OPINIÃO

Shawn Mendes: o rapaz do momento

Justin Bieber tem sucessor. E com sotaque português.

Justin Bieber tem sucessor. E com sotaque português. Shawn Mendes, filho de um algarvio de Lagos, cresceu no Canadá e é um ídolo para adolescentes do mundo inteiro. Esta é a história de um concerto à beira da histeria, em Madrid. E de como a internet produziu um fenómeno que chegou ao primeiro lugar dos tops.

O primeiro espetáculo que Shawn Mendes deu ao vivo foi em Portugal. Aconteceu há três anos, aconteceu na Baixa de Lagos e aconteceu espontaneamente. O pai, Manuel Mendes, queria mostrar as raízes familiares aos filhos e tinha organizado umas férias no Algarve. Era verão – o rapaz lembra-se de que estava mais quente do que em Toronto, a cidade canadiana onde vive e nasceu há 17 anos. «Os meus pais andavam por ali a fazer compras e eu fui para o centro de uma praça. Pus-me a cantar em voz alta uma música do Bruno Mars. As pessoas pararam, ficaram a assistir, no final aplaudiram. Pronto, correu bem.»

Há umas semanas, Shawn cantou em Madrid e agora estava muito longe de ser um ilustre desconhecido. Os bilhetes para o concerto esgotaram em três horas e na verdade ele quase não precisava de ter cantado nada, porque o público conhecia todas as letras de cor e entoou-as em uníssono, durante mais de uma hora. Desde Justin Bieber que o mundo não conhecia um fenómeno adolescente destas dimensões. Mendes chegou ao primeiro lugar do top da tabela da revista Billboard com o álbum de estreia, Handwritten. E são precisamente essas músicas que subiram ao palco do Teatro Monumental no início de setembro.

Muitas horas antes do início da festa já uma multidão em plena puberdade fazia fila junto ao edifício vetusto no centro da capital espanhola. Havia duas placas presas na parede. Uma era permanente e celebrava o facto de Sergei Prokofiev ter estreado naquela sala o seu segundo concerto para violino, em 1935. A outra era de cartolina e oferecia vinte euros a quem tivesse um bilhete disponível para o concerto de Shawn Mendes, o dobro do preço original. À medida que as horas iam passando, Cristela Diaz, 14 anos, ia aumentado a parada com uma caneta de feltro. Subiu a oferta para 25 euros, depois para 30, quando as portas abriram estava disposta a pagar 50. «São todas as minhas economias.» Quando o espetáculo ia a meio a rapariga teve de se render às evidências. Sentou-se desconsolada nos degraus da entrada à espera que a mãe a viesse buscar, lavada em lágrimas.

Duas horas antes dos primeiros acordes, à entrada para o teatro, Claudia Alonzo, 16 anos, agitava uma bandeira portuguesa. «Passou aqui uma rapariga de Lisboa que não conseguiu bilhetes e pediu-me para entregar isto ao Shawn», explica. Há uma onda de solidariedade nessas filas de espera em que as adolescentes passam horas à espera de entrar nos concertos. Partilha-se água, comida e sombra, contam-se histórias de como descobriram aquelas músicas e de como isso mudou as suas vidas para sempre. É assim que nascem os clubes de fãs.

Antes do concerto há um meet and greet: cem fãs vão poder conhecer e cumprimentar Shawn e não há ninguém que não esteja à beira da histeria. Primeiro eles entram para o hall do teatro, depois dirigem-se ao palco, onde estão três pessoas: o cantor, um segurança e um assistente que tira as fotografias com os telemóveis. Shawn não diz quase nada. Sempre que uma rapariga se aproxima ele sorri e assume uma de três poses para a câmara: com o braço por cima dos ombros da fã, com os dedos entrelaçados ou a envolvê-la num abraço pelas costas. Muitas miúdas levam presentes, cartas de amor, fotografias. Sem uma palavra, sem sequer olhar para o que acabou de receber, ele entrega os embrulhos e os envelopes ao segurança, que os deposita num enorme saco de plástico negro. «São os meus pais que veem se alguma coisa interessa», haveria de contar mais tarde. «Há miúdas doidas, que me mandam os soutiens e coisas assim. Outras mandam perfume, cuecas, e isso dá jeito. As cartas não tenho tempo para ler.»

Foi nas redes sociais que Shawn Mendes se tornou um fenómeno para as adolescentes. O rapaz aprendeu a tocar guitarra com um tutorial do YouTube e, há dois anos, começou a postar vídeos no Vine (uma aplicação de partilha de vídeos e fotografias, usado sobretudo por adolescentes) com as suas versões de músicas de Bruno Mars e Justin Timberlake. «Os meus colegas gozavam-me na escola, mas comecei a ter um enorme sucesso e eles não tiveram outro remédio senão calar-se.» Quando as editoras repararam em Shawn, já o Canadá e os Estados Unidos o tinham escolhido para ídolo daquela geração. Ainda antes da saída do único álbum, Shawn foi eleito melhor músico nos Teen Choice Awards, promovidos pela cadeia de televisão FOX e que premeiam as preferências dos teenagers.

Em cima do palco está apenas Shawn e uma guitarra. E está um coro, um enorme coro com três mil vozes que conhecem todas as pequenas variações, todos os ajustes de timbre. Não deixa de ter piada ver um grupo de espanhóis que minutos antes tinham confessado não saber patavina de inglês cantar agora as letras na perfeição. «Gracias, amigos», e a casa quase vem abaixo com o cumprimento na língua nativa. No final do concerto, Shawn há de pedir a toda a gente para se juntar a ele e todos fazerem uma selfie, depois um vídeo, e no encore há de repetir as baladas pop que já tinha tocado, afinal o álbum é novo e o património musical do artista está longe de ser vasto.

É fácil ficar deslumbrado com as luzes, mas Shawn garante que tem os pés assentes na terra. «Os meus pais não me deixam voar demasiado alto.» Ele diz que quer ir para a Universidade de Berkeley, estudar Música, mas vai ser difícil cumprir esse plano quando se abandona a escola e se começa a aprender em cursos à distância. E isso guarda uma certa ironia. Porque, para um lusodescendente de Toronto se tornar um fenómeno global, ele tem de cantar aos adolescentes os dramas do liceu. Só não os pode viver como eles.