Margarida Rebelo Pinto

Entrar em órbita


Rubrica "A vida como ela é", de Margarida Rebelo Pinto.

A realidade virtual trouxe novos comportamentos ao xadrez dos relacionamentos: depois do ghosting e do sexting, o que está agora na moda é o orbiting. Gostava que existissem vocábulos correspondentes na bela língua de Camões, mas a invasão do virtual também trouxe consigo a invasão linguística. Vamos por partes: ghosting consiste em desaparecer sem dar explicações. É o clássico “vou ali comprar cigarros” e nunca mais voltar. Não vale a pena alongar o tema com explicações do foro psicológico ou justificações para o que é injustificável. Quando alguém decide desaparecer da nossa vida sem nada dizer revela não ter caráter e, como tal, não merece nem a nossa atenção, nem o nosso tempo. A não ser que tenha sofrido um acidente fatal, desaparecer não é aceitável. Quanto ao sexting, o neologismo é autoexplicativo. Afirma quem o pratica que é divertido e excitante, não vejo como nem porquê, embora entenda que possa trazer cor e alegria aos corações mais tímidos e inseguros.

Se o ghosting é sinal de falta de valores e de caráter, o orbiting também não abona em favor de quem o pratica. Consiste em ir dando sinais de vida, vendo as stories do Instagram e assinalando-as com corações e foguinhos aqui e ali, sem, no entanto, entabular qualquer diálogo. Estes seres orbitantes vivem no éter e raramente se materializam. Por vezes, são os mesmos que em tempos passados praticaram o supramencionado ghosting, qual fénix que renasce inexplicavelmente das cinzas depois de toda a poeira ter voado.

Ora nada disto teria importância se as pessoas que têm redes sociais não atribuíssem qualquer significado ao que nestas ocorre, o que é quase impossível para quem gosta de surfar no Facebook ou no Instagram algumas vezes por dia, no intervalo do café da manhã, na fila do trânsito do regresso a casa ou no tédio inevitável de um serão solitário em casa. A verdade é que as coisas por si não têm significado, apenas ganham o significado que lhe dermos na nossa cabeça. E a nossa cabeça está cada vez mais inundada pela realidade virtual. Um ser orbitante não é nosso amigo, não gosta de nós, não quer o nosso bem. Não estará ao nosso lado no hospital se deslocarmos um ombro nem irá de madrugada a uma farmácia de serviço comprar analgésicos para diminuir as nossas dores. Quem não está próximo, acessível e disponível no mundo real, não precisa do mundo virtual para mostrar o seu interesse. E quem só está no mundo virtual, não está em lado nenhum. Ao éter o que é do éter, à realidade o que lhe pertence. Seríamos todos mais felizes se trocássemos mensagens escritas por telefonemas a viva voz, ou por encontros a quatro olhos. Às vezes basta um café, meia hora de conversa e um abraço sentido para mudar o nosso dia ou o dia de alguém que é importante para nós. Quanto aos seres orbitantes, deviam de ser ignorados dada a sua imaterialidade. Para satélite já basta a Lua, que influencia as marés, os humores e o nascimento dos bebés.