OPINIÃO

O segredo português para a felicidade

Diogo Faro, comediante, presidente do Instituto Português para os Altos Estudos da Felicidade, escreveu um livro sobre isso mesmo. Só que em vez do hygge, que era o segredo dinamarquês para ser feliz, inventou o «portuoptimismo». E garante que, graças a este, os portugueses são felizes sem grande esforço.
Diogo Faro

Texto de Sara Dias Oliveira

Os três F’s – Fátima, Fado e Futebol – continuam a produzir efeitos, as festas populares e o Natal também, criar uma vida linda nas redes sociais ajuda a carburar a felicidade. Um português pode ser muito feliz na Dinamarca, um dinamarquês em Portugal é outra história. Diogo Faro viveu três meses num templo hindu, na Índia, como voluntário, e a sua vida mudou. Esta é uma entrevista bem-disposta a propósito do seu livro Na Boa! O Segredo Português para a Felicidade, editado pela Esfera dos Livros, e que é lançado hoje, na Fnac do Colombo, às 18h30.

A felicidade é ou não é um mito urbano?
Mito urbano é achar que pisar cocó de cão traz dinheiro. É falso. Tenho um amigo que, de há 10 anos para cá, o faz todos os dias e até agora continua a viver do Rendimento de Inserção Social. Já a felicidade não é de todo um mito urbano, é até bastante palpável. Quem nunca deu por si felicíssimo quando, ao chegar ao carro, já com o ticket do parquímetro expirado, percebeu que não estava bloqueado pela EMEL?

Um português na Dinamarca podia ser feliz com os benefícios sociais garantidos pelos Estado? Um dinamarquês em Portugal podia ser feliz com o ordenado mínimo?
Um português pode ser feliz em qualquer parte do mundo, é esse portuoptimismo que refiro no livro. Então, na Dinamarca, onde a educação e a saúde são totalmente garantidas pelo Estado, até a falta de sol seria ineficaz a afetar a felicidade de um português (não se pode é falar muito alto do nível de impostos). Já o dinamarquês em Portugal com o ordenado mínimo, faz-me chorar só o facto de pensar nessa ideia. Principalmente porque o ordenado mínimo, atualmente, só dá para arrendar casa a mais ou menos 100 quilómetros do centro das cidades.

Os portugueses são um povo que se esforça por ser feliz. Basta uma mini, um prato de amendoins, uma esplanada com amigos, boa comida, sol, reclamar por tudo e por nada e dizer constantemente «na boa, isso depois resolve-se e um gajo safa-se»?
O português nem se esforça assim tanto por ser feliz, é-lhe natural ver o lado bom das coisas. Há exemplos claros nestas autárquicas como os casos de Isaltino Morais ou o Valentim Loureiro, que são de novo candidatos. Os portugueses olham para eles e pensam: «Roubaram, mas ao menos deixaram obra feita.» Se isto não é do mais puro otimismo e ver o lado bom, então não sei o que será.

Os três F’s – Fátima, Fado e Futebol – são ou não suficientes para a felicidade nacional?
São mais do que suficientes. Claro que não para absolutamente todos os portugueses, mas para uma grande maioria sim. Não necessariamente pelas mesmas razões que levaram à fama desta tríade durante o Estado Novo, mas a verdade é que são coisas que descansam muito a cabeça e fazem que não tenham que ter trabalho a pensar em questões económicas e sociais supostamente mais importantes. Então se der para ir a Fátima rezar pelas vitórias da nossa equipa de Futebol, o nosso Fado será sempre a Felicidade.

Quanto mais fé se tem mais feliz se é?
Como é óbvio, seja qual for a fé. Quando nós acreditamos muito, as coisas tornam-se realidade. Um grande pensador e guru português contemporâneo diz que «a mente chama-se mente porque nos mente.» Brilhante! E justifica o facto de, ao acreditarmos com muita força, tudo pode existir, quer seja futebol sem corrupção, quer seja uma senhora a aparecer em cima de uma árvore mesmo à frente de três criancinhas. Vale tudo.

«Ao termos quem nos controle o pensamento e nos diga sempre o que fazer, como pensar, como agir, a vida torna-se muito mais leve, com menos responsabilidades e menos medos, logo, mais feliz.»

Dar mais importância ao futebol do que à política ajuda a ser feliz?
Sem dúvida, até porque como todos sabem, o futebol é algo que não move interesses, não move assim tanto dinheiro e, por isso, não há corrupção nenhuma e é uma lindíssima e justa competição desportiva. Por isso, os milhões de horas que cada português usa por ano a ver jogos de futebol e seus derivados são um contributo gigante para o seu bem-estar. Já a política serve essencialmente para nos trazer amarguras porque todos os políticos, segundo a sabedoria popular, são corruptos e não há nada a fazer em relação a isso.

O dinheiro não traz felicidade, mas ajuda, não ajuda?
Claro que ajuda e por várias razões. Mas deixe-me que que lhe diga que o primeiro passo para a felicidade é comprar o meu livro. Isto porque ao comprá-lo estará a ajudar-me financeiramente e o português é uma pessoa que se sente muito bem consigo próprio – pela pretensa sensação de superioridade moral – ao dar dinheiro aos outros.

Os que pensam de mais são mais infelizes do que os que pensam de menos?
Sem dúvida. Daí que as religiões, cultos, clubes e gurus sejam tão importantes na nossa vida. Ao termos quem nos controle o pensamento e nos diga sempre o que fazer, como pensar, como agir, a vida torna-se muito mais leve, com menos responsabilidades e menos medos, logo, mais feliz. «Quando morreres vais para o céu ter com Nosso Senhor», «acredita em ti e terás sucesso», «muçulmano é sinónimo de terrorista.» Isto são frases que não requerem interrogação. Basta ouvi-la vinda dos líderes de cada culto sem as questionar e a vida corre muito melhor.

Diogo Faro

E alimentar o ego nas redes sociais é um empurrão para a felicidade?
Também é um ponto importante da nossa atualidade, claro, principalmente se a nossa vida fora da internet for triste ou entediante. Com as redes sociais podemos inventar uma vida linda e feliz para mostrar aos outros e se o fizermos bem, não só os outros acreditam como nós passamos a acreditar que a nossa vida é feita de alegrias com os amigos, dias maravilhosos de praia em boias flamingo e sushi à borla com o patrocínio de uma marca que entrega este acepipe em casa.

O Natal é mesmo importante para a felicidade ou o Carnaval, as festas populares de aldeia, os festivais de verão, uma noite de copos com os amigos, produzem mais efeitos?
O conjunto de todas as festividades é essencial para a felicidade dos portugueses. Em separado, cada um deles também é eficaz, mas é óbvio que tudo junto produz mais efeito. Se pudermos, ao longo do ano, gastar balúrdios em prendas, sambar à chuva nos desfiles de Carnaval, ir a festas de aldeia ou vê-las nos incríveis programas de TV de domingo à tarde, e por aí fora, excelente. Felicidade o ano todo.

Sem família não há felicidade?
Depende. Se a nossa família for a família Carreira e eles estiverem sempre a cantar, se calhar é melhor viver sozinho ou pedir a outra família que nos adote. Mas, no geral, a família é essencial para a nossa felicidade, claro.

«Em breve andaremos pelo país com uma rulote para fazer um rastreio à felicidade de cada português. Será um rastreio pago, mas apenas porque como no caso de comprar o meu livro, dar dinheiro aos outros ajuda à nossa própria felicidade.»

Há uma tabela ou uma fórmula para estudar a felicidade dos outros? O que é preciso fazer para perceber se alguém é ou não feliz?
Enquanto presidente do Instituto Português para os Altos Estudos da Felicidade, eu e a minha equipa temos vindo a desenvolver uma série de estudos acerca da felicidade portuguesa e temos chegado a não só diversas como também variadas, diferentes e diferenciadas, conclusões que não nos permitem estabelecer uma fórmula exata, mas uma série de caminhos para lá chegar. Em breve andaremos pelo país com uma rulote para fazer um rastreio à felicidade de cada português. Será um rastreio pago, mas apenas porque como no caso de comprar o meu livro, dar dinheiro aos outros ajuda à nossa própria felicidade. Daí que os lesados do BES, no fundo, até estejam felizes por terem ajudado tanto o Ricardo Salgado.

Se fosse feiticeiro, o que colocaria no comprimido da felicidade? E que orientações escreveria na bula do medicamento?
O comprimido da felicidade está em cada um de nós. Eu sei que já tive o privilégio de ter sido bafejado pelo universo com esta luz que trago às pessoas sob a forma de sabedoria e que agora partilho no meu livro, mas seria de mais considerar-me feiticeiro. Sou especialista em felicidade, sim, talvez até guru se assim o quiserem, mas feiticeiros é só no Harry Potter.
Deixo o conselho: nunca se esqueçam de ser felizes, que é o contrário de ser infelizes e o contrário de ambos é vice-versa.

Na-Boa,-O-Segredo-Portugu+¬s-para-a-Felicidade
Na Boa! O Segredo Português para a Felicidade, de Diogo Faro. Editora: Esfera dos Livros. Preço: 14 euros.