OPINIÃO

Há sempre amanhã

A vida depois de um AVC dá fotos belíssimas.

Terapeutas de profissão, fotógrafas nos tempos livres, Cristina Soares e Graça Monteiro de Barros fizeram a exposição Devolta na clínica onde trabalham, em Lisboa. Elas devolvem mobilidade e esperança aos seus doentes. E eles voltam à vida com lições excecionais.

Cristina Soares e Graça Monteiro de Barros sonham todos os dias com a recuperação dos seus doentes – é delas a única clínica privada em Lisboa especializada em reabilitação neurológica. Aos seus olhos de fisioterapeutas, cada pessoa que tratam é perfeita, nada do discurso do coitadinho ou da visão da desgraça. Envolvem-se com eles. Trabalham para lhes devolver as vidas que adiaram ao sofrerem um AVC, um traumatismo craniano, uma lesão medular, e eles ensinam-nas a valorizar a saúde que têm, a maravilha que é poder usar mãos e pernas. São tantas as lições ao longo dos anos que as duas, ambas fotógrafas nos tempos livres, quiseram retratar alguns doentes mais antigos e criaram a exposição Devolta. Um hino à capacidade de voltar a ser-se o que se era – no fundo, o sonho de todos realizado em conjunto.

Com a exposição, esperam, ajudarão ainda outros pacientes em situações económicas delicadas com a venda das fotos. «Aqui na FISIO-lógica sempre nos preocupou a condição de algumas pessoas, que vemos terem potencial de recuperação e nenhuns meios para serem tratadas», conta Cristina Soares, uma das três sócias à frente da clínica e coautora da Devolta com Graça Monteiro de Barros (Luísa Prazeres é o terceiro elemento que divide tudo com as amigas, exceto a paixão pela fotografia). «Há dois anos fizemos uma ação de formação com um cientista da Fundação Champalimaud que insiste no anonimato, ele não quis ser pago e sugeriu canalizarmos a remuneração para um fundo de ajuda. A fisioterapia damo-la nós gratuitamente, mas serve para comprar um andarilho, uma cadeira de rodas, pagar a profissionais de reabilitação cognitiva e terapia da fala, o que for.»

De repente, várias forças conjugaram-se para fazer avançar a ideia de uma reabilitação sem entraves: ao montante inicial ofertado pelo cientista, somou-se o facto de o fotógrafo Rui Ochôa ter-se feito amigo de Cristina e Graça (sua terapeuta) graças ao gosto partilhado pelas câmaras. Foi ele quem lhes deu a ideia para a exposição, emprestou os flashes e ficou até às tantas da manhã na clínica de Campo de Ourique a pendurar fios de nylon em vésperas da inauguração, a 1 de julho. Ajudou-as também a editar as 19 fotografias de vinte dos seus pacientes que aparecem a sorrir, positivos, sem esconderem nem explorarem a deficiência. «A Devolta é quase uma troca por troca», resume Graça, esperançada em que o preço simbólico de cem euros por cada retrato ajude a alimentar o fundo. «Aprendemos todos os dias com eles, em luta constante para voltarem a partes da vida que tinham antes. Agora podemos nós mostrar ao mundo as pessoas únicas que são.»

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Ana Filipa Batista e Simão da Veiga voltaram à vida ativa. Manuel de Medeiros Silva (com a terapeuta Rita Brandão) regressou finalmente à sua ópera.

Manuel de Medeiros Silva, 71 anos e há dois a recuperar de um AVC, sentiu esta mesma gratidão ao ver-se em grande plano na parede da clínica: «A maioria ainda tem muitas limitações no dia-a-dia, deixámos de fazer coisas que eram importantes para nós devido a uma situação incapacitante, mas nas fotos temos um aspeto perfeitamente natural», elogia o professor catedrático aposentado do Instituto Superior Técnico. Pode dizer-se, assegura, que a exposição é um daqueles casos em que o todo é muito mais do que a soma das partes. Resultou numa homenagem aos pacientes e às próprias terapeutas, que não se fixam no rescaldo das doenças e sim nas virtudes de quem tratam: «Elas têm uma preocupação muito grande em estimular os doentes, em fazer que acreditem na sua capacidade de recuperação e que retomem o gosto de viver.»

Na altura do internamento, incapaz de parar mesmo quando o corpo parou por si, chegou a escrever um artigo para a principal revista da sua especialidade em circuitos e sistemas eletrónicos, a Transactions on Circuits and Systems. Continua a colaborar nas atividades do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores – Investigação e Desenvolvimento em Lisboa (INESC-ID), além de orientar trabalhos de mestrado e doutoramento e ajudar as pessoas do instituto a escreverem artigos, relatórios, candidaturas e afins. Só lhe faltava poder ir à ópera para ser feliz, mas até isso é algo que já faz hoje em dia. «O que mais me custou quando estive hospitalizado foi ter uma quantidade de bilhetes pré-comprados e não poder beneficiar deles. Ainda assim, sinto ter aguentado melhor do que esperava as dificuldades e a frustração da doença.»

Ana Filipa Batista, 38 anos e consultora informática, partilha desta perceção otimista: «Em dezembro de 2009 tive um AVC hemorrágico, um dos piores tipos, e posso dizer- lhe que alterou todas as minhas rotinas: era superdesportiva, ia ao ginásio três vezes por dia, tinha a minha filha com 19 meses na altura e fazia tudo e mais alguma coisa, não parava», conta. Estava a falar ao telemóvel quando um formigueiro localizado na mão lhe percorreu o braço e desceu até ao pé, demolidor – e ela sempre lúcida, a abarcar o pesadelo. Já no Centro de Reabilitação de Alcoitão, em cadeira de rodas, dava cursos de costura criativa para animar os outros, embora a sua própria evolução só viesse a acontecer após juntar-se à FISIO-lógica em 2011. «Ainda com uma mão que não faz quase nada, cozinho, trato da minha filha, do marido, da casa, já fiz asa delta, costuro… Tornei-me melhor pessoa. Tolerante, centrada na família e naquilo de que gosto», diz.

Também Nuno Duarte sublinha a importância de não se desistir da vida, independentemente das surpresas que nos reserva. «O caminho nem sempre é liso e a direito, às vezes tem buracos, solavancos, ressaltos, mas mesmo assim temos de insistir – é isso que sinto ao ver-me naquela imagem da exposição, poderosa.» Sozinho no mar, a surfar na Caparica aos 28 anos (tem 32), sentiu-se mal e teve a perceção de que o melhor era sair da água. «Foi a minha sorte, porque ainda consegui subir o paredão para a zona dos restaurantes e dos bares, mas já não fui capaz de ir mais longe e pedi ajuda.» Passou por Alcoitão como Filipa, só depois iniciou a sua luta diária na clínica, ainda a ver resultados ao fim de quatro anos. Há três semanas voltou a erguer-se sozinho na prancha e fez uma onda de pé, a primeira desde o AVC.

«As terapeutas dizem que a grande fisioterapia começa quando saímos da porta da FISIO-lógica e é verdade. Aconteceu esta coisa terrível, que me deixou incapacitado e me afastou do mar, mas continuei a insistir e já lá estou de novo», orgulha-se, minimizando a fraqueza na musculatura da perna e da anca, o coxear, a falta de movimento na mão esquerda – assim como assim, trabalha em consultoria fiscal e é rapidíssimo a teclar com a mão direita, para quê desesperar? «Parece um cliché, mas levo a vida de outra maneira agora, com outro olhar. Há dois anos e meio fui pai e estou a viver a minha paternidade com tudo o que sou.» Cristina Soares confirma esta capacidade de valorizar o que se tem e que os faz a todos – pacientes e cuidadores – dar o melhor de si enquanto pessoas: «Uma senhora disse que compra cinco fotos para oferecer aos doentes que não têm hipótese de adquiri-las; outro senhor ofereceu-se para ficar com todas. Percebemos que ainda há muita gente boa e só isso já é uma lição fantástica a tirar disto tudo.»

Ana Pago
Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens