Show me the money

Notícias Magazine

Até há pouco mais de um ano, o primeiro quarteirão da avenida Almirante Reis tinha quatro terminais multibanco. Pode parecer um exagero. Mas esta não só é uma das zonas mais povoadas de Lisboa como, na última década, assistiu a uma revitalização comercial tremenda. O bairro do Intendente passou por uma mudança rápida e intensa. Em meia década, transformou-se de zona de exclusão social a novíssima centralidade da cidade. Abriram novos cafés e esplanadas, lojas vintage e cabeleireiros, associações culturais e livrarias – e em todas se paga o que se quer comprar com dinheiro vivo. Só que, há pouco mais de um ano, e aconteceu na mesma semana, três das quatro sucursais bancárias fecharam. Com elas, fugiram as caixas multibanco.

Hoje é bastante comum ver filas de gente no único terminal que resiste. Quatro, cinco, seis pessoas a aguardar a sua vez para levantar dinheiro. Se por acaso alguém quer fazer uma transferência, ou um pagamento, ou qualquer operação mais demorada, tem de suportar a pressão da pequena multidão que aguarda pacientemente pela sua vez. Aos fins de semana não é incomum que o multibanco fique sem dinheiro. Sobretudo quando há concertos ou festas no Largo, coisa que acontece com frequência. Muita gente não se dispõe a caminhar quase um quilómetro para ir levantar dinheiro e acaba por poupar no consumo. Eu nunca tinha pensado nisto antes, mas agora parece-me bastante óbvio: quando os bancos eliminaram dependências e terminais ATM, o comércio local viu a faturação diminuir. Há menos dinheiro disponível, então também há menos economia a acontecer.

O problema não se limita ao primeiro quarteirão da avenida Almirante Reis, em Lisboa. Em 2010 havia em Portugal 14 318 terminais multibanco e hoje são menos de 12 500. É uma redução de 12,5 por cento, sensivelmente. Cinquenta e cinco por cento dos ATM não estão sequer em dependências bancárias, mas sim em centros comerciais, supermercados, universidades e escolas, estações de serviço e de comboio, instituições públicas. No interior do país, só existe muitas vezes multibanco porque as juntas de freguesia pressionam os bancos a instalá-las nas sedes dos organismos. Segundo a lei não há qualquer obrigação dos operadores em fazerem uma cobertura eficaz do território. E esse, com o tempo, pode tornar-se um sério problema.

Ao contrário dos terminais de pagamento automático que existem nas lojas e restaurantes, os bancos não recebem qualquer taxa com a maioria das operações que realizamos no multibanco. No final de 2016, aliás, o Banco de Portugal fez um estudo que dizia que este era um negócio que dava prejuízo às instituições financeiras. Então, apesar de sermos ainda o país da UE com o maior racio entre população e terminais de levantamento de dinheiro, e de possuirmos um dos sistemas que permite realizar mais operações através das caixas automáticas, começa a parecer cada vez mais evidente que as filas para levantar dinheiro no meu bairro não vão desaparecer tão cedo. Este é cada vez mais o tempo da transação. O dinheiro, vejo eu todos os dias no meu bairro, morreu.