Roberto Martínez, o diplomata habituado a vestir o fato de intruso

Aos 16 anos, Roberto Martínez trocou a terra natal por Saragoça e, perto dos 20, deixou Espanha para não mais voltar. Como jogador, nunca conseguiu grandes feitos. Como técnico, deu nas vistas com o “Swansealona”, mas foi a Taça de Inglaterra conquistada pelo Wigan que mais o projetou. Na seleção belga, conseguiu um terceiro lugar no Mundial e andou mais de três anos no topo do ranking da FIFA. Mas a história não teve final feliz. Dele, dizem que é um estudioso nato e um homem de consensos, um treinador empático e multicultural. A história e o perfil do homem que tem nas mãos o destino da equipa das quinas no Europeu.

Aos seis anos, quando via futebol com o pai, a conversa já era menos sobre golos e remates e mais sobre superioridade numérica e o porquê de um dado jogador aparecer sozinho na área. Em casa, havia até uma espécie de Subbuteo, que servia de base para discutir tática e estruturar equipas. Hoje, aos 50 anos, e ao fim de 17 como treinador, Roberto Martínez enfrenta o desafio capital ao comando da seleção portuguesa: potenciar o talento que corre nas veias desta geração de futebolistas e desenhar uma equipa que permita a Portugal repetir, no Europeu da Alemanha – que arranca na próxima sexta-feira -, o inesquecível título de 2016. Para já, o registo nos jogos a doer é imaculado, com dez vitórias noutros tantos jogos de qualificação para o Euro. Mais: é quase consensual que o futebol praticado pela seleção é hoje mais apetecível, quando comparado com o da era Fernando Santos. Ainda assim, há uma dose de ceticismo que não o larga. Seja porque convocou Pedro Neto e não Ricardo Horta, Pedro Gonçalves ou Trincão, seja porque, até hoje, só ganhou uma Taça de Inglaterra e uma League One (terceiro escalão do futebol inglês), seja, simplesmente, porque não é um treinador português. Mas o fato de intruso há muito deixou de lhe ser estranho. Lá chegaremos.

Natural de Balaguer, município na província de Lérida que dista centena e meia de quilómetros dos Pirenéus, Roberto Martínez quase nasceu com a bola nos pés. Culpa do pai, jogador e treinador do clube local, ídolo de toda a vida. “O meu pai nunca foi treinador profissional, mas fazia-o como se treinasse uma equipa profissional, e para mim isso foi uma lição muito grande, de que em tudo o que fazes tens de dar tudo”, contou, em tempos, num documentário da Movistar. A infância passou-a sobretudo entre o negócio dos pais, uma sapataria, e o campo pelado da terra, eternizado como o “pequeno Maracanã”. Talvez por isso, acalentava dois sonhos particularmente distintos: por um lado, queria ter uma sapataria; por outro, gostava de ser jogador de futebol. Foi em nome do segundo que, ainda adolescente, se despediu dos pais e se mudou para Saragoça, para jogar nas camadas jovens do clube. A mãe ficou num aperto, o pai vaticinou o pior. Que era um erro, que não ia acabar os estudos, que ia fumar e beber. “Mas eu prometi que não e cumpri”, jurou, em entrevista ao “Alta Definição”, da SIC.

Duas fotos que constam do livro que a mãe, Amor Montoliu, escreveu sobre Roberto. Chamou-lhe “Pasión por el fútbol”. Na primeira foto, ainda bebé, o espanhol já aparece agarrado à bola, no campo do Balaguer. Em baixo, uns anos depois, já equipado a rigor, surge com o pai, também ele jogador e treinador de futebol, sem nunca ter chegado a ser profissional. Ainda assim, o selecionador português conta com frequência que foi ele a grande inspiração para a carreira que tem feito

O primeiro treinador que teve em Saragoça confirma-o. “Era um rapaz sério, muito responsável, que não criava problemas, que era muito querido por todos e se preocupava sobretudo com os estudos”, recorda Manolo Nieves, icónico guarda-redes do Saragoça. O empenho de Roberto era tal que, angustiada com a possibilidade de o filho andar a estudar demasiado, a mãe fazia questão de ligar à senhora responsável pela residência em que ele estava, para se certificar de que já tinha apagado a luz. Foi lá, nessa residência onde viviam “dez a doze jogadores” dos vários escalões do clube, que estreitou laços com Xavi Aguado. Quando Roberto chegou, já Xavi, que viria a ser o futebolista com mais jogos (473) na história do Saragoça, estava na equipa principal. Mas os cinco anos de idade que os separam não foram nunca entrave a uma amizade que se eternizou, garante o antigo defesa, em conversa com a “Notícias Magazine”. “Somos os dois catalães e demo-nos bem desde o primeiro dia. O Roberto era como um irmão mais novo. Passávamos as tardes juntos, víamos muito futebol, até íamos ver os jogos do Barcelona em casa.”

Uma foto tirada na residência em que viveu, quando se mudou para Saragoça, ilustrativa do empenho nos estudos que é relatado por todos

Nos poucos tempos livres, gostavam de se escapulir até ao casino local, onde o atual selecionador português sempre teve mais sorte. Xavi puxa a fita atrás com uma gargalhada à mistura. “Eu era um desastre, ele não. Sempre lhe disse que nasceu com o rabo virado para a lua [tradução livre da expressão espanhola ‘tener uma flor en culo’].” Pelo meio, Roberto continuava a arranjar tempo para prosseguir os estudos. Ainda em Espanha, licenciou-se em Fisioterapia. “Lembro-me que o acompanhei quando se foi matricular”, partilha Xavi. Outra memória que tem particularmente vincada é a de um interesse incomum pelos aspetos técnicos e táticos do jogo. “Queria muito entender a forma de as equipas jogarem, de se posicionarem, precisava sempre de saber o porquê das coisas. E isso num jogador dos juvenis era muito pouco usual. Sempre foi um rapaz muito avançado para a idade.” Mais tarde, no final da época 1992/93, o ex-futebolista apadrinhou também o momento mais alto de Martínez com a camisola do Saragoça: a estreia na equipa principal, frente ao Atlético de Madrid, em pleno Vicente Calderón. Xavi, como era hábito, foi titular, Roberto entrou no decorrer da segunda parte e esteve “muito bem”, garante o amigo-irmão. Manolo Nieves, o treinador que o acompanhou ainda nas camadas jovens, não lhe poupa elogios. “Era um futebolista com muita qualidade técnica, um médio centro que mandava em campo, o jogo passava todo por ele. Era dos jogadores mais importantes.”

Roberto (à esquerda) está com Pedro Fuertes e Xavi Aguado, que também viveram na residência em Saragoça

Jogador modesto e voz do Pro Evolution Soccer

Atributos que não chegaram para convencer os responsáveis pelo Saragoça. A breve aparição no Calderón foi uma vez sem exemplo e Roberto acabaria por rumar a Inglaterra sem nenhuma outra experiência de relevo na primeira linha do futebol espanhol. Mesmo que, na altura (em meados dos anos 1990), o ingresso de jogadores espanhóis no futebol britânico fosse ainda um fenómeno raro – ainda mais numa equipa do quarto escalão, como era o Wigan. O clube acabara de ser comprado por Dave Whelan, antigo jogador e empresário de sucesso, que chegou aos “latics” com uma ideia auspiciosa. “A princípio, quando nos falaram do projeto, parecia uma história de desenhos animados: um clube da quarta divisão que queria subir à Premier, que queria construir um estádio para 25 mil pessoas. Mas a verdade é que acreditámos”, recordou Roberto, à Movistar. E assim, no arranque da época 1995/96, mudou-se com Jesús Seba (ainda hoje seu adjunto) e Isidro Diaz para Inglaterra, fazendo história: os três foram os primeiros atletas não-britânicos a representar o Wigan.

E se o início não foi um mar de rosas – o selecionador português revelou à AS TV que não falavam uma palavra de inglês, que não conseguiam encontrar um único café expresso decente e que eram olhados de lado por virem do futebol espanhol, mais virado para a técnica e menos para o poderio físico -, acabaram por não se dar mal. O facto de terem ido para uma modesta quarta divisão também ajudou, reconheça-se. Certo é que ajudaram o clube a subir ao terceiro escalão, ganharam uma alcunha conjunta (The three amigos) e celebrizaram-se a festejar os golos com gestos taurinos.

“The three amigos”, como ficaram conhecidos Jesús Seba (esquerda), Roberto Martínez (centro) e Isidro Diaz (direita) quando se tornaram nos primeiros não-britânicos a representar o Wigan

Depois, já no início dos anos 2000, rumou à Escócia, para jogar no Motherwell. Ficou pouco tempo, mas a passagem sumária haveria de lhe mudar a vida para sempre: foi lá que conheceu a mulher, Beth, “o treinador dentro de casa”, nas palavras do próprio, com quem mais tarde teria duas filhas, Luella e Safiana. Depois, ainda passou pelo Walsall, esteve quatro anos no Swansea, mais um no Chester City. No Swansea, que na altura militava nos escalões secundários, viveu possivelmente o melhor período enquanto jogador, sem nunca ultrapassar a fasquia de futebolista mediano. Ele próprio tinha noção disso. O caminho de treinador começou a insinuar-se aí. “Como sabia que não era melhor do que os outros e que tinha que tentar convencer o treinador, tentava pôr-me na cabeça dele”, realçou na SIC. Jorge Leitão, antigo avançado que chegou a partilhar o balneário com ele no Walsall – e as viagens para o treino, dado que moravam perto um do outro – recorda, à “NM”, “um bom jogador e um excelente companheiro de equipa, que motivava sempre os companheiros mesmo que não jogasse”. Acima de tudo, lembra-se de já na altura achar que ele ia dar treinador. “Íamos tomar café depois do treino e falávamos dos exercícios que tínhamos feito. Os que ele achava interessantes até os anotava. E o próprio treinador, quando ele não estava na convocatória, pedia-lhe que analisasse o jogo da nossa equipa e da equipa adversária e falava com ele ao intervalo.”

Daí em diante, “Bob”, como lhe chamam os amigos, não mais voltou a Espanha, pelo que a ligação com a “afíción” espanhola é quase inexistente. A definição que os media ingleses lhe atribuíram em tempos diz quase tudo: “Um treinador britânico nascido em Espanha”. Mas as origens e a ligação à família nunca se perderam. A prova é que ainda hoje traz ao peito uma medalha de San Crist de Balaguer, o santo padroeiro da terra. E que, com o primeiro salário a sério, fez questão de comprar um anel de diamantes para a mãe e um relógio para o pai. Em Inglaterra, floresceu também uma amizade com Jordi Cruyff, filho de Johan Cruyff, eterna referência para Roberto, como se perceberia mais tarde, nos primeiros anos como treinador. Quanto a Jordi, os dois tinham-se defrontado no futebol de formação, quando Roberto estava no Saragoça e o filho de Cruyff no Barcelona. Um dia, cruzaram-se por acaso num restaurante de Manchester e a partir dali tornaram-se inseparáveis. Ao ponto de o lendário jogador do Barça lhe dedicar umas linhas na sua autobiografia: “Em Inglaterra, o Jordi encontrou o irmão que não lhe pudemos dar. Foi assim que acabámos por ver o Roberto. Um tipo estupendo, um homem aberto e sincero”.

Um jogo entre as camadas jovens do Saragoça e do Barcelona, em que Roberto (atrás) defrontou Jordi Cruyff (à frente). Os dois acabariam por se tornar amigos em Inglaterra

Como jogador, Bob ainda arranjou tempo para fazer uma licenciatura em Marketing e para se tornar comentador televisivo de futebol, ao lado de Guillem Balague, jornalista e escritor, biógrafo de Maradona, Guardiola, Messi ou Cristiano Ronaldo. “Fui eu que o convidei para vir para a Sky Sports. Na altura ele jogava no Motherwell, na Escócia, e andava três horas de carro para cada lado para vir fazer comentário. Mas fazia-o encantado.” Começou por integrar o programa “Spanish Football” (dedicado ao futebol espanhol, como se percebe pelo nome), mas, com o tempo, foi participando noutros. Na Sky, esteve quase 15 anos. Pelo meio, comentou Europeus e Mundiais na ESPN e ainda integrou um programa da CBS dedicado à Liga dos Campeões. Guillem, impulsionador deste trajeto televisivo e ainda hoje amigo pessoal do selecionador português, lembra um comentador “muito metódico, muito estudioso, com uma ideia muito clara de como praticar o melhor futebol”. “Hoje fala-se muito na síndrome do impostor. Eu diria que ele tem um pouco disso, como se tivesse que provar constantemente o seu valor”, salienta o escritor, em jeito de explicação para o facto de o técnico estudar o futebol exaustivamente. Acrescenta que tem uma empatia “muito grande” e que é um diplomata. “Não acredita que tenha de andar aos gritos para ser um bom treinador. Não é que tenha medo do conflito, mas prefere resolver as coisas de outra maneira. E isso é importante num selecionador. Além do calibre de conhecimento, também tem de ser um diplomata.” Sobre a “carreira” como comentador, vale a pena lembrar que os dois se tornaram, no início dos anos 2000, vozes oficiais do Pro Evolution Soccer (versão espanhola), referência incontornável entre os jogos eletrónicos de simulação de futebol. “No início, lembro-me que me pediu para não contar a ninguém que o tínhamos feito. Creio que achava algo pouco sério. Mas eu sempre achei o contrário, que aquilo de alguma forma nos deu uma imagem de culto”, partilha Guillem.

Um herói em Wigan e um final agridoce na Bélgica

Se como jogador nunca foi brilhante, a inteligência tática que demonstrava e a capacidade de liderança cedo deram nas vistas. Que o digam os dirigentes do Swansea, que em 2006/07 o convidaram para regressar, dessa feita como “jogador-treinador”. Mas o banco depressa falou mais alto. O mister Roberto não apostou nunca no médio Roberto e rapidamente passou a assumir em exclusivo as funções de treinador. Admirador confesso do estilo de jogo do Barcelona de Cruyff, o técnico transportou para o futebol inglês o perfume do futebol espanhol e as influências do “holandês voador”. Os admiradores garantem até que conseguiu conciliar o melhor dos dois mundos. No documentário da Movistar, Martínez detalha que o Swansea passou de ser uma equipa que fazia cento e poucos passes por jogo para fazer entre 600 e 700. O futebol praticado valeu ao clube um novo carimbo: “Swansealona”. Pelo meio, conseguiu uma subida ao segundo escalão e por pouco não chegou à Premier League.

Os bons resultados e o futebol apresentado valeram-lhe um convite para regressar a Wigan, agora como treinador e no escalão máximo do futebol inglês (afinal, o plano delirante de Dave Whelan sempre tinha a sua razão de ser, mesmo que tenha levado tempo). Lá, Roberto esteve quatro temporadas, em que foi conseguindo agarrar o clube ao primeiro escalão. O feito maior alcançá-lo-ia, no entanto, na Taça de Inglaterra, a emblemática FA Cup, quando, em 2012/13, bateu o poderoso City e deixou a pequena cidade inglesa à beira da loucura. É certo que, no final dessa temporada, não conseguiu evitar a descida de divisão, mas as gentes locais parecem olhar para esse momento como um percalço menor. Em Wigan, Bob ainda hoje é visto como um herói, com o nome inscrito no passeio das estrelas e o rosto em artigos de merchandising à venda na loja do clube. Também os responsáveis do Everton parecem ter dado mais valor ao feito histórico alcançado na Taça do que à infeliz despromoção, visto que, logo no final dessa temporada, o contrataram para assumir o comando técnico da equipa. Na primeira época, as coisas até lhe saíram de feição (acabou em quinto e bateu o recorde de pontos do clube na Premier League – 72), mas o fulgor daquele arranque auspicioso foi-se perdendo e acabou despedido, em 2016.

Não tardou, porém, a encontrar novo destino. Logo em agosto desse ano, foi apresentado como selecionador da Bélgica, com a missão de fazer explodir uma geração recheada de talentos e de impulsionar uma seleção que não conseguia resultados de relevo desde a década de 1980. E até dado ponto cumpriu: em seis anos no comando técnico dos “diabos vermelhos”, Roberto Martínez disputou dois Mundiais e um Europeu, tendo como ponto alto o terceiro lugar alcançado na Rússia, depois de uma vitória histórica sobre o Brasil nos quartos de final, que muito emocionou o pai. No Euro 2020, disputado em 2021 por causa da covid, caiu nos quartos de final, ante a Itália, depois de ter deixado Portugal pelo caminho nos oitavos. Já o Mundial de 2022, no Catar, foi um pequeno descalabro, com a Bélgica a não passar da fase de grupos e atritos públicos entre os jogadores. Ainda assim, é até hoje o treinador com mais vitórias ao comando da seleção belga e conseguiu a proeza de liderar o ranking da FIFA durante 1239 dias, o terceiro melhor registo de sempre de uma seleção. O tão almejado título, esse, nunca chegou.

Mas o trabalho de Roberto Martínez na Bélgica não se cingiu aos resultados da seleção A. Patrice Sintzen, ex-jornalista belga que acompanhou a seleção durante anos e é hoje coordenador da Comunidade de Treinadores Francófonos de Futebol, lembra que o espanhol promoveu uma espécie de revolução no futebol de formação e no futebol amador. “Aqui ele não era só treinador, também era diretor técnico. E deu luz verde a uma série de medidas importantes.” Uma delas foi autorizar que uma parte do prémio que a federação belga recebeu pelo terceiro lugar na Rússia fosse usado de forma a disponibilizar serviços de fisioterapia às equipas dos escalões amadores. “Creio que o fez porque sempre gostou muito do futebol amador. Quando não tinha compromissos da seleção, ia muitas vezes ver esses jogos.” Também na casa dos “diabos vermelhos”, em Tubize, Roberto teve um papel importante. “Mandou construir mais terrenos, um ginásio próprio para os jogadores, um escritório de onde pudesse assistir aos treinos todos, como o Alex Ferguson. Valorizou sempre muito todos os detalhes e isso ajudou a que o futebol belga evoluísse.” O próprio Eden Hazard, um dos grandes nomes da seleção naqueles anos, teceu-lhe elogios rasgados. “Nós tínhamos outra visão do futebol e ele veio com a ideia do futebol espanhol, de ter mais bola. Com a qualidade que a equipa tinha, foi um casamento perfeito. Além disso, mudaram-se várias coisas, no treino, também fora do campo. E tudo graças a ele porque tem uma visão global. Isso ajudou-nos muito.” Daí que, na Bélgica, muitos reconheçam, ainda hoje, a marca duradoura que deixou. Mesmo que também lhe apontem o facto de, no Catar, ter apostado em jogadores experientes que estavam notoriamente em baixo de forma (Hazard será o exemplo mais gritante, mas não foi caso único), o visível mal-estar no balneário durante esse Mundial – foi pública a troca de bocas entre Kevin De Bruyne e Jan Vertonghen – ou até uma certa “falta de ousadia” nas fases finais das grandes provas.

Nada que tenha impedido a Federação Portuguesa de Futebol de apostar nele para suceder a Fernando Santos. No início do ano passado, Roberto Martínez tornou-se assim no terceiro estrangeiro a assumir a equipa das quinas, depois de Otto Gloria e Luiz Felipe Scolari. A circunstância valeu-lhe uma desconfiança imediata, com vários nomes conhecidos da praça a contestar abertamente o facto de a opção não ter recaído num treinador português. Mas, como já antes foi dito, há muito que Roberto se habituou a vestir o fato de intruso (e, diga-se, não se tem dado mal com isso). Já tinha sido assim quando se mudou para Saragoça com apenas 16 anos, quando foi o primeiro não-britânico a representar o Wigan (e mais tarde a treiná-lo) ou o primeiro treinador nascido fora do Reino Unido a orientar o Everton. Talvez por estar habituado a um esforço extra para se integrar, rapidamente se apresentou a falar português fluentemente, graças a aulas quase diárias.

(Foto: Pedro Rocha/Global Imagens)

Na Cidade do Futebol, tem-se destacado por ser acessível e conversador, por tratar todos os funcionários pelo nome, por perguntar frequentemente se está a pronunciar bem uma palavra, de forma a poder caprichar ainda mais no português. Como treinador, é um estudioso nato que vive e respira futebol. Basta ver que o “hobby” favorito é analisar jogos sem a pressão de ter que fazer relatórios – já por isso, na sala de estar lá de casa, há dois grandes televisores, um para ele e outro para a esposa, algo que lhe “salvou o casamento”, disse em tempos. Consta que não passa sem analisar detalhadamente tudo o que é dado estatístico, mas também não abdica de estar próximo dos jogadores, de saber o que os inquieta, de conversar. Quem com ele trabalhou, diz que subiu a pulso, que nunca nada lhe foi dado de mão beijada, que é empático, um diplomata (o que de resto saltou à vista quando se deslocou à Arábia Saudita para falar com Cristiano Ronaldo, numa tentativa de acalmar as águas depois do diferendo do craque com Fernando Santos). A diplomacia transparece também na aparente tranquilidade que mantém durante os jogos, algo que, em entrevista ao “Alta Definição”, explicou assim: “Se não tenho controlo, não posso ajudar os meus jogadores. Não gosto de ser polícia. O polícia deve estar dentro de cada um.”

Quanto ao estilo de jogo, é hoje um técnico transfigurado em relação ao tempo em que fez do Swansea o “Swansealona”. Assim entende Luís Freitas Lobo, analista e comentador de futebol. “O Roberto Martínez que chega hoje a Portugal é muito diferente daquele que eu conheci no início da carreira. Na altura, era um treinador muito influenciado pela escola espanhola do toque, do futebol apoiado, de assumir o jogo desde trás. Com o tempo, foi perdendo isso. Ganhou outras coisas, é certo. Mas confesso que me seduzia mais no princípio. Hoje já não é o típico treinador espanhol, é um treinador multicultural, que foi absorvendo as diferentes influências dos países por onde passou. Sobretudo quando foi treinar a Bélgica, acabou por se descaracterizar um bocadinho, passou a privilegiar mais a segurança defensiva. Acho que é hoje um treinador mais convertido ao resultado. Não lhe consigo identificar um futebol de autor.” Na equipa das quinas, também é percetível uma evolução. Começou por apostar em três centrais, hoje parece convertido ao 4x2x3x1, tendo abdicado de um central para conferir mais criatividade à equipa. Mas o próprio disse, logo quando chegou, que não acreditava em sistemas táticos. “Acredito no ser humano e no seu talento para ganhar jogos. É preciso ser taticamente flexível.” Resta saber se será essa a fórmula de sucesso para voltar a levar Portugal ao topo – e livrar-se de vez do rótulo de intruso.