualidade do serviço. Tenho pouco tempo e nesse pouco tempo tenho de ser muito, mesmo muito bem tratado.

 

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PERFIL
Licenciado em Gestão de Empresas, presidente da DouroAzul, empresa de cruzei­ros fluviais, desde 1996, Mário Ferreira nasceu em Matosinhos em 1968. Aos 16 anos, trocou o Porto por Londres, começando muito jovem o percurso profis­sional. Primeiro na restauração e depois como tripulante de cruzeiros de luxo. Oito anos e cinco voltas ao mundo depois (a experiência nos mares já mereceu já um livro) regressou ao país para se desdobrar por  várias atividades empresarias, da restauração à hotelaria, da mobiliária à sua paixão, os cruzeiros fluviais. Comenda­dor da Ordem do Mérito (2003), Medalha Municipal de Mérito da Câmara do Porto (2008), é can­didato a uma viagem espacial e dono da Caminho as Estrelas, a primeira empresa de turismo espacial em Portugal. Membro da Associação Comercial do Porto, mestre da Confraria do Vinho do Porto e ainda cônsul honorário da República da Estónia, publicou, em home­gem à origem durieense, Douro Património Mundial, um livro de fotografias áereas, outra das suas paixões. Mário Ferreira é casado e tem três filhos.

 

Alexandra Tavares Teles
Fotografia: Leonel de Castro/Global Imagens