Valter Hugo Mãe

O cão


Rubrica "Cidadania Impura", de Valter Hugo Mãe.

Fico com a impressão de que o meu cão, o Crisóstomo, ao cabo dos seus doze anos de idade, lê por dentro de minha alma. O seu ar sempre profundo e mais calado tem todas as respostas. Não necessita de mais pesquisa nem espera do Mundo mais do que nosso gesto de carinho, o sossego para dormir, a comida certa. Para ele, estarmos juntos é o fundamental. Nunca foi de grandes folias nem extravagâncias. Nunca revelou capacidades inauditas, talentos bizarros e sobrenaturais. Ele simplesmente adentra sua própria consciência e vira um sábio, uma espécie de erudito no assunto essencial de sua vida: eu mesmo.

Fazem-me confusão as pessoas que não gostam de cães e não entendem quanto crescemos como gente ao lidar com um animal. Cansa-me seus protestos contra limpezas e cheiros. O meu cão não cheira senão a ele mesmo e temos de enfiar o nariz nos seus pêlos se o quisermos sentir e eu enfio montes de vezes exactamente porque adoro como cheira, como é o meu amigo de abraços tortos, como é tão importante para mim estar seguro de que não se trata de outro que não o meu Crisóstomo, o cão mais lindo do Mundo.

Que tristes as casas que exalam lixívia e são vazias de movimento, vazias de abraços e brincadeiras, que não têm nenhuma corrida para a porta quando toca alguém, que não perdem a cabeça de alegria e entusiasmo, protesto ou medo quando algo acontece. Que casas mortas essas em que tudo é só lavadinho de lixívia que nem se respira de parecer químico igual a ter rebentado ali uma guerra radioactiva.

O Crisóstomo pesquisa minha vida desde que entrou aqui em casa. Observa de perto, por vezes impede que faça algo, tenta sempre impedir que eu saia, claramente porque se me ausento sua pesquisa é um pouco interrompida. Protesta. Amua porque me oferece um amor muito mais incondicional do que o meu por ele. Ele também é bastante melhor pessoa. Não deixa de cumprir nunca. Eu, por outro lado, até por preguiça falho ao amor.

Vem com a pata pedir que lhe coce as orelhas. Por ele, deveríamos estar assim por horas, todos os dias. As orelhas coçadas sabem-lhe a gelado de baunilha e banana. Julgo que na sua barriga há um portal quântico para baunilha e banana porque mil quilos que comesse evaporariam em minutos. Pena que o lixo não seja todo de baunilha e banana, porque o Crisóstomo haveria de devorar sem esforço o resto de nosso consumo. O horror de tralha que atiramos à rua a toda a hora. Em troca, apenas amor e sabedoria. Um olhar desarmante de quem sabe perfeitamente o que sentimos, o que pensamos, aquilo que ainda esperamos da vida.

(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)