OPINIÃO

Estes miúdos viram a ciência do avesso e ganham prémios na Europa

A final europeia do concurso de jovens cientistas realizou-se na Estónia durante esta semana. Duas raparigas e quatro rapazes representaram Portugal com um pilarete automático que ajuda pessoas com mobilidade reduzida a estacionar e um fungicida com algas que salva castanheiros. O primeiro projeto ganhou o prémio da cidade de Tallinn e o segundo foi apurado para participar numa feira de ciências e engenharia nos Estados Unidos em 2018. Há 25 anos que o Portugal organiza competições destas.

Texto Sara Dias Oliveira

Venceram cá dentro e, por isso, mostram as ideias lá fora. Um pilarete automático que reconhece matrículas de carros que transportam pessoas com mobilidade reduzida e um fungicida à base de algas que protege castanheiros. Estes são os dois projetos que venceram a 25.ª edição do Concurso para Jovens Cientistas, promovido pela Fundação da Juventude. As ideias e os seus autores estiveram na final da competição europeia em Tallinn, Estónia, e trouxeram prémios da iniciativa que juntou 200 jovens de 38 países.

O Easypark é um pilarete automático, ou melhor, um poste vertical resistente, colocado nos locais de estacionamento prioritário, ativado através das matrículas dos carros que transportam pessoas com mobilidade reduzida, e que barra a entrada a viaturas não autorizadas. O projeto de três alunos da Escola Secundária de Oliveira do Bairro ganhou o primeiro prémio nacional na categoria de Engenharia. E hoje conquistou o Prémio Governamental da Cidade de Tallinn, no valor de mil euros. Um prémio atribuído a projetos com elevado potencial de aplicação no desenvolvimento urbano e que se ajustem às mais recentes tendências das smartcities (cidades inteligentes).

A ideia partiu de Beatriz Bastião que sente na pele essa dificuldade. «Desloco-me em cadeira de rodas e apercebo-me, com frequência que há condutores que ocupam esses lugares prioritários indispensáveis a pessoas com mobilidade reduzida.» O projeto é inovador e nasce para melhorar a qualidade de vida de pessoas com deficiências físicas, aumentar a sua independência, e reduzir desigualdades sociais, um dos objetivos do Milénio.

Beatriz, de 17 anos, aluna do 12.º ano de Línguas e Humanidades, partilhou o que andava a magicar com os colegas Luís Pinto e Olavo Saraiva da área de Ciências e Tecnologias. Afinaram pensamentos e puseram mãos à obra. «Eu tinha a ideia, eles tinham a habilidade, era a equipa perfeita porque tínhamos os dois lados.»

Beatriz, de 17 anos, aluna do 12.º ano de Línguas e Humanidades, partilhou o que andava a magicar com os colegas Luís Pinto e Olavo Saraiva da área de Ciências e Tecnologias. Afinaram pensamentos e puseram mãos à obra. «Eu tinha a ideia, eles tinham a habilidade, era a equipa perfeita porque tínhamos os dois lados.» E, desta forma, surgiu o protótipo do pilarete que já despertou a atenção da Universidade de Aveiro.

Antes da partida para Tallinn, Beatriz traduziu toda a documentação para inglês, para as apresentações ao júri, e os colegas aperfeiçoaram o poste. «Otimizámos o protótipo, que é um pouco artesanal, para ter melhor aspeto».

A estreia da equipa no concurso nacional correu bem e Beatriz começou a interessar-se por esse mundo científico. Depois do 12.º ano, pensa seguir Tradução ou Relações Internacionais, Luís anda inclinado para Engenharia Informática ou Multimédia, Olavo ainda anda a pensar que área seguir.

O outro projeto que representa Portugal nos 25 anos do Concurso para Jovens Cientistas ganhou o primeiro prémio na categoria de Ambiente. Chama-se ShealS (Sea Heals Soil) e é um fungicida natural à base de extratos de algas da costa portuguesa que inibe em 63% o crescimento de um fungo que ataca os castanheiros com a doença da tinta. A equipa é do Colégio Luso-Francês do Porto que esta terça-feira foi apurada para a Feira internacional de Ciências e Engenharia (Intel ISEF), que terá lugar em maio do próximo ano em Pittsburgh, nos Estados Unidos.

O Concurso para Jovens Cientistas surgiu em 1992 numa iniciativa da Fundação da Juventude, para estimular jovens talentos, dos 15 aos 20 anos, nas áreas da ciência, tecnologia, investigação e inovação. Os projetos científicos têm de estar concluídos antes de os alunos entrarem na universidade.

Desde o 10.º ano que Francisca Martins, Eduardo Nogueira e Gabriel Silva andavam às voltas com o projeto. Perceberam que tinha qualidade, que podia fazer a diferença. Francisca tem números importantes debaixo da língua: Portugal tem perdido 50% da produção de castanhas desde 2004 e perde setenta milhões de euros todos os anos na sua comercialização por causa, sublinha, desse «pseudo fungo que é muito prejudicial para os castanheiros».

Como o colégio tem projetos ligados às algas marinhas, a equipa aproveitou a oportunidade e os castanheiros do jardim da escola para testar o que ia engendrando. «É uma área que nunca foi estudada, é uma boa contribuição para o mundo da ciência». Antes da partida para a Estónia, o trio continuou a testar o fungicida nos castanheiros do colégio para chegar a um método mais eficaz que não prejudique as plantas e o solo. «Tentamos, ao máximo, melhorar e sentimos que três anos do nosso trabalho valeram a pena.»

Com o prémio nacional, a participação internacional. Beatriz estava entusiasmada antes da partida. «Vamos partilhar experiências com pessoas da nossa idade e com cientistas mais velhos que vão olhar para nós de igual para igual. Vai ser um concurso muito interessante, vão avaliar o nosso projeto e qualquer crítica é muito construtiva».

O fungicida já tem patente e pode ser comercializado. «É importante perceberem que alunos pré-universitários também podem dar contributos importantes para a ciência.» Francisca de 18 anos entrou este ano em Medicina, Eduardo de 18 anos entrou no mesmo curso e Gabriel de 17 anos em Engenharia Química.

DE JOVEM CIENTISTA A ASTROFÍSICO FAMOSO

Em 2004, David Sobral tinha 18 anos e estava na final dos jovens cientistas europeus em Dublin. Era a sua primeira viagem ao estrangeiro e ficou de boca aberta com o que viu: motores a jato, fórmulas químicas para criar medicamentos, algoritmos para melhorar a segurança das redes wireless. «Foi fabuloso, foi muito marcante a qualidade dos projetos, e pensei: «Se uma pessoa da minha idade faz isto então também quero fazer algo assim. E isso deu-me motivação.»

David tem hoje 31 anos e é um astrofísico reconhecido mundialmente. Liderou a equipa internacional que descobriu a galáxia mais brilhante do Universo primitivo que batizou de CR7 (pelas iniciais das coordenadas e pelo jogador português). É professor universitário no Reino Unido, tem mais de 50 publicações internacionais, investiga o Universo.

O astrofísico David Sobral concorreu sozinho, há 13 anos, quando era aluno do 12.º ano da Secundária Alfredo da Silva, do Barreiro, com um estudo sobre projéteis que pretendia medir a trajetória de bolas de desporto para perceber qual o melhor ângulo para o esférico atingir um objetivo.

Há 13 anos, no 12.º Concurso para Jovens Cientistas, da Fundação da Juventude, David era aluno do 12.º ano da Secundária Alfredo da Silva do Barreiro e conquistou o quarto prémio na competição nacional. Concorreu sozinho com um estudo sobre projéteis que pretendia medir, em ambiente controlado, em laboratório, a trajetória de bolas de desporto para perceber qual o melhor ângulo para o esférico chegar mais longe ou atingir um objetivo. Foi um pouco a correr. «Não fazia a mínima ideia de que o concurso existia e tive pouco tempo para desenhar o projeto».

David chegou a pensar seguir línguas e literatura moderna, escrevia poesia e contos no suplemento DN Jovem, do Diário de Notícias, mas já havia ali uma inclinação para o mundo científico. «Estava bastante interessado em ciência, mais virado para a Física, e senti que era uma boa oportunidade». E foi.

Formou-se em Física na Faculdade de Ciências de Lisboa, tirou o doutoramento na Universidade de Edimburgo e de seis em seis meses ia ao Havai, para o cimo de uma montanha, fazer observações astronómicas para medir a taxa de natalidade do universo desde o início dos tempos para entender quantas estrelas se perderam – e perderam-se bastantes ao longo de milhões de anos.

Esteve na Universidade de Leiden, na Holanda, com uma bolsa de investigação, agora é professor na Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e faz parte da Sociedade Portuguesa de Astronomia. Conquistou vários prémios e bolsas importantes na área da ciência. E não esquece aquele concurso de há 13 anos. «Foi absolutamente fundamental». Agora lá fora continua nos caminhos da ciência, a estudar o universo primitivo, as primeiras estrelas, as primeiras galáxias, os primeiros buracos negros.

«FOI UM ORGULHO MOSTRAR O QUE FAZEMOS NO NOSSO PAÍS»

Nove anos depois, em 2013, um pouco mais a norte, três raparigas andavam a matutar num projeto que tivesse utilidade para os mais velhos. Jéssica Marques, então aluna do 10.º ano, não esquece o cartaz amarelo na sua escola, a anunciar a 21.ª edição do Concurso para Jovens Cientistas. Pediam-se ideias, o envio de projetos.

Os alunos ficaram entusiasmados e alguém falou em facilitar a toma de medicamentos nos lares de idosos. Jéssica Marques, Jéssica Santos e Soraia Gaspar, alunas da mesma turma na Escola Profissional de Rio Maior, juntaram-se e tornaram a ideia mais ambiciosa. «Pensámos numa caixa de medicamentos inteligente para pessoas com mais dependência ao nível de autonomia, para ajudar os idosos a serem mais independentes em suas casas», lembra Jéssica Marques.

E assim surgiu o SmartKit, uma caixa de medicamentos automática e inteligente, predefinida para uma semana, com seis tomas diárias, que emite sinais sonoros e visuais que avisam a hora exata das tomas e que abre um compartimento com os comprimidos que devem ser engolidos. Se o destinatário não carregar num botão, o sistema envia uma mensagem ao cuidador ou a um familiar a avisar que não houve resposta.

A SmartKit, uma caixa de medicamentos automática e inteligente. ganhou o segundo lugar do Concurso para Jovens Cientistas e um bilhete para a participar na final europeia em Praga, onde voltou a chamar a atenção.

A caixa ganhou o segundo lugar do Concurso para Jovens Cientistas e um bilhete para a participar na final europeia em Praga, onde voltou a chamar a atenção. As três jovens ganharam o prémio pela originalidade e uma viagem ao escritório das patentes, em Munique.

«Foi um verdadeiro orgulho mostrar o que fazemos no nosso país, o que os jovens fazem aqui, neste cantinho», diz Jéssica Marques. E não pararam por aqui. Ficaram em terceiro lugar num concurso de ciência na Holanda, ganharam vários prémios de inovação em Portugal, e um convite para apresentarem a caixa de medicamentos no Parque Tecnológico da Andaluzia, em Málaga, Espanha.

O concurso foi absorvente. Mas a caixa não está no mercado, não tem protótipo, tem apenas um pré-registo feito. Jéssica Marques, 21 anos, está no último ano de Educação Básica. Soraia, 25 anos, estuda Enfermagem. Jéssica Santos, 21 anos, é bombeira e acaba de entrar no curso de Serviço Social. «Estamos a estudar e, neste momento, não temos capacidade para investir e elaborar uma estratégia de desenvolvimento. E é preciso investimento para ser comercializado», explica Jéssica. O SmartKit é, portanto, uma ideia premiada sem existência física. Por enquanto.

«Formar uma geração vencedora»

O Concurso para Jovens Cientistas surgiu em 1992 numa iniciativa da Fundação da Juventude, para estimular o aparecimento de jovens talentos, dos 15 aos 20 anos, nas áreas da ciência, tecnologia, investigação e inovação.

Os projetos científicos têm de estar concluídos antes de os alunos entrarem na universidade. Vinte e cinco anos de caminho, mais de quatro mil participantes, mais de 1700 projetos, cerca de mil escolas e professores envolvidos, 16 prémios internacionais.

Os cem melhores projetos participam na Mostra Nacional de Ciência e é aí que as ideias que se destacam são selecionadas para representarem Portugal fora do país.

A Fundação da Juventude tem cinco mil euros para distribuir pelos quatro projetos vencedores e custeia a participação dos jovens nos concursos internacionais, apesar de há dois anos ter perdido o apoio financeiro do Ministério da Educação.

O concurso tem sido valorizado nas escolas e os professores são um precioso elo de ligação. O presidente executivo da Fundação da Juventude, Ricardo Carvalho, está satisfeito com o percurso de um concurso que ganhou raízes. «É um projeto estruturante a nível educativo, a nível nacional. Desde cedo, os jovens começam a ter gosto pelas áreas da ciência e tecnologia, que têm uma elevada taxa de empregabilidade.»

A ciência entra pelas escolas, desmistifica-se a sua complexidade, fala-se em inovação, dá-se corpo a ideias que podem chegar ao mercado. «Se queremos formar uma nova geração, uma nova geração vencedora, os jovens têm de ter apetência por essas áreas das ciências, engenharias, tecnologias, matemáticas.»

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