Valter Hugo Mãe

O atelier de Paulo Neves


Rubrica "Cidadania Impura", de Valter Hugo Mãe.

Por um tempo, eu ouvia falar no atelier do Paulo Neves como sendo lugar de criação e amizade, onde havia sempre um começo de festa, um encontro fácil e bonito entre pessoas. Era a Isabel Lhano que tanto me falava. Da gentileza do Paulo e da maravilha do seu atelier, que se abria às pessoas de boa-fé.

Há uns poucos anos, levado pelo Agostinho Santos, visitei Cucujães, convidado para almoçar e tudo, com direito a comer uma omeleta, que adoro, cozinhada pelo Pedro Neves, irmão do Paulo, em jeito de chef para lá das estrelas Michelin. Naquela altura, era nova a cozinha e a mesa comprida. Os cães gigantes cheios de sono, o sossego, as esculturas como se entreolhando, e nós a sentar para o começo da festa, como dizia. Era mesmo bonito que um atelier pudesse preparar-se para ser lugar de convívio.

Para escrever, até o bulício da sombra me pode atrapalhar. Que o Sol mexa, ainda que lento, mudando os desenhos dos objectos projectados, distrai-me. O que significa que jamais poderia pensar na escrita de um livro com uma cozinha a funcionar, aberta à chegada de pessoas cheias de conversa e curiosidade. Assim, o que mais me impressiona ali é que a arte possa ser tão generosa com os outros, sem se esconder dos outros. Muito ao contrário. Convidando.

Tem que ver como espírito do Paulo Neves, claro. Que não conspira em mistério. Ele trabalha pela luz, de modo franco, sem competição. A sua obra acontece por maior e maior depuração, não quer ser senão sincera, e abdica de qualquer agressão. Alguns artistas são-no por cidadania. Quero dizer, sua arte progride à medida da qualidade humana, do cuidado com os demais, da alegria pelos demais.

Há dias pude voltar a almoçar no atelier do Paulo Neves. Os cães gigantes cheios de sono, as esculturas como entreolhando-se, sentados para o começo da festa, e a impressão de que, como a Isabel Lhano dizia, em algumas pessoas a vida estava certa, mesmo que tantas vezes elas não saibam, não acreditem.

Penso agora que, quando tantos de nós nos deparamos com as esculturas do Paulo, que estão em tantos lugares nos quais passamos, elas são mais do que obras de arte a cuidar do espaço comum. São, na verdade, sentinelas de uma dignidade bastante mais profunda. Testemunhas de que podemos ser todos bastante mais humanos. Bastante mais poderosos nisso de valermos uns aos outros.

(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)