OPINIÃO

S.O.S. Natal

Como manter a calma até ao dia 25.

Não vamos dar sugestões de organização para ter tudo pronto a horas na noite H. A solução para não ficar com os nervos em franja é outra: diminuir as expetativas, exigir menos de si e pedir mais ajuda. O que prefere? Chegar à consoada com coisas por fazer mas sem perder a sanidade mental ou ter tudo perfeito e no entanto uma imensa vontade de fugir?

De acordo com a Stress Management Society, no Reino Unido, uma em cada vinte pessoas considera o Natal mais stressante do que um assalto ou um divórcio. Parece mentira, não é? Em cima dos fatores de stress habituais, há uma quantidade de extras a gerir: a compra dos presentes, a decoração da casa, a confeção daqueles pratos todos, a divisão dos dias de festa entre as várias casas e famílias. Porque é que uma altura que devia ser de festa e de paz se tornou, para muitos, um aborrecimento que, quando chega ao fim, nos faz suspirar e dizer: «Felizmente, já passou!»? «O Natal tornou-se um frenesim: de compras, de comida em excesso e de correrias de família em família», diz Conceição Espada, autora do Manual de Gestão de Stress para Empresas [ed. Bnomics] e Gerir o Stress em Tempo de Crise [ed. Pergaminho]. Com cada vez mais casais divorciados, a divisão do tempo das crianças e das segundas famílias, tornou-se uma das questões mais difíceis de gerir. «As famílias alteraram-se, os tempos mudaram, mas é como se quisessem perpetuar costumes que foram criados quando as famílias eram ainda um núcleo fácil de gerir», diz a especialista. Por isso, talvez a regra número um para não stressar nesta altura seja, sem dramas, adaptar a tradição às circunstâncias, sempre que a vida assim o exige.

Já a segunda norma será, sem dúvida, uma boa gestão de expetativas. Encarar a confeção do jantar de consoada como se da última ceia se tratasse, não abdicar de mil e uma decorações em casa, sentir-se na obrigação de dar presentes criativos, e achar que toda a gente tem de se divertir muito e estar imensamente feliz é meio caminho andado para tudo ficar aquém do esperado. E, inevitavelmente, ficar ansioso com cada pormenor que não está como foi idealizado. «Nesses casos, o stress é tal que, em vez de aproveitarmos o momento para nos divertirmos, passamos o tempo preocupados com o que ainda não fizemos, o que provoca uma ansiedade imensa», diz a psicóloga Catarina Castro Lopes. «É esta azáfama que nos deixa muitas vezes mal-humorados e irritados quando ultrapassamos o nosso limite – a nível físico, psicológico e, muitas vezes, financeiro – sentindo que o nosso esforço e empenho não são reconhecidos pelos outros, o que pode causar sentimentos de frustração e ineficácia.» E isto é especialmente verdade para as mulheres. É sobre elas que ainda recaem – por gosto, obrigação, tradição ou falta de hábito do outro lado? – quase todas as tarefas associadas a esta época: cozinhar, comprar os presentes, tratar das decorações e gerir questões familiares nem sempre pacíficas. Para elas, muitas vezes, não há «truques» de planificação que lhes valham. Trata-se apenas de saber delegar e saber deixar cair, abandonando o complexo de supermulher. «As mulheres são as “abelhas-mestras”, mas continuam a perpetuar um papel cada vez mais difícil de gerir. Querem ser tudo ao mesmo tempo e fazer tudo bem feito. Têm imensa dificuldade em delegar, e, de certa forma, não querem deixar de controlar e querem tudo feito à sua maneira», diz Conceição Espada. «Continuam a achar que mais vale fazerem elas do que pedirem para os outros fazerem, porque depois não fica como querem, ou porque demora mais tempo… e acabam por continuar a fazer e a queixarem-se um pouco disso!» Anote a regra número três: delegar tarefas. Mesmo!

Tudo isto é pior para quem tem características de personalidade perfecionista. Aqueles que são rígidos nos seus altos padrões de exigência, quer em quantidade quer em qualidade. «Tentar ser perfeito é altamente desgastante e frustrante, é como se procurasse algo inatingível», alerta Catarina Castro Lopes. Para estas pessoas, defende a psicóloga clínica, as obrigações e as tarefas exteriores tornam-se tão absorventes que se desvaloriza a necessidade de lazer e de relaxar. «Desafie as mensagens da sua voz crítica interior que lhe dizem “Eu devia ter feito melhor”. Reconheça que todos cometemos erros.» Em suma, regra número quatro: admita que há coisas impossíveis e cale essa vozinha interior hipercrítica.

O Natal tem que ver com família, com afetos e com bens que não são materiais. Mas com o incentivo de uns, o entusiasmo de outros e a complacência de todos, transformámos o Natal numa festa dos presentes. «Provavelmente por influência de toda a publicidade, a troca de presentes é cada vez mais valorizada. O valor material passou a ser sobrevalorizado nesta época, em detrimento da união familiar e convívio. O que importa é oferecer bons presentes, surgindo comparações relativamente ao valor de cada um, podendo até levar a conflitos», diz Catarina Castro Lopes.

O Estudo de Natal 2015 da consultora Deloitte, divulgado no final do mês passado, revela que a média por família de gasto total com o Natal se situa nos 315 euros por casa. Quase metade, 143 euros, será gasto em presentes. Um valor total que baixou cerca de 5%, por comparação com o ano passado, mas que, ainda assim, está acima das possibilidades de muitas famílias. Por isso, tire nota desta regra, e leve-a mesmo a sério: não é nos presentes que oferece que está a alegria do Natal, nem a sua nem a dos outros. Se não os pode comprar, tire ideias de alguns sites e faça-os em casa, ou reduza ao mínimo o número de pessoas a quem os dá. Ou não os dê, de todo, e sinta-se tranquilo em relação a isso. Já pensou no ótimo presente de Natal que pode ser uma carta a exprimir o afeto àqueles de quem gosta?

Comida a mais, álcool a mais, sono a menos e a interrupção de esquema habitual de exercício físico também podem ser razões que desequilibram a rotina e permitem que o stress se instale. «Quem já tem hábitos saudáveis, não os deve abandonar. Além disso, em todos os momentos da vida, e em especial no Natal, é aconselhável fazer pequenas pausas de um minuto ao longo do dia, tomar consciência da respiração e abrandar para sentir verdadeiramente o que é importante», sugere Conceição Espada. «A planificação e a organização são fundamentais na gestão de stress, mas, o que acontece a maioria das vezes, é que quando já ele já está instalado é muito difícil planificar e organizar. É uma bola de neve.» Melhor do que remediar o stress é evitá-lo.

Sem paternalismos ou moralismos, talvez o melhor dos conselhos para não stressar este Natal seja este: tentar voltar ao básico e relembrar que, entre aquilo que parece importante e o que é realmente vai uma enorme diferença. Uma diferença grande o suficiente para se estar tranquilo ou não.